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  • Pablo Capistrano
  • 07 de abril de 2019, as 5h05

 

No meu tempo de adolescente (ou seja… no final do século passado) meus amigos trotskistas costumavam a contar uma piada bem curiosa sobre o período dos grandes expurgos do stalinismo.

 

Um certo dissidente do regime havia sido condenado num dos julgamentos de Moscou e mandando para um Gulag(o que de certo modo denotava alguma sorte, afinal, a outra alternativa seria a execução sumária). Lá chegando, o sujeito encontrou dois camaradas já alojados em sua cela. Intrigado, ele pergunta ao primeiro camarada: “por que você foi condenado?”. O camarada responde: “porque eu sempre chegava atrasado às reuniões do partido”. Mantendo a curiosidade o dissidente interpela: “mas qual a acusação?”. O sujeito então responde sem rodeios: “sabotagem”. Voltando-se para o segundo camarada o dissidente faz a mesma pergunta e obtém a seguinte resposta: “estou aqui porque sempre chegava adiantado nas reuniões do partido. Acusação: entusiasmo revolucionário excessivo”. Diante do espanto do dissidente os dois camaradas, já veteranos naquela cela de Gulag, devolveram o questionamento: “E você, camarada? Por que está aqui?”. O dissidente suspirou e respondeu: “Porque eu sempre chegava na hora nas reuniões do partido”. Acusação? – “Conformismo pequeno burguês”.

 

Na verdade há um farto conjunto de piadas desse tipo sobre o período stalinista que vão no mesmo sentido. Todas mostram um traço fundamental de qualquer modelo totalitário, que pode funcionar tanto para a inquisição ibérica dos séculos XV e XVI, quanto para o objetivismo modernista dos regimes autoritários do século XX: a ideia de que qualquer traço de comportamento externo pode ser interpretado como o sinal do seu oposto e de que não importa o que você faça, você sempre será suspeito de alguma coisa que você não fez.

 

A loucura hermenêutica que nasce da quebra de todos os parâmetros fixos de interpretação da conduta alheia e das interações humanas, está na base da paranoia total dos regimes totalitários e, em certo sentido, diz muito mais sobre os expurgos stalinistas do que algumas platitudes interpretativas acerca da “monstruosidade dos tiranos” e da “opressão dos cidadãos pelo Estado”. Uma loucura hermenêutica desse tipo fica muito evidente quando, em 1940, Nicolai Iejov, o principal carrasco de Stálin, acusado de executar injustamente milhares de bolcheviques inocentes, foi, ele mesmo, executado! No fim das contas, a execução de Iejov indicava algo de bastante sintomático, bem típico do regime stalinista: quanto mais perto do poder, mais insegura era a condição do indivíduo.

 

Ao contrário da estrutura do totalitarismo nazista, no qual o “princípio do Fūher” atuava como um elemento estabilizador diante do permanente conflito de grupos e forças antagônicas dentro do partido nacional socialista, o militante bolchevique no tempo de Stálin estava sempre posto diante da possibilidade de ser acusado daquilo que costumava a acusar os outros, porque, afinal, não há ninguém mais suspeito de fazer algo errado do que os que se esforçam pra fazer tudo certo.

 

Hoje, depois de ler um bocado sobre o assunto,  apesar dos esforços e da boa vontade de meus amigos trotskistas em colocar nos ombros do camarada Stálin todo o ônus pelo terror revolucionário, sei que os expurgos já eram uma prática usual bem antes da morte de Lênin.

 

Em 1921, ainda durante o período da sangrenta guerra civil que se seguiu a revolução de Outubro, os julgamentos sumários entre os bolcheviques já eram aplicados em larga escala. A questão é que eles não tinham ainda, como regra geral, a eliminação física da dissidência como nos períodos dos julgamentos de Moscou. Seus efeitos geralmente circulavam em torno de um rebaixamento na posição dos militantes na hierarquia do partido ou mesmo o ostracismo e a expulsão, a não ser, é claro, nos casos de traição ou sabotagem que envolviam o cenário das operações militares contra os exércitos brancos no palco da guerra que se estendeu até 1922.

 

Outro aspecto interessante que se manteve posteriormente no tempo dos expurgos eram as longas sessões de autocrítica. Reuniões coletivas em que os membros do partido  eram obrigados a confessar publicamente  seus crimes contra revolucionários, seus erros exegéticos ou equívocos nas análises de conjuntura. Essas sessões muitas vezes faziam eco às encenações teatrais farcescas dos julgamentos públicos no tempo da Inquisição ibérica, retratados de maneira espantosa por Francisco de Goya em suas pinturas.

 

Apesar disso, meus amigos trotskistas podem objetar que foi apenas em Maio de 1936, após Stálin enviar à cúpula partidária uma “carta secreta” detalhando atividades de sabotadores e de “inimigos do povo” que colaborariam em segredo para preparar a invasão do “inimigo nazi-fascista”; que o chamado “Grande terror” começou a se consolidar. Tal qual um mecanismo de purgação interna, a checagem da moralidade e da pureza ideológica dos membros do partido transformou-se num ato de irracionalidade política generalizada. O terror dos expurgos acabou levando à morte centena de milhares de militantes bolcheviques, na sua maioria funcionários exemplares e militares experientes que não apenas tinham ajudado a consolidar a revolução de Outubro como também haviam sido fundamentais no esforço de guerra que derrotou os exércitos brancos em sua aliança com um consórcio de forças internacionais que buscavam sufocar a revolução ainda no nascedouro.

 

Aqui é importante dizer uma coisa para você que sempre viveu em ambiente mais ou menos democrático: em sistemas autoritários o combate à dissidência ou à subversão (como ocorria no tempo do regime militar brasileiro) tinha muito mais a ver com o discurso público do que com o domínio das crenças privadas dos indivíduos. Quem perturbava o bom funcionamento do discurso público, dizendo de uma maneira ou de outra aquilo que no íntimo todos já sabiam, era bem mais perigoso para o regime do que aqueles que apenas fingiam acreditar no modelo. O curioso é que é justamente nesse ponto, de hipocrisia pública compartilhada, onde reside o fracasso da dominação stalinista se comparada aos mecanismos ideológicos dos modelos liberais capitalistas. Se, no íntimo, a maioria absoluta dos que viveram sobre algum tipo de ditadura stalinista sabiam que eram vigiados e tinham de fingir publicamente que eram livres em um esforço constante de se livrar da loucura hermenêutica coletiva que o terror de todos contra todos impunha, num universo liberal capitalista, em seu modelo turbinado pelas redes digitais, todos acreditam piamente que são livres enquanto se expõem constantemente em público de modo compulsivo, escancarando a vida privada em fotos, vídeos e comentários de Facebooka fim de serem mais eficazmente vigiados, monitorados e condicionados.

 

Talvez isso explique o porquê da necessidade do uso massivo de milhares de agentes secretos da Stasi(polícia política da Alemanha Oriental) para vigiar a própria população no tempo da guerra fria. A inadequação do alemão oriental médio à ideologia dominante do regime durante o período comunista exigia um esforço operacional muito maior por parte do sistema repressivo para se construir um mecanismo eficaz de controle social do que o modelo posto no lado ocidental capitalista. É por isso que, não importa se você é trotiskista, gramisciano ou stalinista de carteirinha, se há uma lição que o fracasso dos modelos de socialismo realmente existente legaram à posteridade foi a noção de que é muito mais fácil dominar uma sociedade que pensa que é livre do que uma que sabe que é presa.

 

Uma outra estranheza que precisa ser melhor compreendida para aqueles que se aventuram a estudar, sem o ranço neurótico de alguma doutrina política particular, é que durante a loucura dos expurgos stalinistas e dos julgamentos de Moscou, era possível notar algumas discrepâncias em relação ao seu modelo original: o grande terror revolucionário que acometeu a França no esteio da revolução de 1789.

 

A lógica do terror revolucionário, no seu modelo clássico francês, foi bem explicado por Danton como uma espécie de “ação preventiva”. A ideia era de que seria preciso que fossemos “(…) terríveis para que o povo não seja obrigado a sê-lo”. Nesse sentido a violência do terror ganhava uma dupla função: por um lado serviria para consolidar o carater “missionário” da ação revolucionária, embebida na ideia de uma missão redentora que salva as massas do ônus da violência ao aplicá-la contra a própria comunidade; por outro, ganharia uma função contrarrevolucionária usada para impedir que a “violência divina” da turba continuasse a ser empregada permanentemente, impedindo que qualquer nova ordem surgisse do caos original da revolução.

 

Nenhum desses dois aspectos se aplicam de maneira automática aos expurgos de Stálin por dois motivos básicos: (1) eles ocorreram em um período de relativa estabilidade, quando os momentos mais conturbados da guerra civil já haviam passado e os distúrbios causados pela aplicação da “Nova Política Econômica” de Lênin já estavam arrefecendo; (2) o resultado do terror além dos aproximadamente 680.000 executados e 1.570.000 presos em Gulags foi um caos total na economia, um desmantelamento completo da estrutura administrativa, burocrática e militar soviética que não contribuiu em nada para a consolidação de uma ordem comunista. Na verdade, os expurgos quase causaram o fim do regime quando a URSS foi invadida pelas tropas de Hitler.

 

Hoje, 82 anos após a circulação da sinistra “carta secreta” de Stálin que abriu as portas para a grande loucura hermenêutica dos expurgos, dizimando a sociedade soviética e o partido bolchevique, os significados profundos desse fenômeno ainda precisam ser melhor compreendidos. A dificuldade é que essa tarefa só se completará no dia em que alguém conseguir ler os expurgos bem longe das reduções interpretativas e doutrinarias que povoam tanto o imaginário dos que se dizem de esquerda quanto dos que se identificam como de direita, o que é uma tarefinha bem complicada, para não dizer impossível, em um momento de polarização política como o nosso, diga-se de passagem.

 

O importante é que, quem se aventurar nesta odisseia de pensamento político, que implica em entender, muito longe das reduções doutrinárias, a experiência dos expurgos de Stálin, nunca esqueça a dica de Hannah Arendt, ao mergulhar na experiência do totalitarismo nazi-fascista: compreender, não é perdoar.

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  • Pablo Capistrano
  • 18 de outubro de 2018, as 7h07

 

Era de se esperar que isso fosse acontecer. Pela minha TL começam a desfilar uma série de depoimentos, reportagens, declarações e artigos que mostram que começamos a fazer a transição entre o discurso e ação. A violência estrutural que mantém o sistema de exclusão e opressão funcionando no Brasil cobra seu preço e depois que o mestre autorizou com seu discurso a violência redentora, que limparia as impurezas do Brasil, seus discípulos começam uma perigosa “passagem ao ato” com xingamentos, ameaças, violência física, armas apontadas, suásticas marcadas nos corpos de suas vítimas e facadas pelas costas.

 

Não adianta o candidato do PSL, em sua versão “bolsinho paz e amor” tentar diminuir a própria responsabilidade pela nuvem sinistra de violência que se anuncia. Seu gesto de campanha, fazendo sinal de tiro, mais até do que seu discurso de apologia a tortura e ao assassinato, atua como uma autorização direcionada à seus discípulos. A força simbólica desse ato de violência libera os conteúdos selvagens reprimidos pela moralidade pública e, em um contexto de descrença, medo e raiva, são como gasolina em um incêndio anunciado. Sim, os discípulos do mestre podem atirar. Mas contra quem eles atiram?

 

A julgar pelos depoimentos que começam a pipocar em nosso cotidiano, e pelos relatos que surgem das mais variadas fontes, o alvo estão definidos: mulheres (que parecem feministas), pessoas (que parecem homossexuais ou transgeneros), jovens (que parecem esquerdistas ou petistas), professores (que parecem doutrinadores comunistas), intelectuais e artistas (que parecem parasitas do dinheiro público financiados pelo Estado), negros e pobres (que parecem os bandidos que te assaltam na esquina).

 

Nesse sentido o direito de emitir o julgamento sobre o mal que precisa ser exterminado é transferido para “o soldado do capitão”, o discípulo do mestre, o adepto do messias que vai decidir, na rua, quem deve ser o alvo dos tiros que vão “salvar o Brasil”.

 

No futuro, quando os historiadores fizerem um apanhado desses anos conturbados, não poderão eximir muitos agentes da culpa pelo que se anuncia. A esquerda por suas falhas estratégicas, inconsistências programáticas e transigência com a corrupção; a centro direita pelo seu golpismo irresponsável, O poder Judiciário, que abriu mão da fidelidade aos princípios civilizatórios do direito moderno para patrocinar uma destruição do sistema político, rasgando sem nenhuma cerimônia o pacto constitucional de 1988. Também as redes de TV pela sua cantilena ideológica cotidiana, que entre imagens de canos de esgoto, de prisões cinematográficas, denuncias e delações lidas no horário nobre, enfiou goela abaixo do Brasil mantra ideológico de que “a culpa é do PT”, “a culpa é do PT”, “a culpa é do PT”…

 

No mesmo saco vão os liberais de fachada. Jornalistas, radialistas, intelectuais, acadêmicos e cientistas políticos que por má fé ou leniência jogam seu liberalismo de sovaco na cova rasa dos covardes. Sim… claro. Como não podemos esquecer dos cristãos de araque. Os hipócritas que vomitam o evangelho de um Jesus que mata, prende e esfola. Um Jesus que não acolhe, que exclui, que humilha e apedreja ao invés cobrir de amor aqueles que sofrem. Sempre que eu vejo um desses renascidos antenado com o discurso do falso messias do PSL, lembro da frase que diz: “o último cristão morreu na cruz” e fico imaginando em que bases hermenêuticas e teológicas esse povo se inspira para validar esse tipo de barbárie?

 

Em um país em transe, atravessamos esse segundo turno das eleições de 2018 sabendo que os monstros estão soltos e que a cadela do fascismo já deu cria nas ruas do Brasil.

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  • Pablo Capistrano
  • 26 de setembro de 2018, as 5h05

 

Parece sempre mais forte no Brasil a ideia hegeliana  de que os conteúdos não superados da história tendem a se repetir. Já tivemos Jânio, com suas vassouras; Collor o inesquecível “caçador de Marajás”, além do insuperável “pato amarelo da Fiesp” com sua ridícula dancinha anticorrupção. Agora, mais como tragédia do que como farsa, a história em seu usual percurso de bêbado, traz de volta os militares ao centro do debate político.

 

Tal qual em 1964 eles retornam de mãos dadas com a paranoia anticomunista e o surto moralista do caça aos corruptos, pautas que serviram de mote para todos os golpes que sacudiram o cenário nacional desde a década de 1930. A julgar pelas pesquisas mais recentes a animação nos quarteis deve estar em alta com a possibilidade da turma de Caxias ser recolocada no poder, dessa vez, através do voto direto. Mas, como toda disputa eleitoral tem seu teor de imponderabilidade, é preciso antes confirmar com os russos. Ou melhor, com o eleitor.

 

O fato é que, se o segundo turno entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro se consolidar, teremos provavelmente uma eleição plebiscitária em que os conteúdos de antipetismo e antibolsonarismo darão as cartas na definição do resultado do pleito. Em meio a tanto talvez, a única certeza é que essa será a eleição do não. O problema é saber: não a quê?

 

De fato, nem só de conteúdos afirmativos vivem os grandes projetos coletivos que guiam o destino dos povos. A negação, em muitos casos, é uma forma de afirmar a própria existência. Dizer não, em certos sentidos, é também dizer: eu existo, me recuso, não aceito, não me submeto. Negar é reagir, mas a reação, no campo político, pode também ativar o botão de autodestruição, em um bizarro balé onde, ao tentar eliminar o outro, a gente acaba destruindo o próprio tecido democrático.

 

É por isso que o termômetro que mede a febre coletiva dessa eleição será a da rejeição; e nesse quesito Bolsonaro parece imbatível. Desprezado especialmente pelas mulheres mais pobres, que enxergam, na sua retórica belicista uma ameaça a vida de seus filhos e netos (as grandes vítimas da violência coletiva que arrasa o pais com seus 60 mil mortos anuais), o ex-capitão do exército é rejeitado por aproximadamente 46% da população, um dado que pode ser fatal em uma campanha de tiro curto como é um segundo turno de uma eleição presidencial.

 

Mas o próprio Fernando Haddad, o mais tucano dos petistas (em quase todos os quesitos pessoais um antípoda de Bolsonaro), na medida em que herda os votos do lulismo também recebe a rejeição ao partido. O ex-ministro da educação, bacharel em direito e doutor em filosofia, acaba sendo rejeitado por aproximadamente 30% dos eleitores por motivos muito menos ligados a seus atributos pessoais do que pelo antipetismo visceral (uma das formas mais curiosas de transtorno político ideológico contemporâneo nesse Brasil que grita e baba).

 

Nessa brincadeira de “nãos” e “nuncas” o tal “centro” segue fazendo farinha e o caminho que o eleitor indica parece que será o da repetição da polarização que fez estrago nas reuniões de família aos Domingos e nos grupos de watts appdos amigos da escola no segundo turno de 2014, lembra?

 

Pois é, amigo velho, ainda estamos pagando um preço alto por aquela eleição que ainda não terminou. O acirramento da campanha de 2014 no segundo turno e o não reconhecimento do resultado por parte do grupo derrotado, que culminou na derrubada da presidente eleita, deixou marcas fundas na nação nos deu de presente esse ódio irracional que ameaça jogar uma democracia de pouco mais de 30 anos na sarjeta do autoritarismo.

 

Hoje, com a entrada dos agentes fardados na disputa, atuando em conjunto com alguns camaradas togados como um verdadeiro partido político, dispara o alarme de incêndio.  Em uma democracia que nunca teve tempo de crescer, num país acostumado a golpes de todo tipo, a impressão que a gente tem é de viver em um pesadelo, como se estivéssemos atados a uma eterna pulsão neurótica de repetição. Quando achávamos que já havíamos passado de fase no jogo civilizatório eis que aparecem mourões fardados falando em reescrever a constituição e ameaçando suspender a normalização do calendário eleitoral.

 

A grande tarefa agora, nesse Outubro que promete ser o mais tenso dos últimos anos, é de tentar encontrar algum “sim” em meio a tanto “não”. Numa campanha em que o ódio disputa com o medo, achar um lugar para esperança pode ser um ato de afirmação política fundamental.

 

E a esperança, nesses tempos sombrios rima com democracia, diversidade, respeito e liberdade, essa utopia que o sonho humano alimenta, mesmo que ninguém a explique, ainda que todo mundo a entenda.

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  • Pablo Capistrano
  • 12 de setembro de 2018, as 3h03

 

Uma semana após o atentado a faca sofrido pelo Deputado Jair Bolsonaro, a gente já sabe que o maluco que o esfaqueou ouvia a voz de Deus. Por isso, é preciso levar em consideração certos atenuantes, pois, como proclamava São Tomás de Aquino ainda no século XIII, a inimputabilidade penal  deve ser direcionada para três tipos de pessoas: as crianças, os loucos de todo gênero e aqueles dotados de uma espiritualidade superior (mesmo que não seja muito claro, na maioria das vezes, a diferença entre os sujeitos do segundo e do terceiro tipo).

 

Mesmo assim, teve quem sonhasse, espalhando fake newspelas redes sociais, em arrumar uma explicação político ideológica para a ação de Adélio Bispo de Oliveira. Acusado de petistapelos bolsonaristas empolgados com a possibilidade de colocar nas costas da esquerda a responsabilidade pela violência sofrida pelo seu mito particular, descobriu-se que o sujeito teria sido filiado ao Psolo que comprovaria sua suposta “esquerdopatia”.

 

A narrativa da violência política poderia até fazer sentido, afinal, já somam-se muitas as expressões desse tipo de fenômeno nesse ano de eleição que abriu com o assassinato covarde da vereadora Marielle Franco (ainda sem apuração concluída), manteve-se com tiros contra a caravana do presidente Lula e ameaça fechar com mais algumas manifestações de barbárie a julgar pelo alto grau de temperatura e pressão da campanha eleitoral. A impressão que temos, ao analisar o clima político no país é que, o brasileiro parece que se acostumou a dançar na beira do abismo, quer seja por infantilidade, loucura ou por estupidez mesmo.

 

O mais curioso é que, mesmo com toda comoção e a condenação generalizada que o atentado suscitou, o candidato do PSL não parece ter conseguido capitalizar um aumento significativo nas intenções de voto. Nem mesmo a piedade e comiseração cristã, bem brasileiras, que sempre transformam aqueles que sofrem, nas prisões ou nos hospitais, em santos martirizados, conseguiu diminuir a rejeição do ex-capitão.

 

Isso provavelmente se deve ao fato de a imagem de Bolsonaro já estar por demais ligada a violência para que seu esfaqueamento se torne uma ferramenta de capitalização política, afinal, um candidato que sugere que deveríamos metralhar opositores, que trata como herói gente que torturou mães na frente de filhos, e que ensina crianças a simular gestos de tiro não fica bem posando de vítima.

 

Bolsonaro paga politicamente pela banalização da violência que ele mesmo  naturaliza em seu discurso. No fim das contas, a única proposição mais ou menos clara que ele parece ter para a sociedade brasileira, pelo teor de suas falas e pelos gestos simbólicos de suas aparições públicas, é trocar a violência subjetiva que eclode aqui e ali em rompantes de criminalidade; pela violência sistêmica de uma normalidade mantida à bala, no melhor estilo Pinochet.

 

Como um “profissional da violência” a noção fundamental de seu discurso não é de uma “pacificação nacional” ou de um combate racional e técnico ao surto de criminalidade que acossa a população brasileira, mas sim uma fantasia escatológica de que esse surto de violência institucional seria a única ferramenta possível para manter o país sobre controle.

 

Mas o candidato esfaqueado não é um fenômeno isolado. O personagem que ele construiu e que vinha cultivando a décadas para sustentar sua carreira política de deputado federal com mais de sete mandatos, foi achado pelo complexo judiciário-militar que, em sua pretensão de destruir o sistema político, acabou ajudando significativamente a levar o ex-capitão do exército ao primeiro lugar nas pesquisas, ao mesmo tempo em que cuidava para que o nome do ex-presidente Lula fosse retirado do jogo eleitoral.

 

Nesse sentido, Bolsonaro é a expressão mais acabada do lavajatismo. No fim das contas ele é a consequência autoritária que emerge  da velha ideologia sanitarista que elegeu Jânio Quadros em 1960, que derrubou Jango em 1964, colocou Collor no Planalto em 1989 e apeou Dilma do poder em 2016.

 

A cantilena da moralidade, repetida à exaustão pela imprensa hegemônica, pelos agentes das castas togadas e pelo complexo policial-militar, não nos entregou mais democracia, mais pluralidade ou transparência. Do meio dos Moros, Bonners, Dallagnois e Barrosos a jogar lama na política e demonizar a democracia diariamente,  emergem do lodo da nossa história, autoritária e escravocrata, Bolsonaros e Mourões. Profissionais da violência que vendem a uma população apavorada o mito de um violência redentora, que cauterizaria o caos imaginário de nossas fantasias sociais em uma nova ordem feita de sangue e silêncio.

 

Não há como ler o significado de uma candidatura como a de Bolsonaro sem montarmos essa articulação que une lavajatismo e sua cruzada religiosa contra a política ao ressurgimento no palco da política da figura do general fardado que fala em “combater a anarquia”. A questão ideológica parece simples. Se não conseguem vencer pela força do voto, vão tentar decidir o campeonato no tapetão dos tribunais ou, como uma última alternativa, vencer a disputa política pela força da bala.

 

Por isso, por mais que a gente se indigne com a brutalidade do atentado contra um candidato a presidente que tem mais de 20% das intenções de voto, não há como ter pena Bolsonaro, afinal, se você quer dançar na beira do abismo não vá depois reclamar da altura da queda.

1 Comentário
  • Pablo Capistrano
  • 05 de setembro de 2018, as 5h05

 

Em 1999 eu viajei à Grécia. Era meu último ano no curso de filosofia da UFRN e queria conhecer in loco a terra em que Sócrates, Platão e Aristóteles teriam andado, mais de dois mil anos antes de meu nascimento. Lembro que, ao visitar a Acrópole, fomos, eu e minha esposa Ana Cláudia, a um pequeno museu perto do Paternon, templo da deusa Atena (ou o que sobrou dele após os turcos terem dinamitado boa parte da construção durante a guerra da independência grega no século XIX). Lá chegando identifiquei de imediato um grupo de brasileiros que estava, como eu, fazendo turismo pelas ruínas. Ao me aproximar, no intuito de trocar algumas palavras em um idioma conhecido, ouvi um sujeito de aproximadamente minha idade, com um forte sotaque paulistano, dizer em alto e bom som algo do tipo: “Não acredito que a gente pagou pra ver esse monte de pedra”.

 

A frase me doeu nos ouvidos. Foi suficiente para recursar qualquer tipo de interação com compatriotas até o fim da viagem.

 

Mesmo diante desse tipo muito usual de ferida turístico-narcísica, que muitas vezes nos acomete quando nos deparamos com outros brasileiros em viagens pelo exterior, não deveríamos cair em mitologias culturalistas redutoras diante da tragédia que transformou em cinza milhares de anos de história das Américas em pouco menos de quatro horas. Não deveríamos ser nós, “o povo brasileiro”, essa abstração ideológica, os culpados pela catástrofe que destruiu o Museu Histórico Nacional da Quinta da Boa Vista. Quando a memória de um país pega fogo, culpar todo mundo é a melhor forma de não responsabilizar ninguém.

 

Mesmo assim não há como negar que o brasileiro médio dá pouco valor a história e não entende que cultura e ciência fazem parte de um capital imaterial de valor incalculável.  Em um país em que proliferam doutrinas ideológicas do tipo “Escola sem partido” que tratam professores como bandidos, em que gente nas redes sociais pede o fim dos cursos de humanas nas universidades federais (supostamente antros de formação de “esquerdopatas”) ou que vibram com força diante do anúncio do desaparecimento de disciplinas como filosofia e sociologia dos currículos do ensino médio, parece fácil entender o porquê de um patrimônio incalculável como o Museu Nacional vinha sendo negligenciado a tanto tempo.

 

Desde 2014 o museu não recebia os 520 mil reais necessários para sua manutenção. Em 2015, com o corte de gastos e a adoção por parte do governo Dilma da agenda FIESP, que abriu alas para o austerícidio do governo Temer, o orçamento caiu para 257 mil. Em 2016 subiu um pouco para cair novamente em 2017 e desabar de modo vergonhoso para 54 mil liberados até agora em 2018.

 

Se fizemos um passeio pelos arquivos jornalísticos vamos ver que sobram reportagens sobre as más condições do museu, com mofo, goteiras, ameaça de desabamento e infiltrações pelo menos desde 1978.

 

Por isso, o que todos os governantes que já passaram um dia pelos palácios desse país deveriam fazer de honesto diante dessa tragédia anunciada seria pedir perdão ao povo brasileiro ajoelhados no milho, de preferência se autoflagelando com chicotes de prego.

 

Mas a santa iniciativa privada não fica por menos. Para a decepção dos adeptos da religião do mercado, que acreditam piamente na competência virtuosa do empresariado brasileiro, fica o gosto de barro na boca quando a gente descobre que entre 2010 e 2018 o Museu Nacional teve 06 projetos aprovados para a captação de recursos pela lei Rouanet no total de 17 milhões de reais mas que conseguiu receber recursos privados em apenas um desses projetos, captando aproximadamente 10% do montante proposto nos oito últimos anos.

 

Nenhuma empresa privada apoiou o Museu quando a direção tentou ampliar o acesso a seu acervo virtual ou quando tentou reabrir nove salas fechadas a mais de 15 anos. Também não teve empresário que se dispusesse a fornecer dinheiro para a recuperação do telhado do prédio ou a criação de um sistema novo de prevenção de incêndios. Diante de uma queda de 34% no volume de visitas entre 2013 e 2017 os gentis homens do capital tupiniquim talvez não acreditassem que relacionar suas marcas a um museu seria um negócio lucrativo.

 

O lado terrível e irônico disso tudo, é que o BNDES programou para esse ano a liberação de 21 milhões de reais para a reforma do museu.

 

O fogo chegou antes do dinheiro.

 

Dizem os cronistas antigos, que Heráclito, o grande pensador de Éfeso, teria escrito em pedra seu livro “Sobre a natureza” e afixado suas palavras nas paredes do templo da deusa Hécate. Mesmo assim, a pedra na qual seu livro estava escrito ruiu com o colapso do templo da deusa e tudo que resta de seu pensamento hoje são fragmentos citados por outros autores.

 

É a consciência dolorosa da impermanência de todas as coisas que faz o ser humano recolher as ruínas da história em pedras, vasos partidos, antigos manuscritos, ossos de animais fossilizados ou estatuas mutiladas. A busca de preservar essas ruínas não apenas é uma espécie de desobediência humana contra o tempo, mas também é uma forma de recuperar os traços de uma narrativa que nos compõe nossa experiência comum. Uma narrativa que explica a nossa origem, cria as impressões de um destino coletivo e lança as bases de um futuro possível.

 

Museus são como templos. Espaços de desobediência contra o efeito cauterizador da história que reduz toda memória, como em um imensa tempestade de fogo, às cinzas da silenciosa imobilidade do esquecimento.

 

Ver o Museu Nacional desaparecer no fogo da negligência queima a esperança de todos nós que labutamos diariamente com as humanidades, a ciência  e a cultura em um país onde esquecer parece ser uma obsessão nacional.

Por isso, vou confessar uma coisa, amigo velho, é muito difícil não desistir de um país como esse numa hora dessas.

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2007 ® Pablo Capistrano

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