10 fev
Kabbalah and criticism
- 10 de fevereiro de 2010, as 8h08
Livro: Kabbalah and Criticism
Autor: Harold BloomÂ
Editora: Continuum – New York.
Ano: 1993.
Existem livros que começam muito bem, mas terminam com certo rastro de frustração.
Kabbalah and Criticism (traduzido no Brasil com o nome de Cabala e CrÃtica) é um desses livros que deixam a sensação de que não se completam, ou que, quando terminam, não cumprem as expectativas que iniciaram no começo da leitura.
Bem, sei que você deve ter ouvido falar sobre Kabbalah esses dias. Depois que a Madona aderiu a alguma versão pop da tradição mÃstica judaica o mundo da grande mÃdia global passou a consumir a Kabbalah como mais um tipo de auto ajuda esotérica. Talvez por isso você fique espantado em saber que um crÃtico literário do porte do Harold Bloom tenha se dedicado a estudar a Kabbalah em 1975.Â
Bem, Bloom não apenas estudou Kabbalah, ele afirma que extraiu sua teoria da influência dos textos cabalistas e que não apenas ele, mas também Freud teria sido influenciado por essa tradição.
O ponto forte do livro são as duas primeiras partes (Kabbalah e Kabbalah and Criticism), nelas Bloom identifica a presença de um vÃnculo estreito envolvendo tendências gnósticas e neo-platonistas na formação da tradição mÃstica judaica. Segundo ele, a Kabbalah dança entre a influência de Plotino (neo platônico) e de Valentino (gnóstico). Essa tradição estaria marcada por uma oscilação ambÃgua entre uma ideia de unidade radical do Criador e um dualismo gnóstico que opõe Deus e criação, espÃrito e matéria, corpo e alma, bem e mal. Curiosamente esse dualismo gnóstico é profundamente anti-semita e rompe com um dos aspectos centrais da tradição hebraica: a unidade e radical transcendência de Deus.
Essa ambigüidade doutrinária se manifesta especialmente no Ma´aseh Breshit (Trabalho da Criação – relacionado ao livro de Gênesis), que junto ao Ma´aseh Merkabah (Trabalho da Carruagem – relacionado com o primeiro capÃtulo do livro do profeta Ezequiel) compõe as duas bases da Kabbalah.
O Livro do Esplendor (Sepher ha Zohar) escrito por Moisés de Leon entre 1280 e 1286, seria, na visão de Bloom, um exemplo de desleitura do Gênesis BÃblico, presente através do Ma´aseh Breshit. Bloom defende a leitura das Sephirot (As esferas da árvore da vida) como poemas e não como personificações alegóricas de Deus. Nesse sentido a Kabbalah é interpretada como a própria teoria da influência transfigurada na árvore da vida. A angústia da influência estaria marcada de modo intenso no trabalho de Moises Cordoveiro que divida cada uma das dez Sephirot (esferas da árvore de vida) em seis fases onde cada esfera se manifesta como um modo de influência poética. Essas fases (chamadas de behinot) são mecanismos psicoretóricos de defesa que se apresentam como áreas de imagens poéticas ou tropos retóricos.
Moises de Leon, Moises Cordoveiro e Isaac de Luria (responsáveis pela produção, escritura ou edição das principais obras da Kabbalah no fim da Idade Média na Espanha e em Safed) teriam apresentado à Bloom as bases de sua descrição das razões revisionárias que pautam sua teoria da influência poética. A influência se manifesta a partir dessa equação de pertencimento, desse romance familiar que liga poetas vivos e mortos, jovens efebos e antigos pais poéticos através de mecanismos de reação, repressão, desvio, distorção e complementaridade presentes no interior dos textos.Â
Os judeus medievais teriam materializado na Kabbalah sua própria desleitura dos escritos da religião oficial. Eles teriam composto um poderoso mecanismo de defesa psÃquica contra o seu próprio estado sociocultural de abandono e desespero em face de uma época de dispersão e exÃlio.
Por tudo isso a primeira parte do livro do Bloom é fascinante. O problema é que ele não avança quando tenta na parte três The Necessity of misreading fechar o texto com a elucidação detalhada das conexões entre as Sephirot e suas razões revisionárias. Parece que há um recuo, uma estranha sensação de que algum segredo, algum tipo privado de verdade que não poderia ser posta estava a ponto de ser explicitada nas páginas de um livro de grande tiragem. Bloom acaba desperdiçando o final do seu livro explicando sua própria ideia de desleitura e tentando ajustar alguns pontos de sua própria teoria sem mergulhar nos detalhes profundos da Kabbalah. Essa frustração acaba deixando aquela sensação de coito interrompido que mata a animação de qualquer um.
Bem, fora esse detalhe ejaculatório se você gosta de crÃtica literária ou de misticismo judaico (ou dos dois, como eu) não dá para não ler esse livro.
Pois amigo velho, depois do livro do Bloom a gente tem que gritar: pede pra sair Madona!
