Content on this page requires a newer version of Adobe Flash Player.

Get Adobe Flash player

  • Pablo Capistrano
  • 22 de fevereiro de 2010, as 6h06

Será que ele vai para a copa? - Em um time de "idosos" e sem laterais como o Milan só a criatividade de Ronaldinho Gaúcho salva.

 

Ano de copa do mundo é sempre assim. As presenças dos nomes de jogadores na seleção parecem causar menos impacto do que as ausências. Quer seja pela boa atuação da assessoria de imprensa, pela popularidade ou pelas qualidades futebolísticas inerentes aos ausentes o fato é que o tópico que mobiliza o bate papo de mesa de bar é sempre o nome daquele craque que não entrou na lista.

O caso mais significativo dessa obsessão brasileira foi Romário. O baixinho acabou se tornando o homem de uma copa só, porque em 1998 se indispôs com Zico e Zagalo e ficou de fora da seleção que foi para França quando ainda estava no auge do seu futebol. Em 2002, a nação encheu o saco de Felipão para que Romário fosse escalado. Houve manifestações de rua, tentativas de suicídio, automutilação, lágrimas, desespero entre os jornalistas esportivos que faziam parte da folha de pagamento do baixinho e uma imensa quantidade de despachos nas encruzilhadas do Brasil para que Romário fosse à copa de 2002.

Felipão não deu a mínima. Armou um time com Rivaldo, Ronaldo e Ronaldinho e ganhou a copa do mundo.

Agora, nesse tempo de dungafilia nacional a questão volta à tona.

Eu, que não sou um entusiasta da Seleção Brasileira desde a tragédia de Sarriá em 1982, prometi a mim mesmo que não iria comentar sobre a possível não escalação de Ronaldinho Gaúcho e todas as implicações tectônicas desse fato previsto pelos analistas.

Deveria manter-me fiel a esse voto de silêncio, mas a partida pelas oitavas de final da liga dos campeões da Europa entre Milan e Manchester United me fez mudar de ideia.

Ronaldinho fez miséria até os quarenta minutos do primeiro tempo, depois passou uma hora sem jogar e quando voltou a fazer alguma coisa deu um passe exato para Seedorf fazer um belíssimo gol de letra.

Infelizmente o Manchester ganhou o jogo. Não tenho nada contra o time inglês, mas ganhar um jogo com um gol de canela e dois gols de cabeça é foda.

Não gosto de gols feios. Acho que todo gol feio deveria ser invalidado. Deveria haver na regra do futebol algum dispositivo de anulação de gol feio. Sabe como é… sou brasileiro, aprendi a viver em uma terra onde o princípio de justiça sempre cedeu espaço, sem muitos constrangimentos, ao princípio de prazer.

É justamente esse egoísmo estético, essa falta de vergonha cósmica, esse descaramento sagrado que faz o brasileiro não se importar com o time que joga “melhor” e sim com o que joga “bem”. 

E “bem”, para nós, seres tropicantes, é sinônimo de “belo”.

Adoro ver alguém jogar bonito e o Ronaldinho Gaúcho, mais do que o Romário, mas do que o Ronaldo, mas do que o Adriano (Ave César! A nação rubro negra te saúda!), joga bonito. Hoje, em um time lento como o Milan, feito de jogadores na média dos trinta e poucos anos, sem um avanço lateral descente (mas com uma boa defesa) a dependência da criatividade de Ronaldinho é cada vez mais explícita.

 Além do mais uma das imagens que nunca sairá da minha mente foi aquela de uma madrugada perdida em 2002 quando, no jogo do Brasil contra a Inglaterra, Ronaldinho Gaúcho bateu uma falta fisicamente impossível, em uma trajetória quântica que contradisse a geometria euclidiana, a mecânica clássica, a ideia de relatividade geral e fez um gol contra o time da rainha que vai ficar guardado na memória dos momentos sublimes do futebol. A nostalgia daquele gol me faz querer ver todos os jogos do Ronaldinho, mesmo quando ele não está na melhor fase.

 Não sei se a beleza vai triunfar algum dia sobre a fria mecânica do jogo utilitário que insiste em colecionar copas e campeonatos. Não sei se a arte, por si só, em seu triunfo instantâneo, em sua desconstrução estética do momento um dia vai valer mais do que mil gols de canela, do que mil vitórias burocráticas que o Manchester coleciona. Pois é amigo velho, existem gols que deveriam valer por dois.


Deixe seu comentário

2007 ® Pablo Capistrano

dz3