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  • Pablo Capistrano
  • 10 de março de 2010, as 19h19

não existe guerra nuclear regional. Bilhões podem morrer muito longe das zonas de confronto.

Em 1985, inspirados pelos trabalhos de Carl Sagan, a comunidade cientifica internacional mostrou que uma guerra atômica envolvendo EUA e URSS produziria um inverno nuclear capaz destruir a civilização. O mecanismo é simples: ogivas nucleares explodem em diversos lugares. Milhões de pessoas morrem diretamente pela força da explosão e da radiação.

 Uma nuvem de poeira escura se eleva para a atmosfera, resultado da incineração de milhares de toneladas de concreto, metal, produtos manufaturados e industriais que entopem as grandes cidades modernas.

Essa poeira com cheiro de morte vai ser depositada na estratosfera e acaba por reduzir a incidência de raios solares alterando a temperatura da terra e a absorção de energia pelas plantas. Com o tempo, as plantas morrem por carência de luz e os animais que comem as plantas morrem de fome. Com um pouco mais de tempo o sistema agrícola global se decompõem e bilhões e bilhões de seres humanos, mesmo os que vivem longe das áreas de conflito, morrem em decorrência da fome, das doenças e das guerras associadas.

Essa descrição sombria foi projetada nos últimos anos para um cenário de guerra localizada. Mesmo se não houver um conflito absoluto entre EUA (9 9000 ogivas nucleares) e Rússia (15 000 ogivas nucleares), um confronto localizado, entre a Israel e Irã, por exemplo, no qual pelo menos 50 ogivas com a potência de uma bomba de Hiroshima  fossem utilizadas, seria catastrófico. Simulações de computador com base em dados abastecidos por cientistas mostram que a nuvem de poeira nuclear poderia estacionar na estratosfera reduzindo a captação de luz por parte das plantas levando pelo menos à um Bilhão de mortes fora da zona de conflito. Não bastaria então a tragédia de 20 milhões de mortos pela destruição das cidades causadas pela explosão das bombas. Muitos sucumbiriam pelas consequências indiretas do desastre.

No mundo da geopolítica seguir a ideologia é uma escolha estúpida. Quando se trata de interesses de estados nacionais pouco importa se você é de esquerda ou de direita, o cálculo das relações passa por outra lógica, por uma matemática diferente, capaz de trucidar e moer a alma de qualquer idealista romântico.

Por isso não me contento em entender a atual discrepância envolvendo Brasil e EUA no que diz respeito a questão do programa nuclear do Irã apenas na afinidade ideológica. A matemática é mais sofisticada. Os movimentos norte americanos tem um sentido claro que levam inicialmente a um isolamento do regime iraniano a partir da costura de um consenso de apoios internacionais que envolve a Rússia e a China.

Isso porque o governo norte americano sabe que Israel não se dará ao luxo de aguardar que o Irã, que abastece o Hezbolah com foguetes no sul do Líbano e se alimenta da causa palestia para sustentar seu próprio regime teocrático, complete o serviço de construção de sua própria bomba atômica.

Por isso, a costura dos americanos é a de evitar que os iranianos consigam encontrar pontos de escape do isolamento internacional ao qual seu regime vai inevitavelmente ser levado. Mas e o Brasil, porque não cola na posição norte americana? Acredito que existe uma demanda interna e uma outra externa que levam o governo brasileiro a defender o diálogo com os iranianos.

Em um governo de um partido que um dia foi de esquerda é preciso resguardar algum traço de fidelidade, mesmo que falsa, às bases ideológicas que o constituíram. O governo Brasileiro mantem o discurso de independência diante dos EUA, fazendo o pantin de que retém ainda algo da velha esquerda tupiniquim, algo daquele ranço anti-americano que embalava as teorias conspiratórias e os sonhos libertários nos anos sessenta. Para o público externo, o Brasil acena com seu descolamento da política de Obama, para o público interno, especialmente para a militância, que é fundamental em época de campanha, acena para os velhos combates já esquecidos, no mundo da política real.

Só espero que ninguém esqueça que não existe guerra ligth e que em um mundo conectado como nosso, nenhum conflito nuclear é regional. A morte atômica afeta a todos, até aqueles que, como nós, se sentem longe demais das zonas de confronto.

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  • Pablo Capistrano
  • 22 de fevereiro de 2010, as 6h06

Domingo de carnaval fui até Baía Formosa, uma das últimas praias do Rio Grande do Norte, já perto da fronteira com a Paraíba. Minha intenção era encontrar um lugar mais ou menos calmo para tomar um banho de mar com as a crianças.

A maré estava cheia, os bares lotados, e a praia acossada por aquela procissão de idiotas com seus carros ouvindo a toda altura um misto bizarro de funk com axé e música sertaneja que a rapaziada daqui por algum motivo misterioso chama de Forró. Já na hora da saída, quando nos preparávamos para pegar a estrada de volta à Natal, vi um senhor de idade avançada. Estava sozinho, completamente embriagado, com a cara pintada de branco e com uma sombrinha daquelas de frevo, dançando pelo meio da rua, como se estivesse em uma viagem de ácido ou como se viesse ainda chapado, de um antigo ritual religioso em homenagem as potências naturais.

Lembrei imediatamente de Jaadiel, um amigo que é professor de filosofia em Santa Cruz. Quando eu perguntei: “E ai velho? Vai curtir o carnaval em Natal?†– ele me respondeu: “Curtir não, vou descansarâ€. Emendando quis saber se ele não estava pensando em “cair na fuzaca†em alguma praia do litoral norte ou sul e ele me respondeu: “No carnaval o natalense vai para a beira da praia, fica olhando o mar, tomando cerveja e comendo peixe frito. Ele faz no carnaval, aquilo que faz todo fim de semana, não tem diferençaâ€.

Pois é amigo velho, já fui a alguns carnavais nessa vida: Salvador, Recife e muitos pelas praias do litoral potiguar. Sempre que o carnaval se aproxima minha vontade é de buscar um paraíso entre as dunas e o mar, perto de algum coqueiral para me chapar com qualquer coisa enquanto ouço ao longe, levado pelo vento, os ruídos de alguma troça fantasmagórica com seus metais espectrais e sua percussão primitiva a me lembrar que em algum lugar das eras arcaicas ocorre uma grande festa.

Não adianta. O modo como o potiguar encara o carnaval é absolutamente diferente do modo como o pernambucano e o baiano encaram. Mesmo onde há alguma concentração de pessoas (Touros, Macau, Caicó, Pirangi, Redinha), mesmo nesses locais, o carnaval não é, no nosso estado, um fenômeno de massas.

Quem já foi na Avenida 7 perto do Campo Grande em Salvador, ou mesmo nas ladeiras de Olinda ou no Recife Antigo, quem assistiu um desfile de escola de samba na Marquês de Sapucaí, ou mesmo correu atrás dos blocos de rua do Rio, sabe que um carnaval é um fenômeno de dissolução do ego, uma experiência selvagem de ruptura com o nosso princípio de individuação. Nosso Eu desaparece na turba alucinada, no deleite da exuberância estética, junto ao álcool, a música tribal e o cheiro de sexo e suor que corre pelos corpos das multidões. Onde há carnaval há um delírio dionisíaco que atravessa o imaginário, expandindo os desejos, ampliando as possibilidades do corpo até a exaustão, transformando a linguagem e construindo uma conexão poderosa, como se uma imensa suruba telepática pusesse uns dentro dos outros (em todos os sentidos).

O potiguar, por mais que tente, não nasceu para esse tipo de coisa. Sua viagem é interna, seu devaneio é privado, sua loucura é particular. Nas casas de praia, nas barracas do litoral ou nos balneários na beira dos açudes, o potiguar enlouquece solitariamente, contemplativamente. As fuzacas e as fuleragens típicas do carnaval são experimentadas em família, ou em pequenas troças que só de muito longe lembram as incontestáveis multidões das metrópoles dominadas pela influência do rei louco.

Somos, especialmente em Natal, uma nação de sertanejos que moram diante do mar. Um povo que se esconde. Que passa o ano todo disfarçado. Em uma terra de marranos, tararius e quilombolas acostumados a camuflagem e ao esconderijo das identidades, os abismos sempre são profundos e estreitos. Até o nosso Carnatal (o momento Bahia do natalense) por mais que tente, não consegue se aproximar da força catártica do original (quem foi a Salvador sabe o que eu digo). Por isso eu adoro passar o carnaval no Rio Grande do Norte.

 Nós, os apolíneos, curtimos mesmo é essa inviolável solidão. Esse poderoso êxtase de reter nossa loucura. Esse devaneio de dissolver-se sem explodir. Aqui o carnaval acontece por dentro, na psicodélica e violenta troça de nossa imaginação.

7 Comentários
  • Pablo Capistrano
  • 03 de fevereiro de 2010, as 10h10
Infelizmente, a cada dia que passa parece que minha crença particular na falência dos partidos políticos mais e mais se fortalece. Partidos configurados do modo como temos hoje são instituições datadas que em algum momento da história tiveram seu papel, mas que não parecem representar mais as demandas urgentes das comunidades humanas. Talvez seja realmente preciso, para aqueles que ainda acreditam na política, encontrar uma forma de atuação que ultrapasse as grades institucionais e os mandatos eletivos e mergulhe no mundo social sem intermediários.

Natal, hoje, vivencia um exemplo clássico desse tipo de falência partidária. Assumindo a prefeitura com o epíteto de “primeira prefeita eleita pelo PV em uma capital brasileira†Micarla de Sousa protagonizou logo no primeiro ano de mandato uma desconcertante guinada política em direção aos braços do mercado imobiliário. Liberou as construções de espigões na Vila de Ponta Negra, no pé do morro do careca (um dos mais importantes patrimônios naturais da cidade) e acenou com a possibilidade (de acordo com o que foi indicado pelas manchetes de jornal) de liberar o imenso hotel da BRA na via costeira (obra embargada na gestão do ex-prefeito Carlos Eduardo Alves) .

Ora, se você não é de Natal ou nunca veio a nossa cidade é bom saber que essas duas obras foram objeto, na gestão passada, de uma intensa discussão pública que envolveu setores ligados as empresas de construção civil, ministério público, ambientalistas, urbanistas, empresários do setor de turismo e moradores da cidade de um modo geral. Curiosamente, é a prefeita do PV que apela hoje para argumentos técnicos e legalistas a fim de justificar a sua mudança de lado na luta pela construção de uma Natal ambientalmente sustentável.

Esse é o grande indício da absoluta fragilidade de uma legenda que se diz “verdeâ€, antenada com o movimento ambientalista internacional e que em tese deveria ocupar com seu conteúdo programático o vácuo deixado pelo antigo Partido Comunista. Não vou entrar no mérito do problema das construções, deixo isso para quem conhece os detalhes do processo. Eu queria apenas chamar atenção para esse desconcertante paradoxo da política contemporânea, essa estranha ambigüidade que vem travestida de uma amorfia ideológica que faz corar o mais cínico dos teóricos da democracia burguesa.

Pois é, amigo velho, quando uma prefeita verde abandona a luta ambientalista, quando seus secretários municipais passam a ser homenageados pelo setor imobiliário e apregoam mudanças no plano diretor para “ajustar†o crescimento da cidade ao irresistível apelo “eurotico†do fluxo de capitais, quando um gestor abandona o ideário que criou a legenda pela qual foi eleito em prol de um discurso que dilui o conceito de sustentabilidade transformando essa ideia em uma camuflagem retórica para as velhas práticas de degradação urbana que corroeram a qualidade de vida em capitais como Fortaleza, Recife ou Rio de Janeiro, quando isso acontece é porque essa ficção chamada partido político já deu o que tinha de dar.

Até agora, a gestão da primeira capital governada pelo PV anda muito pouco verde. Aliás, se há um tom de verde nessa gestão talvez seja o verde musgo, uma tintura que o manguezal das ideologias políticas rapidamente costuma a imprimir no corpo e na alma daqueles que ascendem ao poder. A propósito… alguém tem o telefone celular de Marina Silva?

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  • Pablo Capistrano
  • 01 de fevereiro de 2010, as 7h07

Quando as primeiras imagens do terremoto no Haiti chegaram à internet e às redes de TV, arcaicas reações humanas diante da morte e da dor começaram a pipocar mundo afora. Algumas imagens são realmente assustadoras. Outras desconcertantes e comoventes. Mas poucas imagens foram tão significativas quanto a do garoto haitiano que após passar oito dias soterrado, saiu de um buraco pelas mãos de bombeiros e abriu os braços em um misto poderoso de alegria e alívio.
Há um vitalismo profundo naquela imagem, como se a natureza desse um sinal de que, apesar de tudo, a vida se impõe. Se tragédias naturais, como a do Haiti em 2010 e a de Lisboa em 1755, põe a bondade absoluta de Deus, elemento tão caro à teologia cristã, em questão, imagens como a do menino haitiano parecem redimir a natureza de sua face sombria.
Quando Lisboa caiu em 1755, Voltaire aproveitou a oportunidade para atacar sem piedade a Teodiceia de Leibniz (argumento usado para atestar a bondade e a onipotência de Deus a despeito das tragédias da vida). Voltaire já havia ridicularizado Leibniz quando compôs seu personagem Doutor Pangloss no livro Cândido. Doutor Pangloss, um otimista incorrigível achava que esse era o melhor dos mundos possíveis, a despeito de todas as evidências contrárias.
Certamente Voltaire teria chafurdado em cima da carne seca por muitos anos se um outro filósofo de alta estirpe não tivesse entrado na discussão para mudar o foco do debate sobre as catástrofes naturais. Em 1756 Imannuel Kant publicou uma série de artigos em um jornal de sua cidade natal (Königsberg) e em uma publicação editada por Johann Heinrich Hartung. Nesses textos, Kant desvia o foco da discussão acerca dos terremotos. Não se trata agora de julgar Deus ou se perguntar pelos motivos morais do desastre. Ele escreveu: “(…) meu único propósito é aduzir razões físicas como matéria de conjectura (…)â€.

Kant não discutiu questões éticas, teológicas ou metafísicas. A natureza não merece esse tipo de especulação.
No fundo há certa concepção teológica subjacente na discussão de Kant. O que se insinua nesses textos é que não faz sentido imaginar que a onipotência de Deus não se subordine a necessidade natural. Ora, se Deus criou o mundo, não é coerente imaginar que Sua vontade deva se sobrepor as leis que Ele mesmo gerou. Seria uma desconcertante contradição, um vexatório indício de imperfeição se Deus resolvesse mudar as regras do seu próprio jogo na metade do segundo tempo.
Kant apontava para o fato de que não existe mal ou bem no que diz respeito aos fenômenos da natureza. Diante de um maremoto, um terremoto, um ciclone é irrelevante levantar questionamentos morais ou mesmo tentar extrair de um acontecimento específico reflexões sobre a bondade de Deus. A natureza não é boa ou má, ela simplesmente é. Seus fenômenos não são ações, mas conseqüências de regras e de mecanismos específicos.

O povo do Haiti, em sua desgraça, ensina a comunidade global que no mundo natural vida e morte partilham de um mesmo e único movimento contínuo que nos constitui e nos devora em um isonômico giro de tempo que nunca acaba. Não é uma questão de justiça, não é um problema mora. Não há culpa, castigo ou misericórdia. A natureza nos mata com a mesma mão que nos dá a vida e Deus, se for mesmo seu criador, não está aqui para mudar o curso de suas próprias leis no meio do caminho. Depois de Kant, Deus libertou-se das acusações morais dos homens, e nós, por outro lado, permanecemos sós diante desses acasos da vida, a que o gênero humano não pode escapar. Solitários mas absolutamente desimpedidos e livres para chorar a morte com a mesma intensidade que cantamos a vida.

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  • Pablo Capistrano
  • 25 de janeiro de 2010, as 4h04
O terremoto de 1755 produziu uma ampla discussão filosófica.

Muitos poemas e gravuras foram produzidos tentando retratar a tragédia de Lisboa

Por volta das 9:30 da manhã do dia primeiro de novembro de 1755 a terra tremeu em Lisboa. Não se sabe ao certo qual foi a magnitude do tremor, mas especula-se que tenha chegado a oito graus na escala Richter.

O fato é que uma imensa quantidade de gente, que estava assistindo a missa do dia de Todos os Santos nas igrejas, morreu esmagada. A cidade foi completamente destruída e uma boa parte da população, em pânico, refugiando-se nos bairros mais baixos devido aos inúmeros incêndios que se seguiram aos diversos tremores secundários, morreu tragada por um devastador tsunami que arrasou a foz do rio Tejo depois do terremoto.

O impacto do terremoto de Lisboa assolou a Europa. A repercussão da desgraça tornou-se objeto de inúmeros relatos sensacionalistas que eram publicados em grandes tiragens e lidos vorazmente pelo público atônito e temeroso. Uma grande quantidade de poemas surgiu após o desastre, geralmente cantando a antiga Lisboa, pacífica e ordeira. Falavam dos prenúncios da tragédia, descreviam o primeiro terremoto com imagens emocionais como a de crianças mortas agarradas aos braços das mães ou de pais caídos sobre os corpos dos filhos e por fim concluíam os versos com uma mensagem moralista e religiosa apelando para as tradicionais imagens cristãs do juízo final.

Alguns afirmam inclusive que o terremoto de 1755 marcou o início dos esforços científicos para a construção da moderna sismologia com o desenvolvimento das mais diversas e estranhas teorias sobre os tremores de terra, como a de raios e vapores subterrâneos. Mas foi na filosofia que o terremoto de Lisboa deixou as marcas mais profundas. A luta pela construção de uma teodiceia (um argumento que livre Deus da responsabilidade pelo mal e pelas desgraças naturais) havia tido grandes combatentes. O filósofo Leibniz em 1710 criou a ideia, ridicularizada por Voltaire, de que esse é o melhor dos mundos possíveis. Em 1733, um cara chamado Alexander Pope propôs a noção – expressa no aforismo What ever is, is right - de que qualquer coisa que exista é boa.

Todo esse esforço não parecia fazer sentido diante da catástrofe de Lisboa. Voltaire foi um dos que apontou que o terremoto de 1755 não havia destroçado apenas a capital lusitana, mas teria feito desmoronar toda uma visão de mundo que confiava cegamente na bondade de Deus. No seu Dicionário Filosófico ele escreveu: “Um pai que mata seus próprios filhos é um monstro… Se se imagina Deus tão bondoso e justo quanto um pai ou rei deveriam ser, não há mesmo qualquer justificação possível para Eleâ€.

Voltaire jogou baixo contra o cristianismo porque sabia que a questão do mal no mundo, desde a época dos Gnósticos era um problema constrangedor para os cristãos. O deus de justiça dos Judeus, que tem uma mão para castigar e outra para perdoar não é constrangido pelas catástrofes naturais, assim como o deus insondável e absoluto dos mulçumanos que não autoriza qualquer tipo de julgamento moral de suas ações por parte dos seus subordinados humanos. Mas o deus cristão é um deus de absoluta bondade e de absoluto perdão, um deus onipotente, que ama incondicionalmente seus filhos e se torna imediatamente objeto de julgamento por parte das vítimas das catástrofes naturais.

Um comerciante alemão que morava em Lisboa no dia da catástrofe apontou para a terrível ansiedade que tomou conta da população ao deparar-se com seus empregados estendidos de cara no chão implorando pela misericórdia de Deus. Imagens muito parecidas com a dos Haitianos a levantar as mãos para o céu diante da imagem do cristo crucificado na frente do que sobrou da catedral de Porto Príncipe a perguntar: “Por que, Bom Deus!?! Por que?â€. (Continua na próxima semana).

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2007 ® Pablo Capistrano

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