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  • Pablo Capistrano
  • 10 de março de 2010, as 19h19

não existe guerra nuclear regional. Bilhões podem morrer muito longe das zonas de confronto.

Em 1985, inspirados pelos trabalhos de Carl Sagan, a comunidade cientifica internacional mostrou que uma guerra atômica envolvendo EUA e URSS produziria um inverno nuclear capaz destruir a civilização. O mecanismo é simples: ogivas nucleares explodem em diversos lugares. Milhões de pessoas morrem diretamente pela força da explosão e da radiação.

 Uma nuvem de poeira escura se eleva para a atmosfera, resultado da incineração de milhares de toneladas de concreto, metal, produtos manufaturados e industriais que entopem as grandes cidades modernas.

Essa poeira com cheiro de morte vai ser depositada na estratosfera e acaba por reduzir a incidência de raios solares alterando a temperatura da terra e a absorção de energia pelas plantas. Com o tempo, as plantas morrem por carência de luz e os animais que comem as plantas morrem de fome. Com um pouco mais de tempo o sistema agrícola global se decompõem e bilhões e bilhões de seres humanos, mesmo os que vivem longe das áreas de conflito, morrem em decorrência da fome, das doenças e das guerras associadas.

Essa descrição sombria foi projetada nos últimos anos para um cenário de guerra localizada. Mesmo se não houver um conflito absoluto entre EUA (9 9000 ogivas nucleares) e Rússia (15 000 ogivas nucleares), um confronto localizado, entre a Israel e Irã, por exemplo, no qual pelo menos 50 ogivas com a potência de uma bomba de Hiroshima  fossem utilizadas, seria catastrófico. Simulações de computador com base em dados abastecidos por cientistas mostram que a nuvem de poeira nuclear poderia estacionar na estratosfera reduzindo a captação de luz por parte das plantas levando pelo menos à um Bilhão de mortes fora da zona de conflito. Não bastaria então a tragédia de 20 milhões de mortos pela destruição das cidades causadas pela explosão das bombas. Muitos sucumbiriam pelas consequências indiretas do desastre.

No mundo da geopolítica seguir a ideologia é uma escolha estúpida. Quando se trata de interesses de estados nacionais pouco importa se você é de esquerda ou de direita, o cálculo das relações passa por outra lógica, por uma matemática diferente, capaz de trucidar e moer a alma de qualquer idealista romântico.

Por isso não me contento em entender a atual discrepância envolvendo Brasil e EUA no que diz respeito a questão do programa nuclear do Irã apenas na afinidade ideológica. A matemática é mais sofisticada. Os movimentos norte americanos tem um sentido claro que levam inicialmente a um isolamento do regime iraniano a partir da costura de um consenso de apoios internacionais que envolve a Rússia e a China.

Isso porque o governo norte americano sabe que Israel não se dará ao luxo de aguardar que o Irã, que abastece o Hezbolah com foguetes no sul do Líbano e se alimenta da causa palestia para sustentar seu próprio regime teocrático, complete o serviço de construção de sua própria bomba atômica.

Por isso, a costura dos americanos é a de evitar que os iranianos consigam encontrar pontos de escape do isolamento internacional ao qual seu regime vai inevitavelmente ser levado. Mas e o Brasil, porque não cola na posição norte americana? Acredito que existe uma demanda interna e uma outra externa que levam o governo brasileiro a defender o diálogo com os iranianos.

Em um governo de um partido que um dia foi de esquerda é preciso resguardar algum traço de fidelidade, mesmo que falsa, às bases ideológicas que o constituíram. O governo Brasileiro mantem o discurso de independência diante dos EUA, fazendo o pantin de que retém ainda algo da velha esquerda tupiniquim, algo daquele ranço anti-americano que embalava as teorias conspiratórias e os sonhos libertários nos anos sessenta. Para o público externo, o Brasil acena com seu descolamento da política de Obama, para o público interno, especialmente para a militância, que é fundamental em época de campanha, acena para os velhos combates já esquecidos, no mundo da política real.

Só espero que ninguém esqueça que não existe guerra ligth e que em um mundo conectado como nosso, nenhum conflito nuclear é regional. A morte atômica afeta a todos, até aqueles que, como nós, se sentem longe demais das zonas de confronto.


25 Comentários para “Gerra sem gordura trans.”


  1. Pablo, uma provocação:

    Se um dia Israel atacar o Irã, estará no seu direito. Ahmadinejad já deixou claro que quer varrer Israel do mapa (são palavras dele, literais), e está desenvolvendo um programa nuclear clandestino, recusando-se a aceitar inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) da ONU. Sem falar no seu apoio material (armas, dinheiro, treinamento etc.) aos terroristas do Hamas e do Hezbollah, como você lembrou.

    Nessas circunstâncias, é um imperativo moral da comunidade internacional impedir que o Irã obtenha a tecnologia nuclear para a produção de armas atômicas. TODOS os países importantes – até mesmo a Rússia e a China – já perceberam isso, e defendem que somente sanções e pressão internacional poderão impedir o pior. Todos, menos o Brasil.

    É um absurdo que, na questão do Irã, o governo brasileiro esteja repetindo o mesmo erro que Chamberlain e Daladier cometeram em relação a Hitler nos anos 30. Se estourar uma guerra na região entre Israel e o Irã, com conseqüências imprevisíveis, parte da culpa será de Lula e de sua diplomacia aliada de ditaduras.

    O Oriente Médio é só um palco para que Lula e seus puxa-sacos exercitem seus delírios de grandeza antiamericanos e suas fantasias megalomaníacas de “protagonismo internacional”. Desnecessário dizer, mas isso não tem nada a ver com a busca da paz, que passa necessariamente pela segurança de Israel.

    Assim como não existe guerra “light”, também não existe terrorismo “light” ou tirania “light”. E o irã é ambas as coisas – uma ditadura terrorista, comandada por um fanático com idéias genocidas. Cabe ao mundo civilizado impedir que ele se torne o lider fanático e genocida de uma ditadura terrorista com dentes nucleares. E isso se faz com pressão, não com apaziguamento.

  2. Pablo Capistrano14/3/2010 às 5:38

    Oi Gustavo,
    concordo em parte com o que você diz sobre o governo do Irã,
    apenas acho que na verdade lá o sistema é controlado pelo colégio de Aiatolás e o Armadineljah é apenas um fantonche do clero religioso que controla o país. Ele não chega a ser um ditador como Hitler ou Stalin. Acho que o poder dele é mais para consumo externo.


  3. Pode ser, Pablo. Mas é bom não esquecer que Ahmadinejad vem há anos construindo uma forma de poder pessoal, amparado nas milícias do regime teocrático. Isso ficou claro com a repressão aos protestos contra a fraude nas eleições no ano passado – repressão que Lula chamou de briga entre vascainos e flameguistas…

    Tanto é assim que alguns analistas já estão dizendo que o Irã caminha para virar uma espécie de ditadura militar, com Ahmadinejad à frente. Logo, ele está bem longe de ser um “fantoche” dos aiatolás. Sem falar no apoio ao terrorismo. Para vc ter uma idéia, o ministro da Defesa iraniano mandou explodir um centro israelita em Buenos Aires em 1994 (85 mortos).

    Além disso, o regime dos aiatolás está bem longe de ser uma democracia. Pelo contrário: é uma teocracia que jurou, entre outras coisas, destruir Israel. O fato de o colégio dos aiatolás ser considerado por alguns uma alternativa “moderada” a Ahmadinejad fala muito sobre quem ele realmente é e esconde o caráter fanático do regime. Imagine um regime desses – e não somente Ahmadinejad – com armas nucleares: è guerra na certa.

    Moderados existiam em regimes como os de Stálin e, acredito, até mesmo no de Hitler. E isso não muda em nada os fatos. Minimizar um problema não faz com que ele deapareça.

  4. edmilson leão17/3/2010 às 12:28

    Fala Prof. Pablo!
    Fico feliz em saber que a suas idéias estão sendo difundidas pelo interior do estado, que é carente de pensamento crítico.
    Cara o seu livro Pequenas Catástrofes é loucura! parece uma viagem de um maluco que entornou uma garrafa daquele cachaça-macumbada do santo daime.
    O Simples Filosofia é uma excelente obra introdutória para quem se aventura no ramo do pensamento!
    valeu!


  5. Eu recomendaria a leitura do artigo de Jim Lobe, em http://www.cartamaior.com.br, para um melhor entendimento do que está em jogo na discussão sobre os conflitos diplomáticos no Oriente Médio.O artigo intitula-se “Crise EUA-Israel: e a “gafe” veio de onde menos se esperava” . Abraços, Robson.

  6. Pablo Capistrano18/3/2010 às 13:11

    Gustavo, sou meio cético em relação a essa tese do crescimento da influência pessoal do Armadinejahd no regime iraniano. Não sou especialista no assunto mais acho que o regime do Irã é fundamentalmente teocrático o que exige uma base religiosa, Armadinejad não é um imã ou um aiatolá. Se ele se tornar um ditador no modelo moderno da palavra, como foi por exemplo o Sadam Hussein, teria que haver uma mudança estrutural no regime. Um deslocamento em direção a uma ditatura laica, parecida com aquela do Iraque na época do finado Sadam, baseada em algum tipo de culto à personalidade. Acho que se isso acontecer o processo político no Irã se descontrola, porque existem forças políticas internas que atuariam no vácuo de poder que um deslocamento desse tipo iria proporcionar.

    mas essa é apenas uma aposta.

  7. Pablo Capistrano18/3/2010 às 13:20

    Robson,
    acho que essa procura da “gafe” do Lula até que é interessante do ponto de vista eleitoral porque desvia o foco da metralhadora da direita sobre a Dilma, você não acha?

    È bom para as eleições de 2010 que a imprensa local meta o pau em Lula em relação a seu desempenho em política externa porque desvia a atenção do cenário interno.

    com Serra despencando e Dilma subindo.

    Acho que isso é mais uma jogada da real polítik de Lula (para mim ele é um gênio nesse aspecto, nem Dinarte Mariz e Aluisio Alves chegam aos pés do talento político de Lula).

    Mas em relação ao artigo é muito sintomático, inclusive em função da tese que eu defendo. Hoje os EUA sabem que seria um ônus insuportável uma guerra generalizada no Oriente Médio, por isso que as posturas de Armadinejahd e a de Netaniahu não são interessantes para a política norte americana. Não é bom para os EUA que o problema palestino continue, mas é bom para Armadinejahd porque internamente ele pode usar Israel como ferramenta de consumo interno.

    Nesse sentido as questões internas do Irã e de Israel acabam por prejudicar os EUA.
    Como o governo Bush era muito amarrado a ideologia neo-com não dava para tentar rearrumar a casa, agora com o Obama, talvez os EUA tentem encotrar uma forma de amenizar o conflito, só não sei se vai dar tempo…


  8. Pablo, meu velho. Há muito tempo perdi o entusiasmos pelas polêmicas. E, no presente caso, a questão de que você trata no seu artigo sequer é um assunto em relação ao qual eu tenha algum domínio. Mas, como é sempre um prazer renovado falar consigo, vou endereçar-lhe ainda algumas considerações. E vou mesmo arriscar uma certa dose de provocação muito amistosa.
    Você acha mesmo que a agenda internacional do governo lula está condicionada ao que acontece a cada semana na política eleitoral? Não seria razoável ao menos supor que o planejamento da ação de Lula na arena internacional é fruto de um planejamento de uma equipe (Celso Amorim e Marco Aurélio Garcia à frente) que tem se mostrado bastante competente, ao ponto de conseguir projetar efetivamente a imagem de lula como estadista e líder internacional? Suponho que a visita a Israel e à Palestina já estivesse agendada bem antes do último escândalo que a Veja estampou na capa as revista e que tem toda a feição de uma busca desesperada para deter o avanço da popularidade de Lula e da sua candidata. A participação de Lula na discussão diplomática relativa ao Oriente Médio ocorre num momento de crise diplomática entre Israel e EUA, com a questão do Iran ao fundo. Esta semana o embaixador Celso Amorim foi mandado à Síria para mediar um diálogo com o Iran. Lembremos, que, antes disso tudo, a Veja e a Folha de São Paulo já tinham tentado emplacar o escândalo envolvendo José Dirceu. Outros factóides virão até a eleição. Veja, Globo, Estado e Folha de São Paulo já deram mostras indubitáveis da sua disposição para colocar os seus aparatos de comunicação a serviço da candidatura do Serra. É uma ação orquestrada, parte à luz do dia, como nos seminários em que os agentes destacados dessas empresas discutem as estratégias para atacar o governo Lula e impedir que a candidatura do Serra se transforme num mico, e nos bastidores mais sombrios da Globo, da Abril, do Grupo Folha etc.
    Aos poucos, essa ação vai conquistando dividendos, se não entre a massa, que ao que parece vai mesmo votar na Dilma, mas entre a classe média, que é a margem da população mais suscetível de ser mobilizada pelo preconceito de classe. Alguns setores dessa classe média, especialmente os poucos que assinam Folha, Uol, Net e outros que tais já passam a mimetizar o furor reacionário dos Diogos Mainardis e dos Reinaldos Azevedos, Lúcias Hipólitos, Arnaldos Jabores e outros que tais.
    Quer ver um exemplo? Virou moda dizer que Lula é inteligente, um “gênio político”, um “excelente comunicador”. Mas é indisfarçável que a inteligência aí tem a conotação de astúcia, esperteza, manipulação. A elite brasileira, cuja inteligência é para mim uma remota e improvável esperança, como quando se alude à vida inteligente em Marte, jamais admitirá que Lula é simplesmente inteligente, política e intelectualmente, SIM, intelectualmente. Que não é o “diproma” que garante a inteligência, está provado pela mediocridade dos quadros intelectuais que aparecem na mídia, recrutados não por mérito intelectual, mas pela adesão ideológica ao conservadorismo. Quem é o comentarista político, o cronista da vida pública brasileira que revela algum tipo de refinamento crítico, de acuidade intelectual, para não dizer apenas verbal? Certamente não é na cacofonia insípida do Manhattan Connection que o encontraremos.
    Devo dizer que você indubitavelmente se sairia muito melhor do que todos eles.
    A propósito, gostaria de discutir consigo algumas questões de filosofia da educação que ando escarafunchando, se o assunto estiver na sua pauta de interesses nesse momento. Basta me dar um sinal positivo e eu remeterei por e-mail algumas ruminações.
    Grande abraço,
    Robson.

  9. Pablo Capistrano22/3/2010 às 4:23

    Seria um grande prazer Robson pode mandar esse material de filosofia da educação, por falar nisso estou agora com uma turma de licenciatura em Física lá em Santa Cruz, trabalhando com filosofia da educação.

    Concordo com você em relação a questão da política externa brasileira, e quanto a inteligência de Lula não quis dizer que ele não fosse intelectualmente dotado, nem que fosse apenas “esperto”, a inteligência política não é apenas “esperteza”. Se fosse assim o Maquiavel teria que jogar O Príncipe fora. Lula tem fortuna (sorte) que é essencial na política, mas fundamentalmente a virtude de perceber o momento oportuno, esse time político é sinal de sofisticação intelectual sem sombra de dúvidas. Ele é bem mais dotado nesse campo do que o “intelectual” FHC, um fracasso prático, daquilo que passou anos estudando teoricamente.

    Agora não quero pensar que essa visita ao Oriente Médio, especialmente em um momento como esse, especialmente após um aceno para o Armadinejad seja parte da estratégia externa do governo. Se for, nesse caso, acho que eles deram uma bola fora medonha. Penso isso por alguns motivos:

    1. o Irã é um elemento desestabilizador naquele espaço. o presidente da autoridade palestina já se pronunciou sobre isso e é provavel que tenha pedido ao Celso Amorim (foi ele que foi para a Síria não?) intervir para que o Irã não atrapalhe as articulações do Fatah em relação aos esforços de paz. O Irã é o único pais da região que assume fortemente, não a causa palestina, mas a destruição de Israel. Nem o Hamas, nem o Fatah estão contentes com a atuação do Irã porque percebem que não interesse real em apoiar um estado Palestino. Isso é importante: não há interesse do Irã em resolver o problema palestino. A mobilização contra Israel é parte de uma estrategia de inserção na região e de um projeto mais amplo de expansão da revolução islâmica, não interessa nem a palestinos, nem a israelenses. Se Lula pensa que pode mediar a paz após ter dado apoio ao programa nuclear iraniano ele vacilou feio, porque agora tanto a Àrabia Saudita, quantoo Égito vão pensar também em se armar porque seus regimes sofrem com o tipo de desestabilização que as facções apoiadas pelo Irã produzem.

    2. Se O Brasil realmente quisesse se posicionar como mediador no conflito, deveria ter posto o oriente médio na agenda externa a muito tempo, não em fins de governo e não em um momento que o Netanyahu resolve autorizar construções na cisjordânia. Isso não parece inteligente. É como se houvesse a pretenção de salvar um barco nafragado ou de apontar para o diálogo em um momento em que a pressão parace ser a única saida para evitar um conflito generalizado.

    3. Acho que do ponto de vista do processo eleitoral é muito lucrativo para Dilma que a imprensão gopislta (O PIG) meta o pau em Lula. Isso não altera o quadro eleitoral e desvia o foco das atenções da eleição pavimentando o caminho para a decolagem da Dilma.

    Bem eu realmente gostaria de pensar que a visita do Lula levasse a um processo de paz amplo naquela região. O problema é que se for realmente isso o foco principal da viagem, ao menos nesse caso, devo concordar que ela foi muito mal articulada (e isso não tem nada a ver com~o fato que Lula não visitou o túmulo de Herzl).

    é isso amigo, é sempre um prazer dialogar contigo.


  10. “Factóide”? Analistas conservadores? Imprensa golpísta (PIG)?

    Creio que temos aí a ação sim de um movimento: o PUM (Partido Unificado da Mentira).

    Pablo, tenho notado que vc é um cara bem-intencionado e de mente aberta, mas, infelizmente, reluta em chamar as coisas pelo nome às vezes, o que se deve, a meu ver, a um certo ranço esquerdóide e marxistóide que ainda persiste (eu mesmo já fui vítima dessa lavagem cerebral durante alguns anos). Descartar uma análise, como faz seu amigo Robson, porque ela foi dita por “conservadores” ou “reacionários” como Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo ou Arnaldo Jabor (que nem conservador é, para demérito dele), é um claro exemplo de argumentação “ad hominem”, que mira não na mensagem, mas no mensageiro, e trai um indisfarçável preconceito ideológico (nesse caso, pró-esquerdista). (Aliás, é engraçado, porque foi a “mídia burguesa”, como a Folha, a Globo e até a VEJA, que deram impulso ao mito Lula e, agora, ao mito Obama.)

    A visita desastrosa de Lula ao Oriente Médio, assim como TODAS as iniciativas do Itamaraty nos últimos oito anos – tome-se os casos de Cuba e de Honduras, apenas para ficar em alguns exemplos – não foi o resultado de uma decisão de momento, ditada por motivos circunstanciais ou mesmo eleitorais (até porque política externa nunca deu nem tirou voto no Brasil, o que é uma pena…). Tampouco a decisão de Lula de não visitar o túmulo de Theodor Herzl e visitar o de Yasser Arafat (um ex-terrorista, se é que existe tal coisa) foi uma simples gafe. Tudo isso foi, sim, o resultado de uma ESTRATÉGIA, de um plano há muito elaborado de alinhamento AUTOMÁTICO e INCONDICIONAL do Brasil com regimes ditatoriais e movimentos terroristas a favor de um projeto antiamericano e megalomaníaco de “grande potência”, levado a efeito por quem está hoje no poder em Brasília. Não se tratou, portanto, de uma simples “bola fora”, mas de uma opção preferencial e consciente pelo Irã e pelo Hamas, contra Israel e os EUA. O cerne desse projeto totalitário de alcance mundial é o FORO DE SÃO PAULO, organização revolucionária criada por Lula e Fidel Castro em 1990 para restaurar na América Latina “o que se perdeu no Leste Europeu”, e que tinha como seu presidente até alguns atrás Marco Aurélio Garcia (ligou os pontos?). E isso não é uma opinião: é um FATO.

    Já escrevi bastante sobre isso, em detalhes, em meu blog. Claro, vc pode descartar tudo que digo como pura paranóia conspiracionista, como “rumores de internet” ou como invenção do PIG. Pode dizer, como certamente o fará, que digo isso porque tenho uma opção ideológica que me “deixa cego” para outros aspectos da realidade etc. Mas, nesse caso, você NÃO poderá alegar que não o estaria fazendo por motivos ideológicos. A meu ver, descartar uma análise ou uma opinião respaldada em FATOS porque quem a disse é um “conservador” ou um “reacionário” denota não apenas viés esquerdista ou imaturidade política, mas também estupidez e desonestidade intelectual. Descobri, a duras penas, que a verdade não é de esquerda. Na questão da democracia e dos direitos humanos, é menos ainda: nesses temas, como comprova a política externa pró-ditaduras de Lula e Celso Amorim, a “direita” tem muito mais a dizer. Pena que muita gente, inclusive gente dita inteligente, prefere não ouvir.

  11. Pablo Capistrano23/3/2010 às 12:51

    Gustavo, eu não acredito em “Fatos” só em interpretação. Não existem fatos puros, todo fato é visto a partir de um ponto de vista humano que o coloca como fato em um contexto interpretativo específico.

    Em relação a essa sua interpretação de um complô esquerdista internacional envolvendo Lula e Fidel só tenho a dizer que ela se assemelha muito a ideia da existência de um “protocolo dos sábios de Sião” que querem dominar o mundo a partir de uma aliança entre Israel e EUA. Descuple dizer mas acho que o fato de você ter mudado de lado não fez com que os velhos vícios de leitura da esquerda desaparecessem desse horizonte de interpretação.

    Um outro indício dessa ligação é a ideia de “verdade” como se houvesse uma verdade objetiva a ser aferida por um método de interpretação qualquer. Isso parece muito com o velho marxismo-leninismo que tratava como ciência em um modelo positivsita um sistema metafísico. Você pode ter mudado o conteúdo das suas ideias e transitado de uma doutrina para outra, mas acho que a metodologia nesse caso, continua a mesma.


  12. Desculpe, Pablo, mas não acredito em “interpretações”, nem em “verdades relativas”. Pelo menos não quando o que está em jogo são coisas como democracia e direitos humanos. Chame do que quiser, mas não compactuo com tiranias e terroristas em nome de uma suposta “ausência de verdade objetiva” que me parece simples desculpa filosófico-metafísica para justificar o que de pior existe na humanidade.

    É engraçado como esse discurso relativista-niilista é sempre invocado quando se trata de analisar regimes como o cubano ou o iraniano, assim como seus aliados como Lula – sempre visto como um “líder genial” e como vítima de uma suposta “conspiração das elites e da mídia” etc. -, mas é negado pelos mesmos que o invocam quando se trata de atacar os EUA, o Bush, Israel ou a tal “mídia golpista”. É mais um exemplo de “double standards”, de duplo padrão político e moral. E de desonestidade intelectual.

    Vc diz que não acredita em “fatos”, mas pelo visto os fatos em que vc não crê são apenas os que não se encaixam em sua própria visão ideológica, que vc não assume abertamente. As “interpretações”, nesse caso, que vc toma como a verdade “verdadeita”, seriam apenas aquelas que se conformam à essa sua visão de mundo ideológica. Por exemplo: se os israelenses se defendem, são acusados de “reação desproporcional” e isso é tido como um “fato”. Mas se eu digo que Israel tem o direito de se defender, e que o Hamas e o Hezbollah juraram varrê-lo do mapa e exterminar sua população, isso é uma “interpretação”. Entendeu?

    Eis o que considero um fato, sem aspas – e é um fato não porque eu digo que é, mas porque é (ou então prove que não) -: o Irã é um regime teocrático e patrocinador do terrorismo. Ou: Cuba é uma ditadura comunista que desrespeita os direitos humanos. Vc consegue negar isso, dizendo que são apenas “interpretações” de, sei lá, um direitista reacionário?

    Também discordo de sua visão sobre minha “metodologia” ser parecida com a do marxismo-leninismo, uma ideologia totalitária e genocida baseada numa visão escatológica próxima de seitas religiosas, e que não tem nada a ver com o humanismo. Mas isso é outro debate. O importante é ressaltar que o que vc chama de doutrina eu chamo de compromisso com uma sociedade aberta e democrática. Isso significa a aversão a qualquer forma de totalitarismo. Se isso é ser “de direita”, “positivista”, ou o que o valha, paciência. Aprendi a não me importar mais com rótulos nem com patrulhas. Prefiro ter idéias claras sobre liberdade e democracia a flertar com as trevas. A verdade existe. E ela nem sempre está no meio.

    Um abraço


  13. “Em relação a essa sua interpretação de um complô esquerdista internacional envolvendo Lula e Fidel só tenho a dizer que ela se assemelha muito a ideia da existência de um “protocolo dos sábios de Sião” que querem dominar o mundo a partir de uma aliança entre Israel e EUA.”

    Pablo, o FORO DE SÃO PAULO não é “uma interpretação de um complô esquerdista internacional envolvendo Lula e Fidel” que “se assemelha muito aos protocolos dos sábios de sião”: é um FATO, abundamente provado e comprovado com atas, documentos, resoluções etc. (Sei que vc não acredita em fatos, mas nesse caso tem que admitir que só não acredita porque é um fato de que vc não gosta). É algo que está aí, para quem quiser ver. (Mas é difícil ver o que está debaixo do nariz, quando se crê que a realidade é uma ilusão).

    Sua comparação do FSP com os Protocolos dos Sábios de Sião, uma das maiores farsas da História, só comprova e reforça o que eu disse: para vc, a verdade não existe, ou existe, desde que seja para beneficiar a esquerda. No meu caso, a verdade existe, está aí, e não tem ideologia. Só não vê quem não quer.

  14. Pablo Capistrano24/3/2010 às 5:27

    Particularmente Gustavo, não me leve a mal mas eu acredito que você não conseguiu entender ainda a natureza da sua própria ambiguidade. Você se considera um democrata e defensor da liberdade e ao mesmo tempo critica o relativismo e defende a objetividade da verdade. Você me critica por acreditar que eu só relativiso o que está a serviço de uma suposta ideologia e trato de forma objetiva aquilo que não serve a minha própria ideologia, mas é justamente isso que você faz com a sua ideologia. Você acha que eu estou do lado das trevas e você está do lado da luz. Você considera fato aquilo que está de acordo com sua interpretação e mentira aquilo que está contra a sua interpretação.

    você policia os termos do discurso, buscando encontrar elementos, expressões que denotem uma suposta filiação ideológica à esquerda e censura veementemente qualquer tipo de uso desses termos, produzindo um patrulhamento linguístico muito semelhante aquele que a TPOR ou a Convergência Socialista patrocinavam nos meus tempos de universidade.

    Lembro que naquela época eu era considerado um cara que tendia à direta por não me afinar com todos os cânones do dicionário de termos do marxisismo leninismo. Hoje, você identifica em mim uma ideologia de esquerda por eu não me filiar totalmente ao léxico dos termos da cartilha da direita que agora você adota com tanto fervor.

    Na verdade, perdoe-me dizer isso, você mudou de lado mas continua totalitário, não atua como um verdadeiro capitalista nem como um liberal. O capitalista, o liberal, o defensor da democracia, não exige que o garoto de quinze anos tire a camisa de Chê Guevara do corpo. Quem faz isso é o fascista que é tão totalitário quanto o stalinista. O liberal, capitalista, monta uma fábrica para vender as camisas de Chê.

    Esse relativismo que você identifica com o niilismo (essa é uma discussão bem mais interessante e complexa) é o elemento fundamental do sistema que você supostamente defende. Acredito que o que talvez te incomode nas minhas posições, ainda é a mesma coisa que incomodava a militância de esquerda na minha época de estudante. Particularmente eu acho que essa ambiguidade em seu discurso, esse paradoxo de defender a liberdade a partir de um patrulhamento totalitário e de uma postura que não se abre as inconstâncias das interpretações, a instabilidade da verdade, a possibilidade do contraditório é o mesmo paradoxo que levou aos totalitarismos de esquerda, que transformou a utopia da revolução no terror de Estado e que transformou a defesa das liberdades em ditaduras fascistas.

    Desculpe dizer isso, mas acho que seu discurso é o grande objeto de sua própria crítica.
    O que de certa forma é importante porque a autocrítica é sempre bem vinda, se nós, honestamente, estivermos interessados em dialogar, não é mesmo?

    um grande abraço.


  15. Pablo, não se preocupe, não levo a mal suas críticas. Ao contrário do que você diz, o direito à diversidade, ao contraditório, para mim, é sagrado. Daí minha crítica implacável e veemente a tudo que me cheire a condescendência com o totalitarismo.

    Onde está escrito que é preciso ser relativista para ser democrata e defensor da liberdade? A meu ver, é justamente o contrário: a democracia e os direitos humanos são valores universais, logo estão acima de qualquer tentativa de relativização. Ser democrata não é referendar “interpretações” diferentes da liberdade, como você faz. Tampouco é sinônimo de relativista.

    Há muitas formas de se defender o totalitarismo. Uma delas é afirmar que não existem “fatos”, mas “interpretações”, quando se trata de regimes como o cubano ou iraniano – esquivando-se assim de encarar o caráter totalitário e anti-humanista desses regimes. É uma forma talvez inconsciente de fazê-lo, mas isso não tem importância: para os totalitários, os inocentes úteis e companheiros de viagem são quase tão importantes quanto os militantes. Mais importantes, até.

    Desculpe a sinceridade (é uma pena que se tenha que pedir desculpas por ser sincero), mas a ambigüidade que você diz existir em meu pensamento é a que existe no seu próprio. Creio que há nisso uma transferência psicológica de sua parte. Dei exemplos: você tende a encarar regimes e posturas de esquerda com o benefício da dúvida de uma visão relativista, enquanto adota uma atitude absolutista para se referir aos EUA e a Israel. Sem falar na sua comparação do Foro de São Paulo – repito: um FATO, quer você queira, quer não – com a falsificação grosseira dos “Protocolos dos Sábios de Sião”. Ficou claro para mim que você, talvez por ignorância, negou de cara um fato da realidade porque não se ajusta à sua visão de mundo. Ou seja: se é “de esquerda”, se se encaixa no esquema mental esquerdista, é um “fato”; se é “de direita”, é uma “interpretação” – ou, pior: uma visão conspiratória delirante.

    Sinceramente, não vejo em que eu estaria sendo ambíguo na questão da democracia e dos direitos humanos. Pelo contrário, faço questão de ser o mais claro possível. Para mim, tortura é tortura, assim como ditadura é ditadura, seja onde for. Mas para vc isso é um pouco mais complexo, pelo visto. Você pode discordar 100% da minha opinião, pode chamá-la de direitista ou conservadora, e eu não vou me ofender. Só não diga que é ambígua.

    Você acha que eu “policio” os termos do discurso, e que eu faria um “patrulhamento lingüístico” etc. Quanto a isso, tenho a dizer o seguinte: tenho horror a polícias e patrulhas, seja de que tipo forem, e foi por isso que deixei de ser de esquerda. Você confunde totalitarismo com rigor intelectual e compromisso com a verdade (que você acha que não existe, tudo bem), o que são coisas bem diferentes. Quando eu vejo que você está usando um discurso para a esquerda e outro para a “direita”, chamando o Foro de São Paulo de ficção comparável aos “Protocolos dos Sábios de Sião”, por exemplo, o mínimo que eu devo fazer é mostrar essa inconsistência de seu discurso, e esperar que vc me convença com argumentos sólidos. O nome disso é debate – exatamente aquilo que tanto incomoda os totalitários.

    Pablo, não acho que você seja um esquerdista orgânico, alguém que milita abertamente nessa área. Nada disso. Se você fosse o esquerdista que você diz que eu acho que você é, você não estaria nem sequer debatendo comigo agora. Acho que, no seu caso, trata-se de um ranço ideológico, algo de que você ainda não se livrou totalmente, o que seria algo bastante compreensível, tendo em vista a hegemonia marxista nas universidades brasileiras, verdadeiras “madraçais” do pensamento único esquerdista. Também não tenho a menor pretensão de fazer você “se filiar totalmente ao léxico dos termos da cartilha da direita” que eu agora adotaria “com tanto fervor”, até porque desconheço a existência de alguma “cartilha da direita” (cartilha, para mim, é o que se dá às crianças no pré-primário). Mais uma vez: se eu fizesse isso, você poderia me chamar de totalitário.

    É engraçado, Pablo, você diz que eu lhe considero de esquerda etc. e tal, mas você não hesita em me classificar ideologicamente, dizendo que eu não ajo nem como um capitalista nem como um liberal… Capitalista, realmente não sou, embora reconheça, pois é um FATO, que o capitalismo é o único sistema econômico compatível com a liberdade. Sou um liberal-democrata, se preferir se apegar ao rótulo. O mais importante pra mim é a democracia, não a economia (tem muito liberal por aí que baba pela China, por exemplo; não é o meu caso). Não, não exigiria que minha filha tirasse uma camiseta de Che Guevara do corpo, em vez disso eu a chamaria para conversar e lhe daria de presente um livro sobre os fuzilamentos e torturas que o carniceiro de La Cabaña promoveu em Cuba. Também não montaria uma fábrica para vender camisetas para ganhar uns trocados em cima do culto da personalidade desse assassino serial; eu montaria uma editora para publicar livros de denúncia da farsa que é o comunismo e como ele continua a fazer a cabeça de muita gente dita inteligente, que certamente nem sabe que são inocentes úteis.

    Novamente, Pablo, o que me “incomoda” nas suas posições, não é o fato de você não se encaixar totalmente no que defendo – mais uma vez: não tenho nada a ver com o que pensam os totalitários de esquerda que você citou –; é que você adota posturas ideológicas em algumas questões e não as identifica como tal, amparando-se no guarda-chuva cômodo do relativismo, que nega mesmo a existência da realidade. E essa é uma postura que tolhe o debate, torna-o impossível, além de servir, queira ou não, aos propósitos de tiranos e terroristas. Se você dissesse: “apóio a ditadura dos Castro” ou “defendo o Irã contra Israel”, acredite, seria muito mais honesto de sua parte, e eu não estaria aqui lhe aborrecendo com este texto.

    “Desculpe dizer isso, mas acho que seu discurso é o grande objeto de sua própria crítica.
    O que de certa forma é importante porque a autocrítica é sempre bem vinda, se nós, honestamente, estivermos interessados em dialogar, não é mesmo?”

    Assino embaixo. Faço minhas essas suas palavras. E devolvo-as.


  16. Pablo,

    Ainda sobre “fatos” e “interpretações”, apenas um adendo:

    - Para vc, o FORO DE SÃO PAULO é uma “interpretação”, mas a “imprensa golpista” (PIG) é um “fato”.

    Estranho, não?

  17. Pablo Capistrano27/3/2010 às 7:02

    Gustavo, me sinto feliz em ser chamado de relativista . Lembro que essa foi a acusação que Heidegger sofreu ao ser submetido a investigação ideológica de Walter Jaenesch e Ernst Krieck, membros de uma comissão formada pelo partido nacional socialista para investigar e enquadrar o pensamento de Heidegger (ele mesmo um mebro do partido) à sua visão de mundo:

    “O tom básico da concepção de mundo e da doutrina de Heidegger é determinado pelo conceito de preocupação e medo, ambos objetivando o nada. O sentido dessa filosofia é um manifesto ateísmo e um nihilismo metafísico, que normalmente sempre foram defendidos entre nós sobretudo por literatos judeus, sendo portanto um fermento da dissolução e da corrupção do povo alemão. Em Ser e Tempo, Heidegger filosofa conscientemente e intencionalmente sobre a ‘cotidianidade’ – nada se vê ali de povo, Estado, raça e todos os valores da nossa imagem de mundo nacional-socialista. Se no discurso de reitor… subitamente soa o heróico, é por uma adaptação ao ano de 1933, em total contradição à postura básica de Ser e Tempo (1927) e ‘O Que é Metafísica?’ (1931), com suas doutrinas de preocupação, do medo e do nada” .

    Se é isso que você chama de niilismo e de relativismo fico orgulhoso de estar junto com Heidegger nessa.
    Agora acho que você me pede algo impossivel: que eu lhe convença de algo.

    E acho que isso acontece menos por uma incapacidade minha de lidar com argumentos do que por uma certa incapacidade sua, talvez decorrente da sua formação original de esquerda, em perceber as coisas em um sentido que ultrapasse o global.

    O que é interessante no relativismo é que o objeto da discussão é tomado ponto a ponto.
    Um relativista (ao contrário do que você prega na sua doutrina) não rejeta globalmente as teses da esquerda e adota globalmente as teses da direita, ou vice versa.

    Um relativista pode concordar com algumas interpretações da esquerda (que no tempo do mensalão se enxergou a possibilidade de desmontar políticamente o governo Lula e levá-lo a renúncia a partir do desmonte articulado de sua base de sustenção política) e com outras da direita (que o Irã é um elemento desestabilizador no Oriente Médio que pode fazer ressurgir uma onda de fundamentalismo e de movimentos políticos que comprometam a paz na região).

    Meu discurso é diferente do seu, e você sabe disso mais do que eu, afinal é meu leitor assíduo a um bom tempo, porque que eu rejeito interpretações globalizantes, quer seja de direita ou de esquerda. Posso ter posturas de direta ou de esquerda pontuamente, a depender do assunto que eu analiso. O “ranço de esquerda” que você enxerga em mim tem a ver com isso, assim como o “viés reacionário” do meu pensamento que é identificado por gente de esquerda, também faz parte desse tipo de leitura.

    Seria mais fácil adotar a sua postura. Você lê a Veja e pauta seu discurso. Outro lê Caros Amigos e pauta o dele. Vocês não conversam, não dialogam, porque rejeitam-se mutuamente. A existência do seu discurso implica a destruição do discurso do outro e a existência do discurso do outro implica a destruição do seu próprio discurso. É isso que o apego a uma verdade global e absoluta implica.

    Essa é uma ilusão metafísica que levou muita gente boa a matar e morrer em nome da verdade.
    Sei que esse é seu papel, porque você é militante. Mas não exiga, por favor, que esse seja o meu, porque sou um professor de filosofia e não posso me contentar com esse tipo de redução, nem com esse simplismo intelectual. Meu relativismo, inerente a minha condição de alguém que não acredita em verdades absolutas que servem bem as doutrinas religiosas ou aos dogmas políticos, já levou Sócrates, Boécio, Giordano Bruno e muita gente boa à morte.

    Me filio a esse partido e sigo uma única doutrina: ouse fazer uso da seu próprio entendimento. A vantagem de ser um relativista é que, se você estiver errado, falando besteira, ao menos está errado pontualmente. Um absolutista por sua vez sempre corre o risco de estar errado globalmente.

    Regimes políticos que são construidos em nome da verdade (quer sejam de direita ou de esquerda) comumente costumam a matar filósofos. Por isso espero realmente que você continue apenas a ler meus textos e criticar minhas ideias e não se candidate a nenhum cargo público.

    Aceite minha sugestão, venha para o “lado luminoso da força”, seja um relativista, você vai ver que é mais legal.


  18. Heidegger foi acusado de relativista por quem exigia dele a adesão absoluta e incondicional a uma ideologia totalitária. Não é o que faço. E vc sabe disso.

    Pablo, não tenho nada contra alguém ser relativista, assim como não tenho nada contra alguém ser niilista, acreditar em duendes ou em discos voadores, ser zen-budista ou adorar um cogumelo sagrado. Respeito todas essas opiniões, e longe de mim arvorar-me em dono da verdade sobre tudo que há entre o céu e a terra. O que não posso entender, nem aceitar, é que esse discurso relativista seja instrumentalizado politicamente, limitando-se a apenas um espectro do cenário político-ideológico. E vc faz isso, talvez inconscientemente, quando o usa para se referir a regimes e posturas “de esquerda” (Irã, Cuba, o governo Lula), mas não quando fala de regimes e posturas “de direita” (Israel, EUA etc.).

    Isso fica claríssimo quando vc diz não acreditar em fatos, mas compara o FORO DE SÃO PAULO (repito: um FATO, não importa o que Heidegger diria) com os “Protocolos dos Sábios de Sião”, enquanto ao mesmo tempo encara o “PIG” (“partido da imprensa golpista”, uma invenção da esquerda chapa-branca) como um… fato! Ou seja: vc diz rejeitar interpretações absolutas e globalizantes, mas apenas reproduz um discurso absoluto e globalizante de esquerda, enquanto nega o de direita. Isso denota uma clara preferência ideológica sua, que vc, no entanto, recusar-se a assumir, preferindo a ambigüidade (pró-esquerda, veja bem). Eu nem questiono sua visão relativista, apenas o uso seletivo que vc faz dela, o que é, no mínimo, muito estranho.

    Repetindo: se vc se colocasse abertamente do lado do Irã, Cuba etc., ou se vc adotasse uma postura relativista para ambos os lados, eu não diria nada. Seria uma opção ideológica sua, ou uma postura filosófica subjetivista e além da racionalidade, e ponto final. Mas, em vez disso, vc usa o discurso relativista como um pretexto para referendar, na prática, um discurso globalizante e absolutista de esquerda. Não se trata de uma coincidência pontual de sua parte, mas de um padrão, ou melhor, de um duplo padrão intelectual e moral – sempre contra a “direita”, sempre a favor da esquerda, mas sem dizer claramente. A meu ver, isso demonstra o medo de fazer uma escolha moral (o que é até compreensível), ou então certa desonestidade intelectual (o que não é aceitável). O mínimo que posso fazer é pedir alguma transparência, no primeiro caso, ou coerência de sua parte, no segundo caso.

    Pablo, acredite: não seria mais fácil adotar minha postura, não. Colocar-se inteiramente dentro do campo democrático, contra todos os sistemas e idéias totalitárias, não é o caminho mais cômodo de se situar politicamente. Pelo contrário: sobretudo nos dias atuais, essa é uma postura cada vez mais minoritária (olhe a política externa do governo Lula e o que está acontecendo na América Latina). Muito mais fácil é seguir o rebanho esquerdista – nem precisa pensar! –, ou, então, refugiar-se no discurso ambíguo relativista, que exime igualmente de um pensamento crítico – melhor: da obrigação de fazer uma opção moral. Não pauto meu discurso pela VEJA, como vc disse, assim como não acredito que vc paute seu discurso pela Cara Amigos ou pela Carta Capital (espero que não). Mas reconheço que muitas das opiniões ali presentes estão corretas e correspondem à realidade. Tanto é que fala-se muito mal do Reinaldo Azevedo, por exemplo, mas até agora não vi ninguém na esquerda refutar o que ele diz com fatos e argumentos, somente com grunhidos e adjetivação “ad hominem”. Vc mesmo deu um exemplo disso.

    A ilusão metafísica a que vc se refere, que levou muita “gente boa” a matar e morrer em nome da verdade, não é certamente a democracia representativa e o estado de direito, mas sistemas totalitários como o nazismo e o comunismo, que são sua negação completa (embora, sobretudo no caso do comunismo, vc possa enxergar aí algum parentesco comum no Iluminismo do século XVIII – mas isso não muda a questão). Não vejo como se poderia, por exemplo, matar filósofos ou milhões em campos de concentração em nome da defesa so direito à liberdade de expressão e de consciência. Mas vejo como se pode, indiretamente, justificar o Gulag e o paredón cubano em nome de uma visão relativista.

    Fique tranqüilo, Pablo, não sou “militante” de nada, sou apenas um cara que percebeu, depois de muita cabeçada, o valor da liberdade e da democracia. Pode chamar do que quiser – dogma, “eurocentrismo”, intransigência com o “outro” etc. –, o fato é que, para mim, liberdade e direitos humanos são princípios universais e inegociáveis. Essa é a única “verdade” que defendo – e que permite, inclusive, que se tente negá-la ou destruí-la. Não exijo nem exigirei de vc qualquer militância político-ideológica, nem mesmo que concorde comigo que existe uma realidade objetiva feita de fatos, e não somente de interpretações. Exijo apenas coerência e honestidade intelectual.

    Candidatar-se a cargo público, eu? Deus me livre! Prefiro mil vezes que me amarrem num caminhão e saiam me arrastando sobre um monte de brita. Para mim, a política é importante demais para que se resuma a eleições. Nesse ponto, estou de acordo com Voltaire: prefiro cultivar meu jardim. Acho, aliás, que esse é um direito fundamental da pessoa humana, e por isso defendo até a morte seu direito de falar besteira.

    Obrigado pela sugestão, Pablo, mas já escolhi meu lado luminoso da força. E não é o da condescendência com o Mal. Não é o da relativização de tiranias. Desculpe, mas não vejo nada de legal nisso. As vítimas desses regimes também não.

    Seu leitor – e crítico.

  19. Pablo Capistrano30/3/2010 às 11:20

    Bem Gustavo se é isso que você pensa sobre meus textos tudo legal, cada um tem o direito de interpretar as ideias dos outros como bem entende, mas o convite fica aberto.
    Junte-se a nós, os niilistas pós-modernos. Abandone os dogmas, a sua religião política particular e a visão objetivista de mundo. Deixe o absoluto de lado, lembre-se tudo que é sólido desmancha no ar.
    Quem sabe então você consiga finalmente entender o que eu escrevo.


  20. Mais uma vez obrigado pelo convite, Pablo. Mas não posso aceitá-lo. Sou um liberal, um democrata, um defensor de coisas fora de moda como a coerência, a racionalidade, a universalidade da liberdade e dos direitos humanos. Isso quer dizer que sou um absolutista, um anti-relativista, um dogmático, um moralista, um conservador, um reacionário, um inimigo do povo, um criminoso do pensamento. Para mim, se tudo que é sólido desmancha no ar, deve sobrar pelo menos um espaço para a mente livre.

    Mas vc tem razão: não consigo entender o que vc escreve. Não consigo entender por que o relativismo vale para uns e não para outros. E não entendo como isso NÃO seria uma visão ideológica.

    Mas isso, claro, é porque estou do lado negro da força. O lado que não tem medo de fazer uma escolha moral.

  21. David Fonseca30/3/2010 às 23:13

    Debate interessante. O Gustavo bem que se esforçou pra tentar tirá-lo de cima do muro! Fui seu aluno na FARN, e sempre levantei, juntamente com alguns colegas, a mesma questão “de que lado Pablo está?”.

    Confesso que li todo o debate na esperança de encontrar essa resposta! Estava numa ansiedade tremenda por ouvir um “sim, sou de esquerda, sou favorável ao governo Lula, reconheço os avanços, acredito que poderia ter sido melhor, mas que na atual conjuntura dos fatos, o PT ainda é a melhor opção que temos.”

    Apesar de não gostar de rótulos, e de também não ter nenhum tipo de pensamento absolutista, não consigo enchergar democracía, liberdade, ou respeito aos direitos humanos no sistema capitalista, no governo direitista, conservador, no neoliberalismo. É onde há uma inversão de valores como amor, beleza, sucesso, prazer, saber, transformado tudo em capital, tudo adaptado as forças e necessidades do mercado. Não suporto ligar a televisão e ter minha casa invadida por vendedores, que nos intervalos comerciais ou durante a própria programação, enchem meu cérebro com “compre, compre, compre, isso é bonito, isso é feio, isso é sucesso, isso é estar antenado”.

    Não gosto de me rotular, mas se ser de direita é boicotar CONFECON, acusando o governo de ser contra a liberdade de impressa e expressão, então eu to do outro lado.

    Se ser de direita é adotar práticas necrófilas, como a repressão da polícia aos professores paulistas, então eu to do outro lado.

    Se ser de direita é criminalizar os movimentos sociais, taxando estudante de vagabundo, sem-terra de oportunista, trabalhador de preguiçoso, e pobre de burro, então eu to do outro lado.

    Se ser de direita é ser favorável ao despejo de 75 famílias de um latifúndio improdutivo em Touros, ateando fogo aos pertences das famílias, levando 6 ao hospital, então eu to do outro lado.

    Pois para mim, “liberdade e direitos humanos são princípios universais e inegociáveis”.

    Acho que isso é importante, saber de que lado está.

    Para afirmar sua tese relativista a respeito das interpretações dos fatos, veja que admiro Cuba, e para mim ali é um exemplo de respeito a dignidade humana. Afirmo isso me baseando em fatos, assim como o Gustavo, porém, ele tem uma idéia completamente contrária a minha. É tudo uma questão de valores!

    Quanto a SUA posição relativa, entendo seu ponto de vista, e por isso acredito que você, Pablo, como professor, concursado, e ainda mais do IFRN, acaba por adotar, mesmo que relativamente, uma preferéncia pelo governo Lula. Pois você também conhece os “fatos”, já que está inserido neles.

    Abraço!

  22. Pablo Capistrano31/3/2010 às 5:30

    Bem David o que o Gustavo não consegue entender em relação a minha posição é que eu não assumo globalmente nenhuma agenda.

    Eu concordo com algumas coisas e com outras não, eu defendo alguns pontos de vista e outros não.

    Em relação ao governo Lula por exemplo, eu entendo que do ponto de vista de uma política social interna esse governo ultrapassa em muito o de FHC. veja o caso dos IFs. Quando FHC estava no poder, os CEFETS pelo Brasil não tinham verba nem para pagar a conta de luz. Houve um desamantelamento dos serviços públicos, que começou com Collor e se aprofundou no governo Fernando Henrique.

    FHC faliu o pais com uma política fiscal alucinada entre 1994 e 1998, vendeu o patrimônio público a preço de banana para sustentar o rombo que sua política financeira havia produzido e só conseguiu se salvar de um colapso quando o FMI veio governar o país por ele (essa é uma interpretação do governo FH).

    Prefiro interpretações pro Lula nesses aspectos, mas não gosto das posições do governo Lula em política externa.
    O caso do Irã para mim é um exemplo de uma política externa equivocada.

    O que o Gustavo não consegue entender é que você pode tomar posições sobre as coisas sem adotar uma visão de mundo.
    É possivel fazer política sem metafísica (isso é herança do “Niilismo” pós-moderno que ele identificou no meu pensamento).
    Eu não preciso adotar uma visão de mundo e um conjunto sistemático de crenças para interpretar o que ocorre ao meu redor.
    Ele é absolutista porque filtra os acontecimentos a partir de um conjunto de crenças e ele não consegue compreender como alguém pode ter interpretações sem usar um dos dois sistemas de crenças que ele conhece (direta e esquerda), por isso ele tenta mostrar que eu sou uma espécie de “esquerdista irrustido que precisa sair do armário” eh eh eh.

    Sei que é dificil se livrar da visão de mundo que filtra a tudo a partir de um sistema de crenças. A diferença entre a minha posição e a dele é que eu tento se livrar desse tipo de distorção e ele nem tem consciência dos mecanismos que levam a pensar dessa forma.

    Você e ele podem discordar frontalmente, mas o que é estranho das minhas discussões com ele e que tornam as nossas polêmicas e as vezes frustantes é que temos uma discrepância estrtural.

    ps.: importante também diferenciar minha posição aqui da minha posição em sala de aula. Na sala de aula eu tenho que tomar cuidado para não doutrinar ninguém por isso meu papel (de acordo com o que eu entendo) é o de expor os aspectos de uma questão para que os alunos tenham um quadro mais ou menos claro dos problemas e possam tomar livrimente suas posições.

  23. David Fonseca31/3/2010 às 6:24

    “A pedagogia neoliberal é uma pedagogia de exclusão justamente porque reduz o
    pedagógico ao estritamente pedagógico, buscando retirar da pedagogia a sua essência
    política.” (Paulo Freire).

    Entendo sua posição em sala de aula.
    Te considero o melhor professor que já tive; se tornou uma lenda para os
    estudantes que tiveram o prazer de assistir uma de suas aulas; e te digo que
    só continuo no curso de Direito por uma frase dita por você, algo mais ou menos assim
    “Mesmo que um dia você perca a esperança em mudar o Direito, nunca perca a consciência
    de que ele pode ser mudado”. Mas isso não deixa de ser doutrina meu caro, e você doutrinou
    muita gente.
    O que me incomoda em alguns professores maravilhosos como você, é que justamente por
    serem bons
    resolvem se manter neutros, deixando o caminho aberto para que os alunos “possam tomar
    livrimente suas posições”. Sabe qual é o problema Pablo? É que os péssimos professores
    não fazem o mesmo, e acabam bombardeando os mesmos alunos com ideais reacionários, limitados,
    tratando a educação, de forma incosciente ou não, como um mero depósito bancário,
    um depósito
    de saber. A partir do momento em que um professor indica um livro aos seus alunos, a
    depender da maneira como ele vai trabalhar tal material, ele está
    doutrinando, não acha?
    Já peguei discurssão com professor em sala de aula por ocultarem determinados fatos de
    suas falas reacionárias, por fazerem deboche de outros, ou por mentirem discaradamente como se estivessem
    se estivéssem diante de uma turma de bobos, que nada sabem. Acredito que neutralidade
    seja abordar um tema, mas analisar todo o seu contexto, e não apenas jogar uma informação
    superficial. Quando tais professores percebem que não estão
    lidando com o vazio, quando escutam tais críticas, colocam o rabo entre as pernas.

    Os favoráveis a educação necrófila não perdem tempo em doutrinar de forma
    superficial e limitada seus alunos, os bons deviam fazer o mesmo, porém, doutrinar de forma
    crítica, libertadora, humanista. Aí sim teriamos equilíbrio.

    Um grande professor que tive o prazer de conhecer, chamado José Geraldo, atual reitor da UNB, aborda de forma
    bastante clara
    esse tema, ele chama de Pedagogia Jurídica Emancipatória, já ouviu falar?

    Abraço.

  24. Pablo Capistrano31/3/2010 às 7:28

    Não David, não ouvi falar sobre essa pedagogia jurídica emancipatória.
    Tem a ver com o Paulo Freire?

    Acho que há uma diferença em doutrinar e se posicionar. Acho que quando alguém apresenta um contexto está oferecendo um recorte interpretativo especifico, se você pensa isso como um direcionamento eu concordo com você. Não há como ser neutro, mas é possivel não ser neutro sem ser dogmático. Essa é a grande questão. Não sei se você lembra mas eu geralmente apresentava vários autores quando dava minhas aulas (mais especificamente as de filosofia do Direito). Eu tomava o cuidado de apresentar autores que defendiam posições diferentes sobre temas específicos. Por exemplo, falava sobre Platão e sobre Kelsen e discutia a ideia de justiça dos dois. Quando eu apresentava a aula eu assumia a posição do autor e defendia seu ponto de vista.

    Os alunos achavam que eu pensava como Platão, mas ai quando eu dava a aula de Kelsen e assumia sua posição em relação a justiça muitos se assustavam porque achavam que havia alguma contradição. Como eu podia ter apresentado a ideia de Platão sobre a Justiça e depois a de Kelsen?

    O que realmente eu pretendia era permitir confrontasse os dois pontos de vista, que ele percebesse a diferença e tentasse encontrar a semelhança, que ele pudesse pensar e assumir sua posição a partir do que foi posto. Isso é assumir uma postura política da minha parte. Acho que eu agia politicamente ao tentar fazer com que os alunos pudessem emancipar o próprio pensamento.

    Bem, não sei se eu conseguia isso, mas acho que eu não me posicionava de forma neutra.
    Acho que o efeito emancipatório da minha ação como professor seria limitado se eu apenas discorresse sobre aquilo que eu penso. Principalmente em uma graduação. Se estivessemos em uma pós, mestrado ou doutorado eu poderia me dar ao luxo de apenas expor minhas ideias e meus posicionamentos.

    Mas acho que isso não seria justo em uma turma de graduação, ou mesmo no ensino médio.


  25. Bom, vamos lá. Talvez não adiante nada, mas é sempre bom marcar posição.

    David, eu sei de que lado Pablo está. Ele também sabe. A diferença é que ele não assume. Esta é a nossa diferença.

    Vc diz não gosar de rótulos, mas que não consegue “enchergar (sic) democracia, liberdade, ou respeito aos direitos humanos no sistema capitalista, no governo direitista, conservador, no neoliberalismo” etc. etc. Ok, respeito essa sua opinião. Respeito mais ainda sua coragem de dizer isso abertamente, no que vc difere do Pablo. Apenas me diga, então: que país não-capitalista, não-direitista, não-conservador, não-neoliberal (sic) é ou foi um dia, ao mesmo tempo, uma democracia política, com liberdade de expressão e de consciência? Por favor me responda, se puder.

    Não gosta de vendedores? Eu também não gosto. Gostaria menos ainda se eu não tivesse a liberdade de escolher comprar ou não, e de quem comprar. Em regimes totalitários, como o comunismo, essa liberdade, assim como todas as outras liberdades individuais, simplesmente não existe. Acho que vc já ouviu falar na URSS, não?

    Mas estou perdendo meu tempo. Nem vou tentar rebater o que diz o David. Quem defende estrovengas totalitárias como a CONFECON – uma clara tentativa de tutelar a imprensa, à moda chavista –, que afirma que o uso legal da força pelo Estado democrático de direito contra grevistas baderneiros é uma “prática necrófila”, que afirma que chamar os criminosos do MST de criminosos é “criminalizar os movimentos sociais” e que admira Cuba como “exemplo de respeito à dignidade humana” (???!!!) não precisa de resposta, precisa de ajuda psiquiátrica. Mas um mérito pelo menos ele tem: ele não esconde o que pensa sob a capa de uma retórica relativista. A visão do David é míope, eu diria mesmo cretina e idiota, mas é pelo menos honesta. A sua, Pablo, não tem sequer esse mérito. Eu sou carne e o David é frango, mas vc prefere ser chester.

    ( Intervenção do Pablo: È uma pena Gustavo que você tenha que apelar para esse exediente em uma argumentação. Esse tipo de desqualificação chula empobrece mais ainda seu pensamento)

    Entendo, Pablo, que vc não queira assumir globalmente nenhuma legenda. Vc é que não entendeu, ou finge não entender, que minha crítica não é ao fato de vc se declarar um relativista, niilista, heideggeriano etc.: é, sim, ao fato de vc restringir esse relativismo a um lado apenas. Vou repetir apenas um exemplo que dei.

    Falei do Foro de São Paulo, uma entidade real, cuja existência e fins estão amplamente documentados, que foi criada por Lula e Fidel Castro em 1990. Trata-se de um fato, portanto, algo cuja existência está além da sua ou da minha vontade. Vc disse que o FSP é uma ficção comparável aos “Protocolos dos Sábios de Sião”. Vc disse também que o “PIG” (“partido da imprensa burguesa”) é uma realidade. Segundo essa sua “interpretação”, seletivamente relativista, o FSP não existe, mas o PIG, sim. Ou seja: um fato não lhe agrada, e vc diz que ele não existe. Se ele for conveniente a uma certa visão ideológica, que é a sua, mas que vc não ousa dizer, então é verdadeiro.

    Lembro que alguns anos atrás tive com vc um debate interessante sobre Cuba. Recordo que deixei bem clara minha opinião (“interpretação”, vc diria) sobre o tirano Fidel Castro e como ele arruinou um país e hipnotizou gerações inteiras de idiotas latino-americanos. Deixei claro que condenar a ditadura castrista era uma obrigação moral de qualquer pessoa decente e humanista. Sua resposta: “não quero dar uma opinião sobre isso” (lembro que vc até comparou o debate sobre Cuba a uma dispura entre vascaínos e flamenguistas…). Comentei em meu blog sobre a questão, e fiz a pergunta: se fosse Pinochet, e não Fidel, vc diria que a condenação à ditadura é ou não uma obrigação moral? Até agora não tive resposta.

    Isso, Pablo, chama-se duplo padrão moral. Uma atitude intelectualmente desonesta, para dizer o mínimo.

    (Intervenção do Pablo: Acho que aqui também você perdeu um pouco a compostura e me agrediu em um sentido que ultrapassa as ideias. Ao me considerar intelectualmente desonesto você atenta de certa forma contra a minha honra e minha integridade moral. Gostaria de um pedido de desculpas, tendo em vista que eu nunca atentei contra a sua integridade moral em nossas discussões)

    Em outras palavras: eu condenei e condeno ambos os ditadores, jogo lama, cuspo neles. E vc, pode fazer o mesmo? E se condena um, por que não condena o outro?

    Veja que eu até admito que vc não condene nenhum dos dois, e se feche em copas numa torre de marfim filosófico-relativista. O que não dá pra entender é considerar a condenação de um deles uma obrigação moral (o que de fato é), mas a de outro, um “extremismo de direita”, “resquício da guerra fria” etc.

    O mesmo pode ser dito do nazismo e do comunismo. Para mim, são ambas ideologias totalitárias e anti-humanistas. Condeno-as com igual fervor. E vc?

    Vc diz que concorda com algumas coisas e com outras não, como se a realidade fosse uma espécie de supermercado em que se poderia escolher essa ou aquela posição, ter esse ou aquele ponto de vista, fazer uma salada, e isso não teria nenhuma conseqüência. Talvez por vc ser filósofo, vc acredita que as idéias podem ser reduzidas a um nível totalmente abstrato de subjetividade, sem qualquer peso na realidade. Acontece que elas têm peso, sim. Por mais que se tente fugir da realidade, ela sempre termina nos alcançando.

    Seus elogios ao governo Lula, em especial à sua política social “melhor do que a de FHC”, demonstram claramente uma preferência ideológica de sua parte. Somente alguém comprometido ideologicamente com um viés estatista e antiliberal poderia criticar um governo por “vender o patrimônio público a preço de banana”, o que é, aliás, uma tremenda balela, e rasgar seda para um governo que transformou o assistencialismo e o coronelismo em políticas oficiais. Sem falar que, no caso da política externa lulista, o caso do Irã é apenas um entre tantos outros (cito Cuba, Venezuela e Honduras, para ficar nos mais importantes), que seguem um padrão ideológico.

    Repito: o que não “entendo” é como alguém que se diz relativista só o é para a esquerda, e não para a direita.

    Não é preciso “adotar uma visão de mundo e um conjunto sistemático de crenças” para ter uma opinião minimamente coerente. Basta ter honestidade intelectual. Eu, por exemplo, não concordo 100%, talvez nem 50%, com o que dizem pensadores conservadores e de direita em alguns temas (religião, por exemplo). Mas nem por isso deixo de me identificar como liberal-democrata, anti-estatista, anti-comunista, pró-liberdade e direitos humanos. Isso porque, mais do que as diferenças que me separam desses autores, sou unido a eles por um denominador comum político e moral – a defesa da democracia e da liberdade individual, valores universais. Adotar uma postura relativista a respeito desses valores, a meu ver, é o mesmo que negá-los. E isso SIM corresponde a uma visão de mundo – a visão de mundo pró-totalitária.

    Não sou “absolutista” (a partir de agora vou adotar o rótulo, pois minha visão sobre liberdade é mesmo absoluta e não admite relativizações) porque eu teria dificuldades em compreender “como alguém pode ter interpretações sem usar um dos dois sistemas de crenças que ele [eu] conhece (direita e esquerda)”. Parece que aqui vc, Pablo, é que não entendeu o que eu escrevi. Lendo o que vc diz, fica parecendo que eu não consigo enxergar nada além da dicotomia direita-esquerda. Não é nada disso. Tudo que venho dizendo é que é possível, mesmo sem ser “de esquerda”, referendar as posições identificadas com esta corrente ideológica. Basta relativizar, por exemplo, a realidade de regimes como o cubano, o que vc, Pablo, faz à larga. (Certamente vc, Pablo, não conhece as expressões “inocente útil” e “companheiro de viagem”.) Sem falar que, se formos adotar as definições clássicas de direita e esquerda, eu estaria à sua esquerda, pois considero o regime teocrático iraniano uma aberração, enquanto vc tem uma “interpretação” diferente e mais condescendente em relação à tirania dos aiatolás.

    Não Pablo, não acho que vc seja um “esquerdista enrustido”. Pelo que vc tem escrito, vc não é enrustido: é de esquerda mesmo. Só que, sabe-se lá por quê, não tem coragem ou disposição de dizê-lo francamente. E se ampara no relativismo para fugir a essa realidade. Só que vc se trai, quando o cacoete esquerdista se manifesta na forma seletiva com que vc trata, com base numa visão relativista, regimes “de esquerda” e “de direita”. Vc já caiu nessa contradição diversas vezes.

    A diferença entre minha posição e a sua é que eu não me escondo por trás desse palavreado. E tenho, sim, consciência do mecanismo que me leva a pensar dessa forma. Já quanto a vc, não tenho certeza.

    Não acho nosso debate frustrante. Pelo contrário: acho que está sendo bastante revelador. Pelo menos para mim, está sendo bastante elucidativo.

    Intervenção do Pablo: Gustavo, você não tem um interesse real de compreender o que eu escrevo. Você lê e distorce o que eu escrevo para encaixar meu texto naquilo que você pensa sobre minhas ideias. Não há interesse real seu em compreender minha posição. Você precisa me reduzir e me simplificar para que eu possa fazer sentido justamente a esse sistema de crenças que você adota. Até ai tudo bem, mas acho que nesse seu comentário você cruzou um limite que eu não gostaria que fosse ultrapassado nesse site. Você me acusou de ser desonesto intelectualmente (isso me ofendeu). O que de certa forma torna nossa discussão inutil, porque se eu sou intelectualmente desonesto não adianta nada que você escreva aqui nem é interesante que você perca seu tempo me lendo. acho que uma atitude coerente sua seria assumir que não se pode nem se deve dialogar com gente intelectualmente desonesta porque um dos pressupostos para uma discussão justa e construtiva é a confiança na honestidade intelectual dos interlocutores. Se isso não acontece é inútil continuar conversando. Uma sugestão seria a de um pedido formal de desculpas ou que você poderia responder a meus textos em seu blog, agindo de modo a desmascarar para seus poucos leitores essa minha “desonestidade intelectual”. Como eu sou filho de sertanejos e aprendi que não se deve onfender os anfitriões em sua própria casa espero que você reveja sua posição em relação a isso. Que a paz te acompanhe e boa sorte na sua cruzada

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2007 ® Pablo Capistrano

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