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30 nov

Pressão alta

  • Pablo Capistrano
  • 30 de novembro de 2009, as 15h15

Vou guardar para a semana que vem meu comentário sobre essa campanha do Flamengo. Depois de 17 anos, esperar uma semana a mais ou a menos não faz tanta diferença assim.

O fato é que eu sou potiguar e como potiguar guardo uma estranha mestiçagem futebolística.

Os pernambucanos têm muita dificuldade em compreender essa nossa bigamia esportiva. Aqui em Natal, ao contrário de Recife, as camisas do Flamengo, do São Paulo, do Real Madrid, do Milan e do Chelsea se misturam as do ABC, América e Alecrim com a mesma frequência.

Eu mesmo me considero ontologicamente americano, porque torcer pelo América de Natal, para mim, é uma questão de Ser.

Mas tenho uma ligação religiosa com o Flamengo, o que me torna também um flamenguista. O ismo indica a relação de fé e fervor místico que tenho com o time da Gávea (budismo, cristianismo, judaísmo, flamenguismo… religiões das massas).

Simpatizo com o time do Porto por razões genealógicas, afinal, vem do norte de Portugal parte de minhas raízes e desde que pela primeira vez viajei pelo Douro em direção ao Rio de Paiva, terra de alguns dos meus ancestrais, que me liguei na camisa azul e branca do dragão do norte.

Consigo também vestir a camisa da Roma, por razões ideológicas e estéticas e pelo desprezo que nutro em relação aos fascistas da Lazio.

Por isso há espaço em meu coração para camadas futebolísticas distintas e a fidelidade que se exige de um time só nunca se adequou a essa minha poligamia potiguar.

O América de Natal, no entanto, faz parte de uma área muito privada, íntima do meu ser, não apenas porque eu nadava nas piscinas do clube aos 13 anos ou porque meu bisavó, João Capistrano, foi um dos torcedores fundadores do time da Rodrigues Alves.

Há algo de intrínseco na minha relação com o alvirrubro, algo de essencial que só a proximidade metafísica explica.

Por isso minha alegria esse final de semana foi dupla. Pelo Flamengo e pelo América.

O Mecão não tinha um time para brigar contra o rebaixamento essa temporada. Quem viu Somália, Júlio Terceiro, Lúcio, Ricardo Oliveira, Fábio Neves e Sandro Hiroshi (no primeiro semestre) em campo, sabe que o plantel do Mecão havia sido montado para disputar vaga na série A.

Mas algo de misterioso aconteceu. Algo que apenas aqueles que têm estomago para perscrutar os bastidores do nosso futebol podem entender e o time desandou no meio do campeonato, levando meu sistema nervoso a mais um ano de melancolia e pré-colapso.

Agora depois do alívio, chegou a hora do desmonte. A janela do Paulistinha já começou a atuar e arrastou Dia que ajudou a ressuscitar o Alecrim e retirou o América do pesadelo da série C.

A grana do sudeste vai fazer seu estrago no começo da temporada do ano que vem e o que resta agora é apostar em um grupo sólido para o estadual (merecemos isso) e guardar forças para montar alguma equipe competitiva na série B do ano que vem, porque ninguém agüenta mais essa dança, esse passeio na beira do abismo. È bom lembrar Nietzsche: “se você olhar dentro do abismo, o abismo olhará dentro de você”.


4 Comentários para “Pressão alta”

  1. ANDRELUCIO RIBEIRO1/12/2009 às 5:56

    Grande mestre, Pablo, aquele abraço! Como americano e flamenguista, vivo um êxtase indescritível. Também acho que o Mecão e sua camisa tradicional não merece ficar batendo na trave do rebaixamento, uma hora a bola entra contra e a ascensão se tornará difícil. Quanto ao Flamengo, tive a noção do quanto é ser rubro negro, a cidade estava repleta de vermelho e preto no domingo pela manhã. E os secadores, anti flamenguistas, estavam todos na surdina, aguardando uma atuação de Ronaldo em favor do Timão. Só que os ídolos se assemelham muito. Romário e Ronaldo, gênios da área, são flamenguistas, jogaram no Barça, no Psv, campeões pela seleção brasileira…e sofrem a mesma contusão quando enfrentam o manto sagrado: a dor no musculo posterior da coxa, que na verdade não é lá o local da dor. A dor real vem do músculo mour localizado no tórax, e que tem quatro cavidades (chamadas de paixão, rubro-negra, amor e fidelidade). Dida, Dequinha e Geraldo (todos falecidos heróicos rubro negros), riram muito no domingo, assistiram o jogo lá do céu, precisamente num gramado onde São Jorge e São judas Tadeu estavam assistindo. Marcio Braga, nem conseguia falar ao ver que será tetra como dirigente. Adílio e Júlio Cesar já não dormem mais em casa. Leonardo, treinador do Milan, perguntava com frequência o resultado do jogo, enquanto o seu Milan empatava. Zico ligou dezenas de vezes e a Globo não atendia. Foi um colapso! Ninguém sabia como reagir àquela situação, a eminência de um título aguardado há 17 anos. Eu, o mais humilde dos torcedores rubro negros, fiquei parado. Não conseguí falar uma única palavra durante todo o jogo, apenas minhas mãos mexiam e mudavam o canal entre sportv (jogo do São Paulo) e globo. Acho que não tenho mais como torcer pelo Flamengo, pois as surpresas que ele me causam são tão grandes quanto a minha reação inerte e incrédula…eu só lembrava do time de 92, de Junior, Gaúcho, Nélio, Gotardo, Zinho e etc… Mestre, Pablo, eu vou ser campeão de novo? Quis o destino que os jogadores que usam a mesma estrutura arcaica dos campeões de 92, ganhassem o de 2009? Que ao treinar apenas um período, com dificuldades de colocar o salário em dia, superassem o Jason tricolor? Ainda não acredito que uma lâmpada foi capaz de tudo isso. No jardim de Adriano não tinham apenas flores, mas havia uma lâmpada. Havia uma lâmpada no jardim de Adriano. E o Flamengo foi um time sem a estrela, sem a lâmpada, mas brilhou com a luz da alma, a mais forte das expressões subjetivas. Por favor, se eu tiver dormindo e sonhando, não me acorde. Abração, mestre!

  2. Vivi Mariano3/12/2009 às 16:47

    Pablo,

    Estou DEVORANDO o Simples Filosofia. Talvez RUMINANDO seja o termo mais exato. ADORANDO tb.

    Fiquei mais feliz de saber que somos fiéis a mesma religião: o Flamenguismo.

    Domingo estarei no Maracanã … e aguardarei seu comentário sobre a campanha ou talvez quem sabe … ai meu Deus … o TÍTULO.

    Um beijo, Viviane.

    http://extraviodemim.blogspot.com/2009/12/simples-filosofia.html

  3. Pablo Capistrano6/12/2009 às 6:27

    Pois é Viviane,
    hoje é o dia já estou trajado com o manto sagrado
    esperando a hora do jogo.
    não vou estar fisicamente no maracanã mas como 35 milhões de rubros-negros estarei concetrado junto com o time.
    Hoje o Brasil vai parar.

  4. Pablo Capistrano6/12/2009 às 6:29

    Andrelucio meu amigo, você um poeta.
    que os deuses ancestrais do futebol nos abençoem.

    Evoé mengão!!!

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