25 nov
Hannah Arendt
- 25 de novembro de 2009, as 5h05

- Hannah Arendt nos tempos de juventude. È fácil entender porque Heidegger sucumbiu diante dela.
Livro: Hannah Arendt
Autor: Adriano Correia
Editora: Jorge Zahar
Hannah Arendt talvez tenha sido a pensadora que melhor entendeu o fim da política. Ela parece se situar em uma passagem, em um momento de mudança e, nesse sentido, ela olha para trás e olha para frente. Vê o que aconteceu no tempo histórico da humanidade a partir da força do pensamento de gente como Agostinho e Aristóteles e pensa o futuro a partir de uma subversão, de uma limpeza, dos resíduos de metafísica que ainda aparecem em Heidegger sem esquecer as lições subliminares do mestre Kant.
Ela não gostava de se identificar como uma filósofa política porque dizia que não professava doutrinas, mas seu pensamento tocou as questões fundamentais do século passado, apontando aquilo que constitui o centro da condição humana contemporânea.
Pelo menos quatro aspectos são de extrema substância no seu pensamento, todos evidenciados por Correia de modo muito preciso: (a) a percepção do paradoxo do amor cristão em Agostinho (sua tese de doutorado) – que reside em tentar conciliar o amor à Deus sobre todas as coisas e o amor ao próximo; (b) a inversão da ideia metafísica de Heidegger presente em Ser e Tempo que indicava que o homem era um Ser-para-à-morte e a substituição pela noção de natalidade (acho que só uma mulher teria condição de dar uma resposta dessas a um cara como Heidegger); (c) a noção de que o fenômeno do totalitarismo tem ligações estreitas com a sociedade de massas e com a recolocação do papel do espaço público e do privado na sociedade contemporânea (gostaria de ter uma Hannah Arendt agora para pensar o efeito de Internet nessa história); (d) a percepção de que a banalidade do mal igualha carrasco e vítima em uma mesma condição humana mediana e apolítica.
O livro de Adriano Correia tem o mérito de trazer uma amostra de textos de Arendt no final do texto principal. Isso evita as longas e tediosas citações que às vezes somos obrigados a construir em obras acadêmicas. O que parece faltar ao livro é um pouco das conexões que o pensamento de Arendt monta com a tradição filosófica. Não custava nada a editora ter acrescentado umas vinte páginas a mais para que o Adriano Correia pudesse discorrer mais sobre as relações que a Arendt mantem com Kant, Aristóteles e, porque não, Heidegger.
Adoro livros certeiros como os do Adriano Correia. Eles são introduções excelentes para que você possa saber o básico sobre alguma coisa que não tem tempo ou disposição para se aprofundar. A vida é muito curta para se ler todos os livros, se conhecer todas as obras, sorver toda a linguagem de todos os autores.
Essa estante que eu tenho aqui na minha biblioteca e contra a qual eu luto sistematicamente desde os quinze anos certamente vai me vencer. Eu sei que não poderei ler todos os livros que já comprei e que continuo comprando, conhecer todas as coisas, saber de todas as linguagens, mergulhar em todos os mundos, por isso preciso selecionar minhas leituras e essa é a questão fundamental de todo leitor.
Talvez um dia eu possa ler As Origens do Totalitarismo de Hannah Aredt, como li Eichmann em Jerusalém e A Condição Humana. Mas para saber o que realmente me interessa eu preciso ler o livro do Adriano Correia.
Esse é o esquema, essa é a estratégia.
A seleção começa com os livros introdutórios e passa para os de maior substância e profundidade.
Às vezes eu leio a minha relação com os livros como uma espécie um pouco promiscua de amor, às vezes mais parece uma ruidosa batalha ou, quem sabe, um sorrateiro e silencioso assalto.
Aqui tem um link para uma entrevista com ela em 1973
http://www.youtube.com/watch?v=FZ1iqqcunsg&feature=related