06 jan
O Século que não começou
- 06 de janeiro de 2010, as 12h12

Angelus Novus de Paul Klee - Benjamim o viu como um signo da temporalidade.
Não lembro qual foi o ano, mas sei que foi em algum momento na virada do milênio. Assisti absolutamente assombrado ao filme “Nós que aqui estamos por vós esperamos” (dirigido por Marcelo Massagão) em um canal de TV por assinatura. Aquela não foi uma experiência meramente historiográfica. Eram as imagens de um século que morria, mostradas em uma seqüência que não continha apenas dados políticos, geográficos ou econômicos. Aquilo era um intenso, um desconcertante avanço sobre as dimensões mais comoventes da temporalidade.
Temporalidade é uma palavra forte. Não seria um abuso imaginar que o que nos faz humanos seja esse mergulho, essa abertura para a temporalidade. Um mergulho que permite que eu e você possamos delimitar aquilo que somos. Essa é uma experiência de definição, uma experiência do agora. È no presente que eu me lembro de quem fui e, de certa forma, me escolho. É no presente que eu me projeto, que eu imagino quem eu gostaria de ser e invento, no campo de possibilidades desconhecidas o lugar aonde eu quero estar, entre o medo e a esperança.
Essa temporalidade era o mote daquele filme. Suas imagens apresentadas sobre o pano de fundo de uma trilha sonora deslumbrante do Wim Mertens (se a Wikipedia não estiver me enrolando), me fizeram entender que a minha geração era, definitivamente, a última geração do milênio que morria e não a primeira do milênio que nascia. O século XXI, por mais que eu tentasse, não seria meu. O século XX seria meu peso, meu cadáver particular, o defunto ilustre que eu deveria carregar.
Não preciso descrever a você todos os detalhes sórdidos do tipo de agonia que essa percepção me proporcionou. Posso até mesmo dizer, sem medo, que meus esforços em superar o século XX e abraçar o XXI, marcaram meu pensamento, minha escritura, e a grande maioria de minhas leituras na última década.
Aliás, vamos combinar… essa década que começa a acabar foi absolutamente frustrante. Não digo isso pensando em nenhuma área específica como literatura, música, cinema ou futebol. Alguém pode vir com uma lista de obras primas que surgiram nessa década ou mesmo apelar para o hexacampeonato do Flamengo (o que por si só já seria um bom argumento para debandar minha sensação de frustração). Apesar disso, é na intimidade dos povos, naquele lugar onde habita o mais intenso e o mais profundo, que o chamado do milênio ainda não ecoou.
A humanidade ainda não ouviu a voz do tempo futuro, e os ecos das vanguardas do passado, hoje, soam muitas vezes como distorções de uma época que quis passar rápido. De um século breve como imaginou Eric Hobsbawm em seu livro (A Era dos Extremos).
Começamos muito mal o século XXI. Ressuscitamos velhos mitos ideológicos de combate entre oriente e ocidente e antigos malassombros teológicos que produziram a estranha sensação de retorno à idade média ou o século XVII. Como se estivéssemos arquitetando uma segunda edição de massacres antigos e velhos morticínios. Terminamos a década frustrados pela incapacidade geopolítica de se articular, a partir das mais expressivas lideranças planetárias, uma virada em direção a um modelo sustentável de sociedade. Mantivemos nessa década os dois grandes sintomas de uma mesma síndrome que ameaça a humanidade: o desenvolvimentismo tecnicista e a intolerância cultural e religiosa. Era como se, na primeira década do século XXI, o novo milênio tivesse recusado a entrar no palco, bem na hora em que o público mais ansiava pela sua estréia e em seu lugar um velho ator, disfarçado, tivesse aparecido para ludibriar a platéia.
Fazendo referência a uma figura de Paul Klee intitulada Angelus Novus Benjamim escreveu “o que chamamos de progresso é esta tempestade”. Para além dos calendários, e das datas convencionais, a temporalidade nos arrasta. Mas não estamos diante do futuro, porque não o reconhecemos. A caminhada do homem no tempo é feita de costas, porque o passado está diante de nós, como uma ameaça de permanência, como um refugio melancólico, como um estrondoso amontoado de ruínas. Mas o futuro, esse desconhecido, está à nossas costas. Passamos por ele como se levados pela tempestade, mesmo que às vezes, ele relute um pouco em chegar.
3 Comentários para “O Século que não começou”
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Esplêndida colocação,mestre! O ser humano parece viver na ânsia pela agonia da vitória, se prendendo a convencionalidades que o tornam imoral, éticamente falando. Ao mesmo tempo em que reconhecem uma crise ética, e tomam atitudes ciclicas, se abstém de criar coisas boas para a humanidade, digo de uma forma criativa e marcante, que simbolize sua existência ou geração. O que vemos é um retardo político internacional,cético por parte de alguns e hipócrita por parte de outros. A nova ordem mundial, tão cogitada e especulada, parece ter sido abortada pelo uso de um comprimido assassino e proibido. A Itália acaba de fixar cotas para estrangeiros em suas instituições educacionais, daqui a pouco será no mercado de trabalho,e o modus vivendi facista está louco pra ressurgir. A pós-modernidade e suas teorias de risco,nos lembram a série de benefícios que a tecnologia nos trouxe (como este que estamos usando agora, digo a internet),mas também nos trouxe uma sensação de esgotamento no sentido existencial do ser humano. Se o que nos diferencia dos animais é a racionalidade, e a capacidade ética-moral, então não deveríamos ser insanos ou ignorar previsões científicas ou religiosas. No futebol, alguns times estão impedindo mensagens religiosas, sejam em entrevistas ou em comemorações dos jogadores, até isso está sendo interferido, uma decisão que fere a subjetividade. O nosso hoje, baseado no ontem, e visualizando o amanhã, apenas nos mostra realmente o que são as nações:…” Seres resignados, carentes de uma visão periférica, lutando contra si(abrindo mão até da soberania), para aparentar uma evolução tecno-social. Mas que deixa claro a ignorância do que é a eudaimonia. Inicia-se uma nova década,inicia-se um novo mundo? Peço licença ao senhor, mestre Pablo, e insiro no fim de minha fala os versos do Pensador Gabriel, que serviria bem pra humanidade:
Muda, que quando a gente muda o mundo muda com a gente
A gente muda o mundo na mudança da mente
E quando a mente muda a gente anda pra frente
E quando a gente manda ninguém manda na gente
Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doença sem cura
Na mudança de postura a gente fica mais seguro
Na mudança do presente a gente molda o futuroGrande abraço!
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amigo, texto incrível. você é um belo exemplo de sabedoria e concisão. nada no seu texto é gratuito, palavroso ou narcisista. me identifiquei demais com essa lacuna que o século XXI nos tem deixado, sem saber ainda como preencher.
do passado e futuro, só podemos ser espectadores. e, parece, que no presente, da condição de espectar e atuar, engatinhamos nessa década, com pequenos arremedos e reproduzindo surdos ecos do que já fomos. fazer o que? esperar e pagar (agindo) para ver. -
assisti “nós que aqui estamos…” na mesma época, algo em torno de 1998, 1999. a sensação despertada de “melancolia da modernidade” me persegue há tempos, antes mesmo de Lobão cantá-la. melancolia pelo que não fui, pelo que não vivi, pelo que sabia, desde criança, que não seria. tudo parece ter sido feito/acontecido antes de eu nascer. o resto são mitos de areia que escorrem pelos dedos do tempo.