21 dez
Até ano que vem!
- 21 de dezembro de 2009, as 8h08
Esse site estará sem atualizações até o ano que vem.
Mas,
para que seus leitores não fiquem órfãos das nossas discussões seguem uma lista de assuntos legais para serem debatidos na ceia de Natal.
1. A fruta da Eva era uma maça? – parece que não há referência a nenhuma macieira no gênesis. Fala-se de duas árvores, uma árvore da vida e outra do bem e do mal. A árvore da vida é um símbolo arquetípico de diversas culturas. No hinduísmo há érvore do Yoga que na sua base traz a serpente Shakti e no topo o deus Shiva. Shakti e Shiva se casam quando a serpente sobe das raízes para a copa das folhas. A árvore do conhecimento do bem e do mal parece ser uma inovação judaica. A origem do problema da maça parece estar na tradução latina – malum (maçã) e malum (mal). Lembro sempre que a palavra pode até ser de Deus mas a língua é do homem.
2. Maria sempre foi virgem? – esse é um ótimo debate para uma ceia de Natal com católicos e protestantes. Retirando-se as armas brancas da mesa, é claro. Parece que a idéia de que Maria sempre foi virgem é coisa de mulçumano. Curiosamente Maria é citada no Corão mais freqüentemente do que nos textos dos cristãos. Segundo os mulçumanos Maria teria sido fecundada por um “Verbo emanado do Senhor” (Corão, III, 45) e teve seu filho chamado de Issa ibn Maryam (pelos mulçumanos que falam árabe) mesmo que “homem algum a tocou..” (Corão XIX. 20). Nos textos dos cristãos parece que há uma só menção sobre a virgindade de Maria, que aparece em Lucas (“como isso vai acontecer, disse Maria ao anjo que lhe anunciava o nascimento de Jesus, se eu não conheço homem algum”). Bom lembrar do sentido bíblico do verbo conhecer. Toda a confusão parece girar em torno do termo parthenos pelo qual Maria e descrita. Em grego esse termo significa tanto “virgem” quanto “moça” – coisa que o povo da terra da minha avó usava também (lembro que eu demorei a sacar o que significava o termo usual lá na tromba – “Moça velha”). Estão nos apócrifos as referências mais marcantes sobre a virgindade de Maria – O proto-evangelho de Thiago e coisa e tal. Maria virou definitivamente a mãe de Deus filho, a filha de Deus pai e a noiva de Deus espírito Santo depois de Nicéa (381) e Constantinopla (533).
3. Quem danado é Satã? – a palavra Satã em hebraico significa “adversário”, “acusador”. Nenhum judeu decente pode acreditar que Deus tenha um adversário, ou um inimigo. Isso não faz sentido. O monoteísmo radical dos judeus não permite a existência de um príncipe das trevas hard core ou trash metal, como o Lúficer de John Milton. Por isso, na tanak Satã é uma espécie de membro do ministério público (perdoem a analogia amigos promotores mas é mais ou menos isso). Ele acusa a galera no julgamento divino. Seria um funcionário de Deus, um assessor jurídico do Divino rei do universo e não um anjo rebelde como algumas seitas cristãs-zoroastreanas apregoam. Satã se tornou nome próprio por causa de mais um equivoco de tradução. No livro de Samuel tem algo mais ou menos assim “a cólera do Senhor se inflamou contra Israel e incitou Davi a organizar um recenseamento”. Não sei porque o autor das Crônicas (nos séculos IV e III AC) resolveu traduzir o Cólera do Senhor (lembra o nome de um grupo de Hard Core Gospel) por “Satã” ficando assim a passagem “Satã se levantou contra Israel e incitou Davi a organizar um recenseamento”) – levando em consideração que os recenseamentos na antiguidade tinham função tributária Satã aqui acabou por deixar o ministério público para trabalhar na receita federal.
4. A cruz é o único símbolo dos cristãos? – Eu não entendo como alguém pode pensar que os primeiros cristãos pudessem adotar um instrumento de tortura tão hediondo como a cruz como símbolo de sua nova religião. A primeira vez que uma cruz apareceu em uma parede como alusão aos cristãos foi no século III dC, em um grafite que tinha os dizeres “Alexamenos adora seu deus” – na imagem aparecia um homem com cabeça de cavalo crucificado. Essa era uma clara sacanagem em relação ao deus desse tal de Alexamenos, um soldado romano cristão. O primeiro símbolo dos cristãos foi o peixe.
Se você quiser mais temas legais para a sua noite de Natal vá na banca e compre a edição especial da História Viva sobre essas crenças populares sobre a religião.
Um abração.
Que a paz acompanhe vocês!
2 Comentários para “Até ano que vem!”
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No momento não vou comentar o texto. Aproveitei essa via para enviar email que repassei ao hotmail. O canal contato do blog da erro de página.
Isso foi antes do Natal. Hoje tento de novo..Prezado Paplo
Acabo de chegar da livraria. Comprei 6(seis) livros para presentear amigos neste natal. Cara! que surpresa boa!!!! Fiquei radiante con o conteúdo do livro. Foste corajoso em colocar roupagem diferenciada nesse negócio chamado Filosofia. O mundo está precisando de gente que faça a diferença. Uma coisa que ouvimos muito na academia: a filosofia é para poucos. Muitos não entendem isso. Diria que a metafísica é para poucos, agora a filosofia é para muitos. Vc aborda as questóes metafísicas com zelo, elegância e ao mesmo tempo enaltece a filosofia como algo indispensavel a vida do ser humano. Enfim, a filosofia existe, porque o homem vive a busca da felicidade. Essa é a questão que circula desde do seu surgimento. Outra coisa interessante, muitos dos pontos de vistas relatados como seu cotidiando e o da vida acadêmcia, a própria história da filosofia de forma expontânea, são coisas que muitos gostaria de relatar. Vc consegue com desenvoltura registrar isso. Muito bom, bom mesmo. Valeu. Não fui ao lançamento porque não sabia. Nos próximos por favor me avise. Agora tens o meu email.Abraços Nilton colega de turma do mestrado
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Pablo.
Agradecer pela sugestão de renovar a tediosa ceia natalina com temas divertidíssimos. Nunca ri tanto com tanta coisa séria. Valeu.