25 jan
Tremor e temor I
- 25 de janeiro de 2010, as 4h04
Por volta das 9:30 da manhã do dia primeiro de novembro de 1755 a terra tremeu em Lisboa. Não se sabe ao certo qual foi a magnitude do tremor, mas especula-se que tenha chegado a oito graus na escala Richter.
O fato é que uma imensa quantidade de gente, que estava assistindo a missa do dia de Todos os Santos nas igrejas, morreu esmagada. A cidade foi completamente destruída e uma boa parte da população, em pânico, refugiando-se nos bairros mais baixos devido aos inúmeros incêndios que se seguiram aos diversos tremores secundários, morreu tragada por um devastador tsunami que arrasou a foz do rio Tejo depois do terremoto.
O impacto do terremoto de Lisboa assolou a Europa. A repercussão da desgraça tornou-se objeto de inúmeros relatos sensacionalistas que eram publicados em grandes tiragens e lidos vorazmente pelo público atônito e temeroso. Uma grande quantidade de poemas surgiu após o desastre, geralmente cantando a antiga Lisboa, pacífica e ordeira. Falavam dos prenúncios da tragédia, descreviam o primeiro terremoto com imagens emocionais como a de crianças mortas agarradas aos braços das mães ou de pais caídos sobre os corpos dos filhos e por fim concluíam os versos com uma mensagem moralista e religiosa apelando para as tradicionais imagens cristãs do juízo final.
Alguns afirmam inclusive que o terremoto de 1755 marcou o início dos esforços científicos para a construção da moderna sismologia com o desenvolvimento das mais diversas e estranhas teorias sobre os tremores de terra, como a de raios e vapores subterrâneos. Mas foi na filosofia que o terremoto de Lisboa deixou as marcas mais profundas. A luta pela construção de uma teodiceia (um argumento que livre Deus da responsabilidade pelo mal e pelas desgraças naturais) havia tido grandes combatentes. O filósofo Leibniz em 1710 criou a ideia, ridicularizada por Voltaire, de que esse é o melhor dos mundos possíveis. Em 1733, um cara chamado Alexander Pope propôs a noção – expressa no aforismo What ever is, is right - de que qualquer coisa que exista é boa.
Todo esse esforço não parecia fazer sentido diante da catástrofe de Lisboa. Voltaire foi um dos que apontou que o terremoto de 1755 não havia destroçado apenas a capital lusitana, mas teria feito desmoronar toda uma visão de mundo que confiava cegamente na bondade de Deus. No seu Dicionário Filosófico ele escreveu: “Um pai que mata seus próprios filhos é um monstro… Se se imagina Deus tão bondoso e justo quanto um pai ou rei deveriam ser, não há mesmo qualquer justificação possível para Ele”.
Voltaire jogou baixo contra o cristianismo porque sabia que a questão do mal no mundo, desde a época dos Gnósticos era um problema constrangedor para os cristãos. O deus de justiça dos Judeus, que tem uma mão para castigar e outra para perdoar não é constrangido pelas catástrofes naturais, assim como o deus insondável e absoluto dos mulçumanos que não autoriza qualquer tipo de julgamento moral de suas ações por parte dos seus subordinados humanos. Mas o deus cristão é um deus de absoluta bondade e de absoluto perdão, um deus onipotente, que ama incondicionalmente seus filhos e se torna imediatamente objeto de julgamento por parte das vítimas das catástrofes naturais.
Um comerciante alemão que morava em Lisboa no dia da catástrofe apontou para a terrível ansiedade que tomou conta da população ao deparar-se com seus empregados estendidos de cara no chão implorando pela misericórdia de Deus. Imagens muito parecidas com a dos Haitianos a levantar as mãos para o céu diante da imagem do cristo crucificado na frente do que sobrou da catedral de Porto Príncipe a perguntar: “Por que, Bom Deus!?! Por que?”. (Continua na próxima semana).
