02 dez
Os dez mais do flamengo
- 02 de dezembro de 2009, as 16h16

Dida, o ídolo de Zico, morreu pobre e esquecido em um país que não cultiva a lembrança
LIVRO: Os dez Mais do Flamengo.
Autor: Roberto Sander.
Editora: Maquinaria.
O Brasil é um pais de esquecimento.
Isso não se dá apenas pela dificuldade que temos em guardar documentos antigos ou em manter o patrimônio arquitetônico intacto. Existe um poderoso mecanismo de esquecimento que atua na alma do brasileiro, fazendo com que certo vazio traumático se situe na origem de nosso povo.
Muita gente diz que os norte-americanos não têm respeito pelo passado, que eles são um povo do futuro, que arrasam quarteirões e quarteirões de bairros históricos para fazer redes de autopista (quem leu Marshall Berman – Tudo que é sólido desmancha no ar – sabe o que eu estou falando). Mas isso não é correto. Os norte-americanos lembram de seu mito de origem. Eles sabem de onde vieram e se identificam no presente a partir desse ponto de origem do passado. Afroamericans, jewishamericans, nativeamericans, chineseamericans, italianamericans etc. etc. etc.
O Brasil foi formado a partir do choque de povos diferentes. Por Judeus portugueses que precisaram esquecer as origens para fugir da inquisição e que se uniram a indígenas que foram aquartelados em reservas e cristianizados até perder o fio que os ligava a sua língua e tradição. Indígenas que também, por sua vez, se uniram à escravos vindos da África que eram obrigados a circundar a “árvore do esquecimento” e abandonar os laços com a sua vida anterior, antes de atravessar o mar para a grande viagem entre mundos.
Talvez isso explique a nossa memória fraca.
Talvez isso explique, culturalmente, o vexame da seleção brasileira de futebol em um jogo amistoso de comemoração dos 50 anos da vitória na copa da Suécia.
Quando perguntados pelos repórteres suecos sobre quem eram os ídolos da seleção de 1958 que os inspiraram, os jogadores da seleção atual não souberam responder.
Eles não se lembravam.
Eles não conheciam os nomes dos jogadores que viajaram para a Europa trazer, dos campos gelados, a primeira copa do mundo para o Brasil (a única seleção sul-americana campeã em gramados europeus).
Para diminuir a força dessa vergonha nacional e recolocar no cânone afetivo do povo brasileiro o nome dos velhos heróis do futebol o Roberto Sander resolveu investir em uma série de livros que traria pequenos resumos biográficos sobre os “10 mais” de cada grande time do Brasil.
Lógico que eu comecei a leitura da série pelo livro do Flamengo.
Ali achei Domingos da Guia, Leônidas, Zizinho, Evaristo de Macedo, Dida. Achei o Rubens e o Dequinha, que junto com Pavão fazia a trinca mágica exaltada no Samba Rubro Negro (… O mais querido/ tem Rubens, Dequinha e Pavão/ eu já rezei pra São Jorge/ pro mengo ser campeão…).
Lógico que tem também o Zico, o Leandro e o Júnior, protagonistas da geração de ouro que ajudou a consolidar minha paixão pelo rubro negro da gávea nos anos oitenta.
Um caso especial para mim é o do Dequinha. Não só por ser potiguar, mas por vir do Oeste, região da família da minha mãe.
Incrível como muitos torcedores do Flamengo aqui em Natal se espantam quando eu falo que Dequinha era de Mossoró. È muito sintomático dessa tendência potiguar de não acreditar em si mesmo e que costuma a lançar no exílio da memória muitos dos melhores filhos dessa terra.
Também é interessante e um mote muito bom para ser explorado, a partir de um aspecto mais literário as relações entre Zico e Dida. Esse é um grande mote para um romance definitivo sobre futebol que a literatura brasileira ainda deve para o mundo.
Dida foi um modelo de craque para Zico e o Galinho teve oportunidade de entrevistá-lo quando o jogador, ídolo da torcida nos anos 50, amargava o ostracismo futebolístico, a pobreza e o esquecimento.
Zico parece que ficou muito impressionado com a história de seu ídolo. Eles tinham tipos físicos muito parecidos, eram franzinos e Dida, que jogou na seleção de Alagoas e da Bahia, foi considerado pelos médicos do clube como sendo portador de “sérias carências nutricionais” quando começou a jogar no Flamengo nos anos de 1950.
Zico foi chamado de “galinho” por causa de sua constituição física, absolutamente discrepante em relação a jogadores de hoje, como Adriano ou Washington do São Paulo.
Mas Zico entendeu a condição de Dida e parece que fez uma promessa a si mesmo de superá-lo em campo e na vida profissional. Ser o maior craque do time para o qual torcia na juventude e não acabar como seu ídolo, pobre e triste foi o projeto de Zico no Flamengo.
A desconstrução do mestre e sua superação por parte do discípulo, no campo do futebol, daria um excelente fio para o romance de formação que a literatura brasileira deve ao mundo da bola.
Mas essa não é uma preocupação do livro de Sander. A escolha dos jogadores pode ser questionada, porque toda lista gera controvérsias. No caso da série os jogadores são escolhidos a partir do voto de diversos “especialistas”, jornalistas esportivos, escritores, comentaristas de futebol.
Eu já decidi, vou comprar a coleção toda.
Um Comentário para “Os dez mais do flamengo”
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E camarada, ser hexa campeão é fácil,dificil é ser flamenguista… o que a gente ouve por ai não é fácil! Adam dizendo por ai, que, o flamengo tem apenas 5 (cinco) titulos,isso não é problema meu, resolvam com a minha acessoria jurídica!!! uma vez flamengo,sempre flamengo!
Vou em busca desse livro “os dez mais do flamengo” e aguardo o comentário do “PRSSÃO ALTA” salve,salve o flamengo!