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  • Pablo Capistrano
  • 25 de janeiro de 2010, as 3h03
Domo da Rocha em Jerusalém
O Domo da Rocha é o mais antigo exemplar do Corão.

Livro: O Corão – uma biografia.

Autor: Bruce Lawrence.

Tradução: Maria Luiza X. de A. Borges.

Editora: Jorge Zahar.

Ler é um negócio muito louco.

Você abre um livro e começa a extrair a linguagem que está inerte, oculta por trás daquele conjunto ordenado de signos. A impressão que você tem é que através dessa linguagem – que ganha vida com a sua própria dicção – eclode do mundo dos mortos a voz de antigos e invisíveis poetas, autores e pensadores que um dia, deglutiram a linguagem de outros poetas, autores e pensadores. Talvez por essa ilusão mágica da presença da voz de um autor distante, revelada na escritura é que, para alguns, um livro pode ser sagrado.

Ora, imagina… e se o autor desse livro é o criador do universo? Se a voz que aquela linguagem faz surgir, através de uma presença mágica, é a de um grande narrador onipotente, que constrói a trama da história desse mundo a partir de sua própria e absoluta vontade?

É preciso muita sofisticação hermenêutica e uma boa dose de crítica literária para destroçar a ilusão da presença do autor em meio ao texto. Essa é uma sofisticação que muitos leitores religiosos ainda não têm. Por isso, entender a história de um livro como o Corão é tão instrutivo.

O livro do Bruce Lawrence não se restringe apenas a conhecida história de Maomé, o profeta analfabeto que um dia recebeu em uma caverna uma ordem para recitar um grande poema que seria o receptáculo da voz do próprio Deus e que depois liderou 25 campanhas militares e lutou em 38 batalhas para expandir a influência do Islã no Oriente Médio antes de subir aos céus. A relação do Islã com os livros e as interpretações do texto sagrado dos mulçumanos é o grande campo de exploração histórica e literária que texto de Lawrence atravessa.

Para além do texto corânico, Lawrence viaja pelo Domo da Rocha em Jerusalém, o santuário mulçumano construído aonde antes havia o Santo dos Santos, o templo de Salomão. O Domo é o próprio livro, que contém em suas paredes, misturado a formas geométricas e abstrações pictográficas os sinais gráficos do Corão. O Domo da Rocha é o mais antigo exemplar que se conhece do Corão. Não há registros de nenhum outro documento anterior ao século VII que contenha o texto do poema. Talvez por isso se possa entender o porquê do problema político que envolve a disputa por Jerusalém. Está na pedra o mais antigo registro escrito da poesia de Maomé. Um livro de sinais escritos na rocha que não pode ser apagado.

Esse é um outro detalhe ao qual muita gente não consegue se ligar. Ao tratar a Bíblia como um livro, os cristãos perdem a dimensão de que, do ponto de vista literário, o que se tem, em termos de escritura cristã, é uma coletânea, uma grande pluralidade de estilos e modos textuais que variam das cartas, até a poesia religiosa, códigos de leis, o épico histórico, as parábolas de fundo moral e discursos políticos.

O Corão tem uma unidade estilística concentrada no poético. As variações de métrica do árabe corânico não são suficientes para caracterizar uma mudança profunda de modos textuais.  

Apesar dessa unidade fundamental o Corão é usado não apenas como um poema (em um sentido moderno e talvez profundamente ocidental do termo), mas também como um livro de preces, uma canção e um código de leis.

A dificuldade para os ocidentais em compreender a natureza desse texto não é atual. No século XII o monge inglês Robert de Ketton viajou para Barcelona a fim de estudar árabe com Platão de Tivoli. Ketton instruiu-se na arte da tradução pela escola de Toledo, uma associação cristã católica que tinha o objetivo de confrontar o islamismo e demonstrar a natureza charlatanesca da obra de Maomé. Ketton já havia escrito um ensaio em latim sobre Maomé intitulado Fábulas sarracenas ou mentiras e histórias absurdas dos sarracenos. Esse monge, que havia se especializado em traduzir obras do árabe cientifico, penou um bocado ao tentar se aventurar pelo árabe corânico, bem diferente. Talvez por isso tenha acabado por produzir muito mais uma versão do que propriamente uma tradução criteriosa e imparcial.

O ocidente conheceu o Corão a partir dessa tradução. Uma peça literária ambígua publicada com o título de A lei do pseudo profeta Maomé. Curiosamente esse é um texto, segundo Lawrence que retem, em suas entrelinhas, o desconcertante sentimento de se admirar o inimigo.

Mas para mim, particularmente, a melhor parte do livro de Lawrence é mesmo a que ele fala do Mathnawi-e Ma’nawi - o chamado Corão persa.

Sou fã de Rumi, o poeta dervixe que ditou o Mathnawi e que nesse assombroso girar da linguagem ultrapassou religião e levou a literatura mulçumana além de Maomé. Rumi acabou criando uma marca, uma grife poética de discípulos sufis que não apenas dançam e cantam o nome de Deus, mas também que buscam construir poemas nos quais a linguagem do mestre possa encontrar morada.

não procure por Deus

procure por alguém

que procura por Deus.

 

mas afinal por que procurar?

 

Ele não está perdido

está bem aqui,

mais próximo do que teu hálito.

 

estou cheio de esplendor

rodopiando com teu amor

 

é como se eu girasse em torno de ti

 

mas não

é em torno de mim mesmo que giro!


Um Comentário para “O Corão – uma biografia”

  1. scholarships for women8/5/2010 às 1:42

    Keep up the good work, I like your writing.

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2007 ® Pablo Capistrano

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