- 10 de fevereiro de 2010, as 7h07
Está circulando nas TVs um comercial de não sei o quê no qual aparece um garotinho judeu com uma camisa da seleção brasileira chutando uma bola. A bola atravessa a rua e derruba um saco de grãos bem em frente de um garoto mulçumano que também veste a camisa da seleção brasileira. Após alguns segundos de tensão, o garoto mulçumano devolve a bola para o garoto judeu e todos sorriem porque afinal, os dois torcem pela mesma seleção de Zico, Pelé e Kaká.
Moral da história: o futebol une os povos e a seleção brasileira é mais eficaz do que a ONU no que diz respeito a construção da paz no planeta.
É sintomático que essa mensagem publicitária esteja sendo veiculada em um ano de copa africana na qual a seleção de Togo, na qual joga Adebayor do Manchester City, foi metralhada na região de Cabinda, fronteira norte de Angola.
Existe uma mitologia publicitária reforçada ideologicamente a cada copa do mundo e a cada olimpíada que insinua ter o esporte algum tipo de prerrogativa mágica de ultrapassar questões sociais e políticas. Paradoxalmente, o discurso protagonizado por essa narrativa indica que o esporte está acima da política, da economia e das questões sociais. Nessa leitura o poder estético do jogo, a magia lúdica de uma partida de futebol, por exemplo, pode servir como um elemento transfigurador da realidade.
Curiosamente, o paradoxo dessa leitura é que, um instrumento que está acima da política, pode mudar politicamente o mundo. Como isso é possível? Bem, as impossibilidades são elementos desagradáveis no mundo da publicidade e as narrativas ideológicas precisam saltar certos detalhes que comprometem suas próprias bases.
O fato é que o futebol, como um artefato cultural humano, não está à margem da política e muito menos da economia. O futebol não está fora do mundo. Ele não é transcendente e seus arredores são marcados pelos deslizes morais dos humanos, pelo apelo do dinheiro, pela influência da religião e da política e pela presença da curiosa comédia dos valores humanos (veja o caso do chifre protagonizado pelo Ex-capitão da seleção inglesa e craque do Chelsea John Terry, ou a disputa pessoal envolvendo Maradona e Riquelme que quase deixou a Argentina fora da copa).
O futebol pode fazer muitas coisas. Ele é catártico, estético, trágico, épico, lírico. Sua narrativa pode oscilar entre a alegria idiota e exultante das grandes vitórias, até o abismo sinistro e melancólico das derrotas inexplicáveis (porque as derrotas vexatórias produzem ódio). Um jogo de futebol pode nos levar a todos esses espaços emotivos, mas não pode mudar o mundo.
Não há transcendência absoluta no esporte.
A não ser, é claro a transcendência do momento, do instante, do segundo que quando retido na memória transporta o espectador até o portão da eternidade, como Fausto, que, no quinto ato da segunda parte da peça de Goethe, ao contemplar a mais exata visão da modernidade, expressou: “Sim, ao Momento então diria: Oh! pára enfim – és tão formoso! Jamais perecerá, de minha térrea via, este vestígio portentoso! Na ima presciência desse altíssimo contento, vivo ora o máximo, único momento”.
O gol, o único momento de absoluta transcendência no futebol é o instante que produz o maior vestígio de dor e deleite que um bom jogo de bola deixa marcado na memória dos torcedores. Mas é isso e nada mais.
O futebol é esse momento, da espera do gol, da frustração pelo gol sofrido, da exaltação pelo gol feito, do inesperado, do imprevisível. O resto está mergulhado na mais profunda imanência das coisas do mundo. No dinheiro, na traição conjugal, no vazio dos egos atormentados, na corrupção, na injustiça, nos tapetões da política esportiva e também, nas demandas sociais nos cercam. O futebol pode fazer muitas coisas, mas, a despeito das propagandas, ele não pode mudar o mundo.
