- 16 de novembro de 2009, as 4h04
Meu tio, Antônio Capistrano, me presenteou com três filmes. Persepólis, baseado na história em quadrinhos homônima de Marjane Satrapi; Sócrates de Roberto Rossellini; e Zeitgeist um estranho misto de documentário e panfleto.
O último dos três DVDs me chamou particularmente atenção, porque, apesar do tom às vezes excessivamente panfletário, oferece de modo muito claro, o roteiro da nova esquerda, que começa finalmente a se rearticular depois dos anos de ressaca que sucederam ao colapso do socialismo real.
O filme é fundamentalmente “melancia”.
Verde por fora e vermelho por dentro (como se costuma a dizer aqui no RN em relação a uma parcela da torcida do Alecrim Futebol Clube). O vermelho vem, é lógico, de Marx (uma presença muito evidente no filme) o verde, vem de Heidegger.
Não sei se você sabe, mas Heidegger é o pensador central do movimento ambientalista. Há uma conferência datada de 18 de Novembro de 1953, intitulada A questão da Técnica em que Heidegger aponta para a base filosófica fundamental dos movimentos verdes ao redor do mundo. A noção é a de que a sociedade tecnológica é uma derivação de um humanismo metafísico que, segundo ele, teria origem na antiga Grécia e que se consolida com a filosofia cristã medieval.
Heidegger entendeu e explicou como poucos que o colapso ambiental é resultado de um avanço do humano sobre o natural. Em um sentido, o homem antropomofiza o mundo, ou seja, ele transforma o mundo e faz com que o mundo tenha a face do homem. O humanismo entra na jogada porque as bases religiosas (judaicas, cristãs ou mulçumanas) afirmam que Deus criou o homem a sua imagem e semelhança.
Ora, se Deus é o autor do universo (conforme essas religiões apregoam) e se ele criou o homem a sua imagem e semelhança, há algo especial em nós. Há um direito de propriedade do homem sobre o mundo natural que surge justamente de sua “superioridade ontológica”.
Calma, vou explicar o filosofema: superioridade ontológica do homem quer dizer algo como “nós somos especiais porque somos divinos”.
A idéia de que o homem é um alienígena, um marginal biológico, um inquilino no planeta pode ser vista, a partir da leitura de Heidegger, como produto de um discurso que cria um reino separado para os humanos. Assim, a terra é, nos dizeres de Francis Bacon, “uma mulher pública; devemos amestrá-la, penetrar seus segredos e acorrentá-la conforme nossos desejos”.
Essa turma do Zeitgeist junta uma didática explicação econômica de como o sistema financeiro funciona e como esse sistema cria um modelo de dependência global do capital das grandes corporações (aqui é onde aparece as tendências marxistas do filme), à idéia de que é preciso uma revolução na consciência da humanidade que construa uma nova aliança com o mundo natural e interrompa o delírio humanista de dominação e exploração do meio ambiente.
Essa parece ser a tendência dessa nova esquerda. Uma fusão curiosa entre a banda de Heidegger que não cede aos apelos nazistas, com a banda de Marx que oferece o diagnóstico da doença econômica do sistema (sem apelar necessariamente para a prescrição da medicação que seria a revolução operária a partir de um partido político).
Tudo isso na melhor tradição norte-americana da rebelião anti corporativa, que junta muita gente como Thomas Paine, Thoreau, Martin Luther King, Walt Whitman, Lincoln e Andrew Jackson.
Talvez você não goste do filme pelo tom panfletário e porque, cinematograficamente ele é sofrível, mas uma coisa é certa, muito provavelmente ele vai te oferecer o roteiro da esquerda dos próximos anos que vai pautar significativamente nosso horizonte político.
Isso é… se 2012 não lascar com a civilização de uma vez.
7 Comentários para “Nova Esquerda: Heidegger e Marx.”
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Eu vi o Zeitgeist, e pelo que li no seu texto, eu sou da Nova Esquerda e não sabia, haha. Mas ainda prefiro evitar o termo.
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Pablo, meu grande:
Esse negócio de “nova esquerda” já é uma merda (a velha era uma bosta, a nova não fica muito atrás). Marcuse, Horkheimer, Habermas misturado com Lacan e psicanálise só pode dar uma gastura danada. Quando se mistura tudo isso com Heidegger, ambientalismo e o velho Carlos Marques comedor de empregadas aí é uma turica só, a caganeira mental é garantida. Esqueça esses “melancias”, esses neomarxistas de galinheiro e venha pro bright side da Força.
Abraços.
Gustavo -
caraca Pablo,
num sei porque passei tanto tempo sem dar uma passada por aqui, e quando passo fico sabendo quem tem novo livro na praça e um site todo novo que não me acostumei ainda…
saudações
felicitações! -
Mestre Pablo um abraço!
Não sou seu aluno regular em uma carteira de universidade, mas aprendo muito com você. Por isso o Mestre! A discussão que propõe com o texto acima é de fundamental importância para a humanidade. Temos de buscar na Filosofia, História, Economia, Sociologia e demais Ciências Sociais e nas Ciências Naturais exatamente isso: a politização da tema. Em 1972, na Primeira Conferência da ONU para o Meio Ambiente, realizada em Estocolmo na Suécia, a própria burguesia, que tem o instindo biológico e não apenas economico de sobrevivência, tinha encomendado ao Clube de Roma, um relatório sobre a quantidade e esgotabilidade dos recursos naturais em todo o planeta. Esse estudo teve como conclusão o Relatório de Meadows, que dizia, resumidamente, o seguinte: em 2020 alguns recursos naturais estariam esgotados. Proposta do Relatório de Meadows: crescimento econômico zero. Bem, o que vemos até agora é apenas a busca incessante, realizada pelo grande capital, em manter as taxas de lucro, a concentração da riqueza e a desumanização da espécie. A capacidade de destruição da natureza é 25% maior do que a capacidade de recuperação dos recursos e sistemas naturais. Estamos impotentes diante dessa dramática situação e ainda percebemos uma brutal desinfomação sobre a questão. Valeu pelo artigo! um abraço amigo e fraterno como era dado pelos velhos comunistas!
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Que estranho…
Sempre achei que a tragédia de Chernobyl, o maior desastre ecológico da História, tivesse ocorrido na antiga União Soviética, mas, pelo visto, pelo que disse o camarada acima, deve ter sido em algum país capitalista, onde “o lucro, não as pessoas” está em primeiro lugar, como os EUA…
Pablo, não sei quanto a vc, mas se alguém me dá um abraço como o dado pelos velhos comunas, eu tomaria depois um banho de arruda. Abraço mortal esse: com o peso de uns 100 milhões de mortos, pra ser mais exato.
Abraços antitotalitários.
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Professor,
adorei esse seu texto! Eu fiz umas coisas nesse sentido de puxar Heidegger para o lado a perspectiva da sustentabilidade na disciplina que eu estou pagando de Compromisso Pró-Ambiental. Mas como eu estava analisando a influencia da perspectiva temporal no cuidado com o meio, eu fui para um lado mais “ser em direção a morte”, que propriamente sociedade da técnica. Não me sinto ofendida em ser chamada de Nova Esquerda. Pra quem acreditava piamente na cartilha de Marx isso é o de menos. Ah! Eu vou mandar esse texto para o pessoal de lá, posso?Até, Bárbara
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Bárbara, essa leitura do Heidegger como influência para o movimento ambiental aparece depois da década de 1950 quando ele publica o texto sobre a questão da técnica.
Curiosamente o Heidegger dos anos de 1930 e de 1927 acabou sendo lido sobre a ótica do Gadamer e os problemas hermenêuticos e existenciais ganharam certo peso. Ai a ideia de temporalidade e a questão do Ser-para-à-morte (Sein zum Tod)
Uma alternativa a essa visão pode ser a leitura que o Otto Pöggeler produziu.
A partir dai surge a ideia dos três heideggers:
(1) um Heidegger protestante em Ser e Tempo,
(2) um Heidegger nacional-socialista (ou quase isso) nos anos de 1930
(3) um Heidegger que aderia ao paganismo e ao panteísmo germânico arcaico nos anos de 1950 e 1960.Essa leitura da questão da técnica na conferência de 1953 (se não me engano) se situa nesse último campo.
Sabe como é,
deixar as coisas ser o que elas são
e devolver à terra o seu poder.Bem hippie não é?
Keep on the beat!