• Nosso Problema Com Cascudo

    A ideia de derrubar estátuas parece que chegou a Natal e a imagem de Cascudo no memorial que leva seu nome, na Cidade Alta, apareceu como candidata a degola. Mas […]

    Leia mais
  • Zeitgeist

      Sento em um presente que não me atravessa   desse silêncio que me sopra às costas escuto os cemitérios do futuro   depois de toda essa jornada, barqueiro, chegar […]

    Leia mais
  • deus palhaço

    deus é artesão trabalha com barro   sim eu sei ele morreu nós o matamos   mas sua sombra coloniza qualquer mundo que a gente tente construir   deus é […]

    Leia mais
  • As hienas de Seu Jair (papo de quinta)

    Existem duas hipóteses, que não são excludentes, para explicar o caos permanente em que o presidente  brasileiro e sua família mantém o governo e o país.     Depois de postar […]

    Leia mais
  • De Novo: O Chile (Papo de Domingo)

    Quando a barra pesou mesmo aqui pelo Brasil, depois do AI-5, era o Chile que parecia trazer esperança de que o cerco de chumbo na América Latina poderia ser enfrentado. […]

    Leia mais
  • Pablo Capistrano
  • 12 de junho de 2020, as 7h07

A ideia de derrubar estátuas parece que chegou a Natal e a imagem de Cascudo no memorial que leva seu nome, na Cidade Alta, apareceu como candidata a degola. Mas será que a moçada está apontando as baterias pra figura histórica certa? – Vai ai um fio.

 

 

 

  1. Inicialmente é preciso admitir: sim, Cascudo foi um integralista raiz. De primeira hora. Lá nos anos de 1930, ele foi um dos mais ativos colaboradores do jornal A Offensiva, porta-voz da ABI (Ação Integralista Brasileira)
  2. Lá publicou artigos sobre o Fascismo na Itália, Argentina, Turquia e Pérsia. E fez dois textos sobre o nazismo alemão: “O hitlerismo invade os Estados Unidos” e “O pretexto do armamentismo alemão”
  3. Segundo artigo de Durval Muniz de Albuquerque (quem quiser eu passo a referência) entre os autores mais citados por Cascudo, estava a fina flor do conservadorismo católico ibérico. Gente que serviu de base teórica para o regime de Franco e o de Salazar.
  4. Que eu saiba (pode ser que esteja errado) Cascudo nunca pediu desculpas pela sua adesão ao integralismo nos anos 30, nem parece ter se afastado de sua base conservadora, cheia de saudosismos monárquicos e de um espirito contra reformista de base ibérico-católica, que deu ensejo em Portugal e Espanha ao antissemitismo inquisitorial que levou a expulsão dos judeus da peninsula iberica e a perseguição aos “critãos novos”.
  5. A questão então é: esse dado político é razão necessária e suficiente para direcionarmos nosso ódio anticolonial e antirracista contra Cascudo.
  6. Para mim, guardadas as devidas proporções, essa é uma questão semelhante a que se põe sobre Heidegger na Alemanha.
  7. Heidegger, todo mundo sabe, foi um nazista safado. Nunca pediu desculpas, nunca se arrependeu e, depois da publicação de seus Cadernos Negros, o mundo descobriu escandalizado, que ele manteve-se realmente um nazista safado até a sua morte em 1976.
  8. Mesmo assim deveríamos deixar de ler Heidegger por causa disso?
  9. A resposta só pode ser dada se fizermos uma pergunta crítica: é possível extrair o núcleo nazista da obra de Heidegger fazendo um processo de desnazificação de seu pensamento? Se sim, o que sobraria seria relevante?
  10. A mesma questão pode-se colocar sobre o autor de Made In Africa e Meleagro. Se extrairmos o integralismo salazarista de Cascudo, o que sobra é significativo e relevante para a cultura e o pensamento brasileiro?
  11. Acredito que antes de derrubarmos suas estátuas e queimarmos seus livros precisaríamos fazer uma leitura hermenêutica filosoficamente forte de Cascudo a partir dessa questão. Algo que, com raríssimas exceções, nunca foi feito nessa taba de Poty, diga-se de passagem.
  12. Por isso, na minha opinião seria melhor por enquanto, focar nosso esforço iconoclasta em outros ídolos de ferro espalhados pela cidade, afinal, de velhos galinhas verdes a cultura potiguar está cheia.
  13. Como neto de Dona Adélia Aline de Paiva, uma bacurau raiz, que já carregava um pé de mamoeiro atrás do finado governador Aluízio Alves lá no pé da serra do Lima, na campanha de 60, poderia sugerir uma estátua que fica na entrada da Via Costeira ali em Ponta Negra, mas não vou legislar em causa própria. Prefiro deixar que o bom senso da nossa aldeia promova uma seleção mais consensual.
1 Comentário

20 jan

Zeitgeist

  • Pablo Capistrano
  • 20 de janeiro de 2020, as 5h05

 

Sento em um presente

que não me atravessa

 

desse silêncio que me sopra às costas

escuto os cemitérios do futuro

 

depois de toda essa jornada, barqueiro,

chegar nessa fronteira

onde abismos florescem

como brotos que explodem no verão

 

a benção de olhar o vazio

liberdade

e mesmo assim

a voz que mora em mim

continua

 

pra onde?

pra quê?

Por quê?

1 Comentário

07 nov

deus palhaço

  • Pablo Capistrano
  • 07 de novembro de 2019, as 13h13

deus é artesão

trabalha com barro

 

sim

eu sei

ele morreu

nós o matamos

 

mas sua sombra

coloniza

qualquer mundo

que a gente tente construir

 

deus é farmacêutico

cura a doença

no deserto de sentidos

da humanidade

 

mas usa seu veneno

pra incrementar o balé louco

das deformidades

 

 

deus é um palhaço

que ri sem motivo

da armadilha que caiu

ao ter nos criado

Comente
  • Pablo Capistrano
  • 31 de outubro de 2019, as 12h12

Existem duas hipóteses, que não são excludentes, para explicar o caos permanente em que o presidente  brasileiro e sua família mantém o governo e o país.

 

 

Depois de postar um vídeo em que se compara a um leão cercado de hienas e fazer uma live na internet em meio a um surto histérico, o Seu Jair vê o filho Eduardo ameaçar a nação com um “Novo AI 5” caso o povo resolva demonstrar qualquer tipo de descontentamento nas ruas, como ocorre no Chile, Equador, Haiti, Hong Kong e por ai vai…

 

 

A primeira hipótese é que esse comportamento, como indica o jornalista Gilberto Dimenstein e o jornal britânico Financial Times, seria o sinal de que o presidente tem algum tipo não diagnosticado de transtorno mental. Talvez, até quem sabe, uma esquizofrenia paranoide em estado latente.

 

 

A segunda hipótese, é que todo esse furdunço político permanente em que é posto o país pela família presidencial, seja apenas uma estratégia de sobrevivência política.

 

 

No que diz respeito a essa segunda hipótese, não há o que se esconder: a proposta do bolso-olavismo é mesmo a de um golpe que permita que a família do presidente governe o país do único modo que sabe (como toda gangue miliciana faz nos territórios que controla): com base na coerção, violência e terror.

 

 

Afinal, o presidente já demonstrou que não tem a mímina capacidade de governar um país de 200 milhões de pessoas em um ambiente democrático.

 

 

Caso a primeira hipótese (a do simples e puro transtorno mental) prevaleça, estaríamos, então, diante de uma figura clássica do tirano, como descreve Platão na República.

 

 

Isso fica evidente se deixarmos claro que, do ponto de vista da filosofia política ocidental, há uma diferença fundamental entre um ditador e um tirano.

 

 

O tirano, segundo Platão, não é simplesmente alguém que tenha poder de vida e morte sobre os cidadãos da cidade (como no caso de Cincinatus, o primeiro e mitológicoditactus romano). Um tirano é fundamentalmente alguém desequilibrado, que não tem condições de agir racionalmente e cede aos impulsos atávicos e irrascíveis que emanam das partes instintivas de sua própria alma perturbada.

 

Dessa maneira, o tirano age de modo a usar o poder que tem a partir de uma perspectiva de favorecimento pessoal, de si e dos seus, e leva sempre inexoravelmente a cidade que governa a um estado de decadência, desordem e, por fim, a guerra civil.

 

 

O tirano não se controla, não se contem, não se mantem lúcido. Ele age por impulso e só consegue sobreviver politicamente em meio ao caos e a desordem.

 

 

Um ditador é sempre um líder autoritário, mas nem sempre é um tirano. Ele pode ser  também um estadista que mantem uma certa racionalidade política e que tem convicções fortes sobre o que seria bom para todos, sendo capaz de manter alguma harmonia e coesão social, mesmo que pela força.

 

 

O tirano, mesmo que não tenha um poder absoluto, nunca consegue pensar como um estadista, agindo sempre  como um elemento de desordem, promovendo injustiça e caos no mundo da polis em função de seu próprio desequilíbrio psíquico.

 

 

Hitler, o sujeito que mais parece com Bolsonaro na história política moderna, ascendeu ao poder dando a impressão aos alemães que era um estadista, mesmo todos sabendo que era um ditador. No fim, mostrou-se um desequilibrado completo e conseguiu fazer, como bem observou Bertolt Brecht, com que a fina flor da burguesia berlinense, que o apoiou por medo dos comunistas, se prostituísse com os soldados russos e americanos, em troca de uma ou duas latas de salsichas.

 

 

Nesse ponto, Bolsonaro, ao contrário de Hitler, nunca enganou ninguém.

 

Tanto faz se foi por loucura ou estratégia, ele nunca escondeu de nenhum de seus eleitores sua alma de tirano.

 

Só não vê, quem não quer.

Comente
  • Pablo Capistrano
  • 27 de outubro de 2019, as 14h14

Quando a barra pesou mesmo aqui pelo Brasil, depois do AI-5, era o Chile que parecia trazer esperança de que o cerco de chumbo na América Latina poderia ser enfrentado.

 

Por isso, todo filho de militante de esquerda, como eu, lembra na infância dos Vinis da “Nova Canção Chilena” a rodar na vitrola. Victor Jara, Violeta Parra, Inti Ilinami. Aprendi esses nomes ainda menino junto com a memória do que havia acontecido na América Latina, nos anos que antecederam meu nascimento, em 1974.

 

Talvez por essa ligação afetiva e acústica com o castelhano falado na cordilheira que eu tenha me empolgado tanto e passado o fim de semana escutando rádios de Santiago, no aplicativo “Radio Garden” do meu celular, para entender melhor o que está acontecendo na terra do meu xará, Pablo Neruda.

 

Muita gente está tecendo comparações entre o Chile de 2019 e o Brasil de 2013 e dizendo: “Olha, cuidado! Veja o que aconteceu aqui. Depois das Jornadas de Junho veio a antipolítica de Bolsonaro. Essas manifestações são autoritárias. É um erro a esquerda apoiar etc e tal.”

 

Sobre esse “alerta” dos amigos liberais é importante pontuar algumas coisas:

 

 

  1. Realmente há algumas semelhanças entre o Chile de 2019 e o Brasil de 2013. Há registros de casos em que militantes com as bandeiras do partido comunista chileno, por exemplo, foram hostilizados por gente que assume o discurso do “povo sem partido”, que aqui no Brasil descambou para a proposta fascista de um “presidente sem partido”, no melhor estilo totalitário de direita.
  2. Apesar disso há uma distinção que me parece evidente: o discurso moralista difuso da anti corrupção, que colou por aqui e fez as viúvas de 64 saírem do armário para emplacar sua versão distópica do #UstraVive na eleição de 2018; não parece ser o elemento central da grande manifestação de sexta passada, que levou mais de um milhão de chilenos para as praças de Santiago.
  3. Pelo contrário. O que parece ter movido as massas no Chile, foi fundamentalmente uma reação a perspectiva de um fechamento ditatorial do regime, na medida em que o presidente Piñera fez a besteira de convocar o exército para barbarizar o povo na rua, matar manifestantes, estuprar, saquear lojas e justificar a implantação de um toque de recolher e um estado de exceção constitucional que evocava a ação de Pinochet no dia 11 de Setembro de 1973.
  4. A reação do sistema político também é totalmente diferente. Se aqui o sistema se fechou para impedir que as mudanças ocorressem, derrubando uma presidente eleita num golpeachement tabajara e mantendo um outro presidente em um grande acordo nacional, com o supremo e com tudo; no Chile, Piñera pediu perdão ao povo do Chile, demitiu todo o corpo ministerial, mandou recolher o exército de volta para os quartéis, e acena com uma ação legislativa que mudaria o modelo econômico neo liberal que vigora desde o governo Pinochet.
  5. Por fim, o condicionamento feito pela narrativa lavajateira contra a “classe política”, retirando do centro da pauta de 2013 o elemento econômico, talvez não seja tão fácil de emplacar no Chile. Lá o inimigo está bem determinado: é a privatização generalizada dos serviços públicos, especialmente da água e da saúde, e a situação de abandono que muitos idosos se encontram depois que a promessa das maravilhas da previdência privada deram com os burros n´água.

 

 

No fim das contas, não sabemos o que vai acontecer no Chile.

 

Usar o Brasil como um contra exemplo pra esvaziar o apoio ao povo chileno não parece ser estrategicamente aconselhável para uma esquerda nacional que coleciona derrotas nos últimos anos.

 

Além do mais, é sempre bom lembrar que Hegel afirmava que os conteúdos não superados da história tendem a retornar e que Marx completava jocosamente lembrando que eles primeiro ocorrem como tragédia para depois retornar como farsa.

 

Se no caso do atual governo militar brasileiro parece que é esse mesmo o caso, no caso do Chile, ainda é muito cedo pra jogar fora a esperança e já apostar de antemão na desilusão.

 

Deixei-mos a cada dia o seu mal.

Comente

2007 ® Pablo Capistrano

dz3