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  • Pablo Capistrano
  • 10 de março de 2010, as 19h19

Existem alguns lugares mágicos na história da música. O Cavern Club em Liverpool aonde os Beatles tocaram, a Factory de Andy Wahool, em Nova York, local de gestação do Velvet Underground. O CBGB, casa que viu nascer a estética punk no começo dos anos setenta. O Studio 54, que botou o planeta para dançar no auge da disco music. Lugares como o Circo Voador no Rio e a boate Madame Satã em São Paulo. O Poko Loco em Recife ou o El Chaco aqui em nossas praias potiguares, que arrancou o “cabaço” musical de minha geração no começo dos anos 90.
Se você imaginar um lugar desses para o Jazz deve imediatamente direcionar sua imaginação para a esquina da Rua 140 com a avenida Lenox no Harlem no coração da Ilha de Manhattan. Ali, no amanhecer dos anos de 1930 surgiu o Savoy Ballroom, uma casa de shows que pôs um continente inteiro para dançar.

Os anos de 1930 começaram sombrios para o mundo. Como anunciou Scott Fritzgerald: “alguém cometeu um erro e a mais cara orgia da história chegava ao fim”. Após a crise de 1929 o sonho da expansão sem limites do capitalismo liberal esvaiu-se no mesmo pó que fez surgir a Dustbowl no meio oeste norte americano. Uma imensa bola de poeira que destroçou as plantações por toda região central dos EUA fazendo com que quase ¼ do estado do Tennesse fosse a leilão. Quando a era do jazz acabou junto com a crise de 1929, pessoas começaram a procurar moradias em cavernas no central park, as filas dos indigentes em busca de caridade triplicaram de tamanho e a industria fonográfica quase foi a falência. Antes da crise o mercado era abastecido com cerca de cem milhões de discos/ano, em 1932 essa produção caiu para 6 milhões de cópias.

Em Chicago, as pessoas queimavam vinis no inverno de 1931 para se aquecer por causa da falta de dinheiro para comprar carvão ou gás. Parecia o abismo, parecia o colapso definitivo de uma era de apogeu e exuberância que havia dado ao mundo a formatação clássica do Jazz e do Ragtime.

Foi nesse tempo sombrio e depressivo que o Savoy abriu suas portas para um novo tipo de configuração musical. Fletcher Henderson, que durante os anos vinte havia competido com Paul Whitman pelo posto de rei do Jazz, desenvolveu no Savoy um estilo sonoro baseado no esquema de “perguntas e respostas” dos cantores de gospel da igreja batista. Os grupos cresceram. Agora não eram mais quintetos, mas sim big bands, com três seções de instrumentos. Uma com saxofones e clarinetes, outra com trompetes e trombones e uma terceira seção rítmica que continha inicialmente o banjo, bateria, contrabaixo e piano.
Do Savoy surgiu um som contagiante, poderoso, barulhento e incontestavelmente dançante que foi imediatamente apelidado de swing. Em sua série sobre Jazz Ken Burns cita um tal de doutor A. A. Brill, psiquiatra, que na época teria diagnosticado o seguinte: “O swing representa uma regressão ao ‘tom-tom-tom’ primitivo, um som rítmico que agrada tanto aos selvagens quanto as crianças. Age como um narcótico e faz as pessoas esquecerem a depressão. A perda de seus empregos. É como tomar uma droga”.

Em pleno tempo de depressão, os dançarinos de swing do Savoy ensinavam ao país e ao mundo o modo correto de extrair a força vital do corpo para curar, mesmo que por um momento, mesmo que por um instante, as ansiedades que aquele presente miserável lançava sobre o futuro do ocidente. Rapidamente outros lugares como o Savoy começaram a aparecer em Nova York. Roseland era um deles, com uma diferença fundamental: lá não entravam negros, a não ser para tocar.

"É como uma droga" diziam os psiquiatras. O Savoy liberou as energias reprimidas do corpo em plena época da grande depressão.

Se no Savoy negros e brancos dançavam juntos ultrapassando a lógica racista daqueles anos, no Roseland o swing era dançado apenas por brancos. Talvez por isso, apesar de existirem tantas casas de swing (lembre-se estamos falando da dança e não do fetiche sexual) era a partir do Savoy que o vigor da experiência estética do Jazz pulsava. Por isso foi para lá que correu um jovem clarinetista, líder de mais uma entre as inúmeras bandas de swing em busca de inspiração e de um álbum de composições que valesse a pena ser tocado.

Benjamin David Goodman era filho de judeus russos que emigraram para os EUA no final do século XIX. Ele havia se apaixonado por Jazz e era um grande admirador de Fletcher Henderson e de sua banda. No começo dos anos de 1930, ele foi convidado pela NBC para fazer um programa de rádio chamado let´s dance show. Benny, como era chamado, sentia que apesar de ter uma boa banda ainda não tinha uma identidade própria. Ele parecia tocar a mesma música do Savoy, mas faltava algum tempero na sua salada sonora, por isso ele viajou ao Harlem com alguns dólares no bolso e comprou os arranjos de Fletcher Henderson.

Faltava a banda de Benny aquela dose fundamental de autenticidade jazzística que conectava o swing com a tradição de Nova Orleans, com a batida sexual de Buddy Bolden, com o escracho rítmico de Armstrong. Henderson sabia o que isso significava e a cada noite no Savoy essa tradição se renovava em um misto de pasmo melódico e euforia dançante de corpos girando e se torcendo uns ao encontro dos outros. Com o book de Henderson na mão, Benny Goodman invadiu, com sua banda, as casas dos norte americanos de costa à costa. Em um tempo em que o Jazz era um tipo cult de música para intelectuais da esquerda norte americana, que se aventuravam até os guetos negros para sorver mais energia criativa, a dança louca do swing atravessou o país pelas ondas do rádio, levando uma lufada de ar fresco, vindo do leste, vindo do porto, vindo de Nova York, portão da América para o mundo.
Como eu ia dizendo o Savoy foi um lugar mágico do Jazz. Mas esses lugares mágicos não são pontos espaciais. Eles são momentos no tempo. São pequenos intervalos nessa enlouquecida matemática cósmica que põe o universo para girar e a vida para passar. Em nossas eras humanas, tão diminutas, esses pontos são como clareiras na floresta do silêncio. Momentos em que a escuridão de uma vida sem som e sem arte é suspensa para que um relâmpago de música e movimento faça a existência valer a pena.


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2007 ® Pablo Capistrano

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