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  • Pablo Capistrano
  • 18 de outubro de 2018, as 7h07

 

Era de se esperar que isso fosse acontecer. Pela minha TL começam a desfilar uma série de depoimentos, reportagens, declarações e artigos que mostram que começamos a fazer a transição entre o discurso e ação. A violência estrutural que mantém o sistema de exclusão e opressão funcionando no Brasil cobra seu preço e depois que o mestre autorizou com seu discurso a violência redentora, que limparia as impurezas do Brasil, seus discípulos começam uma perigosa “passagem ao ato” com xingamentos, ameaças, violência física, armas apontadas, suásticas marcadas nos corpos de suas vítimas e facadas pelas costas.

 

Não adianta o candidato do PSL, em sua versão “bolsinho paz e amor” tentar diminuir a própria responsabilidade pela nuvem sinistra de violência que se anuncia. Seu gesto de campanha, fazendo sinal de tiro, mais até do que seu discurso de apologia a tortura e ao assassinato, atua como uma autorização direcionada à seus discípulos. A força simbólica desse ato de violência libera os conteúdos selvagens reprimidos pela moralidade pública e, em um contexto de descrença, medo e raiva, são como gasolina em um incêndio anunciado. Sim, os discípulos do mestre podem atirar. Mas contra quem eles atiram?

 

A julgar pelos depoimentos que começam a pipocar em nosso cotidiano, e pelos relatos que surgem das mais variadas fontes, o alvo estão definidos: mulheres (que parecem feministas), pessoas (que parecem homossexuais ou transgeneros), jovens (que parecem esquerdistas ou petistas), professores (que parecem doutrinadores comunistas), intelectuais e artistas (que parecem parasitas do dinheiro público financiados pelo Estado), negros e pobres (que parecem os bandidos que te assaltam na esquina).

 

Nesse sentido o direito de emitir o julgamento sobre o mal que precisa ser exterminado é transferido para “o soldado do capitão”, o discípulo do mestre, o adepto do messias que vai decidir, na rua, quem deve ser o alvo dos tiros que vão “salvar o Brasil”.

 

No futuro, quando os historiadores fizerem um apanhado desses anos conturbados, não poderão eximir muitos agentes da culpa pelo que se anuncia. A esquerda por suas falhas estratégicas, inconsistências programáticas e transigência com a corrupção; a centro direita pelo seu golpismo irresponsável, O poder Judiciário, que abriu mão da fidelidade aos princípios civilizatórios do direito moderno para patrocinar uma destruição do sistema político, rasgando sem nenhuma cerimônia o pacto constitucional de 1988. Também as redes de TV pela sua cantilena ideológica cotidiana, que entre imagens de canos de esgoto, de prisões cinematográficas, denuncias e delações lidas no horário nobre, enfiou goela abaixo do Brasil mantra ideológico de que “a culpa é do PT”, “a culpa é do PT”, “a culpa é do PT”…

 

No mesmo saco vão os liberais de fachada. Jornalistas, radialistas, intelectuais, acadêmicos e cientistas políticos que por má fé ou leniência jogam seu liberalismo de sovaco na cova rasa dos covardes. Sim… claro. Como não podemos esquecer dos cristãos de araque. Os hipócritas que vomitam o evangelho de um Jesus que mata, prende e esfola. Um Jesus que não acolhe, que exclui, que humilha e apedreja ao invés cobrir de amor aqueles que sofrem. Sempre que eu vejo um desses renascidos antenado com o discurso do falso messias do PSL, lembro da frase que diz: “o último cristão morreu na cruz” e fico imaginando em que bases hermenêuticas e teológicas esse povo se inspira para validar esse tipo de barbárie?

 

Em um país em transe, atravessamos esse segundo turno das eleições de 2018 sabendo que os monstros estão soltos e que a cadela do fascismo já deu cria nas ruas do Brasil.

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  • Pablo Capistrano
  • 26 de setembro de 2018, as 5h05

 

Parece sempre mais forte no Brasil a ideia hegeliana  de que os conteúdos não superados da história tendem a se repetir. Já tivemos Jânio, com suas vassouras; Collor o inesquecível “caçador de Marajás”, além do insuperável “pato amarelo da Fiesp” com sua ridícula dancinha anticorrupção. Agora, mais como tragédia do que como farsa, a história em seu usual percurso de bêbado, traz de volta os militares ao centro do debate político.

 

Tal qual em 1964 eles retornam de mãos dadas com a paranoia anticomunista e o surto moralista do caça aos corruptos, pautas que serviram de mote para todos os golpes que sacudiram o cenário nacional desde a década de 1930. A julgar pelas pesquisas mais recentes a animação nos quarteis deve estar em alta com a possibilidade da turma de Caxias ser recolocada no poder, dessa vez, através do voto direto. Mas, como toda disputa eleitoral tem seu teor de imponderabilidade, é preciso antes confirmar com os russos. Ou melhor, com o eleitor.

 

O fato é que, se o segundo turno entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro se consolidar, teremos provavelmente uma eleição plebiscitária em que os conteúdos de antipetismo e antibolsonarismo darão as cartas na definição do resultado do pleito. Em meio a tanto talvez, a única certeza é que essa será a eleição do não. O problema é saber: não a quê?

 

De fato, nem só de conteúdos afirmativos vivem os grandes projetos coletivos que guiam o destino dos povos. A negação, em muitos casos, é uma forma de afirmar a própria existência. Dizer não, em certos sentidos, é também dizer: eu existo, me recuso, não aceito, não me submeto. Negar é reagir, mas a reação, no campo político, pode também ativar o botão de autodestruição, em um bizarro balé onde, ao tentar eliminar o outro, a gente acaba destruindo o próprio tecido democrático.

 

É por isso que o termômetro que mede a febre coletiva dessa eleição será a da rejeição; e nesse quesito Bolsonaro parece imbatível. Desprezado especialmente pelas mulheres mais pobres, que enxergam, na sua retórica belicista uma ameaça a vida de seus filhos e netos (as grandes vítimas da violência coletiva que arrasa o pais com seus 60 mil mortos anuais), o ex-capitão do exército é rejeitado por aproximadamente 46% da população, um dado que pode ser fatal em uma campanha de tiro curto como é um segundo turno de uma eleição presidencial.

 

Mas o próprio Fernando Haddad, o mais tucano dos petistas (em quase todos os quesitos pessoais um antípoda de Bolsonaro), na medida em que herda os votos do lulismo também recebe a rejeição ao partido. O ex-ministro da educação, bacharel em direito e doutor em filosofia, acaba sendo rejeitado por aproximadamente 30% dos eleitores por motivos muito menos ligados a seus atributos pessoais do que pelo antipetismo visceral (uma das formas mais curiosas de transtorno político ideológico contemporâneo nesse Brasil que grita e baba).

 

Nessa brincadeira de “nãos” e “nuncas” o tal “centro” segue fazendo farinha e o caminho que o eleitor indica parece que será o da repetição da polarização que fez estrago nas reuniões de família aos Domingos e nos grupos de watts appdos amigos da escola no segundo turno de 2014, lembra?

 

Pois é, amigo velho, ainda estamos pagando um preço alto por aquela eleição que ainda não terminou. O acirramento da campanha de 2014 no segundo turno e o não reconhecimento do resultado por parte do grupo derrotado, que culminou na derrubada da presidente eleita, deixou marcas fundas na nação nos deu de presente esse ódio irracional que ameaça jogar uma democracia de pouco mais de 30 anos na sarjeta do autoritarismo.

 

Hoje, com a entrada dos agentes fardados na disputa, atuando em conjunto com alguns camaradas togados como um verdadeiro partido político, dispara o alarme de incêndio.  Em uma democracia que nunca teve tempo de crescer, num país acostumado a golpes de todo tipo, a impressão que a gente tem é de viver em um pesadelo, como se estivéssemos atados a uma eterna pulsão neurótica de repetição. Quando achávamos que já havíamos passado de fase no jogo civilizatório eis que aparecem mourões fardados falando em reescrever a constituição e ameaçando suspender a normalização do calendário eleitoral.

 

A grande tarefa agora, nesse Outubro que promete ser o mais tenso dos últimos anos, é de tentar encontrar algum “sim” em meio a tanto “não”. Numa campanha em que o ódio disputa com o medo, achar um lugar para esperança pode ser um ato de afirmação política fundamental.

 

E a esperança, nesses tempos sombrios rima com democracia, diversidade, respeito e liberdade, essa utopia que o sonho humano alimenta, mesmo que ninguém a explique, ainda que todo mundo a entenda.

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  • Pablo Capistrano
  • 12 de setembro de 2018, as 3h03

 

Uma semana após o atentado a faca sofrido pelo Deputado Jair Bolsonaro, a gente já sabe que o maluco que o esfaqueou ouvia a voz de Deus. Por isso, é preciso levar em consideração certos atenuantes, pois, como proclamava São Tomás de Aquino ainda no século XIII, a inimputabilidade penal  deve ser direcionada para três tipos de pessoas: as crianças, os loucos de todo gênero e aqueles dotados de uma espiritualidade superior (mesmo que não seja muito claro, na maioria das vezes, a diferença entre os sujeitos do segundo e do terceiro tipo).

 

Mesmo assim, teve quem sonhasse, espalhando fake newspelas redes sociais, em arrumar uma explicação político ideológica para a ação de Adélio Bispo de Oliveira. Acusado de petistapelos bolsonaristas empolgados com a possibilidade de colocar nas costas da esquerda a responsabilidade pela violência sofrida pelo seu mito particular, descobriu-se que o sujeito teria sido filiado ao Psolo que comprovaria sua suposta “esquerdopatia”.

 

A narrativa da violência política poderia até fazer sentido, afinal, já somam-se muitas as expressões desse tipo de fenômeno nesse ano de eleição que abriu com o assassinato covarde da vereadora Marielle Franco (ainda sem apuração concluída), manteve-se com tiros contra a caravana do presidente Lula e ameaça fechar com mais algumas manifestações de barbárie a julgar pelo alto grau de temperatura e pressão da campanha eleitoral. A impressão que temos, ao analisar o clima político no país é que, o brasileiro parece que se acostumou a dançar na beira do abismo, quer seja por infantilidade, loucura ou por estupidez mesmo.

 

O mais curioso é que, mesmo com toda comoção e a condenação generalizada que o atentado suscitou, o candidato do PSL não parece ter conseguido capitalizar um aumento significativo nas intenções de voto. Nem mesmo a piedade e comiseração cristã, bem brasileiras, que sempre transformam aqueles que sofrem, nas prisões ou nos hospitais, em santos martirizados, conseguiu diminuir a rejeição do ex-capitão.

 

Isso provavelmente se deve ao fato de a imagem de Bolsonaro já estar por demais ligada a violência para que seu esfaqueamento se torne uma ferramenta de capitalização política, afinal, um candidato que sugere que deveríamos metralhar opositores, que trata como herói gente que torturou mães na frente de filhos, e que ensina crianças a simular gestos de tiro não fica bem posando de vítima.

 

Bolsonaro paga politicamente pela banalização da violência que ele mesmo  naturaliza em seu discurso. No fim das contas, a única proposição mais ou menos clara que ele parece ter para a sociedade brasileira, pelo teor de suas falas e pelos gestos simbólicos de suas aparições públicas, é trocar a violência subjetiva que eclode aqui e ali em rompantes de criminalidade; pela violência sistêmica de uma normalidade mantida à bala, no melhor estilo Pinochet.

 

Como um “profissional da violência” a noção fundamental de seu discurso não é de uma “pacificação nacional” ou de um combate racional e técnico ao surto de criminalidade que acossa a população brasileira, mas sim uma fantasia escatológica de que esse surto de violência institucional seria a única ferramenta possível para manter o país sobre controle.

 

Mas o candidato esfaqueado não é um fenômeno isolado. O personagem que ele construiu e que vinha cultivando a décadas para sustentar sua carreira política de deputado federal com mais de sete mandatos, foi achado pelo complexo judiciário-militar que, em sua pretensão de destruir o sistema político, acabou ajudando significativamente a levar o ex-capitão do exército ao primeiro lugar nas pesquisas, ao mesmo tempo em que cuidava para que o nome do ex-presidente Lula fosse retirado do jogo eleitoral.

 

Nesse sentido, Bolsonaro é a expressão mais acabada do lavajatismo. No fim das contas ele é a consequência autoritária que emerge  da velha ideologia sanitarista que elegeu Jânio Quadros em 1960, que derrubou Jango em 1964, colocou Collor no Planalto em 1989 e apeou Dilma do poder em 2016.

 

A cantilena da moralidade, repetida à exaustão pela imprensa hegemônica, pelos agentes das castas togadas e pelo complexo policial-militar, não nos entregou mais democracia, mais pluralidade ou transparência. Do meio dos Moros, Bonners, Dallagnois e Barrosos a jogar lama na política e demonizar a democracia diariamente,  emergem do lodo da nossa história, autoritária e escravocrata, Bolsonaros e Mourões. Profissionais da violência que vendem a uma população apavorada o mito de um violência redentora, que cauterizaria o caos imaginário de nossas fantasias sociais em uma nova ordem feita de sangue e silêncio.

 

Não há como ler o significado de uma candidatura como a de Bolsonaro sem montarmos essa articulação que une lavajatismo e sua cruzada religiosa contra a política ao ressurgimento no palco da política da figura do general fardado que fala em “combater a anarquia”. A questão ideológica parece simples. Se não conseguem vencer pela força do voto, vão tentar decidir o campeonato no tapetão dos tribunais ou, como uma última alternativa, vencer a disputa política pela força da bala.

 

Por isso, por mais que a gente se indigne com a brutalidade do atentado contra um candidato a presidente que tem mais de 20% das intenções de voto, não há como ter pena Bolsonaro, afinal, se você quer dançar na beira do abismo não vá depois reclamar da altura da queda.

1 Comentário
  • Pablo Capistrano
  • 05 de setembro de 2018, as 5h05

 

Em 1999 eu viajei à Grécia. Era meu último ano no curso de filosofia da UFRN e queria conhecer in loco a terra em que Sócrates, Platão e Aristóteles teriam andado, mais de dois mil anos antes de meu nascimento. Lembro que, ao visitar a Acrópole, fomos, eu e minha esposa Ana Cláudia, a um pequeno museu perto do Paternon, templo da deusa Atena (ou o que sobrou dele após os turcos terem dinamitado boa parte da construção durante a guerra da independência grega no século XIX). Lá chegando identifiquei de imediato um grupo de brasileiros que estava, como eu, fazendo turismo pelas ruínas. Ao me aproximar, no intuito de trocar algumas palavras em um idioma conhecido, ouvi um sujeito de aproximadamente minha idade, com um forte sotaque paulistano, dizer em alto e bom som algo do tipo: “Não acredito que a gente pagou pra ver esse monte de pedra”.

 

A frase me doeu nos ouvidos. Foi suficiente para recursar qualquer tipo de interação com compatriotas até o fim da viagem.

 

Mesmo diante desse tipo muito usual de ferida turístico-narcísica, que muitas vezes nos acomete quando nos deparamos com outros brasileiros em viagens pelo exterior, não deveríamos cair em mitologias culturalistas redutoras diante da tragédia que transformou em cinza milhares de anos de história das Américas em pouco menos de quatro horas. Não deveríamos ser nós, “o povo brasileiro”, essa abstração ideológica, os culpados pela catástrofe que destruiu o Museu Histórico Nacional da Quinta da Boa Vista. Quando a memória de um país pega fogo, culpar todo mundo é a melhor forma de não responsabilizar ninguém.

 

Mesmo assim não há como negar que o brasileiro médio dá pouco valor a história e não entende que cultura e ciência fazem parte de um capital imaterial de valor incalculável.  Em um país em que proliferam doutrinas ideológicas do tipo “Escola sem partido” que tratam professores como bandidos, em que gente nas redes sociais pede o fim dos cursos de humanas nas universidades federais (supostamente antros de formação de “esquerdopatas”) ou que vibram com força diante do anúncio do desaparecimento de disciplinas como filosofia e sociologia dos currículos do ensino médio, parece fácil entender o porquê de um patrimônio incalculável como o Museu Nacional vinha sendo negligenciado a tanto tempo.

 

Desde 2014 o museu não recebia os 520 mil reais necessários para sua manutenção. Em 2015, com o corte de gastos e a adoção por parte do governo Dilma da agenda FIESP, que abriu alas para o austerícidio do governo Temer, o orçamento caiu para 257 mil. Em 2016 subiu um pouco para cair novamente em 2017 e desabar de modo vergonhoso para 54 mil liberados até agora em 2018.

 

Se fizemos um passeio pelos arquivos jornalísticos vamos ver que sobram reportagens sobre as más condições do museu, com mofo, goteiras, ameaça de desabamento e infiltrações pelo menos desde 1978.

 

Por isso, o que todos os governantes que já passaram um dia pelos palácios desse país deveriam fazer de honesto diante dessa tragédia anunciada seria pedir perdão ao povo brasileiro ajoelhados no milho, de preferência se autoflagelando com chicotes de prego.

 

Mas a santa iniciativa privada não fica por menos. Para a decepção dos adeptos da religião do mercado, que acreditam piamente na competência virtuosa do empresariado brasileiro, fica o gosto de barro na boca quando a gente descobre que entre 2010 e 2018 o Museu Nacional teve 06 projetos aprovados para a captação de recursos pela lei Rouanet no total de 17 milhões de reais mas que conseguiu receber recursos privados em apenas um desses projetos, captando aproximadamente 10% do montante proposto nos oito últimos anos.

 

Nenhuma empresa privada apoiou o Museu quando a direção tentou ampliar o acesso a seu acervo virtual ou quando tentou reabrir nove salas fechadas a mais de 15 anos. Também não teve empresário que se dispusesse a fornecer dinheiro para a recuperação do telhado do prédio ou a criação de um sistema novo de prevenção de incêndios. Diante de uma queda de 34% no volume de visitas entre 2013 e 2017 os gentis homens do capital tupiniquim talvez não acreditassem que relacionar suas marcas a um museu seria um negócio lucrativo.

 

O lado terrível e irônico disso tudo, é que o BNDES programou para esse ano a liberação de 21 milhões de reais para a reforma do museu.

 

O fogo chegou antes do dinheiro.

 

Dizem os cronistas antigos, que Heráclito, o grande pensador de Éfeso, teria escrito em pedra seu livro “Sobre a natureza” e afixado suas palavras nas paredes do templo da deusa Hécate. Mesmo assim, a pedra na qual seu livro estava escrito ruiu com o colapso do templo da deusa e tudo que resta de seu pensamento hoje são fragmentos citados por outros autores.

 

É a consciência dolorosa da impermanência de todas as coisas que faz o ser humano recolher as ruínas da história em pedras, vasos partidos, antigos manuscritos, ossos de animais fossilizados ou estatuas mutiladas. A busca de preservar essas ruínas não apenas é uma espécie de desobediência humana contra o tempo, mas também é uma forma de recuperar os traços de uma narrativa que nos compõe nossa experiência comum. Uma narrativa que explica a nossa origem, cria as impressões de um destino coletivo e lança as bases de um futuro possível.

 

Museus são como templos. Espaços de desobediência contra o efeito cauterizador da história que reduz toda memória, como em um imensa tempestade de fogo, às cinzas da silenciosa imobilidade do esquecimento.

 

Ver o Museu Nacional desaparecer no fogo da negligência queima a esperança de todos nós que labutamos diariamente com as humanidades, a ciência  e a cultura em um país onde esquecer parece ser uma obsessão nacional.

Por isso, vou confessar uma coisa, amigo velho, é muito difícil não desistir de um país como esse numa hora dessas.

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  • Pablo Capistrano
  • 26 de maio de 2018, as 6h06
Cronos devora seus filhos

Cronos devora seus filhos

 

 

 

Conta-se que, quando Nikita Krushchev pronunciou seu famoso discurso secreto durante o vigésimo congresso do PCURSS denunciando os crimes de Stálin, alguns delegados do partido chegaram a cometer suicídio, enquanto um outro tanto enfartava diante da revelação daquilo que todo mundo, ao menos na União Soviética, sabia, mas fingia não saber.

 

Como qualquer evento traumático, o terror stalinista é o obsceno por trás da experiência revolucionária de 1917. O terror dos expurgos foi o mecanismo excessivo que atuava nos bastidores e que mantinha o cenário político montado durante os períodos mais difíceis de consolidação do regime soviético. Ao ser exposto, esse mecanismo excessivo, “ob-sceno”, que se esconde por trás da cena da revolução,  produziu ao menos dois efeitos imediatos: por um lado criou a tarefa urgente, sempre incompleta, da esquerda enfrentar os conteúdos latentes que deram esteio as suas experiências totalitárias nos anos de 1930; por outro, ofereceu uma poderosa estratégia retórica, cercada por falacias históricas e ideológicas,  para que a direita pudesse esconder suas próprias misérias e lançar sobre as costas dos “totalitários” (sempre empurrados convenientemente para o campo adversário) a responsabilidade moral por toda desgraça e morte que marcou o século XX.

 

Até hoje, sempre que se fala sobre a revolução de 1917 ou se cita o nome de Karl Marx, aparece alguém para levantar histericamente uma quantidade de impropérios conceituais e um desfile pouco articulado de chavões sobre o totalitarismo aliado a listas e mais listas contendo números estratosféricos de mortos. Isso faz com que personagens como Thanos, Galactus ou Darth Vader pareçam diletantes incompetentes diante de um Stálin que matou “seiscentos zilhões de pessoas”. E tudo isso aqui mesmo, na terra, com os arcaicos métodos analógicos do século XX, sem nenhuma Estrela da Morte que pudesse sair por aí devorando planetas.

 

Essa estratégia de histeria retórica muitas vezes paralisa a esquerda, incapaz de assumir Stálin como um conteúdo latente. Nesse sentido, a tarefa de ultrapassar  psicanaliticamente o evento traumático do terror passa, de certo modo, por assumir a figura paterna de Stálin, para só assim, compreender o que há de insuficientemente radical no projeto emancipatório da esquerda que fez com que as esperanças democráticas da revolução descambassem em um modelo autoritário.

 

Mas assumir a figura de Stálin, como um pai terrível,  apesar de necessário, não é suficiente. É preciso também marcar a diferença do terror stalinista para com o terror nazista, sem que isso implique nenhum tipo de autoindulgência.

 

Na verdade, o mais curioso é que quem melhor apontou para a grande distinção estrutural entre hitlerismo e stalinismo foi justamente um nazista de carteirinha. Em sua famosa e constrangedora entrevista para a revista Der Spiegel,  em 23 de Setembro de 1966 e publicada em 1976, intitulada “Agora só um deus pode nos salvar”, o filósofo Martin Heidegger comparou as câmaras de gás, nos campos de extermínio nazistas, com a moderna agricultura mecanizada.

 

A comparação foi tão infeliz e embaraçosa para a consciência padrão liberal, que até hoje é assunto nas rodas de fofocas acadêmicas. Mas, antes de ser infeliz, a comparação foi mesmo profundamente equivocada. A comparação com a agricultura mecanizada não se adequa de modo algum aos campos de extermínio nazistas: espaços de uma negatividade radical, ambientes rigidamente administrados por uma técnica de execução em massa cujo fundamento era profundamente niilista e pré-moderno. A despeito de ser, como a mecanização agrícola e a grande indústria, uma expressão da razão técnica, do “dispositivo técnico” (como dizia Heidegger), a fábrica nazista não fabricava nada. Ou melhor, fabricava “o nada” do extermínio total.

 

A metáfora de Heidegger na verdade deveria ser dirigida aos Gulags stalinistas onde a lógica da mobilização total em busca de uma produção absoluta reduzia seres humanos à espectros fantasmagóricos desprovidos de energia vital. A narrativa stalinista apresentava os Gulags como campos de trabalho e resistência heroica contra o fascismo, marcando uma visão produtivista e modernista que difere em muito da mitologia escatológica da “solução final para o problema judeu” e do “crepúsculo dos deuses” e sua guerra total, radical e definitiva dos nacionais socialistas.

 

Se o nazismo tinha como objetivo fundamental o extermínio físico puro e simples e a limpeza étnica como elemento de produção de um espaço vital para o povo alemão, os Gulags stalinistas buscavam a mobilização total, absoluta, das forças produtivas de modo a consolidar o esforço stalinista de industrialização em um ambiente paranoico de “cerco capitalista”.

 

Mesmo durante o período mais selvagem do terror de Stálin, a época dos grandes expurgos de Moscou entre 1937 e 1939, os dados mais fieis, indicam a execução de 680 mil pessoas, em sua grande parte, membros do partido comunista. A maioria dessas pessoas foram executadas ainda na prisão, antes mesmo de serem enviadas aos Gulags, onde, no mesmo período, 1,3 milhões de pessoas foram encarceradas (mais ou menos a população carcerária dos EUA pós era Reagan). Dessa população, mais da metade condenadas por crimes comuns e cerca de 44% por crimes “contra revolucionários”.

 

No cálculo de mortos muita gente comete, em função de suas preferências ideológicas,  a desonestidade intelectual de colocar na conta do comunismo (como pura abstração conceitual) não apenas as execuções realizadas durante os expurgos de Moscou ou as mortes nos Gulags de Stlálin. Muitos acrescentam ao apurado da catástrofe as mortes da chamada “grande guerra patriótica” (como os russos denominam até hoje a segunda guerra mundial) e da guerra civil, mesmo sabendo que parte substancial  dessas mortes foi causada também pela fome, pelas epidemias, pelo desmantelamento econômico causado pela guerra e coletivizações; e que o esporte de executar gente era tão usual entre os “brancos” anti-comunistas quanto entre os “vermelhos” bolcheviques.

 

Essas distinções não tornam, obviamente, o terror stalinista menos obsceno, terrível e moralmente insustentável do que o extermínio nacional socialista. O efeito conceitual fundamental dessa distinção é o de aproximar a mobilização total do Gulag, que levou milhões à morte, da mobilização total da globalização capitalista. Desde a chegada de Colombo à América, passando pela conquista do México por Cortez no século XVI até o holocausto do Congo belga no século XIX, descrito de modo magistral por Joseph Conrrad, o sentido dos milhões de mortos e escravizados, resíduos humanos, baixas colaterais do horror de mercado, tem sob seu fundamento o mesmo núcleo ideológico estruturante que instituiu a experiência da modernidade.

 

A tragédia do colonialismo, da escravidão e do extermínio dos povos americanos obedece, como Heidegger sabia desde os anos de 1930, a uma dinâmica de razão instrumental de produção, de um dispositivo técnico que também gestou as bases ideológicas da mobilização total stalinista. Algo totalmente diverso do niilismo absoluto do extermínio nazista.

 

A questão é que nunca houve um “manifesto capitalista” que pudesse servir como atestado doutrinário de óbito das milhões de vítimas do processo de expansão colonial e de industrialização dos países ocidentais. Ninguém pôde ser facilmente responsabilizado pelo massacre do Congo, pela grande fome de Bengala ou pelos milhares de mortos pela falta de alimento que assolou as tribos das pradarias norte americanas quando o preço da pele de búfalo disparou no mercado internacional. É mais fácil responsabilizar objetivamente as figuras de Hitler e Stalin pelos massacres de seus regimes e como consequência estrair uma relação de causa e efeito para com as doutrinas políticas que dão fundamento ideológico a esses regimes. Para a direita, no caso do avanço da globalização capitalista, “as coisas simplesmente aconteceram assim” como se o horror econômico fosse um fenômeno natural, tal quais as monções na Ásia, os furacões do Caribe ou a seca do Nordeste.

 

O cinismo político de uma leitura desse tipo, vale salientar, é tão desconcertante quanto as tentativas de acusar “as mentiras da imprensa ocidental” pelo terror dos expurgos e Gulags.

 

De mãos dadas, caminham pela trilha do terror os irmãos siameses do iluminismo europeu em sua grande aventura da razão. Lado a lado, liberais e socialistas tem, com seus modelinhos teóricos, os dois pés fincados nas justificativas ideológicas que deram esteio a grande avalanche de mortes em massa que instituíram as bases da modernidade nos últimos 500 anos.

 

Bem longe deles, anda em caminhos heterodoxos o anacronismo nazista, com seu niilismo pré-moderno e sua escatologia ideológica de um crepúsculo dos povos e das raças em uma grande guerra que vitimaria deuses e homens com a mesma fúria de fogo e sangue.

 

O fato é que, a despeito dessas semelhanças de família que agrupam e afastam esses “ismos” doutrinários, há pelo menos uma particularidade notável na experiência stalinista do terror.

 

Quando Krushev pronunciou seu “discurso secreto”, em 1953, dos 139 membros efetivos do Comitê Central do Partido Comunista Soviético eleitos em 1934, às vésperas dos grandes expurgos, apenas 41 tinham sobrevivido.

 

Dos velhos bolcheviques que fizeram a revolução de 1917 e ganharam a guerra civil, poucos escaparam para ver a denuncia de Krushev contra Stálin exibir as feridas ocultas do regime.

 

Antes de mais nada, o terror bolchevique que eclodiu de modo mais intenso nos anos de 1930, foi uma espécie de automutilação coletiva. Um suicídio partidário que vitimou os mais próximos, os semelhantes, e não apenas os mais distantes, os “diferentes”, como no caso nazista.  Como uma repetição do terror jacobino da revolução francesa, os expurgos mais pareceram uma performance fatal. Uma encenação farsesca, uma repetição neurótica de um modelo anterior do jacobinismo francês, onde o acontecimento revolucionário, antes de mais nada, se volta com seus próprios produtores.

 

Tal qual Cronos, que assim como Stálin também assume uma das imagens arcaicas da figura paterna, em sua ansiedade de bloquear o tempo e congelar o potencial disruptivo da história, a revolução, com seus excessos obscenos, acabou, no tempo do terror, a devorar mais uma vez seus próprios filhos.

 

 

 

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2007 ® Pablo Capistrano

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