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  • Pablo Capistrano
  • 22 de fevereiro de 2010, as 6h06

LIVRO: Letras Germânicas.

AUTOR: Anatol Rosenfeld.

EDITORA: Edusp/Unicamp/Perspectiva

ANO: 1993.

Há uma geração de intelectuais europeus que migrou para o Brasil no tempo da segunda guerra mundial e que contribuiu de modo significativo para uma abertura de horizontes do país em um tempo sem internet nem TV à cabo.

Anatol Rosenfeld foi um desses sujeitos que ajudou a aproximar o Brasil de um universo cultural muito discrepante de nossa tropicalidade. Sua primeira vantagem é a de escrever os textos que compõem seu livro, em português, o que nos livra das dificuldades que são inerentes a qualquer tradução do Alemão.

Costumo a dizer que, para um falante de Português, Alemão é uma língua sem escoras. Francês, Italiano, Espanhol e até Inglês tem uma quantidade confortável de palavras de origem latina, que permitem um apoio aqui, outro ali, mas no Alemão essas palavras rareiam. Isso faz com que a literatura de língua alemã permaneça ao menos para o nosso público, refém dos tradutores. Uma vez o Alex de Souza se queixou disso comigo. Ele me falou que não conseguia ler um cara como Hölderlin porque não podia captar nada do tão falado lirismo do autor dos Hinos. Como reter a acústica do alemão em uma tradução, se as escoras não estão lá?

Rosenfeld escreveu uma série de textos curtos sobre autores alemães. Ele, judeu asquenazita, obviamente oferece uma leitura derivada de uma outra perspectiva cultural alemã, diferente da perspectiva de um germanismo nórdico. Sua leitura não se esconde de suas origens hebraicas e muitas vezes o crítico põe seu olhar sobre as letras germânicas a partir da herança da cultura Iídiche da qual fez parte.

Dá para sentir isso, por exemplo, quando ele destroça psicologicamente Heine classificando-o como um “judeu marginal” e apontando para toda a ambigüidade do autor de O Rabi de Bracherah que oscilava em função de sua própria condição de judeu alemão. Rosenfeld caracteriza-o como se padecesse de um certo “nervosismo judaico” que seria provocado pelos confrontos e conflitos mentais que a tentativa de assimilação à cultura germânica o impunha. Uma outra figura do Cânone intelectual germânico que Rosenfeld faz referência é Martin Heidegger. O pensador, que foi membro do partido nazista e que saudou Hitler entusiasticamente nos anos de 1930 leva uma pancada segura. Quando fala sobre os críticos de Georg Trakl (junto com Rilke um dos continuadores da tradição poética de Hölderlin) Rosenfeld escreveu: “Nenhuma interpretação das inúmeras já apresentadas é satisfatória e menos do que todas, a de Heidegger que, estilhaçando a vidraça mencionada por Rilke, mutila o “mistério azul” dessa poesia reclusa”. 

Thomas Mann - Uma presênça marcante no livro de Rosenfeld.

Classificações sócio religiosas aparecem em diversos pedaços do livro, como quando ele analisa a poetiza Else Lasker-Schüler e a identifica como uma “baronesa católica”, em contraste com Getrud Komar, uma “judia metropolitana” e Emily Dickinson, uma “calvinista americana”.

Eu particularmente acho biograficamente relevante essas classificações, até para que a gente possa compreender um bocado sobre os abismos psicológicos dos nossos heróis literários, mas não sei se do ponto de vista de uma crítica literária forte isso tenha alguma relevância, ao menos para uma compreensão dos textos (Bloom explica).

Há pelo menos uma tese recorrente em todo o livro, a de que o romance alemão tem uma discrepância essencial com a escola francesa. Enquanto a segunda é mais ”sociológica”, presa a contextualização e a caracterização das forças sociais que compõe a tessitura das narrativas, o romance alemão teria como elemento central o isolamento subjetivo. Tanto que, para Rosenfeld, o tropo fundamental de todo romance germânico é a da formação do caráter e dos conflitos e vicissitudes que alguém tem de passar até se integrar no mundo, ou isolar-se definitivamente dele.

Ai o Rosenfeld joga Goethe no centro do Cânone alemão (afinal não foi o Goethe que escreveu Wilhelm Meister, um protótipo fundamental do romance de formação moderno?). Apesar dessa reverência ao autor de Fausto e de Os sofrimentos do jovem werter, curiosamente Rosenfeld não dedica nenhum capítulo desse livro a estudar a obra do cara. Talvez ele considerasse Goethe grande demais para um livro de textos tão curtos, vai saber…

Se Goethe é a ausência mais significativa do livro, Thomas Mann é a presença mais perceptível. Vez ou outra o Rosenfeld cita Thomas Mann, isso também é um sintoma curioso da “goethenização” do sujeito, porque, como já observou Bloom, Mann é um fiel acompanhante de Goethe e a angústia da influência afeta não apenas romancistas e poetas, mas também críticos e filósofos.


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2007 ® Pablo Capistrano

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