• Falsos Futuros, Falsas Dicotomias.

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  • Encosto de Estimação

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  • Precisamos conversar sobre a constituição.

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  • 2018: ensaio geral na avenida.

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  • Pablo Capistrano
  • 30 de maio de 2016, as 12h12
Foto de Gustavo Oliveira (Agência Democratize).

Foto de Gustavo Oliveira (Agência Democratize).

 

 

O futuro não é um lugar para se chegar. Ele se apresenta, como possibilidade, no horizonte do presente. É preciso estar disposto a enfrentar os riscos do presente para se construir saídas reais para as crises.

 

A saída para a crise que caímos depois que as jornadas de Junho foram violentamente reprimidas e ideologicamente desconstruídas pelo establishment nacional; não está posta. Não adianta olhar para os lados, levantar a tampa do imenso vaso sanitário da política nacional, ou mesmo sonhar com um justiceiro vingador com toga de juiz para colocar metade do país na cadeia e trazer de volta à cena uma ordem já decomposta pelas suas próprias inconsistências.

 

A saída para crise precisa ser inventada.

 

Os conservadores por acreditarem no modelo social hegemônico (defendendo a ilusão da existência de leis sociais universais e necessárias e de formas políticas puras) não vão conseguir cumprir essa tarefa. Eles são presas fáceis de um discurso de populismo criminal, que vende a ideia de que a fonte de toda corrupção se encontra não nas instituições, mas no desvio individual. Seguindo essa toada, a solução estaria na panaceia penal. O remédio universal da cadeia e do justiçamento público, que purgaria higienicamente o país de seus parasitas morais salvado as “instituições perfeitas” da democracia liberal de sua própria sujeira.

 

Os progressistas não seguem essa cantilena. Eles desconfiam do sistema, não acreditam que os indivíduos, por si só, sejam os responsáveis por toda a corrupção do modelo, porque sentem que o indivíduo não apenas molda o modelo como também é moldado por ele. Nessa outra toada, a tarefa do campo progressista é a de propor uma alternativa e não tentar manter o modelo anacrônico já posto.

 

Aí é onde mora o grande risco do atual momento político.

 

O fracasso moral dos governos petistas (independente dos avanços sociais e simbólicos das classes populares nos últimos anos etc e tal…) é o fracasso da crença do social liberalismo de terceira via, posta na “Carta aos brasileiros”. A ideia de que antes de mudar (ou mesmo reformar) o modelo político e econômico do país seria necessário negociar, transigir, interagir com um sistema corrompido sem perder a pureza. Essa ilusão acabou. Insistir nela, assumindo o discurso de uma “esquerda responsável” é patrocinar uma “eutanásia involuntária” no campo progressista.

 

O problema é que o campo progressista parece ter perdido a capacidade de propor à nação um modelo alternativo. Desempacotar a imaginação e o pensamento é um imperativo político para aqueles que não têm interesse em simplesmente engordar o cordão conservador do populismo penal e sepultar as conquistas da democracia brasileira pós-1988.

 

Para muito além do rudimentar #ForaTemer (ou #VoltaDilma) duas tarefas se impõe à esquerda. A primeira é defender as conquistas sociais e políticas da constituição de 1988. A segunda é dissolver a ideia de que “luta pela democracia” e “combate a corrupção” são tópicos excludentes.

 

Se em 2013 estávamos todos juntos na mesma avenida naquilo que foi um levante popular real, em 2016 fomos artificialmente separados em cordões antagônicos. De um lado os que eram “contra a corrupção”, do outro aqueles que eram “a favor da democracia”. O que essa falsa dicotomia aponta é que é possível pensar um regime sem corrupção que não seja democrático, ou assumir que a democracia é um regime inerentemente corrupto, e que temos de suportar isso como uma inevitabilidade natural porque ainda é o melhor regime que podemos ter.

 

O campo de esquerda não pode cair nessa armadilha.

 

É ela que nos leva velozmente para a solução autoritária de que: “uma ditadura honesta é melhor do que uma democracia corrupta”.

 

O chamado campo progressista tem de demonstrar a falácia dessa falsa alternativa dissolvendo a falsa dicotomia que separa defesa da democracia do combate à corrupção. Não há democracia real com corrupção e sem democracia real a corrupção impera absoluta. O fiasco social e político de um governo Temer, já se descortinando no horizonte imediato, oferece a oportunidade de cumprir essas tarefas. Resta saber se vamos desperdiçá-la mais uma vez.

 

Espero que isso não aconteça, amigo velho. Caso contrário pode ter certeza, dessa vez a história não nos perdoará.

 

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  • Pablo Capistrano
  • 01 de maio de 2016, as 12h12
o encosto autoritário não foi excomungado do horizonte político da nação

o encosto autoritário não foi excomungado do horizonte político da nação

 

No dia 20 de Julho de 1944 o Füher escapou de um atentado em um de seus quartéis generais. Ali, na Wolfsschanze (Toca do Lobo), uma bomba explodiu matando quatro pessoas. Hitler escapou apenas com ferimentos leves. Um dos conspiradores se chamava Claus Schenk Graf von Stauffenberg, coronel da Wehrmacht. Stauffenberg foi capturado e fuzilado como traidor. Na mesma época um obscuro burocrata alemão, fazia carreira na SS administrando campos de concentração. Seu nome era Adolf Eichmann. Preso por agentes do serviço secreto israelense na Argentina, para onde havia fugido após a guerra, ele foi executado em Israel nos anos 60 por crimes contra a humanidade e contra o povo judeu.

 

Agora imagine que, hoje, em 2016, em uma sessão do parlamento alemão um deputado, ao votar em um grave processo (que envolva, por exemplo, um primeiro ministro descendente de judeus) dedique seu voto a “Adolf Eichmann, pavor dos pais do senhor primeiro ministro”. Logo depois, outro deputado, dedique seu voto a favor do primeiro ministro, à Stauffenberg, que colocou uma bomba no quartel general de Hitler e com isso causou diretamente a morte de quatro militares alemães. Rapidamente nas redes sociais a polêmica se instala e muitos internautas, nostálgicos de um tempo em que imperava a “ordem e a moral”, emitem a seguinte opinião: “Foi errado homenagear Eichmann, mas também foi errado homenagear um terrorista como Stauffenberg”.

 

Arrisco a dizer, amigo velho, que na Alemanha de hoje isso seria muito difícil.

Mesmo ainda sendo acossada por fantasmas de velhos pesadelos, a Alemanha moderna não tem nenhum “encosto de estimação”.

 

No Brasil, infelizmente, não é bem assim.

 

Após a homenagem do deputado Jair Bolsonaro ao Coronel Brilhante Ustra, administrador de centro de torturas durante do regime de 64, criminoso reconhecido pela justiça brasileira, muitos internautas contemporizaram. Pior não teria feito o deputado Glauber Braga do PSOL, que homenageou Marighella? Afinal, qual a diferença entre um administrador de um centro de tortura e um guerrilheiro comunista?

 

Na verdade a estratégia retórica por trás desse tipo de sofisma não é apenas a de desqualificar Marighella e o que ele representou, mas também diminuir o repúdio aos crimes do Coronel Ustra. Se ambos podem ser postos no mesmo plano, nem Marighella seria assim tão digno de respeito, nem Ustra seria assim tão monstruoso. Os dois estariam em um mesmo horizonte de atuação e seriam comparáveis.

 

Essa estratégia retórica rudimentar peca em um ponto fundamental. Ela esquece que há uma diferença atávica e inafastavel que separa Ustra de Marighella. O primeiro era o artífice de uma violência estatal, objetiva, que tinha como efeito imediato perpetrar um estado de terror político que envolvia eliminar a dissidência, calar as vozes contrárias ao regime e despir qualquer oposição de sua dignidade humana, permitindo que, nos porões de um sistema opressor, toda sorte de abusos e barbaridades fossem cometidas contra pessoas presas e desarmadas.

 

O segundo era o porta voz de uma violência reativa, subjetiva (porque eclodiu em decorrência do primeiro tipo de violência), que tinha como efeito imediato uma tentativa, estrategicamente equivocada e politicamente questionável, de desmontar o regime de 64 pela resistência armada.

 

Essa obviedade por si só bastaria para colocar moralmente Ustra ao lado de Eichmann e Marighella na posição de Stauffenberg  (considerado na Alemanha moderna um dos heróis da resistência alemã contra o nazi-fascismo).

 

Seria simples, só que não. Surge um segundo argumento: Marighella na verdade não estava lutando pela democracia, mas sim tinha a intenção de implantar uma ditadura comunista no Brasil. Ora, o mesmo argumento poderia ser usado contra Stauffenberg, que ao morrer fuzilado teria gritado: “Vida longa para a Sagrada Alemanha!”. Ao que tudo indica sua intenção não era a de implantar uma democracia liberal nos moldes da norte americana, mas salvar o regime nazista do delírio de Hitler e evitar que o exército alemão fosse dizimado, entabulando um acordo que pudesse manter o sistema montado pelo Nacional Socialismo em uma sobrevida.

 

O cinismo do argumento “democrático” é evidente. Cria o absurdo de se ter de admitir que: “só podemos justificar moralmente uma resistência a uma ditadura se as intenções dos resistentes forem politicamente corretas”.  Isso bastaria para colocar o que morreu em combate na rua, alvejado pela polícia; no mesmo patamar moral do covarde que colocava mulheres para serem torturadas diante de seus filhos.

 

O escandaloso disso tudo, amigo velho, não é saber que essas falácias retóricas são disseminadas em discursos automatizados pelas redes sociais. A ideologia explica isso. O escandaloso é saber que ainda estejamos, 31 anos depois da queda do regime de 64, tendo que separar o joio do trigo, para mostrar as novas gerações de brasileiros que o encosto autoritário não foi excomungado do horizonte político da nação. Um encosto que ainda fala seu idioma de ódio e desprezo pela humanidade, na boca de deputados fascistas como Jair Bolsonaro.

 

Não podemos cair nessa, amigo velho, e ceder ao obscurantismo desse tipo de discurso, porque como diz a Sacerdotisa Vermelha lá em Westeros: “a noite é escura e cheia de pavores”.

 

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  • Pablo Capistrano
  • 16 de abril de 2016, as 12h12
Rasgar a constituição é um esporte nacional.

Rasgar a constituição é um esporte nacional.

 

 

Eu costumava a dizer a meus alunos, quando lecionava a disciplina de História do Direito na UNI-RN que o brasileiro não entendeu ainda o que significa uma constituição.

 

Isso não acontece por algum déficit cognitivo coletivo, ou por uma predisposição natural do clima que leva os nativos dessas paragens tropicais a não compreender a função básica de um texto constitucional. São razões históricas, amigo velho, que nos fazem ser quem somos.

 

Pergunte a um norte americano qual o dia em que seu país comemora aniversário. Na hora ele vai dizer: 04 de Julho; data da declaração de independência, que contém o programa político germinal da Constituição de 1787.

 

A Constituição norte americana ganhou ares de texto sagrado. Uma espécie de quinto evangelho, um contrato que institui o grande empreendimento “América”, um tratado político fundamental, sem o qual a própria nação se torna inviável.

 

Nós, ao contrário, começamos com uma missa.

 

Muito antes de termos qualquer declaração de direitos, qualquer documento político federativo, qualquer texto constitucional; no imaginário nacional o Brasil já existia. Contamos 516 anos e temos apenas 192 anos com um texto constitucional.

 

E começamos mal, porque mesmo a nossa primeira constituição foi outorgada pelo Imperador Dom Pedro I.  De 1824 até 1988 foram sete constituições, sem contar os atos institucionais e as inúmeras reformas, patrocinadas sempre que os momentos de crise exigem que a elite política “se ajeite” para continuar mandando no país.

 

No fim, apesar de tudo, precisamos reconhecer: somos inovadores.

 

Na tentativa de dar nosso “jeitinho” para interromper o mandato da presidente Dilma, inventamos um hibrido de recall, golpe e impeachment.

 

O golpeachment de Abril é um tipo novo na história do constitucionalismo moderno. Uma criatura com cara de golpe e rabo de impeachment.

 

Do ponto de vista formal, o processo que estamos vendo tem um jeitão de impeachment, referendado pelo STF e seguindo, a despeito das “pedaladas regimentais” de Eduardo Cunha, um curso processual mais ou menos normal. Apesar disso, do ponto de vista de seu mérito jurídico-político, a movimentação de Abril é uma curiosa mistura de golpe com recall; uma figura constitucional que, a despeito de ser bastante interessante para dar ao presidencialismo uma ferramenta democrática de solução de crises como a que se descortina hoje, não foi introduzida na constituição de 1988.

 

Por isso, não é de se espantar o que estamos presenciando em Brasília esse fim de semana.

Rasgar a constituição sempre foi um esporte nacional.

 

Nas favelas e no senado, nos acostumamos a tratar o texto constitucional como um amontoado pouco útil de papel, um aglomerado de regras e princípios que são maravilhosos, quando me favorecem, e peças anacrônicas que precisam ser expurgadas da ordem jurídica quando se chocam com meus interesses. O problema é: se não for o texto constitucional que nos une e que nos faz uma nação, o que seria então?

 

Espero sinceramente que não seja apenas a camisa da Seleção, porque se for só isso, nosso 7 à 1 será eterno.

 

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  • Pablo Capistrano
  • 03 de abril de 2016, as 4h04
No lado encarnado existem pessoas preocupadas com o populismo penal e a ameaça à democracia, mas a unidade dos grupos é reativa, contra o avanço da direita.

No lado encarnado existem pessoas preocupadas com o populismo penal e a ameaça à democracia, mas a unidade dos grupos é reativa, contra o avanço da direita.

 

 

A emoção, amigo velho, é a gasolina das massas.

 

O filósofo Jean Paul Sartre (o companheiro de Simone de Beauvoir), escreveu em 1938, ainda sobre o impacto de seu contato com a fenomenologia de Edmund Husserl e o pensamento de Martin Heidegger: “Quando, com as vias obstruídas, a consciência se lança no mundo mágico da emoção, ela se lança de forma integral e se degrada (…). A consciência que se torna muda se parece com a consciência que adormece”.

 

Pensando assim, a gente nota o quanto de sonolência a consciência das massas adquiriu nesse mês de Março de 2016, mesmo que os cordões encarnado e verde-amarelo tenham se digladiado na batalha pela dominância da rua.

 

Os agentes políticos que instigam a emoção dessas massas, nesse começo de outono, não estão focados apenas no turning point que se aproxima com o possível impeachemant (ou golpe, se você achar melhor) da presidente Dilma Rousseff. Há um ensaio geral para 2018 rondando a avenida.

 

Se tomarmos as manifestações contra a corrupção (ou contra o PT, se você preferir) e as manifestações em favor da democracia (ou a favor do governo, se mais te apetece); vamos ver que há uma costura pouco nítida de grupos unidos em função de uma demanda circunstancial, estimulados pela possibilidade de mudança de governo.

 

Do lado do cordão verde-amarelo, é possível ver gente sinceramente indignada (após um súbito despertar moral) com o fato de que (como dizia Marx) o Estado brasileiro seja uma espécie de balcão de negócios da plutocracia dominante. Mas também existem pessoas que sobre a capa dessa indignação expõem simplesmente um ódio irracional contra o PT ou mesmo um desejo de cunho neo-fascista de que se eliminem todos os partidos políticos para no lugar ser entronado como senhor do país e titular absoluto da bandeira nacional e da camisa da CBF; um tal de “povo brasileiro” (mesmo que a gente não saiba bem quem iria falar em nome dele).

 

Do lado do cordão encarnado, existem pessoas sinceramente preocupadas com o avanço de um discurso de populismo penal, que passa a impressão de ser possível desconsiderar a base constitucional e as garantias democráticas na cruzada santa de prender e exterminar todos os corruptos (como também todos os criminosos comuns, em um processo de encarceramento coletivo nacional que beira a histeria).  Mas também existem grupos organicamente ligados ao governo, fechados com o projeto de poder petista e que ocupam as ruas sempre que o PT, quando está acuado, sequestra a pauta de esquerda e a usa para defender um governo que, por exemplo, propõe um plano de demissão voluntária de servidores públicos (demissão voluntária deve ser coisa de comunista, não é?).

 

Nessas circunstâncias o que se desenha é uma fragmentação dessas tendências, na medida em que o elemento unificador sair de cena. Ou seja, quando o processo de impeachemant (ou golpe como querem alguns) se completar.

 

 

Do lado do cordão verde amarelo existem pessoas sinceramente indignadas com a constatação que o Estado é o balcão de negócios da classe dominante, mas a unidade do movimento é negativa ("não ao PT") e não tem uma unidade clara de proposta pós-Dilma.

Do lado do cordão verde amarelo existem pessoas sinceramente indignadas com a constatação que o Estado é o balcão de negócios da classe dominante, mas a unidade do movimento é negativa (“não ao PT”) e não tem uma unidade clara de proposta pós-Dilma.

 

 

Amigo velho, me atrevo a dizer que, a despeito de toda emoção e de toda a tensão apaixonada desse terceiro turno da eleição de 2014, essa unidade polarizada que se vê na avenida não se manterá do mesmo modo nos anos que virão. O programa #ForaPT se articula em função de uma pauta negativa (eles sabem o que não querem mas tem dificuldade de fechar um projeto para o que fazer depois que Dilma cair); assim como o programa do #NãoVaiTerGolpe se articula em função de uma pauta reativa (contra o avanço da direita etc e tal) mas terá muita dificuldade em fechar um projeto comum caso o governo sobreviva (o que parece ser cada vez mais difícil) e seja obrigado a manter um programa de austeridade fiscal que corte direitos e reduza a proteção social do pouco que ainda existe de Welfare State neste país.

 

Assim, curiosamente, nesse processo, quem ganhar perde.

Isso porque o grupo que vencer a disputa perde o elemento que o mantém unido.

 

O que parece cada vez mais evidente é que, quando a consciência das massas acordar de seu sono dogmático, após o desmonte providencial do combustível emocional que turbina o golpe (ou Impeachemant se você achar melhor), muito certamente vai se espantar com o cenário que encontrar pela frente.

 

Vai ser a natureza desse espanto que dará o enredo para o desfile dos blocos políticos na avenida das próximas eleições.

Se é mesmo que haverá eleições em 2018; afinal, no Brasil a gente nunca pode confiar muito na regularidade democrática.

A história está cansada de nos mostrar isso.

 

 

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  • Pablo Capistrano
  • 07 de março de 2016, as 13h13
Sentindo que seria a "cereja do bolo" da operação Lava-Jato Lula disse em um discurso ano passado "eu vou sobreviver". Para isso precisa agora retomar um discurso perdido nas épocas da sua juventude e partir para o confronto.

Sentindo que seria a “cereja do bolo” da operação Lava-Jato Lula disse em um discurso ano passado “eu vou sobreviver”. Para isso precisa agora retomar um discurso perdido nas épocas da sua juventude e partir para o confronto.

 

 

Na sua biografia sobre Luís Carlos Prestes, Daniel Aarão Reis conta da decepção do “Velho” em relação a Constituinte de 1988. Para ele, o Brasil ainda estava muito longe de conquistar uma democracia efetiva: “Sem democracia não pode haver revolução” dizia o antigo militante comunista na altura dos seus 90 anos. Sobre o processo de transição e o cenário político após a queda do regime de 64, Prestes nutria poucas esperanças. A questão era que não havia lideranças genuínas de esquerda que pudessem renovar um ideário progressista. “Todos são de um período anterior a 1964 (…) com exceção do Lula”; comentou o velho líder do partidão. Mas o problema era que Lula “(…) não estuda e não quer estudar” em qualquer livro “não passa da página 17”.

 

Na verdade, o que Prestes chamava atenção sobre a nova liderança da esquerda, emersa das lutas sindicais do período final da ditadura, não era algum déficit cognitivo, ou alguma avaliação preconceituosa acerca da condição de classe que relaciona as massas populares à falta de “cultura”.

 

Quando Prestes falava “estudar” ele não queria dizer simplesmente “ter um diploma superior” ou adquirir uma reserva qualquer de erudição.  Prestes apontava para um déficit teórico de “formação política”. Era a solidez doutrinária e a disciplina ideológica, tão caras à esquerda revolucionárias do século XX, construída por dois séculos de lutas operárias e militância clandestina, que faltava à Lula.

 

Lula nunca seria um revolucionário, nem mesmo um reformista. Sua ação política, marcada pelo pragmatismo de uma personalidade intuitiva, construída no cotidiano da luta sindical, apontava para o acordo e o consenso. A despeito da retórica inflamada dirigida às massas (ao menos nos primeiros vinte anos de sua atuação pública), a ação de Lula demonstrava que o campo de esquerda tinha um grave impasse a enfrentar: sua principal liderança emergente não havia sido preparada para revolucionar as estruturas políticas e econômicas do país. Sua função era bastante divergente dessa, a saber: patrocinar uma conciliação nacional entre o capital e o trabalho, com inclusão social e crescimento econômico e dar sobrevida a velha ordem política que, na visão de Prestes, deveria ter sido extirpada com o fim do regime de 64.

 

26 anos após a morte do “Velho”, Lula ainda é o personagem político mais importante do país. Tanto para os que o idolatram como um herói martirizado pela operação lava-jato, quanto para os que o odeiam, pintando-o como um bandido com camisa listrada, responsável por todas as desgraças e misérias morais que assolam a nação; só há uma certeza pairando no horizonte: sua figura não deve abandonar a arena política nos próximos anos, mesmo que o desfecho da operação do juiz Sérgio Moro seja sua condenação por corrupção.

 

Getúlio era um Caudilho dos Pampas, deixou a vida para entrar para história em uma época que a política era uma questão de vida e morte. Um desconcertante anacronismo para uma época de hegemonia liberal como a nossa.

Getúlio era um Caudilho dos Pampas, deixou a vida para entrar para história em uma época que a política era uma questão de vida e morte. Um desconcertante anacronismo para uma época de hegemonia liberal como a nossa.

 

 

Lula nunca foi nem nunca será um líder como um dia foi Prestes, tão pouco repetirá a trajetória de Vargas, outro gaúcho que marcou a política brasileira no século passado.

 

Vargas era um caudilho dos pampas. Um homem do universo rural, treinado na disciplina militar, assim como Prestes. Um sujeito de um tempo diferente do nosso. Uma época em que a ação politica era revestida de uma urgência e uma dramaticidade que não combinam com o pragmatismo ululante dos dias atuais em que Cunhas, Renans, Dirceus e Delcídios se debatem freneticamente em um imenso reality show, marcado por uma narrativa que mais parece ter saído da mente do produtor executivo de House of Cards.

 

Lula é um pernambucano que saiu do sertão em um contexto bastante difícil, e que ascendeu ao patamar mais alto da política nacional jogando o jogo do sistema. Ele não veio para derrubar os muros, mas para abrir o portão do condomínio e colocar mais gente pra dentro. Em um discurso no ano passado, já sentindo que seria a “cereja do bolo” da operação Lava Jato, Lula disse que iria “sobreviver”.

 

Hoje, no cenário de crise econômica e de hegemonia absoluta de um ideário de mercado, “sobreviver” é a palavra de ordem. Para um garoto que fugiu da seca, “sobreviver” politicamente é um imperativo biológico.

 

Lula não fará como Vargas, que deixou a vida para entrar na história. Hoje, no cenário da política nacional, contaríamos nos dedos os agentes políticos que se prestariam a atitudes extremas como a que levou ao suicídio de um presidente em 1954. Nossa sociedade de consumidores liberais não suportaria esse tipo de anacronismo moderno.

 

Lula vai lutar (e muita gente vai lutar com ele) pela sobrevivência política e pela manutenção do que ainda sobrou de seu mito.

 

Luis Carlos Prestes, que passou maior parte de sua vida preso, exilado ou na clandestinidade não viu um cenário promissor para as esquerdas na nova geração que ascendia junto com Lula após o fim do regime de 64.

Luis Carlos Prestes, que passou maior parte de sua vida preso, exilado ou na clandestinidade não viu um cenário promissor para as esquerdas na nova geração que ascendia junto com Lula após o fim do regime de 64.

 

Já Prestes, que lutou a vida inteira, vivendo a maior parte de seus 92 anos no exílio, na prisão ou na clandestinidade; disse o seguinte, por volta de 1985, interrompendo subitamente um almoço de Domingo com a família: “Quem sabe sou o último comunista do Brasil. Ninguém vai tirar de mim o direito de ser comunista (…) os que são frouxos que abram mão de seus ideais”.

 

E saiu da sala assobiando o Hino da Bandeira, que, segundo Maria, sua esposa, era o que ele mais gostava.

 

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2007 ® Pablo Capistrano

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