01 fev
Temor e tremor (Parte II)
- 01 de fevereiro de 2010, as 7h07
Quando as primeiras imagens do terremoto no Haiti chegaram à internet e às redes de TV, arcaicas reações humanas diante da morte e da dor começaram a pipocar mundo afora. Algumas imagens são realmente assustadoras. Outras desconcertantes e comoventes. Mas poucas imagens foram tão significativas quanto a do garoto haitiano que após passar oito dias soterrado, saiu de um buraco pelas mãos de bombeiros e abriu os braços em um misto poderoso de alegria e alívio.
Há um vitalismo profundo naquela imagem, como se a natureza desse um sinal de que, apesar de tudo, a vida se impõe. Se tragédias naturais, como a do Haiti em 2010 e a de Lisboa em 1755, põe a bondade absoluta de Deus, elemento tão caro à teologia cristã, em questão, imagens como a do menino haitiano parecem redimir a natureza de sua face sombria.
Quando Lisboa caiu em 1755, Voltaire aproveitou a oportunidade para atacar sem piedade a Teodiceia de Leibniz (argumento usado para atestar a bondade e a onipotência de Deus a despeito das tragédias da vida). Voltaire já havia ridicularizado Leibniz quando compôs seu personagem Doutor Pangloss no livro Cândido. Doutor Pangloss, um otimista incorrigível achava que esse era o melhor dos mundos possíveis, a despeito de todas as evidências contrárias.
Certamente Voltaire teria chafurdado em cima da carne seca por muitos anos se um outro filósofo de alta estirpe não tivesse entrado na discussão para mudar o foco do debate sobre as catástrofes naturais. Em 1756 Imannuel Kant publicou uma série de artigos em um jornal de sua cidade natal (Königsberg) e em uma publicação editada por Johann Heinrich Hartung. Nesses textos, Kant desvia o foco da discussão acerca dos terremotos. Não se trata agora de julgar Deus ou se perguntar pelos motivos morais do desastre. Ele escreveu: “(…) meu único propósito é aduzir razões físicas como matéria de conjectura (…)”.
Kant não discutiu questões éticas, teológicas ou metafísicas. A natureza não merece esse tipo de especulação.
No fundo há certa concepção teológica subjacente na discussão de Kant. O que se insinua nesses textos é que não faz sentido imaginar que a onipotência de Deus não se subordine a necessidade natural. Ora, se Deus criou o mundo, não é coerente imaginar que Sua vontade deva se sobrepor as leis que Ele mesmo gerou. Seria uma desconcertante contradição, um vexatório indício de imperfeição se Deus resolvesse mudar as regras do seu próprio jogo na metade do segundo tempo.
Kant apontava para o fato de que não existe mal ou bem no que diz respeito aos fenômenos da natureza. Diante de um maremoto, um terremoto, um ciclone é irrelevante levantar questionamentos morais ou mesmo tentar extrair de um acontecimento específico reflexões sobre a bondade de Deus. A natureza não é boa ou má, ela simplesmente é. Seus fenômenos não são ações, mas conseqüências de regras e de mecanismos específicos.
O povo do Haiti, em sua desgraça, ensina a comunidade global que no mundo natural vida e morte partilham de um mesmo e único movimento contínuo que nos constitui e nos devora em um isonômico giro de tempo que nunca acaba. Não é uma questão de justiça, não é um problema mora. Não há culpa, castigo ou misericórdia. A natureza nos mata com a mesma mão que nos dá a vida e Deus, se for mesmo seu criador, não está aqui para mudar o curso de suas próprias leis no meio do caminho. Depois de Kant, Deus libertou-se das acusações morais dos homens, e nós, por outro lado, permanecemos sós diante desses acasos da vida, a que o gênero humano não pode escapar. Solitários mas absolutamente desimpedidos e livres para chorar a morte com a mesma intensidade que cantamos a vida.