15 mai
Por um resÃduo de verdade
- 15 de maio de 2012, as 5h05
Não sei você, amigo velho, mas eu dei uma olhada nas fotos roubadas de Carolina Dickemann, que foram jogadas na rede essa semana. Mas não olhei apenas porque Carolina é linda (uma evidência); por ela ser famosa (um fato) ou de ela ser uma boa atriz (uma probabilidade).
Apenas esses indÃcios não explicam a histeria viral em torno das fotos de Carolina na rede.
Com tantas mulheres nuas pela internet, com tanto sexo e tanta pornografia amadora, para todos os gostos, todas as taras, todas as práticas e
narrativas sexuais disseminadas pela fantasia humana, o que poderia produzir a exposição de mais um corpo feminino no mundo do voyeurismo virtual?
O que moveu o Brasil em sua busca pelas fotos roubadas de Carolina foi a saudade.
Uma longa e sufocada saudade. Uma estranha e recalcada nostalgia da verdade que, de vez em quando, desponta como um aviso, uma lembrança, um sintoma, nesses tempos de alienação e exclusão. Nessa era em que apenas um simulacro do mundo nos é facultado.
A verdade sobre o corpo da atriz; a verdade sobre a alma da mulher que se prepara todo dia para ser vista pelo mundo. A verdade que parece ter abandonado um horizonte cheio de realidades paralelas que, de tão simuladas, de tão projetadas na tela de nossas ideias, de tão brilhantes, coloridas, proporcionais e higiênicas, não são mais sentidas.
Emanuel Lévinas, o filósofo judeu acusado pela esquerda pós-moderna de ser mais um sexista reacionário , dizia que toda conquista sexual masculina é fadada ao fracasso. Nunca, nenhum homem, em nenhum momento da história, reteve o feminino que ama esconder-se pelo corpo e pela alma da mulher. Por mais que o homem tente submeter sexualmente uma mulher, ele nunca, na leitura de Lévinas, vai atingir o centro de seu próprio desejo. Porque o feminino absoluto que o homem deseja se esconde quando o buscamos, e só se mostra, quando distraÃdos, pensamos que não o temos mais.
Mas, se isso era assim no tempo do mundo (o desejo louco pelo corpo do outro, pela verdade da carne) nesses tempos virtuais, se soma a náusea sem fim que a pornografia em rede causa àqueles que já superaram a fase do onanismo militante.
São tantas imagens de corpos, amigo velho, tantas damas preparadas pelo cosmético eletrônico, tantos rostos se contorcendo de um prazer abstrato e fantasmagórico, que não há mais espaço para a irregularidade da vida, para o cheiro biológico do sexo alheio, para a tessitura do toque feminino que nenhum computador consegue reproduzir.
Por isso, é preciso simular o acaso, apostar no amadorismo, torcer para que as fotos da atriz não tenham sido projetadas para as redes, para as realidades virtuais do grande cérebro coletivo que nos pensa e nos rapta em seus fragmentos fluidificados.
Sim… queremos Carolina.
Mas não a Carolina da tela da TV, a Carolina da foto do estúdio, a Carolina do Facebook, do twitter. Precisamos de alguma verdade sobre o corpo daquela mulher. Alguma verdade que nos traga de volta a fascinação fundamental por aquilo que ama se esconder, que não se reduz a uma imagem, que não se submete a um signo, que não se traveste em uma ideia. que escapa da fantasia monstruosa feita de retalhos que as vezes a Internet parece ter se transformado.
Nessa época de simulacros, aspiramos por aquilo que nunca se reduz, nem se entrega; por aquilo que foge quando olhamos; que dissuade quando tentamos reter. Se existem bilhões da Carolinas reais, em suas teias virtuais, construÃdas pelo esforço fragmentário da grande maquinaria da mente computacional; Carolinas que se duplicam em velocidade viral, que são vistas pelo intermediário frio de nossa neblina de signos, o que nos sobra é só esse desejo por um pedaço de verdade que nos ajude a escapar desse resÃduo de real que se tornou a vida.
Nessa rede de imagens descoladas e de fantasias semióticas, queremos a verdade, mesmo que seja estranho; mesmo que seja bizarro, bizarro.


