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  • Pablo Capistrano
  • 27 de julho de 2010, as 10h10

Pessoal, quem estiver pela SBPC ou adjacências dia 29 de Julho a pedida é confirir o lançamento do livro 80 Cult Movies Essenciais organizado pelo Nelson Marques, o Gianfranco Marchi e o Rodrigo Hammer.

Tem um texto meu sobre um dos meus cineastas prediletos: Werner Herzog.

vai ser na cooperativa universitária as 17:oo. – lá no centro de convivência da UFRN.

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  • Pablo Capistrano
  • 19 de julho de 2010, as 11h11

 

Acabou o circo da copa, mas os que se animam com os grandes festivais públicos não precisam se desesperar, o circo das eleições já está na rua. Nesse ano esse circo deve ter (ao menos aqui no RN) um componente interessante. Não sei se você percebeu, mas desde 1982 todos os governadores eleitos nesse estado têm ou tiveram em algum momento sua base política fincada na grande Natal. José Agripino foi prefeito da capital, assim como Garibaldi Alves e Wilma de Faria. Geraldo Melo nunca governou a cidade dos reis, mas teve sua base política fincada e formada no chão doce do vale do Ceará Mirim.

Se retomarmos a história do nosso estado no século que passou, desde o momento em que os últimos suspiros da oligarquia dos Albuquerque Maranhão foram registrados nas crônicas políticas da nação, apenas o Seridó conseguiu encampar uma linhagem política tão duradoura na esfera do poder estadual. Dinarte Mariz, José Augusto Bezerra de Medeiros, Juvenal Lamartine de Faria e até o cigano Aluísio Alves tiveram seu histórico político construído à Leste do vale do Açu.

Hoje, pela primeira vez, desde que Dix-sept Rosado morreu em um trágico acidente aéreo, um candidato que tem sua base construída na cidade de Mossoró, tem chances reais de chegar ao poder.

Algumas pessoas podem argumentar, com muita razão, que isso não é motivo de esperança, afinal oligarquia por oligarquia o RN continua seguindo sua sina, sem avançar para o nível da moralidade pública, ainda agarrado ao estágio de uma sociedade familiar, como os gregos dos tempos homéricos (diagnosticados por Hegel como vivendo um pouco acima das hordas no quadro da evolução política da humanidade). Também não é preciso ser um mestre em genealogia para retomar a linha que unem Rosados e Maias em uma Paraíba cristã nova, povoada de marranos descendentes de Ambrósio Vieira (Conforme cita Paulo Valadares em seu livro A Presença Oculta a partir do brilhante trabalho do professor Marcos Filgueira).

Por isso o único efeito realmente transformador em uma provável eleição de Rosalba seria geopolítico. Pela primeira vez em muitas décadas Mossoró poderia superar Natal como pólo protagonista de uma eleição no estado, e isso se daria, vale salientar, muito mais pela incapacidade de Natal, nessa eleição, projetar uma liderança de alcance estadual do que pelo brilho próprio da ex-prefeita de Mossoró.

Carlos Eduardo poderia ser naturalmente essa liderança que como ex-prefeito da capital potiguar, carregaria o estandarte da tradição que reza ser o palácio Felipe Camarão um estágio preparatório para a governadoria. Mas Carlos Eduardo fez uma aposta que não lhe rendeu frutos. Ele pensou ser possível afastar-se de Wilma, inviabilizar a projeção de Rogério Marinho e contar com o apoio do PT para se lançar candidato. A aposta de Carlos Eduardo foi corajosa, como corajosa foram muitas de suas posições no tempo em que era prefeito da capital. Mas ele não contava com o sentido pouco firme da história e com a fragilidade do sentimento de gratidão em tempos de disputa pelo poder. O mesmo PT que recebeu de presente a candidatura de Fátima Bezerra para prefeita de Natal depois que Carlos Eduardo (de dentro do PSB) deu sua sinuca de bico em Rogério e Wilma, o abandonou de forma desconcertante.

Hoje, Carlos Eduardo, o ex-prefeito de Natal, não conta com o apoio do wilmismo que o levou a prefeitura da capital e tem que lutar sozinho, como um dia Wilma lutou. Hoje, mais do que nunca, Mossoró, a terra da resistência à lampião pode realizar sua destinação mítica de se tornar também, ao menos por alguns anos, a capital política do Rio Grande Norte. Resta saber se o eleitor de Natal vai concordar com essa articulação.

“dá-me mazal, echa-me a La marâ€

 

2 Comentários
  • Pablo Capistrano
  • 12 de julho de 2010, as 12h12

Nelson Rodrigues costumava a repetir em suas crônicas que ainda manteria a sua fé na humanidade enquanto, ao lado de um cadáver estendido na rua, surgisse, misteriosa e solidariamente, uma vela para guardar o morto.

Essa solidariedade na morte tem significados muito profundos e costuma a ser um dos mais evidentes sinais de humanidade. Nelson comentava que sempre que alguém caia morto nas ruas do Rio de Janeiro, quer por atropelamento ou por outra pequena catástrofe privada, surgia um desconhecido com uma vela na mão para iluminar o passamento do defunto.
Esse sinal sempre indicou a reverência dos vivos em relação aos limites da morte.

Todas as culturas têm rituais de sacralização e de respeito pelos cadáveres e isso é sinal de que as fronteiras da temporalidade são percebidas pelas pessoas e que os grupos humanos, de um modo ou de outro, dão à vida um significado especial. A vela, ao lado do corpo dos atropelados no Rio dos anos de 1950, nos leva a tempos arcaicos como aqueles descritos por Homero na Ilíada.

Existem passagens comoventes na literatura ocidental que mostram o peso do respeito aos cadáveres nas culturas humanas. Príamo, rei de Tróia, humilhando-se aos pés de Aquiles (assassino de Heitor) para que este devolvesse o corpo do seu filho. Antígona desobedecendo ao édito de Creonte e enfrentando a morte para poder cumprir a regra de enterrar o corpo do irmão. O almirante ateniense (não me recordo agora seu nome) que, conforme a descrição de Tulcides na História da Guerra do Peloponeso, foi executado após não ter permitido aos inimigos espartanos recolherem os corpos de seus mortos.

O respeito pelo corpo do morto é uma marca de fronteira, um limite poderoso entre o mundo que nós conhecemos e o abismo de incerteza que se avizinha de cada um de nós quando a morte se faz presente. Para um indivíduo, cruzar essa fronteira pode ser sinal de loucura, mas, quando uma sociedade, uma tribo, um grupo humano, cruza a fronteira da morte e do respeito pelo corpo dos defuntos então o sinal é de uma inquietante decadência.

Há pouco tempo uma imagem chocou parte do Brasil: turistas batiam fotos de uma paisagem carioca e nem se incomodavam que um saco plástico contendo um cadáver aparecesse no enquadramento. Não havia vela perto do morto. Aquela solidariedade metafísica era apenas memória no quadro lírico dos velhos cronistas. Havia um saco plástico envolvendo o defunto, isolando sua imagem dos passantes que o confundiam com um monte de lixo.

È comum que em tempos de guerra ou de grandes mortandades naturais os cadáveres não sejam tratados dignamente, mas em tempos de paz e de estabilidade ambiental o que justificaria um desprezo tão evidente pelos corpos dos mortos?
Nossa cultura cruzou algumas fronteiras nesses últimos séculos. Mergulhamos na estrutura profunda das forças da matéria e desempacotamos as energias ocultas da terra. Armazenamos, direcionamos, processamos e instrumentalizamos essas energias e os mistérios antigos dos velhos deuses se calaram lentamente. Hoje, até aqueles que se dizem crentes transformam Deus em um corretor de automóveis importados e estão boiando nesse vazio ontológico.

É difícil encontrar significado na morte porque não temos mais aquela força poética para emprestar algum tipo de significado para a vida. Um cadáver é só um punhado de carne em decomposição por isso pode ser esquartejado, desossado, jogado aos cães, concretado embaixo de algum piso, queimado ou embalado em plástico e deixado junto com o lixo em alguma paisagem de uma grande cidade. O caso do goleiro Bruno é sintomático desse estado de displicência para com os significados da nossa própria humanidade.

O mais terrível nessa história sinistra é que ela não é um caso isolado. Parece que está passando o momento de reaprender as lições dos antigos para que vida e morte não continuem a se dissolver nesse balé sinistro de um tempo que está apagando os sinais de sua própria humanidade.

3 Comentários
  • Pablo Capistrano
  • 04 de julho de 2010, as 5h05

Não sou adepto de doutrinas polianescas, daquelas que justificam as misérias da vida com um discurso “poderia ter sido piorâ€. Também não acho, como o velho Leibniz, que este é o melhor dos mundos possíveis. Não precisei ler o Cândido de Voltaire para saber que, nesse mundo, nem sempre os justos são felizes e que muitas vezes os puros de coração são destroçados pelos canalhas. No entanto, tenho que admitir depois da eliminação do Brasil para a Holanda nas quartas de final dessa Copa: “poderia ter sido piorâ€.
Nós poderíamos ter ganhado essa copa! Sim, imagine o que aconteceria se o Brasil fosse campeão derrotando, por exemplo, a Espanha, ou a Alemanha!!

Conta-se nas crônicas do futebol que duas seleções foram responsáveis por um tipo de crime bastante conhecido no mundo da bola: “o futibocídioâ€. Em 1954, por exemplo, a maravilhosa seleção Puskas foi derrotada debaixo de chuva pelo futebol pragmático do alemão Fritz Walter. A Alemanha, aliás, que é a maior das futibocídas da história, uma espécie de serial killer do futebol arte, poderia ser vítima essa copa de seu próprio veneno. A Hungria de 1954, a Holanda de 1974, a França de Platini e Tiganá que encantou o mundo em 1982. Todas essas seleções foram vítimas do pragmatismo germânico, da mecânica de um jogo que parece com futebol e que surpreendentemente funciona. Nós, brasileiros, fomos vitimas de outro futebocida. Em 1982 fomos abatidos pela Itália de Paolo Rossi.

O catenaccio italiano, posto em prática em 2010 por uma cosmopolita Internazionale de Milão, e elevado a paradigma do futebol de resultados pelos obtusos da bola, foi, para nós, o grande carrasco do futebol brasileiro pós 1970. Os próprios italianos reconhecem seu estilo e assumem sua posição de carrascos do futebol arte. O escritor italiano Ignácio Taibo costumava a dizer: “o catenaccio é a antiliteraturaâ€. Jogando com um zagueiro na sobra, atrás de um muro de quatro homens plantados na defesa, o estilo futibocida dos italianos se baseava na ideia de que um time precisa jogar sem a bola, marcando e reduzindo os espaços do oponente de modo a, em um vacilo, roubar a pelota e ligar um contra ataque rápido através de lançamentos longos ou da velocidade de seus laterais.

Qualquer semelhança com o futebol da seleção de Dunga não é mera coincidência. O Brasil esse ano abdicou de algo que os Argentinos e os Espanhóis (até, de certo modo, os alemães de 2010!!!) sabem muito bem o que é. O futebol sul americano se firmou no mundo com um conceito oposto ao dos futebocidas europeus: manter a posse da bola, tocar, tocar, tocar, defender com a bola nos pés e atacar sempre. Assim o Brasil foi tri campeão mundial (podemos imaginar também que a copa de 2002 teve muitos momentos desse velho estilo de jogar), assim perdemos a copa de 1982 e 1986 e assim o Brasil se formou uma Seleção mítica.
Construímos nossa literatura futebolística com esse tipo de poesia que hoje outros times parecem tentar imitar. Imaginem o que aconteceria se encontrássemos um time na final, jogando desse modo, e fossemos campeões contra nosso próprio estilo de jogo?

Em um futebol globalizado, em que as seleções se tornam todas iguais, flutuando em uma mesma mediocridade criativa e em uma covardia futebolística fundamental o Brasil sempre foi o diferencial. Nós éramos isso, nós tínhamos essa característica, esse romantismo que se configurava magicamente em nossos pés em resultados.

Há uma falsa discussão no Brasil, que diz que só há duas soluções para o futebol brasileiro: perder jogando como em 1982 ou ganhar jogando como em 1994. Essa é uma discussão suicida. Esquecemos que podemos de novo ganhar como em 1970. Cristalizamos 1970. Sacralizamos tanto aquela Seleção que acreditamos piamente ser impossível repetir aquilo. Esse é o nosso erro, a nossa mais desconcertante ironia: não sabemos mais como imitar a nós mesmos. Se a Seleção de Dunga ganhasse iriam surgir vozes na imprensa dizendo “O nosso futebol é prosa, não é poesia†(parafraseando o técnico italiano Giovanni Trapattoni).

Me chame de porco multicuralista, eu não me importo. Ser patriota não é torcer pela Seleção brasileira, ser patriota é torcer pelo futebol que se joga no Brasil, uma marca de identidade que nos faz ser aquilo que nós somos e que de vez em quando amamos nos esquecer.

2 Comentários
  • Pablo Capistrano
  • 30 de junho de 2010, as 10h10

Pronto.

O Brasil passou para as quartas e agora a nação deve estar a caminho de seu delírio coletivo sazonal. Essa seleção nos leva a esses lugares estranhos. Em um jogo (como o contra Portugal) nos sentimos ofendidos, frustrados, com aquela sensação amarga de que estamos sendo enganados por um time sem vontade, sem criatividade, sem técnica, sem futebol. Em outro jogo (como o contra o Chile) os gols aparecem, a equipe mostra segurança, firmeza e o mundo parece que volta a sua ordem natural. Sentimos a previsibilidade das coisas, a estabilidade do cosmos, a constância tediosa dos fatos. Isso alivia nossa aflição em tempo de copa e a vida, junto com o humor do brasileiro, fica em alta.

Mas, bipolaridades à parte, é interessante pensar um pouco sobre esse mundial. As seleções africanas decepcionaram, jogando um futebol europeizado, abrindo mão de suas características fundamentais: a alegria e a habilidade de seus jogadores. È muito interessante comparar a seleção de Gana com a seleção de Camarões que chegou as quartas de final da copa de 1990. Se hoje os africanos são em sua maioria, jogadores de clubes europeus e se adaptaram de corpo e alma ao estilo do futebol força de nossos irmãos do norte, o time de Camarões de Roger Milá foi, em 1990, uma das poucas equipes que jogou alguma coisa parecida com futebol.

Em 2010 (como em 1990) a maioria das seleções européias parece perdida em meio a um amontoado de volantes de dois metros de altura e 110 kilos de músculos. Talvez por isso os times sul americanos estejam tão em alta nessas oitavas de Final (pela primeira vez, agora que o Paraguai acaba de bater a equipe do Japão nos pênaltis, haverão mais seleções sul americanas nas quartas de final do que européias). Das cinco seleções de nosso continente, quatro se classificaram em primeiro lugar em seus grupos. O Uruguai, Brasil e Paraguai jogando um futebol mais pragmático, mas com alguma lufada de criatividade aqui e acolá. A Argentina, jogando um futebol ofensivo em cima de seus talentos individuais.

Se o Brasil de Dunga é um time “italiano†que se firmou no contra ataque, a Argentina de Maradona parece um pouco com aqueles bons e velhos “brasis†de nossas nostalgias poéticas, baseado em certo caos tático, compensado pela habilidade e pela criatividade de seus jogadores. O Brasil não tem craques (Isso porque Kaká, com seu púbis ou seu quadril detonado – espero que ele não vá me acusar de preconceito religioso por causa disso – é apenas uma sombra do jogador que encantou o mundo no Milan). Se nossa Seleção ganhar essa copa será uma vitória germânica, italiana. Uma vitória da aplicação tática do grupo sobre as características individuais dos jogadores.

A Argentina, para o nosso desespero, parece ser o time que melhor representa a escola sul-americana de futebol. Isso, em uma copa vazia de genialidade e arte, faz muita diferença do ponto de vista da alegria de se assistir um jogo. Até a Holanda (a mais sul americana das seleções européias) conhecida por jogar um futebol bonito, ofensivo, está seguindo a mesma cartilha de Dunga nessa copa. Entrega a bola para o inimigo jogar, depois rouba a pelota na entrada da área e tome contra ataque. Um estilo que nos lembra o catenaccio italiano e que nos faz pensar que talvez o Brasil de Lúcio e a Holanda de Roben sejam mesmo a Argentina de 1986 e a Alemanha de 1974, disfarçados.

Não vou agourar a nossa querida Seleção porque não pretendo ser um “corta lombra†nessa época de delírios orgiaticos, de deslumbramentos etílicos e euforias patrióticas. O fato é que não há como negar, em tempo de copa, tem gente que torce pela Seleção e tem gente que torce pelo futebol. Infelizmente, nesse ano, esses dois tipos de torcedor estão em arquibancadas divergentes.

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2007 ® Pablo Capistrano

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