22 fev
Carnaval por Dentro
- 22 de fevereiro de 2010, as 6h06
Domingo de carnaval fui até Baía Formosa, uma das últimas praias do Rio Grande do Norte, já perto da fronteira com a Paraíba. Minha intenção era encontrar um lugar mais ou menos calmo para tomar um banho de mar com as a crianças.
A maré estava cheia, os bares lotados, e a praia acossada por aquela procissão de idiotas com seus carros ouvindo a toda altura um misto bizarro de funk com axé e música sertaneja que a rapaziada daqui por algum motivo misterioso chama de Forró. Já na hora da saída, quando nos preparávamos para pegar a estrada de volta à Natal, vi um senhor de idade avançada. Estava sozinho, completamente embriagado, com a cara pintada de branco e com uma sombrinha daquelas de frevo, dançando pelo meio da rua, como se estivesse em uma viagem de ácido ou como se viesse ainda chapado, de um antigo ritual religioso em homenagem as potências naturais.
Lembrei imediatamente de Jaadiel, um amigo que é professor de filosofia em Santa Cruz. Quando eu perguntei: “E ai velho? Vai curtir o carnaval em Natal?” – ele me respondeu: “Curtir não, vou descansar”. Emendando quis saber se ele não estava pensando em “cair na fuzaca” em alguma praia do litoral norte ou sul e ele me respondeu: “No carnaval o natalense vai para a beira da praia, fica olhando o mar, tomando cerveja e comendo peixe frito. Ele faz no carnaval, aquilo que faz todo fim de semana, não tem diferença”.
Pois é amigo velho, já fui a alguns carnavais nessa vida: Salvador, Recife e muitos pelas praias do litoral potiguar. Sempre que o carnaval se aproxima minha vontade é de buscar um paraíso entre as dunas e o mar, perto de algum coqueiral para me chapar com qualquer coisa enquanto ouço ao longe, levado pelo vento, os ruídos de alguma troça fantasmagórica com seus metais espectrais e sua percussão primitiva a me lembrar que em algum lugar das eras arcaicas ocorre uma grande festa.
Não adianta. O modo como o potiguar encara o carnaval é absolutamente diferente do modo como o pernambucano e o baiano encaram. Mesmo onde há alguma concentração de pessoas (Touros, Macau, Caicó, Pirangi, Redinha), mesmo nesses locais, o carnaval não é, no nosso estado, um fenômeno de massas.
Quem já foi na Avenida 7 perto do Campo Grande em Salvador, ou mesmo nas ladeiras de Olinda ou no Recife Antigo, quem assistiu um desfile de escola de samba na Marquês de Sapucaí, ou mesmo correu atrás dos blocos de rua do Rio, sabe que um carnaval é um fenômeno de dissolução do ego, uma experiência selvagem de ruptura com o nosso princípio de individuação. Nosso Eu desaparece na turba alucinada, no deleite da exuberância estética, junto ao álcool, a música tribal e o cheiro de sexo e suor que corre pelos corpos das multidões. Onde há carnaval há um delírio dionisíaco que atravessa o imaginário, expandindo os desejos, ampliando as possibilidades do corpo até a exaustão, transformando a linguagem e construindo uma conexão poderosa, como se uma imensa suruba telepática pusesse uns dentro dos outros (em todos os sentidos).
O potiguar, por mais que tente, não nasceu para esse tipo de coisa. Sua viagem é interna, seu devaneio é privado, sua loucura é particular. Nas casas de praia, nas barracas do litoral ou nos balneários na beira dos açudes, o potiguar enlouquece solitariamente, contemplativamente. As fuzacas e as fuleragens típicas do carnaval são experimentadas em família, ou em pequenas troças que só de muito longe lembram as incontestáveis multidões das metrópoles dominadas pela influência do rei louco.
Somos, especialmente em Natal, uma nação de sertanejos que moram diante do mar. Um povo que se esconde. Que passa o ano todo disfarçado. Em uma terra de marranos, tararius e quilombolas acostumados a camuflagem e ao esconderijo das identidades, os abismos sempre são profundos e estreitos. Até o nosso Carnatal (o momento Bahia do natalense) por mais que tente, não consegue se aproximar da força catártica do original (quem foi a Salvador sabe o que eu digo). Por isso eu adoro passar o carnaval no Rio Grande do Norte.
Nós, os apolíneos, curtimos mesmo é essa inviolável solidão. Esse poderoso êxtase de reter nossa loucura. Esse devaneio de dissolver-se sem explodir. Aqui o carnaval acontece por dentro, na psicodélica e violenta troça de nossa imaginação.
11 Comentários para “Carnaval por Dentro”
-
Ô Pablo.
Tudo bem, meu velho?
É sempre um prazer ler as tuas crônicas. Elas têm sido pra mim o último e tênue fio de contato com a atmosfera da Cidade do Sol.
É uma grata surpresa a referência ao Jaadiel. Perdi totalmente o contato com ele depois que ele deixou a USP. Você teria o e-mail dele?
Grande abraço,
Robson. -
Pois é Robson, é sempre bom ter notícias suas aqui pelo site.
cara encontro sempre o Jaadiel, que está morando em Santa Cruz, agora estou lecionando no IFRN de Santa Cruz e pude reencontrá-lo por lá.
vou pegar o e-mail dele assim que voltar as aulas na semana que vem e ai te passo.Quando vier aqui por Natal entre em contato pra botar a conversa em dia.
-
Cara sou leitor há pouco tempo do que você escreve, lhe conheci a parti da revista Tá na cara e daí já me acho quase um conhecedor do que você escreve. Olha gostei muito do teu livro “Pequenas Catástrofes”. Não sou critico literário, mas acho que tu escreves de uma forma bem de didática, ou seja, fácil de ser entendida. É estou enrolando muito só para dizer que esse texto assim como os outros está muito bom. Um grande abraço
-
Olá, Pablo! Interessantíssima esta crônica. Eu também adoro passar o carnaval aqui no Estado por causa da solidão. Somos assim mesmo. E você, como está no IFRN de Santa Cruz? Gostando?
Um abraço. -
Pois Paulo, todo sertanejo tem algo de apolíneo, talvez seja o calor ou a grandiosidade das paiagens e Natal é uma cidade de sertanejos que moram na praia.
Um dado curioso desse aspecto contemplativo é que, ao contrário do Rio, por exemplo, onde todo mundo quando tem uma folga cai no mar, aqui a rapaziada prefere ficar olhando o horizonte.
Cara, o IF é um espaço em construção, ainda está aberto, com muitos horizontes se formando, não é o paraíso mas as perspectivas são muito estimulantes.
fica de olho que esse ano deve haver mais algum concurso.
-
Legal que você tenha gostado do PC Claudio, em algum momento cheguei a pensar em desistir daquele livro mas ele acabou me abrindo umas portas muito legais.
-
Entendi. Concordei.
-
Isso é a idade Capistrano, tenho certeza que já se contagiou muito com os metais, os foliões, e as brincadeiras do bom e velho carnaval pernambucano! Regado a maracatu, frevo, coco e samba! A festa mais feliz e democrática do Brasil! Sou suspeito pra falar, pois sou de Pernambuco, morando em Natal há 10 anos. A beleza do seu texto, é que descreve bem a essência do potiguar. Acabo por concordo com tudo, e dizer que cresci ouvindo essa frase “natalense não sabe mesmo brincar carnaval!”.
Abraço! -
Pois é David, isso todo potiguar tem que adimitir sem ranços bairristas, ninguém faz carnaval como os pernambucanos.
-
cara professor pablo,me chamo magno sou seu aluno no IRFN santa cruz. Sou aquele aluno que no estacionamento do IF falou com vc sobre Nietzsche.
caro professor é sempre um prazer ler e aprender com suas crônicas. -
As pessoas seguem algo que elas mesmas não sabem o que realmente é.
Muitos são como marionetes manipuladas por um só mentor.
Digamos que muitos são controlados alienados por vários tipos de influência, e acabam vivendo a vida da qual eles mesmos não são donos.Infelizmente muitos não têm a capacidade de parar e pensar nos seus atos e suas escolhas
Assim por sua vez acabam sendo escravos da vida sem viver livremente com seus pensamentos e ideais acabam vivendo e participando de algo que nem elas mesmas sabem.Como diria o grande filósofo Sócrates (Só sei que nada sei, e o fato de saber isso, me coloca em vantagem sobre aqueles que acham que sabem alguma coisa).