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  • Pablo Capistrano
  • 27 de março de 2010, as 7h07

o que está por trás dessa pressão sobre os jogadores do Flamengo?

Outro dia vi um adesivo de automóvel com o símbolo do Flamengo. Embaixo estava escrito: “Por favor, não me assalte, torço pro seu time”.

Muito se falou nas semanas que passaram sobre as incursões de Adriano e Wagner Love em favelas no Rio de Janeiro. Drogas, tráfico, armas pesadas. As imagens que o Brasil vê pela TV e que supostamente dão o tom da realidade dos morros e das zonas periféricas no Brasil foram imediatamente identificadas com os jogadores do Flamengo e ai apareceu uma moto de Adriano presenteada para uma mãe de traficante, imagens de Wagner Love em festas, sendo escoltado por soldados do morro com AK-47 na mão.

Logo, logo, meus amigos vascaínos no twitter repassaram links com alguns artigos sobre os acontecimentos. Em um desses links um cara chamado Marco Aurélio D´Eça escreveu: “O Flamengo parece um antro de marginais” (http://colunas.imirante.com/marcosdeca/2010/03/15/o-flamengo-parece-um-antro-de-marginais/). No texto dizia coisas do tipo: “não dá para compartilhar o mesmo espaço em ambientes públicos com flamenguistas, jogadores ou torcedores. É pedir por agressão”.  

Imediatamente lembrei do adesivo e daquele velho bordão que indicava, na sociologia do futebol, que os ranços que opunham os times no Brasil eram ranços de classe. Ao contrário do que acontece em lugares como Itália, Espanha ou mesmo Escócia, aonde as rivalidades que envolvem torcidas retém elementos políticos, étnicos, nacionalistas e religiosos, no Brasil a grande rivalidade seria a de classe. Ricos e pobres. Times de elite e times do “povão”.

Particularmente eu não acredito que hoje o futebol se resuma a isso. Conversando com um amigo italiano (torcedor do Milan) perguntei sobre a questão política na Itália e se isso influência ainda hoje a torcida. É comum imaginar que os de esquerda torçam pela Inter de Milão ou que os fascistas ainda estejam, como no tempo de Mussolini, junto às fileiras da Lazio. Mas o meu amigo disse: “Isso é coisa do passado. Hoje tudo é negócio”.

Sim, hoje no futebol profissional tudo é negócio. Os significados das antigas paixões tem que rivalizar com o interesse mercadológico dos novos senhores dos clubes, com seus interesses políticos, com suas artimanhas financeiras.

O torcedor, vítima dessa armadilha, acaba sendo tragado, em sua paixão, por uma rede de interesses que ele mesmo desconhece e que ameaçam a cada instante, acordá-lo de seus sonhos trágicos e de suas ingenuidades épicas.

Curiosamente, a discussão que foi aberta a partir da evidência de um tipo particular de miséria existencial que aflige o Adriano (uma suposta adicção ou uma crise conjugal – qual das duas é pior eu não sei) acabou servindo para que o mesmo velho ranço, a mesma velha miséria moral viesse à tona. Uma miséria moral retratada no preconceito, que ainda costuma a arrastar extratos substanciais da classe média brasileira em direção a uma espécie muito particular de neurastenia social.

O Marco Aurélio D´Eça foi muito infeliz em seu comentário. 

Não há como não entender o mensagem subliminar. A diferença entre Kaká (da Igreja Renascer) e Adriano ou Wagner Love não tem a ver com a gravidade dos crimes de seus amigos, mas com o lugar de onde eles surgem.


Um Comentário para “O mesmo velho ranço”

  1. ANDRELUCIO RIBEIRO2/4/2010 às 5:45

    Olá, de novo! Dizem que a sociedade evolui, que o ser humano está mais inclinado para o estudo, para o conhecimento(ao menos são os números de pesquisas feitas no Brasil). Pois é, as pessoas buscam o nível superior, até pq está mais fácil se obter um diploma, diante das facilidades. A tecnologia está presente na vida de idosos com 80 anos de idade (ao irem sacar seu rico dinheirinho, um idoso que cozinhava num fogão à lenha, hoje precisa usar um caixa eletrônico, e muitos não sabem nem o que é um micro-ondas, nem sonhavam com isso). Computador, mesmo que o sujeito não saiba mexer, sabe o que é. Os carros só faltam falar, tem uns que falam…ou nos enganam. A prostituição e o tráfico de drogas utilizam a internet, classificados, boca a boca, a política, etc. No futebol, o interessante é que nada evoluiu, exceto o condicionamento físico dos atletas, tão exacerbado que muitos morrem ou passam mal na execução da profissão. Engraçado que os clubes produzam jogadores, mas esqueçam de produzir o cidadão. Dar uma consciência do que é a vida, na adolescência seria um passo gigantesco (que tal a disciplina cidadania para todos os jovens de 8 a 18 anos?). Concordo com o mestre Pablo, o rapaz foi infeliz, e uso um ditado: “O homem é fruto do meio em que vive”. Nenhum jogador de futebol, com 16,17,18 ou 19 anos, é orientado a fazer uma previdencia privada, é orientado a saber o que representará para uma geração de jovens com origem semelhante, ou não, a origem dele. Nenhum jogador de futebol é orientado, e lembrado, que sua carreira dura pouco e depois sem saber fazer mais nada, seu dinheiro acabará e sua auto-estima será afetada. É verdade que existe um pluralismo, mas não há uma orientação norteadora, o que há são pessoas, oriundas de classes sociais mais favorecidas, que formadas (geralmente em Direito) se aproximam destes jovens dando o que qualquer um quer, aos 18 anos; uma casa, contatos com mulheres bonitas, um carro e um “cara legal” que vai ser o procurador, o novo pai, vai ser o melhor amigo que já existiu em todos os tempos. Ah, também vem da classe social mais favorecida todos os dirigentes de clubes, aqueles que recebem as cotas de televisão, as rendas, e que fecham as vendas dos atletas. Eu, se eu quiser fazer parte da diretoria do time que torço, não posso entrar, não tenho dinheiro, não tenho status e nem o “conhecimento futebolístico” deles. Imagine um rapaz de 18 anos ter que ler um contrato de 08 páginas, com linguajar jurídico, com clausulas que parecem idênticas umas com as outras? Pois é, este rapaz foi retirado da escola pelo clube que o formou. Aliás, por que será que no nosso país, a educação foi algo mais que secundário até 08 anos atrás? Para que a situação de ignorância e necessidade se mantivesse. Pois no nosso futebol as coisas permanecem assim. Os discursos dos atletas são muito semelhantes, quando surge um cara autêntico, com discurso diferente, vai servir pra imprensa vender jornal, mas que será crucificado na primeira oportunidade em que não tiver jogo de cintura. Sou flamengo, nunca matei ninguém, dificilmente eu ironizo alguém, não cheiro cocaína, não roubo e nem fico desejando o mal pra o povo. Nunca briguei por causa do futebol, nascí e crescí numa região de periferia, poderia corroborar da expressão infeliz do rapaz (citada no texto), mas talvez centenas, milhares,milhões de PITBOYS tenham brigado nos estádios ou bares um número de vezes maior do que a quantidade de letras que constam neste comentário. Essa luta de classes (Lembrei até do grande Marx) é pertinente pra quem tem uma sensação asquerosa de superioridade. O futebol produz alegria para todos, é coisa mais importante dentre as coisas menos importantes do nosso país, movimenta bilhões pra nossa economia, está anexada a nossa cultura. E o torcedor flamenguista representa uma parte da nação fragmentada deste país. Lá na Itália não tem morro, e o goleiro do MIlan, Abbiate, disse ser facista e detestar certas coisas. Maradona não nasceu no RJ e teve num ato ilícito o ato mais lícito do futebol, pois foi sagrado; “A mão de Deus”, ou não foi? Em todos os setores exisitirão pessoas indignas, frases ruins, atos covardes, exemplos questionáveis, mas o que não pode haver é uma generalização ou condenação sem contextualizar. Todo e qualquer preconceito explícito pode causar uma má impressão de quem o produziu, que o diga o tal do Marcelo Dourado, estigmatizado por ser punk e lutador, entrou numa casa cheia de pluralidades (Gays, lésbicas e simpatizantes, além de escrotas e escrotos, nada contra eles, deixo claro) e foi logo escolhido como a vítima da hora, a ser o cara a ser excluído, eram os “diferentes” com preconceito de um autêntico diferente. Vivemos numa hipocrisia instigada pela vontade de ser correto, e pela produção de nossa língua, submersa pelo corpo, mas em plena erupção de nossa pobre alma.
    Abraço à todos, em especial ao Pablo!

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