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  • Pablo Capistrano
  • 15 de dezembro de 2009, as 8h08

Heine na juventude - sua obra aponta para a chegada de tempos sombrios.

Livro: O Rabi de Bracherach e Três Textos sobre o ódio racial.

Autor: Heine

Tradutor: Marcos Mazzari.

Editora: Hedra. 

Soube da existência de Heine através de  uma coletânea de poesia alemã da Ediouro intitulada Livro de Ouro da Poesia Alemã. Corria o ano de 1987 e eu estava com 13 anos. Morava em Candelária e meus pais haviam acabado de se divorciar. Era um tempo muito propício para a poesia. Havia descoberto o Smiths e o finalmente havia comprado o disco preto do The Cure (o ao vivo).

Lembro daquele livro, que tinha o texto em alemão de um lado e o texto traduzido do outro. Por meio dele tive um contato mais próximo com Brecht (um impacto), com Goethe e até com dois poeminhas de Nietzsche. Lembro também de prestar atenção no nome de Heine, apesar de não ter conseguido entender muito bem qual era a dele.

Vinte anos depois, ouço novamente o nome de Heine em uma disciplina do doutorado, ministrada pelo professor Marcos Falleiros. Ele discorria sobre Baudelaire e acabou tocando em Heine no meio da aula. Parece que o nome ativou algo na minha memória arquetípica e quando eu andava pela Poty Livros do Praia Shopping  acabei me deparando com uma tradução do livro O Rabi de Bacherach.

Sabe, já li alguns livros incompletos na vida. Especialmente os de Kafka. Mas há algo de tão radicalmente contemporâneo em Kafka que ultrapassa o problema da incompletude dos seus livros. O fato de O Processo não ter sido terminado (ou seja, de haver um buraco no meio do livro) não perturba a leitura. Por si só, o que se tem já é suficiente. Talvez América seja dos livros de Kafka, o que mais clama por um complemento e mesmo assim, o primeiro capitulo já é, por si só, algo que satisfaz.

Em O Rabi de Bracherach isso não acontece.

Não se sabe se Heine completou o texto, porque parte de seus manuscritos foi consumido em um incêndio. O fato é que só sobraram os três primeiros capítulos.

Isso é terrível porque, ao contrário de Kafka, que viveu em uma época de fragmentos e descontinuidades a prosa de Heine é de um tempo em que as coisas exigiam complemento.

O texto trata de uma lenda que gira em torno de um pogrom realizado contra a comunidade judaica da Alemanha por volta do século XV. Heine, que era judeu assimilado, havendo inclusive em um período se convertido ao protestantismo, explora o ódio racial e a intolerância religiosa com uma riqueza imaginativa transportadora. Marcas de um tempo em que a literatura parecia ser muito mais do que linguagem.

È provável que Heine tenha escrito o texto, ou ao menos estivesse trabalhando nele quando publicou em Paris, entre Maio e Julho de 1840, uma série de três artigos sobre um massacre de Judeus em Damasco (também publicados e traduzidos pelo Marcos Mazzari na edição da Hedra).

A incompletude desse texto de Heine parece uma curiosa ironia histórica. Mais de cem anos depois, movido pela ansiedade da influência que consome poetas, filósofos e críticos, Gunter Grass (autor de O Tambor de lata) produz uma releitura do livro incompleto de Heine em um texto intitulado “Como dizer aos nossos filhos?”. Nele Grass confessa que ficou tentado a completar o livro de Heine, dando-lhe um desfecho inspirado na experiência histórica do holocausto, de modo a retirar o Rabi Abraão e sua mulher Sara dos pogrons medievais descritos por Heine e lança-los na Alemanha dos anos trinta.

Curiosamente Heine percebeu essa mesmice bizarra, que unia os acontecimentos de Damasco em 1840 à um período no fim da idade média onde histórias fantásticas de rituais satânicos com sangue de crianças se espalhavam pela consciência popular e justificavam atrocidades e massacres protagonizados por hordas de fanáticos religiosos que percorriam as ruas se açoitando e gemendo pelo fim do mundo.

Grass captou a permanecia histórica da barbárie na Europa e sabia que a história do Rabi de Bracherach não estava conclusa no tempo de Heine. A ironia românica de Heine (nos dizeres do próprio Grass) teria de ser completada com a derradeira percepção do holocausto. “Hoje eu sei” – diz o autor de O Tambor – “sem o desvio pela Bracherach de Heine, eu não teria encontrado acesso à história dos judeus de Danzig”.

Caso típico da angústia da influência.

Mas eu acho particularmente que, apesar dos esforços de Grass, de Max Viola ou de Karl Weiser (que em 1894 fez uma adaptação teatral da obra) quem realmente continua o texto de Heine é Kafka. É a incompletude de Kafka que completa a incompletude de Heine. Do mesmo modo os acontecimentos de Bracherach e Damasco recebem uma desleitura sinistra através da loucura racista organizada do nacional socialismo.

Há um débito judaico fundamental com a história. Um povo que viveu tantos anos sem geografia, precisou encontrar na história o seu elemento de unidade e de sobrevivência coletiva. Por isso é tão intenso e comovente o final do segundo capítulo do livro quando Sara, mulher do Rabi Abraão, na sinagoga de Frankfurt, fugindo dos massacres de Bracherach, se depara com a voz do seu esposo a entoar o nome dos mortos:

 

“E quando o Rabi levantou-se na ala inferior para proferir o agradecimento, a bela Sara reconheceu a voz do marido e percebeu como sua entonação foi gradativamente se convertendo no sombrio murmúrio da oração para os mortos; ela ouviu os nomes das pessoas queridas e dos familiares, acompanhados ainda por aquela palavra de bênção que se confere aos mortos. E a última esperança desapareceu da alma da bela Sara; e a sua alma foi dilacerada pela certeza de que as pessoas queridas e os familiares haviam sido realmente assassinados, que sua pequena sobrinha estava morta, que também suas priminhas Blümchen e Völgelchen estavam mortas, que também o pequeno Gottschalk estava morto – todos assassinados, todos mortos! E a dor causada pela consciência desse fato foi tamanha que ela própria teria morrido se um desmaio benfazejo não tivesse se derramado pelos seus sentidos

PS.: a foto lá de cima é de Heine, quando jovem.


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2007 ® Pablo Capistrano

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