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  • Pablo Capistrano
  • 15 de maio de 2012, as 5h05

 

Não sei você, amigo velho, mas eu dei uma olhada nas fotos roubadas de Carolina Dickemann, que foram jogadas na rede essa semana. Mas não olhei apenas porque Carolina é linda (uma evidência); por ela ser famosa (um fato) ou de ela ser uma boa atriz (uma probabilidade).

 

Apenas esses indícios não explicam a histeria viral em torno das fotos de Carolina na rede.

 

Com tantas mulheres nuas pela internet, com tanto sexo e tanta pornografia amadora, para todos os gostos, todas as taras, todas as práticas e

narrativas sexuais  disseminadas pela fantasia humana, o que poderia produzir a exposição de mais um corpo feminino no mundo do voyeurismo virtual?

 

O que moveu o Brasil em sua busca pelas fotos roubadas de Carolina foi a saudade.

 

Uma longa e sufocada saudade. Uma estranha e recalcada nostalgia da verdade que, de vez em quando, desponta como um aviso, uma lembrança, um sintoma, nesses tempos de alienação e exclusão. Nessa era em que apenas um simulacro do mundo nos é facultado.

 

A verdade sobre o corpo da atriz; a verdade sobre a alma da mulher que se prepara todo dia para ser vista pelo mundo. A verdade que parece ter abandonado um horizonte cheio de realidades paralelas que, de tão simuladas, de tão projetadas na tela de nossas ideias, de tão brilhantes, coloridas, proporcionais e higiênicas, não são mais sentidas.

 

Emanuel Lévinas, o filósofo judeu acusado pela esquerda pós-moderna de ser mais um sexista reacionário , dizia que toda  conquista sexual masculina é fadada ao fracasso. Nunca, nenhum homem, em nenhum momento da história, reteve o feminino que ama esconder-se pelo corpo e pela alma da mulher. Por mais que o homem tente submeter sexualmente uma mulher, ele nunca, na leitura de Lévinas, vai atingir o centro de seu próprio desejo. Porque o feminino absoluto que o homem deseja se esconde quando o buscamos, e só se mostra, quando distraídos, pensamos que não o temos mais.

 

Mas, se isso era assim no tempo do mundo (o desejo louco pelo corpo do outro, pela verdade da carne) nesses tempos virtuais, se soma a náusea sem fim que a pornografia em rede causa àqueles que já superaram a fase do onanismo militante.

 

São tantas imagens de corpos, amigo velho, tantas damas preparadas pelo cosmético eletrônico, tantos rostos se contorcendo de um prazer abstrato e fantasmagórico, que não há mais espaço para a irregularidade da vida, para o cheiro biológico do sexo alheio, para a tessitura do toque feminino que nenhum computador consegue reproduzir.

 

Por isso, é preciso simular o acaso, apostar no amadorismo, torcer para que as fotos da atriz não tenham sido projetadas para as redes, para as realidades virtuais do grande cérebro coletivo que nos pensa e nos rapta em seus fragmentos fluidificados.

 

Sim… queremos Carolina.

Mas não a Carolina da tela da TV, a Carolina da foto do estúdio, a Carolina do Facebook, do twitter. Precisamos de alguma verdade sobre o corpo daquela mulher. Alguma verdade que nos traga de volta a fascinação fundamental por aquilo que ama se esconder, que não se reduz a uma imagem, que não se submete a um signo, que não se traveste em uma ideia. que escapa da fantasia monstruosa feita de retalhos que as vezes a Internet parece ter se transformado.

 

Nessa época de simulacros, aspiramos por aquilo que nunca se reduz, nem se entrega; por aquilo que foge quando olhamos; que dissuade quando tentamos reter. Se existem bilhões da Carolinas reais, em suas teias virtuais, construídas pelo esforço fragmentário da grande maquinaria da mente computacional; Carolinas que se duplicam em velocidade viral, que são vistas pelo intermediário frio de nossa neblina de signos, o que nos sobra é só esse desejo por um pedaço de verdade que nos ajude a escapar desse resíduo de real que se tornou a vida.

 

Nessa rede de imagens descoladas e de fantasias semióticas, queremos a verdade, mesmo que seja estranho; mesmo que seja bizarro, bizarro.

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  • Pablo Capistrano
  • 10 de maio de 2012, as 16h16

Amigos , o jornalista, prosador e poeta baiano Antonio Nahud Júnior vai lançar o livro PEQUENAS HISTÓRIAS DO DELÃRIO PECULIAR HUMANO (Editora Nação Potiguar, 154 págs. ) aqui em Natal.

Vai ser no dia 17 de maio, às 19h, no Nalva Melo Salão Café, na Ribeira, entre performances artísticas de Cláudia Magalhães e Henrique Fontes, ao som de jazz e com uma exposição fotográfica inspirada na obra do pintor Francis Bacon.

Não dá pra ficar em casa.

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  • Pablo Capistrano
  • 08 de maio de 2012, as 3h03

Nas sociedades tradicionais se buscava um valor transcendente para justificar a manutenção dos governantes em seus postos. Podia ser a vontade de Deus, ou mesmo a ordem natural das coisas que sustentava o rei no trono. A modernidade lançou nosso mundo em uma imanência desconcertante, que nos obrigou a reinventar a transcendência, principalmente, quando o negócio é a manutenção de grupos no poder. Substituímos Deus pela chamada “vontade geral†expressa pelas urnas; o grande oráculo que valida e justifica as estruturas de poder de nossa civilização liberal. Quer seja na distante França de Nicolas Sarkozy ou na gloriosa Mossoró, capital do Oeste potiguar, as urnas, nesses anos de democracia eleitoral, mais justificam o poder do que o provocam.

 

 

Por isso que a disputa entre os apoiadores e os opositores de Rosalba Ciarlini, na frente de batalha das redes sociais, abre algumas questões interessantes. Serão em algum momento os TTs do twitter nosso próximo grande oráculo transcendente, que justificará e validará a permanência de um governante no poder? Nesses tempos de rede global as velhas instituições da democracia moderna, pensadas pelos filósofos das luzes na aurora da modernidade entre os séculos XVII e XVIII, não servem mais para justificar o sistema. Mas, há alguma coisa para se pôr no lugar?

 

 

Lembro, amigo velho, do silêncio que tomou conta das ruas de Natal quando foi anunciado a vitória da Rosalba em 2010. Contrastando com a festa que deve ter tomado conta do oeste naquele dia. Eu, como um péssimo vaticinador político que sou, havia feito a precisão que a campanha de 2010 iria trazer à tona a demanda regionalista reprimida na sociedade potiguar. O fato de, pela primeira vez em muitas décadas, uma liderança rosada ter “cruzado o limite geográfico do vale do Açu†para se projetar sobre os currais das famílias seridoenses e do agreste potiguar poderia trazer à superfície todo o tipo de divisão psicossocial que separa o Leste e Oeste em nosso estado.

 

 

Isso não ocorreu. O grupo do marketing político de Rosalba foi muito habilidoso em descolar a imagem que ela forjou para si mesma quando foi eleita e reeleita prefeita de Mossoró. No Oeste, Rosalba conseguiu construir uma identificação tão intensa com a sua cidade que, em certas eleições, votar na oposição em Mossoró era quase como tentar explodir uma bomba no altar da Matriz de Santa Luiza.

 

 

Sua imagem eleitoral saltou para o resto do estado na medida em que ela conseguia, por um lado, vender a ideia de sua grande administração em Mossoró, sem permitir que os resíduos de mossoroísmo pudessem afetar sua votação em outras regiões do estado.

 

 

O que parece que está ocorrendo agora é justamente a desconstrução desse esforço político. Mossoró subitamente veio à pauta da política potiguar e a luta das tags que envolveu todo o estado e nos projetou para glória instantânea dos TTs mundiais parece mais um sintoma de que a eleição municipal de Mossoró determina a agenda eleitoral potiguar. Repentinamente Natal, massacrada em seu orgulho de capital pela falência de sua própria administração municipal, esgotada em suas lideranças políticas, afundada em um caos urbano e em uma crise de identidade movida pelo crescimento vertiginoso das últimas décadas, tivesse acordado e percebido que havia perdido o governo do estado para Mossoró. Que tipo de efeito isso pode provocar nas eleições de nossa pequena paroquia na esquina do Brasil?

 

 

Não tenho respostas para isso; amigo velho. Apenas a história nos ensina sobre os desvios da política. O resto é aposta. Só lembro que um conhecido com raízes no Seridó me disse uma vez (com um certo despeito pelas minhas origens oestanas e pelas minhas memorias afetivas de antigos veraneios em Tibaú) que Mossoró era uma ilha.

 

 

Talvez ele esteja certo. É possível, amigo velho, que Mossoró seja mesmo apenas um pedaço de terra cercado de Rio Grande do Norte por todos os lados.  Esse isolamento auto imposto, que para muitos é prova de resistência e autenticidade; que para outros é sintoma de simples provincianismo, tem a capacidade de, nesses tempos de democracia em rede e descrença institucional generalizada, projetar governadores com a mesma falta de cerimônia que pode vir a isolá-lo no bunker de sua própria identidade política.

 

 

Só não se esqueça, amigo velho, que quando a política morre, a cultura se torna a grande ferramenta de transcendência que tanto derruba quanto mantém os gerentes do poder.

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  • Pablo Capistrano
  • 07 de maio de 2012, as 4h04

 

MECÃO ETERNA PAIXÃO

CAMPEÃO ESTADUAL

2012

Saudações alvi rubras e uma boa semana para todo mundo!

 

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  • Pablo Capistrano
  • 29 de abril de 2012, as 7h07

Dizem que há uma diferença fundamental entre o pai tradicional e o pós-moderno. No primeiro caso quando o filho está remanchando para ir à casa da vovó, o pai ameaçadoramente vocifera: “você vai para a casa da sua avó sem reclamar! Aqui é assim, quem manda sou eu!â€. O pai pós-moderno, de modo diferente diria: “Meu filho, você não precisa ir para a casa da sua avó. Você só vai se você quiser. Mas não se preocupe, vovó vai te amar mesmo que você nunca mais a vejaâ€. A grande diferença é que no primeiro caso o garoto é obrigado a ver a vovó, no segundo ele é obrigado a querer ver a vovó.

 

As constantes notícias sobre altos indicies de popularidade do governo Dilma são um pouco como essa estória. Parece que o consenso não quer que a gente apenas aceite o governo Dilma, é preciso amar o governo Dilma. É preciso que Dilma seja a grande unanimidade nacional em tempo de crise.

 

Nos últimos oito anos, quem observava a política com um pouco mais de distanciamento notou que Lula, após o mensalão, se tornou o candidato do consenso. A disputa e o confronto, que jogava as “forças progressistas†do PT e seus aliados, contra as “hostes conservadoras†demo-tucanas era mais um mecanismo de consolidação desse consenso. Quanto mais o resto da direita brasileira vociferava contra Lula, rotulando-o de analfabeto, alcoólatra, mafioso, chavista; mais o presidente metalúrgico se santificava, tomando para si o posto de mártir do povo brasileiro, imolado e humilhado pela turba fascista enquanto lutava bravamente pela inclusão social das classes desprivilegiadas.

 

O consenso atuou no governo Lula através da simulação de combate. Os demo-tucanos, por interesse ou estupidez, cumpriram bem sua função. A eles foi deixado papel de feroz algoz que reforçava a santidade de um presidente que, a despeito de seu carisma popular, se tornava mais e mais canônico na medida em que continuava sua heroica via crucis em nome do povo excluído.

 

Assim o consenso funcionou nos últimos anos, na medida em que o PT trocou a revolução pela inclusão das massas populares no maravilhoso mundo do consumo capitalista (grande trunfo social do governo do PT); referendando o sistema que um dia Prestes quis derrubar, consolidou-se a ideia de que não há nenhuma alternativa ao modelo econômico do capitalismo globalizado e de que Lula era seu melhor pastor.

 

Hoje, o consenso parece que atua de outra forma na construção do Governo Dilma. Não há mais disputa, nem a desconfortável sensação ideológica de que o PT é de esquerda e que o que sobrou da oposição no país é seu oposto complementar na luta dialética pelo controle das forças produtivas e pelo coração das massas populares.

 

Dilma é a governante da pós-politica que sacralizou o modelo de capitalismo com dominância financeira, criado a partir das crises dos anos setenta. Ela não é a grande mãe do povo, que luta contra os abutres fascistas para salvar a população da miséria e da exclusão. Ela é a gerente, a neutra tecnóloga, a eficiente administradora que vai tocar esse imenso negócio chamado Brasil pelos mares do capitalismo global nesse tempo de crise.

 

Se o consenso de Lula se deu no campo do confronto simulado, o consenso de Dilma parece se dar no campo de hegemonia metafísica que porá seu governo acima do bem e do mal da luta partidária. Desideologizada, transcendente, além e aquém de todo lamaçal da corrupção institucional, da pirataria bancária, dos vícios do sindicalismo extremista.  O grande sintoma da despolitização conceitual do governo Dilma está no fato de que, até hoje, a grande discussão pública em torno do seu governo se deu a partir de um fato linguístico: presidenta ou presidente, eis a questão? O que mais temos para discutir sobre ela?

 

Nada do que se discutiu publicamente nesse ano e meio parece dizer respeito diretamente a Dilma. Código Florestal, corrupção ministerial, fetos anencefálos, chachoeiras e spreads bancários, tudo está no entorno, a uma distância confortável de uma chefe de governo que não gosta de política e que não se contamina com ela.

 

A uma distância confortável da esquerda e da direita, Dilma é a nova rainha do império do centro, essa interessante força amorfa que domina o Brasil, travestida de um governismo militante, pronta para implantar as reformas estruturais no Estado brasileiro que nos deixarão tinindo para quando a próxima crise aportar por essas praias.

1 Comentário

2007 ® Pablo Capistrano

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