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  • Pablo Capistrano
  • 30 de outubro de 2009, as 7h07
 

Liberdade Guiando o Povo, e a democracia?

Liberdade Guiando o Povo, e a democracia?

Existem algumas palavras que são submetidas a um rigoroso e sistemático processo de “designificação”. O processo é simples, um termo qualquer começa a ser usado para designar coisas absolutamente divergentes. Aos poucos, o termo começa a ser utilizado para designar qualquer coisa e como qualquer coisa não é, especificamente, coisa nenhuma o termo esvazia e murcha, perdendo o seu sentido.

Nossa contemporaneidade fez isso com a palavra “amor”, com o termo “ética” e, aos poucos, começa a avançar sobre a ideia de “democracia”.  O caso exemplar da crise de Honduras mostra como isso acontece. Naquela situação, tanto o presidente deposto, quanto os golpistas que o depuseram, apelaram para a “democracia” para justificar suas práticas políticas, criando um vazio semântico que forçou muita gente boa, a tentar reencontrar algum atual sentido oculto, nesse velho termo, que o ocidente herdou da Grécia de Péricles.

Talvez haja, junto à grande dificuldade de se compreender claramente o que significa “democracia”, a evidência de certo medo que o termo ainda provoca. Olha que esse medo não é novo. Dizem que Platão em algum lugar teria afirmado: “quanto mais próximo da democracia mais perto do caos”. O fato é que mesmo aqueles que não compreendem o sentido da palavra democracia, e mesmo os que temem seus efeitos, hoje, usam o termo como justificativa para seus atos. O que acontece com a democracia nos dias atuais é que ela se tornou uma unanimidade inócua, um tropo retórico que serve para temperar o discurso de conservadores e radicais, liberais e comunistas, direita e esquerda, torturadores e torturados. Não importa o seu lado, não importa o conteúdo de seus atos, não importa as opções políticas, governantes de todas as cores apelam para a democracia e ajudam a produzir sua designificação.

Nas empresas, especialmente as públicas, fala-se muito, por exemplo, em “gestão democrática”. Há até algum esforço honesto em tentar listar uma série muito bem formulada de procedimentos, práticas e posturas administrativas que se enquadrariam em um modelo democrático de gestão. O problema é que a nebulosidade do conceito contribui para que qualquer prática de qualquer gestor seja enquadrada em uma ideia muito pouco clara de democracia. Como qualquer coisa pode ser democracia, qualquer atitude pode ser justificada em seu nome.

Como o poder se espalha pelo cotidiano das relações pessoais, viajando para atingir o corpo e a mente dos indivíduos, a ideia de uma gestão democrática ganha conotações apavorantes em lugares que mantém práticas administrativas centralizadas e baseadas em um conceito rígido de hierarquia e comando. Mas, mesmo nesses espaços, o termo democracia não deixa de ser usado, porque ele serve bem, hoje, a qualquer senhor.

A questão é que para se apostar na democracia é preciso não ter medo do caos. É preciso confiar na autonomia dos indivíduos e na capacidade do grupo de gerir suas próprias decisões a partir de uma harmonia superior do todo, que é produto do ruído borbulhante das partes. Apostar na democracia é confiar na descentralização da administração, na disseminação do poder, na fragmentação das decisões. Antes de mais nada, é acreditar que é possível haver eficiência na liberdade e que a ordem pode emergir de um caos fundamental que pluralize o mundo sem dissolve-lo.


7 Comentários para “Democraia, pra que te quero?”

  1. Tânia Costa1/11/2009 às 18:29

    Muito bom o texto. É verdade que muitas coisas são (in)justificadas em seu nome [...a nebulosidade do conceito contribui p/ q/ qualquer prática de qualquer gestor seja enquadrada em uma ideia muito pouco clara de democracia...]. Muito oportuno seu texto nestes tempos de elaboração de P.P.P. Pena que as pessoas nem sempre aprendam o

  2. Tânia Costa1/11/2009 às 18:30

    que ensinam.

  3. Márcio Azevedo3/11/2009 às 5:53

    Parabéns, Pablo, pelo texto. De fato, nos preocupa como as concepções, os conceitos e as definições, como a de gestão democrática têm sido pesadamente designificadas, em detrimento da (re)siginificação e do que é realmente necessário à conquista da autonomia institucional e da democratização das ações e das práticas, no caso da educação. Pela pertinência e capacidade crítico-analítica do artigo, sugiro repensar aquilo que foi definido como “disseminação” do poder, visto que podemos disseminá-lo, sem democratizá-lo, bem como à “fragmentação” das decisões, ao meu ver, só reforçam a centralização. São questões que instigam o debate. Parabéns!

  4. Antonio Carlos3/11/2009 às 11:15

    Excelente recordação caro professor! Aqui você realiza aquilo que chama atenção no seu livro(Simples Filosofia – Estou indicando aos meu alunos) e que eu defino como inteligência:”…falar de forma simples sobre coisas
    profundas…”


  5. Uma boa definição de democracia – que não sei se é de Platão ou de quem quer que seja – é: governo das LEIS, não dos homens.

    Pois bem. Em Honduras, Manuel Zelaya foi destituído pelos “golpístas” por causa disso aqui:

    “El ciudadano que haya desempeñado la titularidad del Poder Ejecutivo no podrá ser Presidente o Designado.

    El que quebrante esta disposición o proponga su reforma, así como aquellos que lo apoyen directa o indirectamente, cesarán de inmediato en el desempeño de sus respectivos cargos, y quedarán inhabilitados por diez años para el ejercicio de toda función pública.”

    (Artigo 239 da Constituição da República de Honduras)

    Quem é golpista?

    http://gustavo-livrexpressao.blogspot.com/2009/10/um-resumo-das-mentiras-sobre-honduras.html

  6. Berg Pessoa5/11/2009 às 5:48

    Caro Pablo, em tempos de crise moral e esfacelamento de valores minimamente coletivos, onde a soberba de nossa governança acredita ver o inimigo, o seu texto nos faz refletir se isso tudo é o acaso de momento ou algo orquestrado para inibir o entendimento, apostando no interesse privado escuso e no medo imposto. Parabéns!

  7. Antonio Neto5/11/2009 às 8:23

    Pablo como você consegue falar de temas densos com leveza. Sua forma de abordagem dos mais diversos temas nos leva ao deleite lúdico da reflexão.Que sacada essa sua sobre a democracia. Fazendo um trocadilho: de muito usada essa palavra já não corta. Parabéns! Um abraço!

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