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  • Pablo Capistrano
  • 10 de março de 2010, as 19h19
Gastei as sobras da bolsa de iniciação cientíica e o resto da mesada para comprar esse livro nos anos de 1990.

LIVRO: O Novo Século: entrevista a Antonio Polito.

AUTOR: Eric Hobsbawn.

Tradutor: Allan Cameron (Italiano para o inglês) – Cláudio Marcondes (Inglês para o português).

Editora: Companhia das letras.

Ano: 2009.

Um dos tipos de leitura que mais me fascinou nessa vida eram as sobre a História. Com seis anos eu era viciado em Túnel do Tempo. Não perdia um capítulo da eterna série que jogava Robert Colbert (interpretando o papel de Doug Phillips) e James Darren (interpretando o papel de Tony Newman) em uma espiral sem fim pelas eras da humanidade. Sei que você vai me olhar estranho, mas com sete ou oito anos eu não perdia um dia do programa de história do telecurso segundo grau com a apresentação do Gianfransceco Guarnieri.

Por isso, quando eu li na Folha de São Paulo, em algum momento dos anos noventa, que iria ser lançado no Brasil o livro Era dos Extremos de Eric Hobsbawn fiquei alerta, juntando os restos da mesada ou as migalhas das bolsas de iniciação cientifica que recebia como aluno na graduação para comprar o livro.

Hobsbawn é um desses historiadores que fala a partir de si mesmo. Há muito da própria percepção e da forma como ele leu o seu próprio tempo a partir de sua própria experiência de vida. Por isso, seu estudo sobre o Século XX, ao contrário de obras de autores que falam acerca de um passado distante a partir de documentos e ruínas arquitetônicas, é como uma crônica viva de sua própria época.

E ninguém pode ir além do seu próprio tempo.

Por isso eu estranhei quando vi, na virada do século, partes da entrevista com o Hobsbawm feita por Antonio Polito publicada na Folha. Ele falava sobre o então “novo século”.

Não se tratava de uma especulação profética nem de algum tipo de auspício historiográfico. Hobsbawm olhava para frente como sempre olhou para trás, a partir de seu foco, de seu lugar, de seu tempo, de sua própria experiência e das leituras que faz a partir da época em que vive.

È curioso ler sua entrevista cerca de dez anos depois de ter sido feita.

Não porque se possa fazer uma avaliação dos acertos e dos erros de suas “previsões” como se Hobsbawm fosse alguma espécie peculiar de “mãe Dinah” da historiografia contemporânea.

Hobsbawm fala muito mais sobre a configuração do mundo no tempo da transição, na esquina do milênio, na época da passagem. Globalização, guerra, influência dos EUA e da cultura ocidental, surgimento da China como possível potência global no século XXI, papel da esquerda e da direita no mundo que surgiu após a queda do muro de Berlin.

Hobsbawn é um marxista que sabe que a teoria socialista funcionava mais como uma crítica ao capitalismo do que um projeto efetivo, viável, de uma nova sociedade. Um sujeito que sabe que os EUA estão longe de perder o papel na geopolítica global e que a China, a despeito de sua pujança econômica não tem o vigor criativo e a capacidade de inovação tecnológica dos norte americanos.

Sabe que a globalização, se efetiva em termos culturais, econômicos e tecnológicos, mas compreende que há uma limitação substancial no que diz respeito a globalização política. O Estado nação não morreu ainda e, pelo que a gente pode observar, a despeito das utopias kantianas de uma união européia que ultrapasse as peculiaridades regionais de alemães, franceses, ingleses, italianos… estamos longe de construir uma alternativa política viável àquela que emergiu da Revolução francesa de 1789.

Mesmo assim o Hobsbawm mantém fidelidade a uma postura crítica que entende o liberalismo individualista de Smith e de suas viúvas como uma proposta politicamente inviável de poder.

Interessante é a leitura que ele tem dos verdes como um grupo político que se posiciona à esquerda, o que, desde a época da revolução inglesa de 1641 indicava uma posição progressista. Curiosamente hoje, esses mesmos verdes de esquerda, defendem em uma postura ligada a ideia de ecologia profunda derivada de Heidegger e de Aldo Leopold, que implica na interrupção das mudanças tecnológicas e econômicas, ou na busca de mante-las sobre controle. Ou seja, trata-se de uma esquerda que é esquerda, mas não é progressista, como os grupos tradicionais eram.   

O fato é que o papel do historiador não parece ser apenas o de olhar para o passado. Há um sentido de presença que ultrapassa as ideias clássicas do Indiana Jones perdido em alguma selva em busca de tesouros arqueológicos. Na verdade, desde que Droysen e Dilthey, no século XIX lançaram as bases de uma hermenêutica historicista, que o impasse da história vista como “ciência” se montou.

Como ler o passado se ninguém consegue ir além de seu próprio tempo? Como prever o futuro se estamos presos ao agora, condicionados pela única experiência possível que é a do nosso próprio momento, do nosso próprio lugar no tempo? O passado se apresenta como memória no presente, e o futuro como projeção daquilo que conhecemos hoje.

Ruínas e fantasmagorias, sombras que se projetam no futuro e que emergem do passado a partir daquilo que conhecemos.

Esse é nosso mundo. Esse é nosso tempo. Não há como fugir dele quer você goste ou não.


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2007 ® Pablo Capistrano

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