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  • Pablo Capistrano
  • 25 de novembro de 2009, as 5h05
Vestimentas de São Paulo, quadro de Andrien Taunay - 1825

Vestimentas de São Paulo, quadro de Andrien Taunay - 1825

Em 1757, um militar francês chamado La Flotte foi convidado para participar de um baile no Rio de Janeiro. Qual não foi a surpresa do francês ao entrar no salão e ver que não havia mulheres. Apenas dois ou três homens vestidos com roupas femininas se punham a disposição para dançar com os convidados, para que o baile não se tornasse um fracasso. O governador da província, constrangido, pediu desculpas aos visitantes e reclamou do ciúme doentio dos homens cariocas, que não haviam permitido que suas esposas viessem ter com os estrangeiros.

Intrigado com aqueles costumes exóticos, La Flotte escreveu: “não há no mundo cidade onde as mulheres sejam mais livres, o que conseguem servindo-se dos mesmos meios utilizados para impedi-las de o ser. Como todas se escondem atrás de um véu e se vestem de preto, é impossível ao olhar mais penetrante distingui-las umas das outras. Assim, uma mulher, sob o pretexto de ir à igreja, pode tranquilamente dirigir-se para um encontro amoroso sem ser reconhecia”.

Eu também fiquei surpreso quando li esse relato. Não pelo fato de discorrer sobre a ousadia das mulheres do Rio, ou da infidelidade tropical alimentada pelo calor e pela energia sexual que surge daquele mar maravilhoso. Fiquei surpreso pelo fato do relato lembrar um costume que eu achava estar concentrado no oriente: o uso da burca.

Um quadro em aquarela e nanquim datado de 1825 e de autoria de Adrien Taunay intitulado “Vestimentas de São Paulo” mostra duas mulheres, vestidas de preto, cobertas dos pés à cabeça, deixando à mostra apenas um pequeno brilho cor de pele, fraco o suficiente para não definir qualquer traço particular no rosto.

O que essa imagem me fez pensar é que a tese do Samuel P. Huntington, quando aplicada às relações entre cristãos e mulçumanos, não parece fazer muito sentido. Não sei se você sabe, mas o Huntington ficou famoso esses dias com a retomada de uma antiga ideia eurocênticra de “choque de civilizações”. Desde Homero e Heródoto que a Europa alimenta uma mitologia de combate que perpassa a guerra da reconquista na península ibérica, a luta contra os turcos pelo controle de Viena, as cruzadas, o confronto de Hitler contra Stalin.

Jawad Salim um dos mais importantes artistas plásticos iraquianos, rompeu com a tradição de arte religiosa ao quebrar o tabu que proibia esculturas de formas humanas

Jawad Salim um dos mais importantes artistas plásticos iraquianos, rompeu com a tradição de arte religiosa ao quebrar o tabu que proibia esculturas de formas humanas

Mas se no mundo do cristianismo tropical, as mulheres cariocas usavam burca até um dia desses, no universo mulçumano, durante boa parte do século XX, uma onda de modernização tomou conta do Islã. Inspirados pela mística sufi, artistas, intelectuais, profissionais liberais, cientistas absorveram costumes ocidentais e buscaram reformar as praticas sociais.

Em 1936, por exemplo, foi criada a Associação dos Escritores Indianos, que uniam autores mulçumanos que escreviam em Urdu e que se ligavam aos movimentos modernistas europeus e ao socialismo franco-alemão. Muitos autores islâmicos nesse período adotaram o verso livre enquanto artistas plásticos ousavam expressar as formas humanas nas pinturas, apelando até para o registro do nu feminino. Em 1958, Jawad Salim, um dos nomes da arte moderna mulçumana adequou influências de Picasso e de Jacob Epstein, no “Monumento à Revolução” levantado na praça de libertação em Bagdá. No século XX, o expressionismo, fauvismo, abstracionismo modernos foram incorporados à arte mulçumana por pintores como Kamal Amin Awad, ou Dia al-Azzawi, rompendo com as tradições pictográficas que remontavam a certo abstracionismo caligráfico, típico da tradição de Maomé.

Pois é, amigo velho, se um dia a Baía da Guanabara pareceu o Afeganistão do Talebã, a Teerã de Ahmadinejad já lembrou a Paris na qual Sadiq Hidayat (um dos grandes intelectuais persas da contemporaneidade) teve aulas com Jean Paul Sartre. Por isso, a revolução de 1979, que fez o Irã retroceder ao século X causou um intenso mal estar nos defensores da modernidade laica. A ideia de que as massas populares poderiam derrubar um regime não é uma invenção do século XX. Em 1641 a Europa vivenciou essa experiência com a deposição do rei inglês Carlos I. Depois varias datas se tornaram fundamentais para a modernidade: 1776, 1789, 1848, 1871, 1917. O que havia em comum entre todas essas revoluções era que elas surgiam de expectativas de construção de novas sociedades, que rompessem com tradições arcaicas e costumes irracionais, produzindo um mundo novo.

A revolução de 1979 no Irã (assim como os acontecimentos na Alemanha de 1933, que puseram Hitler no poder) surgiu em um sentido oposto. O objetivo era projetar o futuro a partir de um passado que não padecesse dos vícios e da degeneração da modernidade laica. Assim, para os fundamentalistas, o ocidente representava decadência, abandono das velhas tradições e uma ameaça real, concreta, geográfica, que pairava contra o Islã.

Sabe o que eu penso acerca da ideia de choque de civilizações, ou de guerra de mundos, que tanto abasteceu a ideologia neo-com de Bush Júnior? Eu não gosto dela. Por um motivo só: ela é simplória. Ela entende como sendo cultural e geográfico algo que é temporal e que se passa na intimidade dos povos e não entre eles. A barbárie não está no outro, longe, distante, separada por barreiras naturais, lingüísticas ou culturais. A barbárie está guardada em potência, quer seja na praia de Copacabana, nas praças de Teerã, no cinturão da Bíblia nos EUA, ou embaixo do portão de Brandemburgo em Berlin. Se existe realmente algo que possamos chamar de barbárie, esse algo anda junto, de papel passado, com aquilo que chamados de civilização, como uma possibilidade sempre presente de revolução, de mudança, de transformação, de giro em um sentido divergente que nos leve de um mundo à outro sem que saiamos do nosso lugar.

Mulçumanos e cristãos; oriente e ocidente; modernos e arcaicos; laicos e religiosos; cultivamos essa dualidade nos últimos séculos da história da humanidade. Supera-la é a grande tarefa do agora.


12 Comentários para “Guerra de Mundos”


  1. Salve, Pablo!

    Texto interessante. Gostaria apenas de fazer duas observações, se me permite:

    1 – Quando vc fala na “mitologia do conflito” alimentada por certa visão eurocêntrica que vem desde os gregos e que estaria na base da teoria do “choque de civilizações” de Huntington etc., vc se refere a um conflito Hitler versus Stálin. Não seria mais adequado dizer que esse confronto Ocidente-Oriente, ou Civilização-Barbárie, se expressa no conflto Democracia versus Totalitarismo, ou Ocidente versus Hitler E Stálin? E os outros atores da II Guerra?

    2 – Quando vc fala em “modernização do Islã”, me parece que vc ignora um fato essencial: todas essas tentativas de modernizar as sociedades islâmicas no século XX falharam completamente, como demonstra a própria “revolução iraniana” de 1979, de que vc fala. Pergunto: a onda fundamentalista que tomou conta do mundo islâmico desde então, e mesmo antes, não mostra que tentativas de “modernizar” o Islã, pelo menos a partir de dentro, são uma esperança vã, e que afinal de contas, os “neocons” da era Bush não estavam tão errados assim ao tentar exportar o modelo democrático ocidental (a meu ver, universal) para aquela região?

    São apenas questões que acho interessantes para um debate. Um abraço.

  2. Pablo Capistrano27/11/2009 às 3:20

    Oi Gustavo,

    Hitler e o nazismo se apropriaram muito bem dessa mitologia que remonta a Herodoto. A ideia de ocidente contra oriente, a noção de que a Alemanha é a herdeira da velha Grécia. Não acho que a questão seja apenas totalitarismo contra democracia (como Frank Miler tentou demonstrar em 300 de Esparta), não é uma questão política, é um mito cultural que perpassa boa parte das narrativas europeias. vem de Homero quando os Aqueus luta contra Troia que era uma cidade Hittita, vem dos espartanos contra os persas, da Jeruslém libertada de Torquato Tasso, da ideia do Flagelo dos Deuses (Atila, o Huno) que viria para destruir o império romano, da luta contra os mouros na espanha, do combate dos cavaleiros Hussuados poloneses contra os turcos em Viena, da batalha pela Grécia contra os turcos e que vitimou Lord Byron e por ai vai.

    Hitler entendia os russos como representas dessa influência oriental e o liberalismo anglo-americano e o marxismo sovietico seriam expressões dessa influência oriental, judaica na formação do povo Europeu, era contra isso que a mitologia de pureza nazista se levantava.

    quanto ao ponto dois eu acho que se você não “moderniza” a partir de dentro voc~e não moderniza.
    os que os neo-com de Bush falham é pensar que a democracia pode ser implantada, não acredito nisso, acho que um regime democrático só nasce de dentro para fora e não de fora para dentro através de uma intervenção militar.


  3. Pablo,

    Concordo com vc que o mito cultural Ocidente-Oriente, que está em Heródoto como está em Huntington, perpassa a relação entre Hitler e Stálin, até porque os nazistas se consideravam defensores, de certa forma, da “cultura ocidental” contra a barbárie bolchevique. Mas me parece muito mais representativo desse conflito a dicotomia Liberdade (ou Democracia) ocidental (ou o liberalismo anglo-saxônicao, como vc diz) versus Tirania ou despotismo oriental, que está presente já em Heródoto, em sua “História”, quando descreve as diferenças entre as sociedades ateniense e persa. Nesse sentido, o mito cultural é também uma questão política: na II Guerra, por exemplo, não se confrontaram apenas os dois totalitarismos: foi, acima de tudo, uma luta entre a Democracia e a Ditadura (sobretudo nazista, mas também comunista – até 1941, Hitler e Stálin eram aliados). Não foi à toa que um dos generais mais famosos dos EUA no conflito, Patton, só se referia aos alemães como “os hunos”.

    Quanto à segunda questão, de que não é possível democratizar uma sociedade como a islâmica a partir de fora, aí estão os exemplos da Alemanha e do Japão, duas sociedades totalitárias até 1945, para mostrar uma realidade diferente. A democratização e modernização, nesses dois casos, veio de fora, “manu militari”, isso não pode ser negado. Sem falar no Afeganistão ou no Iraque mais recentemente que, com todos os seus problemas, pela primeira vez na História sentem o gosto de algo diferente da opressão ditatorial. Acho que isso é ignorado quando se critica os “neocons” americanos. Pode-se ignorar esses exemplos históricos?

  4. Pablo Capistrano29/11/2009 às 5:08

    Gustavo, acho que
    essa oposição entre tirania e democracia quando aplicada ao mito do combate oriente-ocidente é uma forma de ler os gregos com o olhar da guerra fria.

    Não acredito que essas categorias possam ser aplicadas à Grécia de Heródoto especialmente porque naquele tempo a tirania era muito comum entre as cidades gregas e os persas contavam com o apoio de diversas cidades helênicas também.

    A democracia de Atenas inclusive, só se consolida e expande após a guerra com os Persas, e os espartanos, louvados na passagem que fala sobre as Termopilas tinham um regime controlado por uma aristocracia militar (a República de Platão, uma contundente crítica ao regime democrático dos atenienses se inspira na constituição de Esparta).

    O que fazia com que os gregos se sentissem “ocidentais” e “civilizados”, era a ideia de Hélade de um conjunto de valores e práticas articulados que tinha a ver com a necessidade de construção de uma paideia (algo que pode ser mais aproximada de cultura ou educação) comum aos povos que falavam dialetos helênicos.

    Era o idioma e a cultura que fazia com que os gregos fossem gregos e não o regimes políticos de suas cidades, que não eram a causa mas a consequência da paideia. A categoria que põe refimes políticos e ecônomicos como definidores de aspectos culturais me parece mais marxista e talvez você esteja reforçando esse conceito sem notar.

    Em relação ao interno e ao externo no que diz respeito à democracia acho que você não deve menosprezar a tradição democrática alemã que remonta a experiência prussiana no século XVIII ( “falem o que quiserem, mas obedeçam a lei”). O código prussiano de 1794 garantia direitos individuais, liberdade de opinião e a liberdade religiosa, pilares da democracia burguesa. Como não pensar também na riqueza política e cultural que surgiu na época da República de Weimar nos anos de 1920? Além do que o processo democrático na Alemanha só se completa com a derrubada do muro à vinte anos, e não tem nada a ver com o período de intervenção militar. Ou você acha que foi mesmo o governo Reagan que derrubou o muro, como tentou vender a propaganda eleitoral dos republicanos nos EUA?

    O Japão não aderiu também a um regime democrático porque os americanos estavam lá com seus exércitos. Foi preciso a aceitação da derrota por parte do imperador para que o povo japonês entendesse que deveriam adotar as categorias ocidentais. E o processo começou pela aceitação cultural do american way of life e não pela construção de instituição democráticas no modelo das repúblicas pós-revolução de 1789. O Japão continua sendo um império, eles são democráticos porque o imperador mandou que eles fossem. Sejam democráticos! Se o imperador tivesse mandando morram todos até o último homem ou mulher, não haveria mais Japão, é preciso entender os aspectos culturais para se entender as questões políticas.

    Agora, Gustavo, não acredito que você ache que a administração Bush teve mesmo algum interesse de implantar democracia em algum lugar desse mundo. Uma leitura desse tipo não se sustenta hoje nem entre os liberais. O pau que os repúblicanos receberam da opinião pública norte americano no final das eleições do ano passado mostra que o povo dos EUA entendeu o engodo da era Bush. Democracia no oriente médio é uma peça retórica para justificar acordos ecônomicos e geopolíticos.


  5. Desculpe, Pablo, mas a dicotomia Ocidente/Democracia-Oriente/Tirania não é uma invenção da guerra fria, nem do século XX, nem mesmo da modernidade: ela está em Heródoto, de forma muito clara, no capitulo V da “História”, quando ele compara as instituições atenienses com as dos outros povos, sobretudo os persas, fazendo uma clara profissão de fé pela Democracia, a primeira que alguém já fez, aliás.

    Vc está certo ao lembrar que na Hélade havia distintos regimes políticos (a diferença entre Atenas e Esparta é a principal de todas), e inclusive tiranias, mas vc se esquece de mencionar que foi na Grécia que, pela primeira vez, surgiu o conceito de Democracia, que é louvado por Heródoto. Nada semelhante surgiu no Oriente antes, durante ou depois, e em muitos lugares o conceito é desconhecido até hoje.

    É justamente esse conceito revolucionário que diferencia o Ocidente do Oriente, desde a paidéia helênica, muito mais do que o idioma ou a “cultura”. Estes não são entes separados da Política, no sentido platônico: os gregos (e, por extensão, os ocidentais) não se distinguem dos orientais somente pela língua ou pela roupa que usam, mas também pelos valores políticos, e o principal desses valores, a meu ver, é o de liberdade individual. E isso foi uma dádiva dos Gregos, como a Filosofia e o Teatro.

    Quanto à modernização interna/externa, sim, pode-se dizer que a Alemanha tinha uma tradição também democrática, que se expressou na efêmera República de Weimar (só durou 15 anos), mas não se pode negar a fragilidade dessa tradição, se comparada à tradição liberal anglo-saxônica, do mesmo modo que nossa tradição ibero-lusitana é, culturalmente e politicamente falando, bem pouco democrática (a gente se esquece, mas constitucionalismo e império da lei foram também idéias importadas entre nós, não surgiram por estas bandas.) No caso alemão, a Democracia também veio de fora. Até porque a Alemanha só se forma como Estado unificado muito tardiamente, em 1870 (como a itália, também, na mesma época). Em ambos os países, além do Japão, as instituições democráticas tais como existem hoje só puderam consolidar-se após 1945, por obra e graça de uma intervenção militar externa. Com a queda do Muro, esse processo, já consolidado no lado Ocidental, se completa em todo o território. Não, não foi Reagan quem derrubou o muro, mas não dá pra negar que, ao confrontar a URSS e não fazer concessões na batalha ideológica, ele deu uma mãozinha pra que ele viesse abaixo.

    O mesmo no caso do Japão: para que o imperador reconhecesse a derrota e ordenasse a seus súditos que se rendessem foi preciso, logicamente, que o país fosse derrotado no campo de batalha. Ou vc acha que ele abdicou de sua divindade porque leu Locke ou Rousseau? Para que o Japão fosse uma democracia foi preciso que tivesse havido Guadalcanal, Midway e Iwo Jima. Do mesmo modo que a Alemanha não seria uma democracia se não tivesse havido o Dia-D.

    Note bem, Pablo, não estou negando a importância da cultura para as questões políticas: digo apenas que as duas coisas estão interrelacionadas, são inseparáveis. Do mesmo modo que a cultura influencia a política, esta influencia a cultura, a recíproca é verdadeira. Os exemplos da Alemanha e do Japão, nesse sentido, são bastante didáticos: assim como a tradição legalista prussiana e a tradição japonesa de “bushido”, de obediência cega ao imperador, influenciaram as condutas desses dois países na guerra e na paz, sem a intervenção militar externa não teria havido modernização. Vc consegue negar esse fato?

    Quanto ao interesse do Bush e dos neocons em implantar a democracia em algum lugar desse mundo etc., francamente não acho que seja o que Bush queria que faz a diferença. O que importa, a meu ver, é que duas tiranias foram derrubadas no Oriente Médio, e só o foram porque houve uma intervenção externa. Fale-se o que se quiser, mas o fato é que hoje as populações do Iraque e do Afeganistão têm uma ínfima chance de conhecer algo parecido com a Democracia. Que chance havia para elas durante as ditaduras de Saddam e do Taliban? Demoniza-se o Bush, em muitos aspectos com razão, mas se costuma esquecer que o último presidente dos EUA que fez isso – derrubar duas tiranias – foi Franklin Roosevelt na II Guerra. Aliás, é curioso como os mesmos que satanizam o Bush elogiam Obama por sua política de apaziguar ditadores – a mesma política que levou à II Guerra e ao Holocausto. O fato de os republicanos terem levado um pau nas eleições, francamente, não muda em nada essa realidade. Aliás, dificilmente o resultado das urnas é um argumento irrefutável para qualquer coisa (vide tantos ditadores que foram eleitos democraticamente, como o próprio Hitler).

    Enfim, acho que Democracia e Direitos Humanos no Oriente Médio ou em qualquer outra parte do planeta é muito mais do que uma simples imposição cultural estrangeira ou uma peça de retórica ou geopolítica. Se tem alguma dúvida, pergunte a algum iraquiano ou afegão de hoje se ele gostaria de voltar no tempo até a época do Saddam ou do Taliban. Do mesmo modo que poucos alemães ou japoneses hoje em dia gostariam de renunciar ao que têm em nome da “lebensraum” ou do imperador.

    Desculpe tomar o espaço de seu site pra expor o que penso a respeito, mas acho que está sendo útil pra que as questões sejam esclarecidas. O debate está bom.

  6. Pablo Capistrano30/11/2009 às 15:17

    Pois é Gustavo,
    o que a guerra fria fez foi pegar esse pequeno trecho do texto de Herodoto, citado por você, e tomá-lo como o aspecto mais importante do conflito oriente-ocidente.

    ou seja é aquilo que a crítica literária chama de desleitura em um contexto de textualismo forte.

    O fato é que os Europeus tem uma Grécia para cada época de sua história. Eles inventam a Grécia que querem a partir das suas necessidades geopolíticas do momento. A Grécia é um lugar arquetípico para a Europa, a fonte de um mito de origem que constitui culturalmente os europeus e essa ideia da democracia ateniense lida como se os gregos daquele tempo fossem ingleses e norte americanos do século XIX e XX faz parte do mito que é propagado pela ideologia liberal.

    o grande problema de se ler a história a partir da ideologia é que se projeta o presente no passado, nesse sentido, esse mito que você aponta é sim uma construção da polarização ideológica que cortou o século XX ao meio, ou seja, um anacronismo do século passado do tempo da guerra fria.

    Precisamos inventar uma nova Grécia para os dias de hoje, assim como precisamos superar essa dicotomia do século XX. Os tempos são outros amigo, os tempos são outros.


  7. Pablo,
    É engraçado esse negócio de anacronismo. Eu, como formado em História na gloriosa UFRN, vez ou outra deparo com tentativas de interpretar o passado com um olhar ideológico do presente. Quando se tenta enxergar a Espanha islâmica da Idade Média, por exemplo, como um modelo de “tolerância” e de “convívio harmonioso” entre muçulmanos, judeus e cristãos, isso é claramente um anacronismo, uma desleitura feita sob medida para mostrar uma versão edulcorada do Islã e desviar a atenção do fenômeno do fundamentalismo islâmico.

    Eis o “pequeno trecho” da “História” de Heródoto, que segundo vc deve ter saído do departamento de propaganda do Pentágono ou da CIA: “Assim cresceu o poder dos atenienses. Não se evidencia num caso isolado, e sim na maioria dos casos, que a ‘igualdade’ é uma instituição excelente; governados por tiranos, os atenienses não eram superiores na guerra a qualquer dos povos seus vizinhos, mas libertos dos tiranos eles assumiram de longe o primeiro lugar. Isso prova que, na servidão, eles se conduziam propositalmente como covardes, pensando que serviam a um senhor; livres, porém, cada um agia com todas as suas forças para cumprir a missão em seu próprio benefício”. (Livro V, capítulo 78, p. 280. 2a ed. Tradução de Mário da Gama Kury, Brasília, Ed. da UnB, 1988.)

    A Grécia não é somente o berço da Democracia, como geralmente se diz: é o berço do Homem, da própria noção de Humanidade em contraposição à divinização dos reis e imperadores existente no Egito ou na Pérsia, no mesmo período. Acho que vc, como filósofo, sabe disso melhor do que eu.

    No decorrer da Histótia, esse conflito se expressou na luta dos gregos contra os persas, dos Aliados contra os nazistas, da democracia contra o comunismo e, hoje, na civilização (não somente ocidental) contra a barbárie terrorista. Não é por acaso que muitos “progressistas” de esquerda se aliaram objetivamente ao fanatismo islamita: ambos desprezam a Democracia e a própria civilização.

    Se é pra inventar uma nova Grécia, espero que seja a Grécia de Heródoto e de Péricles, baseada na idéia democrática. Até porque, sem essa idéia até hoje revolucionária, não há tolerância possível, há só a barbárie dos que negam a Democracia, ou acham que ela é apenas um conceito ocidental ou uma desculpa pro Bush tomar os poços de petróleo do Iraque. Sendo outros os tempos, que não sejam tempos de obscurantismo e opressão. Porque é pra isso que o mundo vai caminhar sem a Democracia. Há 2.500 anos, Heródoto já sabia disso.

  8. Dennys Lucas3/12/2009 às 8:07

    Para a maioria dos comunas, a idéia de democratização torna-se um valor universal, e isto, muito antes do muro cair, muito antes do muro ser levantado…

  9. Pablo Capistrano6/12/2009 às 6:46

    Pois é Gustavo, você chegou no ponto.

    Não existe leitura da história, só existe desleitura.

    Como você deve ter lido Droysen ou Dilthey e muito provavelmente Benjamim sabe que uma metologia histórica não pode prescindir de um problema hermenêutico fundamental. Se todo texto é influenciado pelo contexto de sua época, como dissociar uma interpretação do contexto de sua própria época? Essa é uma das mais significativas contribuições da filosofia crítica para a história do homem. A consciência de que não temos como encontrar uma verdade sobre o mundo, mas apenas sobre o modo como o mundo aparece para nós.

    Como é possível olhar o passado sem a influência do presente, que compõe o olhar o investigador? Você olha para Heródoto com o olhar do seu tempo, assim como Jean Pierre Vernat, Vidal Naquet, Winkelmann, Hegel, Nietzsche e Heidegger olharam para a Grécia com o olhar do tempo de cada um.

    Eu particularmente acho você um cara muito inteligente e com comentários as vezes bem pertinentes, mas acho que talvez pelo fato de você ser um militante de direita tenha alguma dificuldade em sondar outras possibilidades de leitura do passado e do presente e acho que isso reduz um pouco o seu potencial.

    Eu acredito que caminhamos para uma superação dessa dicotomia que compõe o século XX. A superação de uma dicotomia moderna que compôs as categorias ideológicas com as quais você joga.

    Não sei qual será o caminho de superação dessa dicotomia, mas sinto que ela já está em processamento. Espero que não seja uma solução retrograda como a da revolução iraniana. Espero que ajude a humanidade a encontrar novas formas de lidar com as demandas de sua própria condição.

    Agora sei que isso mais cedo ou mais tarde nesse século essa superação vai acontecer, e ai uma discussão do tipo liberalismo contra marxismo-leninismo será anacrônica (se já não for). Porque a história não termina e não se repete (a não ser como farsa, não é?).


  10. Grande Pablo, acho que concordamos num ponto importante: não há leituras da História, somente desleituras. A diferença é que, para vc, parece que somente as desleituras “de direita”, como a interpretãção de Heródoto à luz da dicotomia democracia-despotismo oriental, são anacronismos, logo visões falsas da realidade com uma finalidade ideológica.

    Pra mim parece óbvio que não há como enxergar o passado sem o olhar do presente, essa é uma questão que perpassa e atormenta qualquer um que estuda a História. Mas a questão não é essa. É, sim, se uma análise do passado, e da Grécia em particular, em termos de humanismo e democracia como valores universais e de certa forma atemporais é possível. A meu ver, é possível sim, e pode (e deve) ser aplicada à realidade atual de luta contra o fundamentalismo islamita, como se aplicava à luta contra o comunismo e o nazi-fascismo.

    Acredito que, de acordo com essa visão, quando Heródoto fala na liberdade dos atenienses em contraposição à opressão dos persas, por exemplo, isso não é simplesmente uma visão de hoje, ideológica, de direita ou “neocon”. Nem tampouco é uma manifestação puramente “cultural” ou “antropológica” (como se os valores políticos não tivessem importância e tudo se resumisse a uma questão de língua ou costumes): é uma visão essencialmente humanista.

    Não me considero militante de nada, a não ser de minha própria consciência, embora não me importe de ser chamado de militante de direita (já perdi o medo das patrulhas faz tempo). Principalmente porque – taí uma coisa boa de se debater! – colocar-se a favor dos ideais iluministas de democracia e liberdade hoje em dia virou coisa “de direita”, e defender o apaziguamento de regimes ou movimentos teocráticos islamitas virou uma atitude “de esquerda”. Se isso “diminui meu potencial”, como vc diz, também abre possibilidades bem interessantes.

    Vc deve ter percebido que sou um cara bem fora de moda, que ainda acredita em coisas antigas como a universalidade da democracia e dos direitos humanos etc. Prefiro ser assim a avalizar um relativismo que é, na maioria dos casos, simples ódio ao Ocidente disfarçado. Nisso, aliás, eu discordo da teoria do Samuel Huntington, porque o confronto atual não é entre civilizações, mas entre a Civilização, de um lado, e a barbárie, de outro. Não se trata de uma disputa religiosa cristianismo versus Islã, por exemplo, mas de uma luta pela sobrevivência de uma concepção da humanidade que vem desde os Gregos.

    Acredito que a defesa dos valores democráticos e liberais hoje em dia é mais importante do que nunca, especialmente diante de certas visões relativistas e anti-racionalistas, que insistem em negar até a própria noção de verdade (acho que vc sabe do que estou falando). Foi esse tipo de visão niilista que abriu o caminho pra soluções retrógradas como o fundamentalismo islamita, e que o justifica, de uma forma ou de outra. O curioso é que muito dessa visão relativista pós-moderna vem do marxismo (vide Escola de Frankurt), que é, em sua origem, uma doutrina eurocêntrica e herdeira do Iluminismo.

    Assim como vc, acredito que cedo ou tarde a dicotomia Ocidente-Oriente ou Democracia-Tirania vai desaparecer, até porque nada dura pra sempre. Mas também acredito que, pra que ela desapareça, um dos lados terá que triunfar. E, pra isso, infelizmente, não dá pra ficar neutro, é preciso escolher um dos lados. Não necessariamente por militância ideológica, mas por honestidade intelectual. Eu já escolhi o meu lado.

  11. Dennys Lucas14/12/2009 às 23:32

    Gustavo, por que não achar que o seu posicionamento não seria simples ódio do oriente tentando se disfarça em valores universais. Vejamos a construção do fundamentalismo religioso construído há décadas em solo palestino. Existem países que colocam como defensores da democracia e da liberdade, mas que no oriente médio vem construindo as condições para a selvageria…


  12. Dennys Lucas,
    Não odeio o Oriente, odeio a tirania. Odeio a opressão e a intolerância, seja onde for e seja qual roupagem tiver: no Irã, na Palestina, em Cuba, na Coréia do Norte ou no Brasil. Creio que isso não faz de mim um inimigo do Oriente, faz?

    É curioso: qualquer um que ousar afirmar que Democracia e Direitos Humanos são valores universais é imediatemente acusado de eurocêntrico e intolerante com outras culturas etc. Mas nenhum dos que negam a universalidade da Democracia e dos Direitos Humanos é acusado de justificar a barbárie e odiar o Ocidente. Por que será?

    Pelo que eu entendi, vc está culpando outros atores pelo fundamentalismo religioso na Palestina (o terrorismo de grupos como Hamas e Hezbollah). É isso? Se for, discordo totalmente: os terroristas islamitas, como seus predecessores nazistas, não odeiam outros países, sobretudo países democráticos como os EUA e Israel, pelo que estes fazem ou fizeram, mas pelo que são. Odeiam, sobretudo, a própria noção de Liberdade e tolerância, ou seja, a própria civilização. Infelizmente, há quem assine embaixo dessa selvageria.

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2007 ® Pablo Capistrano

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