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  • Pablo Capistrano
  • 14 de março de 2010, as 5h05

São Marcos, um goleiro romântico, bem diferente do neoclassico Rogério Ceni.

 

Fiquei comovido quando li na internet a notícia de que o goleiro Marcos, do Palmeiras iria se aposentar. Não porque ache que a aposentadoria, para um cara como o Marcos, seja sinal de dificuldades financeiras, aperto econômico ou depressão senil. Marcos deve ter acumulado uma boa grana nesses tempos de atuação como jogador profissional. A questão é Marcos ter de se aposentar com 36 anos.

36 anos: a minha idade.

É estranho pensar que eu, que trabalho com a mente e com a linguagem, estou começando agora minha vida profissional (para um professor, dez anos de sala de aula é apenas o começo e um doutorado concluído marca mais a posição inicial do trabalho acadêmico, do que o fim da vida produtiva).

Mas o tempo da bola é diferente do tempo da mente. O corpo, para o futebol profissional, envelhece rápido e quando as lesões começam o atleta tem que saber que seu tempo está passando.

Li também em algum lugar que Rogério Ceni do São Paulo, iria se aposentar junto com o Marcos. Eu particularmente sempre preferi, como atleta, o Marcos. Os sãopaulinos me perdoem, mas acho o Ceni um goleiro sem sal. Tão burocrático quanto o time do São Paulo dos últimos anos. Ceni é muito pouco “literalizavel”. Marcos tem rompantes, atitudes impensadas, falhas monstruosas que contrampoem-se a defesas canônicas. Muito da fama de Rogério Ceni se deve, substancialmente, ao esquema de jogo e a aplicabilidade tática as equipes do São Paulo nos últimos anos.

Marcos, que oscilava junto com o Palmeiras, precisou muitas vezes de doses extras de heroísmo e dramaticidade para “salvar” o time. Essa é a marca do grande goleiro. Ceni tem a seu favor o exótico, o inusitado que o transforma em uma figura heterodoxa (um goleiro que é artilheiro do time). Seu mote é a subversão do seu próprio papel. Ele é uma espécie ambígua de jogador de futebol que atua bem com as mãos e com os pés. Certo, há também a questão da liderança que o habilita a em algum momento, brilhar como técnico, talvez do seu querido São Paulo, enquanto que Marcos… bem, Marcos, como todos os santos, tem seu lugar na história do futebol do Brasil e do clube que defendeu por quase toda a sua carreira.

No tempo da bola, o desejo dos homens tem que se submeter às imposições tirânicas de seus próprios limites físicos. Isso é triste, isso é fúnebre, porque, de um modo ou de outro, no futebol contemporâneo, no Brasil (esse gigantesco túmulo da memória) aposentar-se é quase como morrer, algo que a gente aceita porque é o jeito.


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2007 ® Pablo Capistrano

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