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  • Pablo Capistrano
  • 16 de novembro de 2009, as 5h05

Na década de 1920 o Jazz já havia migrado de Nova Orleans para o norte, indo chacoalhar Chicago e Nova York. A música sexual dos prostíbulos de Storyville produzia uma revolução na maneira como os norte americanos dançavam. Antes do rock, antes da discoteca, antes do trance, o Jazz sacudiu o mundo com seu ritmo frenético, que acompanhava os movimentos sexuais dos quadris femininos e o chacoalho das pernas dos jovens de costa à costa.

Antes do Rock, antes da discoteca, antes do trance, o Charleston fez o mundo dançar

Antes do Rock, antes da discoteca, antes do trance, o Charleston fez o mundo dançar

 O Charleston invadiu a América com um frenesi impressionante, impulsionando os músicos de Jazz a sair pelo país tocando em clubes ou em tendas armadas em terrenos baldios. Durante os anos de 1920 o Jazz foi a trilha sonora da grande euforia que o capitalismo norte americano exportou para o mundo.

Aqueles foram anos loucos, de excessos e de culto obcecado à liberdade, preconizados pela exuberante eclosão de um Zeitgeist (espírito de época) radicalmente moderno. Nova York, Berlin, Paris, São Paulo, em cada grande metrópole ocidental ecoava a vibração das vanguardas anunciando que finalmente o velho mundo do século XIX, com seus resíduos aristocráticos estava morrendo e uma nova maquinaria de massas estava surgindo junto com a poesia futurista, a pintura expressionista, o cinema e o rádio.

Enquanto isso acontecia, Armstrong excursionava com a banda de Fletcher Henderson e foi justamente em uma de suas apresentações pelo meio oeste que um jovem branco, filho de um rígido pastor protestante de Davemport (Iowa) ouviu, pela primeira vez, o trompete de Little Louis (como era chamado Armstrong pelos colegas de banda). Bix Beiderbecke, logo, logo, a despeito da oposição da família, começou a tocar Jazz e veio a se tornar um modelo para os músicos brancos. Ele era comumente comparado a Armstrong e arrumou um emprego muito bem remunerado na orquestra de Paul Whiteman, um maestro que havia formado uma Big Band de Jazz sem negros com um objetivo claro de rivalizar com o grupo de Henderson e formar uma antítese, uma alternativa “etnicamente mais conveniente” para uma platéia só de brancos, que queria consumir aquela música nova e exuberante sem ter de lembrar sua origem.

Whiteman e Henderson com as suas bandas de Jazz, buscavam aliviar a pressão e tornar o som de Nova Orleans mais palatável, mais orquestral, mais Europeu. Enfim, mais afinado com o gosto da classe média branca norte-americana. Em 1924, na mesma época em que Armstrong entrou para a banda de Henderson, Whiteman tocava no Aeolian Hall (perto da famosa Times Square). Ali, o maestro branco apresentou para o público da High Society uma das primeiras experimentações que buscava unir o Jazz e a música erudita européia. Tratava-se de Rapsódia em Blue para piano e orquestra de um jovem e desconhecido compositor chamado George Gershwin. Aquela era uma peça erudita, cercada por um profundo sentimento de Jazz e de Blues. Uma peça orquestral tocadas por brancos, para brancos, em um ambiente freqüentado pela elite social do país. Depois dessa apresentação Whiteman, que era também violinista erudito, foi aclamado pela imprensa como o grande rei do Jazz e chegou a vender mais de dois milhões de cópias de seus discos.

Tentando superar seu oponente, Henderson apresentou-se no Times Square com sua banda de negros. Aquele também era um som orquestral, elegante, limpo, sem a força do improviso nem a pegada crua do Jazz de Nova Orleans. Henderson proibia inclusive Armstrong de cantar porque achava seu estilo “negro demais” para um público consumidor das classes mais aristocráticas, que queriam estar na moda do Jazz sem ter que sujar os pés ou os quadris no ritmo dos prostíbulos de Storyville.

Aeolian Hall, aqui Rapsodia em Blue de Gershwin foi apresentada pela primeira vez ao público

Aeolian Hall, aqui Rapsodia em Blue de Gershwin foi apresentada pela primeira vez ao público

Armstrong e Beiderbecke foram vítimas de uma época que acreditava em raças. Reza a lenda que uma noite Armstrong assistiu uma apresentação de seu rival branco. Depois que o show acabou, Armstrong teria convidado Beiderbecke para um duo em seu quarto de hotel. Naquela noite, no fim dos anos vinte, em alguma cidade fria do norte, vários músicos se imprensaram entre as camas e as mesas de cabeceira, cheiras de cigarros e copos de bebida para ouvir uma sessão com os dois maiores trompetistas de Jazz de sua geração. Ninguém registrou o encontro. Ninguém, a não ser alguns poucos amigos ouviram o duo, porque, naquele tempo, um negro e um branco não poderiam subir em um mesmo palco. Não poderiam tocar juntos, partilhar do prazer de dividir um fraseado melódico, de intercalar um solo ou de compor uma mesma harmonia.

Beiderbecke, que era fã de Armstrong e que havia sido despertado para todas as potencialidades do Jazz ao ouvir o Little Louis tocando em Iowa, foi uma vítima estética da segregação. Condenado a ver seu desempenho musical limitado, rejeitado pela família que considerava o Jazz uma música promiscua, isolado, consumido pelo álcool, morreu em Agosto de 1931, sozinho, em quarto vagabundo no bairro de Queens em Nova York, aos vinte oito anos.

 Sua vida tinha tantos elementos romanceáveis (conflitos familiares, alcoolismo, segregação, amor incondicional pela arte, morte trágica ainda jovem) que Beiderbecke se tornou, nos dizeres de Benny Green, o primeiro “santo do Jazz”.

Aqueles eram tempos loucos e frenéticos. Tempos em que a modernidade parecia que iria avançar sobre o velho mundo, destruindo todas as fronteiras e todos os limites que condicionavam e sufocam as potencialidades humanas. Mas naqueles anos, ainda estava contida a força destrutiva que arrastaria milhões para a morte e o genocídio duas décadas depois. A ideia de raça, esse desserviço à humanidade, fazia também seu estrago no mundo da música. O papel do Jazz no século XX seria justamente o de se contrapor a esse espectro racial. Para além da África e da Europa, o encontro entre Armstrong e Beiderbecke (a despeito de ser ou não um mito) apontava para a utopia de um novo mundo que o Jazz ajudaria a construir, além do negro, além do branco, além do blues.


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2007 ® Pablo Capistrano

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