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  • Pablo Capistrano
  • 23 de janeiro de 2012, as 10h10

Walt Whitman, o profeta das modernas ordens democráticas, poetizou um dia: “resisto melhor a tudo que não seja minha própria diversidadeâ€.

 

Hoje, amigo velho, as escolas cantam a canção da diversidade e da cidadania em seus projetos políticos pedagógicos. Nossas escolas estão antenadas, pelo menos nas escrituras que as regem e nas fundamentações teóricas que as instauram, com um tipo de ordem democrática muito semelhante àquela que Whitman vislumbrou no século XIX em pleno entusiasmo maníaco de seu alumbramento poético.

 

O grande problema é que uma escola não se faz com leis, regulamentações ou tratados de intensões. São as práticas, amigo velho, que constituem uma escola. É sua disposição geométrica, seu modo de se apropriar do tempo dos outros, suas sirenes, seus “bimestresâ€, suas reuniões pedagógicas, suas cadernetas preenchidas de notas e seus “conteúdos de aula†(como se uma aula não fosse essencialmente forma). São suas coordenações, seu planejamento orçamentário, seus conselhos de classe, seus cargos comissionados. É tudo isso que constitui aquilo que alguém chamou um dia de “processo de ensino-aprendizagemâ€.

 

É cruel, amigo velho, que se fale a um professor que ele é obrigado a “ensinar cidadania†a seus alunos, quando a escola em que trabalha não pratica a democracia. Quando as reuniões de gestão são fechadas, quando a comunidade não participa dos conselhos, quando os alunos não tem voz nas reuniões pedagógicas, quando os cargos em comissão não são eleitos e continuam a serem tratados como “cargos de confiança†como se fossem propriedade dos diretores e não da comunidade que os sustenta.

 

Não é possível “ensinar cidadania†onde a democracia não é praticada. Não é possível “trabalhar a diversidade com os alunos†em ambientes nos quais as deliberações de gestão não são transparentes, públicas, coletivas, plurais.

 

É uma tortura que se apresente aos professores das humanidades a tarefa de transmutar a alma dos alunos e torná-los cidadãos, se a lógica que fundamenta a escola brasileira ainda for excludente e aristocrática. Não há sortilégio filosófico, nem malabarismo sociológico que permita um milagre alquímico desta magnitude.

 

Esse é um dos mais constrangedores impasses da escola burguesa que nasce no século XVI e chega a esse século XXI com as mesmas carteiras postas em fila, com o mesmo quadro branco (ou negro), com o mesmo retrato três por quatro na ficha (agora digitalizada) do aluno, com as mesmas marcas de tinta vermelha nos boletins em notas de zero à dez.

 

A náusea da escola brasileira é de saber-se detentora de uma tarefa para qual não foi pensada. Nosso desconforto, amigo velho, é o de sentir que nenhum aluno vai acreditar no velho professor que recita Whitman na sala de aula, se a escola pública e gratuita em que ele estuda não for gerenciada pela comunidade para a qual foi criada.

 

Como dizia a poesia do velho Tio Walt na tradução de Bruno Gambarotto: “Sou de toda cor e casta, de toda religião ou classe, fazendeiro, artesão, artista, cavalheiro, marinheiro, amante, quacre, prisioneiro, rufião, baderneiro, advogado, médico, padreâ€.

 

Resisto melhor a tudo que não seja a minha própria diversidade.

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  • Pablo Capistrano
  • 01 de janeiro de 2012, as 4h04

Enquanto a banda ocidental da terra padece de sua, segundo alguns, última monstruosa ressaca de fim de ano, eu, que andei noite passada passeando pelas oníricas esferas celestiais, acordo e me deparo com essa bela canção de Esso Alencar na minha caixa de correio.

Um grande 2012 pra todo mundo, com muito sexo, paz e poesia, antes que o mundo se acabe!

 

PARTO DO CALENDÃRIO

 

Depois das luzes no Natal
Vou limpar a casa para o Ano Novo
Tirar o sujo das paredes
Colocar tudo no devido lugar
Afinal, é mais um fim-de-ano
Outro dezembro eu consegui viver
Por isso vou varrer o chão da sala
Vou limpar a casa para o Ano-Novo

 

Quero tocar uma canção com o mundo
Que fale de amor e de esperança
Converter todos os corações perversos
Que fazem guerra enquanto a terra dança
Quero beijar um rosto de criança
Mostrar que amar é bom e é correto
Acreditar na nova paz dos homens
Forçar a barra prá dar tudo certo

 

Os dias duros que virão
Serão de provas para as nossas vidas
Muitos momentos de aperto
E até instantes pelo desespero
Mas, vamos ter que correr o risco
Nos dedicarmos às novas tarefas
Abrir os braços e de corpo e alma
Jogar outra partida contra o tempo

 

Esso Alencar

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  • Pablo Capistrano
  • 03 de dezembro de 2011, as 11h11

Foto da demolição do Machadão por Júnior Santos

 

Eu nasci numa cidade antiga, que foi soterrada por um estranho evento econômico, muito semelhante a esses cataclismos que dominam o inconsciente coletivo da humanidade em tempos de Hollywood.

 

 

Ainda existem algumas ruinas da minha cidade, a questão é que elas estão desaparecendo rapidamente, envolvidas pelo mesmo tipo de ansiedade urbana que condenou meu lar ao desaparecimento. O problema é que, como a minha antiga cidade de origem, que nesse exato momento jaz soterrada onde hoje fica a atual capital do Rio Grande do Norte, tinha o mesmo nome da cidade em que eu habito agora (Natal) pouca gente se dá conta que um dia ela existiu.

 

 

Não temos tempo, amigo velho, de prestar atenção na imensa força destrutiva que arrasou essa Natal antiga. Porque essa mesma força de destruição, que derruba casarões da belle époque para fazer estacionamentos, que desconstrói quarteirões inteiros de casas de muro baixo para erguer gigantescos condomínios com garagens subterrâneas, que devasta canteiros arborizados para abrir pistas e viadutos e que espreme as ruas entre imensas caixas de sapato concretadas de gosto duvidoso que alguém mal intencionado nos ensinou a chamar de “prédios comerciaisâ€; essa mesma força, amigo velho, que destrói e mata os rastros da minha antiga cidade, é a força que constrói outra cidade, por cima do cadáver da velha Natal.

 

 

Acho que uma parte dos meus conterrâneos (os anacrônicos moradores daquela Natal soterrada) se tocaram da fúria sem fim dessa ordem econômica que devora o mundo quando desceram pela Romualdo Galvão e se aperceberam daquele vácuo, daquela estranha ausência, daquele vazio empoeirado que ultrapassava os limites da nossa vista, diante do semáforo que nos leva a prudente de morais ou a BR 101.

 

 

O Machadão não estava mais lá, imponente, surgindo como uma flor de pedra que brotava do assoalho de alguma antiga lagoa seca sequestrando a paisagem da cidade como uma onda de concreto.

 

 

Foi derrubado, demolido, destroçado, convertido de volta ao pó. Sintomaticamente dizem (os que entendem de destruições e construções) que partes do que um dia foi o maior e mais belo estádio do meu estado, servirão para a construção de outro estádio, mais moderno, mais arrojado, mais afinado com as marcas dessa nova Natal que surge dos ossos da velha cidade soterrada.

 

 

Amigo velho, nós nunca fomos modernos. Aquilo que chamam de modernidade nunca passou de uma ideia, construída na mente de algum crítico de arte europeu. Sempre fomos esse verniz, essa película, que separa as nossas formas externas do profundo primitivo que se esconde no oco de nossas almas.

 

 

Sempre fui um homem de um estádio só. Até esse ano, nunca havia assistido uma partida de futebol em outro local que não o Machadão.  Se não fosse o América Futebol Clube ter me levado à Goianinha, teria orgulhosamente continuado assim.

 

 

Não lembro o dia em que pela primeira vez que entrei no Machadão. Sei que foi com meu pai, para assistir um jogo América e Alecrim, no tempo da campanha do tetracampeonato de 1982. Depois disso, nos rigores selvagens da adolescência, andei meio afastado, só para retornar durante o acesso à série A de 1996 e a copa do nordeste em 1998.

 

 

Guardo mesmo na memória uma noite de sábado de 2006. A primeira vez que levei meu filho Uriel (com dez anos na época) para assistir América e CRB na campanha de mais um acesso à série A.

 

 

Lembro que ele me disse, ao ver o estádio pintado de vermelho, brilhando com as luzes noturnas dos refletores que se misturavam sinestesicamente ao canto da torcida alvirrubra, desfazendo as fronteiras usuais entre aquilo que de da vista e aquilo que é da mente: “Pai. É muito melhor do que ver pela televisão!â€.

 

 

Na segunda parte do Fausto, Goethe nos oferece uma visão fantástica e aterradora da modernidade. Um imenso território global cortado pela maquinaria humana, pela produção econômica, pelo avanço da civilização técnica. Todo um território marcado anteriormente pelas paisagens afetivas e históricas das velhas comunidades humanas enfiado em um moedor de história que transforma a memória em escombros, ossos, ruinas sobre os quais o futuro é eternamente reconstruído.

 

 

Amigo velho… é estranha essa nostalgia que me possui quando vejo o vazio horizonte da minha cidade destruída. Pareço um exilado em minha própria ilha, um estrangeiro em minha própria casa.

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  • Pablo Capistrano
  • 14 de novembro de 2011, as 6h06

No verão de 1995 eu tive a oportunidade de conhecer a USP. Viajei à São Paulo com estudantes do curso de jornalismo da UFRN para participar de um encontro nacional de estudantes de comunicação social.

Foram dois dias de estrada. Atravessamos um sertão baiano, que mais parecia a porta do inferno de tão quente e seco. E o pior, o ônibus não tinha ar condicionado e o suposto frigobar apodreceu depois que alguém empurrou junto com o gelo e as latinhas de cerveja uma pataca de salame estragado. Não fosse uma providencial fita K7 com uma seleção sonora de Bob Marley, não teríamos conseguido chegar vivos a Vitória da Conquista, embalados por uma cortina de fumaça e suor.

O fato é que quando cheguei no CRUSP fiquei espantado com a transcendência etílico-farmacológica do ambiente. A USP, segundo me informou meu amigo Robson Braga (que se exilou em São Paulo desde de metade dos 90)  parecia uma ilha, em meio a urbe transloucada de prédios, carros e cheiro de oficina mecânica.

Essa é uma característica curiosa das universidades do século passado (ao menos as que fazem realmente jus a esse nome). Era como se tivessem muros invisíveis. Como se na sua formatação houvesse uma espécie de licença ontológica para que os ritmos do mundo se suspendessem e o fluxo do pensamento e da criação humana pudessem apresentar seus frutos.

E isso não é uma característica do Brasil ou da USP. Um amigo norte americano me contava dia desses o assombro que teve ao ser convidado para a primeira festa no campus de sua universidade em Nova York. Ele, um cara que tinha crescido em uma cidadezinha no interior de Nova Jersey, perto das comunidades Amish, não sabia o que fazer quando entrou na cobertura da República de estudantes e viu todo mundo nú, pintados com tintas fosforescentes, ouvindo músicas hipnóticas com batidas eletrônicas exóticas, temperadas por ácidos, alcaloides e etílicos variados.

Se a escola, formatada no século XVI para retirar do interior das corporações de oficio os filhos da emergente classe burguesa, se estruturou na modernidade como instância de controle e disciplinamento social, com suas carteiras dispostas em ordem, suas fardas homogêneas, suas fotos 3X4; as universidades, por sua vez se constituíram como espaços de resistência e de experimentação social, intelectual, existencial. Elas eclodiam no horizonte como instâncias de suspensão da ordem comum, como confrarias secretas, com regras e rituais próprios, que, a despeito de não estarem imunes aos mecanismos de poder, criavam um certo vazio normativo, capaz de oferecer aos membros da sua comunidade a liberdade necessária que as dimensões criativas da experiência humana exigem.

Por isso eu não estou minimamente preocupado se a turma da USP tá fumando maconha, fazendo sexo pelas escadas, viajando em doutrinas e experiências políticas heterodoxas ou mesmo praticando filosofia explícita em público. Pra mim isso não é problema. Nem também tenho dados para julgar se o ato de ocupação dos prédios daquela instituição tinha objetivos políticos viáveis e justificados, ou foi um simples ato de vandalismo, como dizem alguns.

O que me preocupa, amigo velho, é saber que tem gente, dentro da própria comunidade universitária que anseia pela presença da polícia naquele ambiente. O discurso da violência e da insegurança anda tão em alta no Brasil desses dias, com dados estatísticos que fazem os jornais pingarem sangue, e os programas de TV popular gritarem o fim do mundo como nós o conhecemos, que paira sobre nosso belo país tropical aqueles auspícios sombrios de outras épocas, onde armas e agentes da inteligência militar entravam nas universidades para ordenar seus espaços e preencher seus porões com o mesmo silêncio que impunham as ruas solitárias.

Acho que foi Walter Benjamim que disse que todo totalitarismo (quer seja ele fascista, nazista, stalinista ou macarthista) é sinal de uma revolução fracassada.

A revolução democrática brasileira, prometida com a abertura da década de 80, permitiu a minha geração crescer em universidades livres (mesmo que no meu caso, tenha sido o rural, quase neoclássico, setor II da UFRN). È justamente, essa revolução eternamente inconclusa, que começa a dar sinais de profunda fragilidade.

 Eu tenho medo, amigo velho, de todo coração, que algum dia essa revolução sucumba ao peso de seus próprios impasses, ao medo da violência social, a desilusão com as instituições, temperada por alguma sacudidela econômica que venha comprometer o consumismo narcótico da nossa santa classe média.

Quando isso acontecer, pode ter certeza, as universidades públicas (se ainda existirem) serão as primeiras a serem ocupadas, com armas e fardas; clamores e gritos de ordem e de progresso.

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  • Pablo Capistrano
  • 07 de novembro de 2011, as 13h13

Semana passada o mundo assistiu meio abestalhadamente mais um capítulo da nova crise mundial do capitalismo. O premiê grego anunciou que convocaria um referendo para consultar sua população sobre a aceitação ou não de um pacote fiscal para “salvar a Grécia do calote†e mantê-la na zona do Euro. Antes da semana acabar ele voltou atrás, pressionado pelos governos da França e da Alemanha,  acossado pela fúria desesperada dos mercados.

 

O que é mais sintomático dessa história é que agora a crise começa a pôr em questão mais um dos pilares de sustentação da ordem liberal: a fé na democracia.

 

Quando um referendo, instrumento de democracia direta, usado como mecanismo de consulta pública pelos governos que precisam de apoio popular para propor reformas polêmicas, se torna um problema, há um indicio desconcertante de um perigoso descolamento, que separa a estrutura econômica e a ordem política.

 

Se compararmos antigas turbulências nos mercados como 1873 ou 1929, o que se torna muito evidente na tormenta global dessa época é que nosso sistema padece hoje de um sintomático transcendentalismo de mercado. Um descolamento do sistema financeiro do mundo real da economia que fez com que alguns teóricos já passem a chamar o atual estado da economia global de “capitalismo com dominância financeiraâ€.

 

Entre 2003 e 2007, por exemplo, os CDS (Credit Default Swaps), formas de seguro em caso de inadimplência de créditos bancários de alto risco norte americanos passaram de 2,2 trilhões de dólares para 54,6 trilhões. Os ativos financeiros do planeta atingiram, em 2008, 600 trilhões de dólares, dez vezes mais do que a soma de toda riqueza real do planeta (estimada naquele ano em 60 trilhões) conforme dados do Le Monde Diplomatique.

 

Ao contrario de 1873 e 1929, a crise hoje marca um momento em que todos os recantos do planeta estão vinculados, direta ou indiretamente, aos tais mercados. Hoje, vivemos em um mundo em que o dinheiro passou a ser a mais rentável mercadoria, um mundo no qual se ganha mais dinheiro vendendo dinheiro do que produzindo bens de consumo, um mundo no qual os estados nacionais não tem mais como sustentar suas políticas econômicas e que os governos não conseguem ministrar tratamento ambulatorial para o surto desses mercados.

 

Se a confiança uma suposta crença hegemônica na racionalidade do mercado ruiu em 2008, o que parece que ameaça ruir agora, a julgar pelo modo como as decisões econômicas estão postas na Europa, é a crença na funcionalidade da democracia.

 

Pois é amigo velho, quando os mercados se tornam maiores do que os Estados e a democracia, que antes justificava o sistema econômico, se torna um problema a sensação é de que aquilo que é crise está, a passos rápidos, se transformando em surto. Um longo surto planetário, capaz de desmascarar as mais cômodas fantasias políticas, como aquela que diz que o poder é feito pelo povo, para o povo, a partir do povo.

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2007 ® Pablo Capistrano

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