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08 dez

Hexacoração

  • Pablo Capistrano
  • 08 de dezembro de 2009, as 17h17
Há um segredo que liga o flamengo e a alma brasileira.

Há um segredo que liga o flamengo e a alma brasileira.

Natal, 06 de Dezembro de 2009.

Dezessete anos depois.

Sabe, minha mãe trabalha na Fundação Roberto Marinho, por isso ela viaja muito. Dia desses ela estava em uma voadora (um barco à motor muito comum no norte), bem no meio da floresta amazônica em busca de um lugarejo chamado Vila Itapeassú. O lugar ficava a 3 horas de viajem de Itacoatiara, a cidade mais próxima. A vila Itapeassú é um lugar longe, muito longe das capitais.

Ali haviam algumas casas de madeira na beira do Rio Paraná que avançava sobre as árvores no tempo da chuva e que sazonalmente encolhia na época seca.

Apesar do isolamento, apesar da distância, apesar da imensa floresta que ainda resta a cercar a pequena comunidade de Vila Itapeassú, ela não está imune. Minha mãe me ligou assim que chegou em Manaus: “sabe o que achei pintado em uma janela de uma casa lá em Itapeassú?” – Ela me perguntou, só para responder logo em seguida – “o símbolo do flamengo”.

Minha mãe não é uma fã de futebol. Mas, devido a minha paixão pelo rubro negro, ela aprendeu a reconhecer o símbolo do Flamengo aonde quer que vá.

Digo isso no começo desse comentário para que meus leitores cariocas possam ter uma dimensão um pouco mais aprofundada acerca do significado de torcer pelo Flamengo.

Existem especulações sociológicas que procuram justificar o comportamento apaixonado dos torcedores apelando para o regionalismo, para o tribalismo étnico ou para ideologias políticas. Assim, a rivalidade entre Barcelona e Real Madrid remontaria as questões étnicas envolvendo catalões e visigodos na península ibérica. As disputas entre a Roma e a Lazio trariam o eco das rivalidades políticas entre fascistas e comunistas na Itália. No Brasil, uma boa parte das rivalidades regionais que alimentam o futebol traz a marca social.  Náutico e Santa Cruz, América e ABC, Corintinhas e São Paulo e, no Rio, Flamengo e Fluminense.

Mas, essa leitura que comumente explica o fenômeno Flamengo (entendendo o time como um time do Povo contra o time da Elite) aponta para um aspecto muito reduzido da paixão rubro negra. O Flamengo, no Brasil, tem uma dimensão muito maior do que essa. Se alguém quiser entender o que significa ser rubro negro no Brasil, não pode reduzir sua leitura a uma dimensão sociológica desse tipo.

O Flamengo é um time que se constituiu no Brasil não a partir de uma dicotomia, de uma dualidade social. No Brasil o Flamengo é um profundo e desconcertante fenômeno de unicidade.

Raramente se encontra, no nordeste ou no norte do Brasil, um torcedor do Flamengo que é flamenguista por causa do Vasco, do Fluminense ou do Botafogo. Não se encontram facilmente antivascainos, antitricolores, antibotafoguenses. Mas é fácil encontrar gente que torce pelo Vasco porque odeia o Flamengo, ou que virou tricolor naquele gol de barriga do Renato Gaúcho no Carioca de 1995, por causa da derrota do Flamengo.

 O fenômeno do Flamengo no Brasil não se explica sociologicamente. Sua mais exata explicação é metafísica. Há uma comunicação profunda entre o Flamengo e o povo brasileiro. Há um segredo que vigora na intimidade profunda da nação e que ultrapassa as fronteiras geográficas do Rio e os abismos sociais latino-amercianos. Não é a cor, não é a classe, não é o sotaque do Flamengo que o faz estar em Catolé do Rocha com a mesma paixão e intensidade que está na Gávea.

Alguns até especularam que, depois de 17 anos sem um título nacional de peso, o fenômeno do Flamengo iria arrefecer e que o São Paulo, com seu currículo recente de vitórias iria substituir a paixão rubro-negra por algum tipo de fenômeno paulistano tricolor. Os paulistas que me perdoem, mas a lógica da vitória não é suficiente para explicar a paixão. Quem pensa que o fenômeno Flamengo nasce com Zico e o dream team dos anos oitenta está enganado. Meu avô, Benjamim Capistrano, que nasceu em algum lugar entre as Rocas e a Ribeira (em Natal) em 1911, já era flamenguista nos anos de 1930. Meu pai, que nasceu no Cariri paraibano em 1943, torcia pelo mais querido. Eu e meu filho Uriel apenas continuamos a tradição, a linhagem de pertencimento ao fenômeno.

Não importa o tempo, não importa o jejum de vitórias, o interior mais profundo do Brasil, o centro mais arcaico de onde as potencias ctônicas da nação eclodem, partilha com o Flamengo um estranho segredo que une esse time centenário à própria fonte da alma brasileira. Esse é um vínculo que ultrapassa o futebol, porque só existe segredo onde vigora a intimidade.


7 Comentários para “Hexacoração”

  1. ANDRELUCIO RIBEIRO9/12/2009 às 18:36

    Essa metafísica me consome, grande Pablo! Não sei diferenciar o sentimento que tenho pelo Flamengo do que sinto pelos hábitos que possuo. Programo todo o fim de semana, no intuito de estar com tempo hábil e livre para ver o jogo. O pior, as vezes fico rezando pra que a tv mostre a torcida, para que eu veja que não sou louco sozinho. Ao mesmo tempo, é um amor que divido com milhões, não dá pra ter ciumes. É o único amor o qual o torcedor pode dividir,e gosta de dividir. O senhor mesmo disse que sua mãe ficou alegre em ver que tinha um flamenguista dentro da floresta amazônica. A gente fica feliz em ver que a pluralidade desta nação, rubro-negra, é imensa. E esse sentimento intangível e basilar na metafísica do futebol, se concretiza na vitória, onde a gente conquista sem ter sido a gente. Onde nos julgamos campeões, e nos vemos numa atitude de raça do jogador em campo, é no futebol que o pluralismo é evidente, não há muros que bloqueiam as pessoas na classe social. Admiramos o clube, amamos o time, sofremos pelos outros e ficamos presos sem ter feito crime algum. Nos privamos do mundo por 90 minutos de futebol no maracanã. Reclamamos da fila do banco, do supermercado, das disparidades, mas quando o assunto é futebol, e Flamengo, ninguém se queixa do tempo em frente a tv ou no estádio, mesmo que tenha fila enorme, mesmo que seja ingresso caro, mesmo que o resultado seja a derrota, no outro domingo estamos lá, de novo, com o mesmo ritual. Mas ser Flamengo não éum vício, não é doentio, é ser o melhor reflexo do cidadão brasileiro. O título do hexa, só mostra que o menor brasileiro pode um dia ser grande, que independente da estrutura que é dada pelo governo, vç pode ser feliz, e mesmo que não alcance o maior patamar social, vç terá a vitória baseada na força de vontade, na disciplina e no suor, é isso que é ser Flamengo, é essa a herança que vejo, é isso que me alimenta nesse amor, saber que num simples esporte, eu encontro exemplos fortes pra vida, e um sentimento incomparável me consome, o da paixão rubro negra, onde não só o amor é o combustível, mas a dor ensina muito a superar as dificuldades…e essa dor compartilhada por todos, nos mostra de onde viemos e pra onde vamos…somos todos iguais, todos iguais, mas uns mais iguais que os outros!

  2. emanuel dhayan31/12/2009 às 6:47

    estive na final. trouxe uma faixa de campeão para você. como faço para entregá-la ? ainda está na farn ?
    saudações rubro-negras. emanuel


  3. 5=Penta!
    Saudações do Leão da Ilha

  4. Pablo Capistrano7/1/2010 às 10:03

    Valeu Emanuel!
    manda um e-mail para o pablocapistrano@yahoo.com.br
    um hexabraço pra você!

  5. Carlos Augusto12/1/2010 às 7:14

    Festa na favela…

  6. Carlos Augusto12/1/2010 às 7:15

    Muito legal o lay-out do site!

  7. Lucas Mesquita22/2/2010 às 7:31

    Só agora li o texto. Excelente. Hexasaudações!

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