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  • Pablo Capistrano
  • 12 de janeiro de 2010, as 12h12
Peter Sloterdijk é um dos que tenta desmontar o monstro Nietzsche-heidegger. Só não sei se ele vai conseguir.

Peter Sloterdijk é um dos que tenta desmontar o monstro Nietzsche-heidegger. Só não sei se ele vai conseguir.

 

Livro: O quinto evangelho de Nietzsche.

Autor: Peter Sloterdijk.

Tradução: Flávio Breno Siebenichler.

Editora: Tempo Brasileiro.

Ano: 2004.

Eu gosto de Peter Sloterdijk porque ele parece realmente estar interessado em fazer uma leitura de Nietzsche livre da sinuca de bico hermenêutica montada por Heidegger. Eu particularmente gosto desses esforços épicos e dessas tarefas heróicas, inclusive no campo da filosofia acadêmica.

 

Desde suas conferências na universidade de Freiburg entre 1936 e 1939, Heidegger amarrou Nietzsche a seu próprio pensamento de modo tão intenso que acabou armando uma arapuca. Uma armadilha que acabou por capturar boa parte da filosofia francesa do século XX. Sempre que algum pensador franco-alemão tentava se aproximar de Nietzsche acabava caindo nos braços de Heidegger a ponto do professor da universidade de Vanderbilt Alasdair MacIntyre ter levantado a hipótese da existência de uma espécie de Monstro Nietzsche-heidegger que vampirizava a filosofia européia.

 

Em O quinto “evangelho” de Nietzsche Sloterdijk avança no projeto de decompor o monstro Nietzsche-Heidegger através de uma análise do discurso que estabelece relações envolvendo Nietzsche, Thomas Jéferson (autor de uma obra escrita enquanto era presidente dos EUA intitulada A vida e a moral de Jesus de Nazaré,), Ralph Aldo Emerson e Paulo de Tarso. A chave do negócio parece estar em um pressuposto extraído do Marshall McLuhan de que haveria certa “autoplastia” social presente no entendimento firmado entre os homens. Essa autoplastia teria ligações com a retórica muito mais do que com a argumentação racional e nesse sentido a boa nova de Nietzsche parece ter surgido como um contradiscurso. Uma libertação das forças reprimidas pela retórica de Paulo de Tarso, posto por Nietzsche junto a Sócrates e Platão como um dos “gênios do absurdo”.

Sloterdijk lê o esforço de Nietzsche, a partir de uma carta do autor de Assim Falava Zaratustra para o seu editor, datada de 13 de Fevereiro de 1883, onde está escrito: “Este livro constitui um ‘poema’ ou quinto ‘evangelho’ ou qualquer coisa para a qual não existe um nome certo: o mais sério e, ao mesmo tempo, o mais hilário de meus testemunhos, acessível a todos.”.

Nesse sentido a busca deste novo evangelista seria o de proporcionar uma guinada vitalista que o levasse em direção a um discurso de afirmação da vida na qual o auto elogio e a auto afirmação possam substituir o discurso de mortificação e autodepreciamento construído por Paulo a partir da mensagem de Jesus.

O interessante é que Sloterdijk, neste texto que foi lido em Weimar no dia 25 de Agosto de 2000 em função do centenário de morte de Nietzsche, entende dois aspectos fundamentais do discurso autoreferencial nietzscheano. O primeiro é que esse não é um discurso que reverbera na psicologia dos indivíduos, como uma espécie de doutrina que procure produzir qualquer tipo de “mudança dos conteúdos mentais” dos que são subordinados a sua área de influência. A força do narcisismo nietzscheano está justamente em produzir um desvio na história da linguagem da velha Europa, atuando retoricamente, nos forçando a abandonar os velhos nichos retóricos do cristianismo tradicional.

O segundo ponto interessante da leitura do Sloterdijk é a percepção de que não foi alguma fragilidade possível do pensamento de Nietzsche em relação a tendências nazificantes o motivo de grande constrangimento por parte dos seus discípulos. Os nietzscheanos tem respostas prontas para a acusação daqueles que, (segundo o Sloterdijk) costumam a filosofar com a tesoura. Um dos velhos argumentos é pôr a culpa na irmã de Nietzsche pela edição das passagens usadas por Alfred Baeumler em seu livro de 1931 Nietzsche. O Filósofo e o Político – espécie de bíblia acadêmica dos jovens nazistas.

 

Para Sloterdijk o que desconcerta os seguidores de Nietzsche é a hipertrofia retórica do autor que, em seus momentos de maior furor, apela para um auto elogio constrangedor, típico daquelas almas perturbadas por algum tipo muito grave de moléstia psiquiátrica. Esse desconcerto faz que com os leitores de Nietzsche “pulem” certas passagens de sua obra procurando, como em um código secreto de irmandades antigas, esconder os aspectos mais vexatórios de algum membro da família, do partido, ou da associação ao qual fazem parte.

 

Nietzsche é assim. Sedutor e cômico. Forte e digno de piedade. Firme e desconjuntado. Ele é um desses pensadores que a gente precisa enfrentar (como Sloterdijk e antes dele Heidegger, fizeram) e não transformá-lo em um tipo pósmoderno de profeta, ou guru da geração do fim do mundo, sob pena de matar em Nietzsche o que há de mais intenso e libertador.


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2007 ® Pablo Capistrano

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