Content on this page requires a newer version of Adobe Flash Player.

Get Adobe Flash player

26 out

Retalhos

  • Pablo Capistrano
  • 26 de outubro de 2009, as 15h15
Thompson tem um controle fino da narrativa com imagens como só Eisner, Proust e o cinema francês sabem ter.

Thompson tem um controle fino da narrativa com imagens como só Eisner, Proust e o cinema francês sabem ter.

Eu me fiz com os quadrinhos. Se um dia, alguém quiser pensar em começar minha biografia literária poderia inicia-la com a seguinte frase: “No princípio era a Marvel e a DC comics…” não necessariamente nessa ordem.

O fato é que em algum momento da minha vida a literatura substituiu as Hqs e isso teve a ver com minha primeira leitura de Watchman (na década de 1980) e com o fim da revista Animal.

Não sei se você lembra, mas a revista Animal circulou entre 1988 e 1990 (eu acho) e trazia o melhor dos quadrinhos undergrounds que circulavam naquele tempo. Peter Punk, Ranxerox…. não dava para voltar para o mundo dos super-herois depois daquilo. Não era possível ler mais, nem o Cavaleiro das trevas nem A crise das infinitas terras do mesmo modo.

Aliado a minha frustração de não conseguir adquirir a quinta parte da série Incal de Jordorovski e Moebius um sentimento de abandono dos quadrinhos me invadiu e eu deixei-os para trás durante todos os anos noventa e boa parte dos 2000 (com a saudável exceção da leitura de Sandman é claro).

 Eis que agora nessa altura de meus trinta e tantos, começa a ressuscitar em mim aquele gosto pela leitura de Hqs. Art Spiegelman, Joe Sacco, Marjanne Satrapi, David B. desenvolveram essa linhagem de quadrinhos biográficos e por um motivo que ainda não está muito claro voltei a leitura sistemática de Hqs.

A última foi a do Craig Thompson, Retalhos.

O trabalho é fino, certeiro, exato e talvez mais um ou dois adjetivos que me passem pela cabeça daqui até o fim desse comentário. Acho que, para além do tom simplesmente memorialista e daquele lirismo adolescente dos filmes de John Hughes, há um domínio perfeito da narrativa de imagens, coisas que só o cinema francês, os textos de Proust e os quadrinhos de Eisner conseguem reter.

Não sei se essa tendência vai se esgotar rápido, porque quando o mercado encontra um nicho e o explora com a voracidade que lhe é peculiar, geralmente destroça suas potencialidades muito rapidamente. O fato é que Retalhos parece ter chegado na hora certa para mim.

Tudo tem seu tempo na vida. Há o tempo dos heróis, o tempo das coisas loucas e bizarras da mente e o tempo absoluto da memória. Parece que minha geração está chegando neste tempo. 


Deixe seu comentário

2007 ® Pablo Capistrano

dz3