- 06 de janeiro de 2010, as 12h12

Para Bloom a crítica literária precisa construir um engajamento com o passado
Livro: A Angústia da Influência: Uma teoria da Poesia.
Autor: Harold Bloom
Tradutor: Arthur Nestrovski.
Editora: Rio de Janeiro.
Escolher os livros que vai se ler é bem difícil. Existe uma superpopulação de títulos à disposição em qualquer boa livraria. Muitos temas, autores, estilos, gêneros, modos textuais. Tudo à disposição de qualquer um que pretenda gastar um pouco de tempo e de dinheiro se aventurando pelo universo da escritura.
Apesar disso, dramático mesmo é escolher os livros que se vai reler. Isso porque toda releitura implica, na matemática louca dos aficionados, menos um livro novo a ser lido em nosso tempo de vida. Harold Bloom foi muito feliz ao equacionar essa angústia, que é a de milhares de leitores, na introdução de seu livro O Cânone Ocidental. Uma lista de livros é antes de qualquer coisa uma limitação à liberdade de leitura que nos livra da ansiedade da escolha.
Curiosamente, é para Bloom que eu tenho que retornar nesses aflitivos dias terminais de trabalho de doutoramento. Li A Angústia da Influência pela primeira vez em algum momento entre 1996 e 2000. Uma segunda vez em 2007 para reformular e ajustar alguns pontos da minha tese de doutorado.
Sabe… raramente eu leio um livro mais de uma vez. Só aquelas obras que as circunstancias ou meu próprio juízo consideram essenciais. Mais raro ainda é ler um livro três ou quatro vezes (reservo isso aos imprescindíveis). Depois da minha qualificação, a professora Sandra Erickson (que participou da avaliação preliminar do meu trabalho e é uma das maiores especialistas em Bloom no Brasil) me convidou a reler A Angústia da Influência prestando atenção em alguns pontos mais específicos.
O trabalho de Bloom segue uma intuição do crítico canadense Northrop Frye de que a avaliação de uma obra não deve ser o objetivo fundamental dos esforços de qualquer crítica, na introdução do seu livro Anatomia da Crítica, Frye propõe que um modelo sistemático e “cientifico” de crítica literária não deveria se reduzir a um mero esforço valorativo que busca indicar o que é bom e o que não é bom em termos literários. Bloom incorporou a ideia de Frye de que uma crítica literária forte não deveria se basear em gosto, ou na emissão de juízos de valor sobre obras.
O livro de Bloom A Angústia da Influência é de 1973 e trouxe para o painel da crítica literária a noção de agon presente no universo da épica homérica e que se referia aos combates entre heróis na antiguidade clássica. A influência não pode ser vista como uma simples transmissão de estilo. Não estamos diante de uma transferência de características textuais quando afirmamos, por exemplo, que Quintana e João Cabral influenciaram Leminski. O que há, segundo Bloom e seu textualismo forte, é um combate intenso e reativo pela supremacia poética envolvendo poetas jovens (efebos) e velhos (precursores).
Nietzsche, Emerson, Samuel Johnson e Willian Hazlit são nomes que, junto aos de Freud e Frye, formam o liquidificador de idéias da qual emerge a teoria de Bloom.
Talvez, a marca mais intensa desse livro seja mesmo a da subversão de uma certa tendência da crítica modernista de pensar que a grande literatura é sempre um make it new, um inovar, um revolucionar da linguagem, como se o papel da literatura fosse o de fazer com que a linguagem, que já tem sua autonomia própria e sua dinâmica particular, caminhasse.
Bloom retira a literatura de seu cativeiro lingüístico e pensa para a crítica literária a tarefa de se construir um “engajamento com o passado”. A angústia da influência pode ser frustrante para quem está acostumado com o Bloom Pop que emergiu depois da publicação de O Cânone Ocidental, Shakespeare: a invenção do humano (que marca a rendição de um Bloom freud-nietzscheano à influência de Hegel) ou mesmo Onde encontrar a sabedoria (um título com um puta jeitão de auto-ajuda).
Sua teoria da poesia não constitui-se em um livro leve, desses que a gente lê numa boa deitado em uma rede. Essa é sua tese central, sua contribuição filosófica ao mundo da crítica literária, o momento em que seu pensamento chega nos limites do estilo e produz o giro em direção a morada do espantoso e do terrível. Se você é um leitor do Bloom Pop, talvez não goste de A angústia da influencia. Confesso que só agora, depois da terceira leitura é que eu posso dizer que começo a visualizar realmente o ponto ao qual Bloom quer chegar e sua luta a favor da dissolução de algumas ilusões na leitura literária.
A ilusão religiosa, que pensa a poesia como um processo de criação de uma presença real. A ilusão orgânica, que acredita que um poema pode criar algum tipo de unidade lingüística. A ilusão retórica que leva muita gente a acreditar que um poema define-se através de algum tipo de “forma” ou de “estilo”. A ilusão metafísica que tenta fazer crer que um poema cria ou contém algum tipo de significado.
Essas ilusões enfraquecem nossa leitura. Lemos fragilmente um poema, um romance ou um conto quando buscamos nos fiar em algumas dessas ilusões. Libertar-se delas talvez seja o mérito dos grandes leitores prender-se a elas o suicídio de qualquer poeta.