Content on this page requires a newer version of Adobe Flash Player.

Get Adobe Flash player

  • Pablo Capistrano
  • 28 de março de 2010, as 5h05

LIVRO: A Nova Ordem Ecológica: a árvore, o animal e o homem

AUTOR: Luc Ferry.

Tradução de Rejane Janowitizer.

EDITORA: DIFEL

ANO: 2009. 

Acho que você já ouviu falar do Luc Ferry. Ele era ministro da Educação da França um tempo desses e foi o cara que resolveu encampar a luta por uma lei que proibisse o uso de símbolos religiosos nas escolas públicas francesas. Quando ele foi perguntado em uma entrevista na Globo News o porquê da atitude disse algo do tipo: “o problema é que eclodem conflitos lá em Israel e aqui no subúrbio de Paris alunos judeus e palestinos começam a brigar no interior das escolas. Isso não podemos permitir”.

Não se trata apenas da exportação de um conflito que está localizado em uma área do globo. Mas, fundamentalmente, da manutenção de um pressuposto fundamental do iluminismo, a separação entre estado e religião. Ferry parece um humanista moderno, que surge do mesmo mundo de Kant, Voltaire e Rosseau.

Por isso tive uma curiosidade particular em ler um livro seu que falasse sobre o movimento ecológico. Ferry defende algumas teses que parecem bem batidas. Ele vê a influência de Heidegger na construção daquilo que chamam de Deep Ecology (Ecologia profunda). Entende que a nova esquerda, que durante certo tempo invadiu o campo do marxismo cultural, encontrou no movimento ecológico uma forma de substituir a agenda revolucionária e a crítica ao capitalismo, transitando dos moldes marxistas para um molde anti-humanista, afinada com o trabalho de Aldo Leopold (A Sandy County Almanac) em 1949 e com a Carta sobre o humanismo de Heidegger em 1946.

Até ai o livro de Ferry não apresenta nenhuma novidade filosófica substancial. Mesmo assim ele é interessante, especialmente do ponto de vista didático. Talvez por isso eu tenha decido colocá-lo no programa da disciplina de ética ambiental que vou ministrar na especialização esse semestre. 

Também não há muita novidade na discussão sobre a legislação nacional socialista e fascista da Itália de Mussolini. Ferry discute bastante a posição da ecologia nazista, mas tem o cuidado de deixar claro, que há uma diferença fundamental entre o enfoque ecológico nazista e as correntes da nova ordem ecológica e da ecologia profunda. Enquanto os primeiros se inspiravam em um deslocamento do humanismo iluminista em direção ao romantismo que punha valores como sangue, terra, etnia e raça acima de uma concepção mais cosmopolita de humanidade (ai a gente vê que tem um dedinho de Kant por trás de Ferry), no segundo caso percebe-se que há uma dimensão biocentrica ou holística, mais próxima de um panteísmo oriental do que de um romantismo europeu.

Enquanto os nazistas queriam preservar as florestas por que elas guardavam algo de essencial para a manutenção do espírito germânico, os ecologistas profundos querem preservar a floresta porque a floresta em si tem valor e não porque ela faz parte de um conjunto de valores humanos (como bem estar, dinheiro, raça ou história).

Ferry entende que o movimento ecológico, como o nacional socialismo é uma reação a modernidade (até ai não há nada de muito novo também). Senti falta, no entanto, dele explorar com mais intensidade uma distinção fundamental entre a esquerda marxista e a ecológica. Enquanto o marxismo abraça com toda a força o ideário moderno, mantendo-se na tradição do século XVIII de progresso e de “avanço tecnológico” da humanidade (não esqueçam que Marx produziu um dos mais exaltados elogios à modernidade burguesa no manifesto comunista) o movimento da ecologia profunda, se liga a uma espécie particular de reação à modernidade, defendendo uma posição que, para os marxistas tradicionais poderia ser vista como “reacionária”. Hobsbawn identifica essa mudança no padrão da esquerda nesse século, entendendo que há uma ruptura em relação à tradição que remonta a revolução inglesa de 1641, que posicionava os esquerdistas como “progressista” e os conservadores de direita como “reacionários”. Esses jargões não se aplicam a esquerda ecológica.

Ferry ajuda a pensar um pouco sobre os desdobramentos do movimento ecológico, tanto quando nos leva a pensar no utilitarismo de defensores dos direitos dos animais como Peter Singer, quanto em movimentos que ligam a ecologia ao culturalismo da nova esquerda, como o Eco feminismo, que propõe um combate não ao antropocentrismo, mas ao androcentrismo. Uma espécie de “cultura do macho” que seria a responsável pela degrada do meio ambiente.

Esse link entre ecologia, culturalismo e reação contra a modernidade é um ponto forte do livro, especialmente quando ele se aprofunda no pensamento de teóricos nazistas e encontra relações entre a proibição de casamentos mistos a ideia de um combate contra o assimilacionismo de “povos naturais”. Walter Schoenichen, um autor do tempo do Reich afirma: “Na verdade, a escravização dos povos primitivos na história ‘cultural’ da raça branca constitui um de seus capítulos mais vergonhosos, que não apenas é marcada por um rio de sangue, mas por crueldades e torturas da pior espécie”.

O espantoso é como a conexão entre preservação das identidades e das culturas humanas (um dos preceitos do multiculturalismo) e a preservação do espaço vital (Lebensraum) se conectam no ideário nazista e como e ecologia profunda muitas vezes repete essa mesma conexão.

 Se o livro do Ferry não tem o mérito de acrescentar grandes novidades a interpretação do pensamento ecológico, ao menos ele nos ajuda a entender algumas de sua conexões mais inusitadas.


4 Comentários para “A Nova Ordem ecológica.”

  1. Laura Diz-Elianne28/3/2010 às 5:47

    Pablo acho que faltou uma letrinha aqui, não é?
    “resolveu encapar… ”
    Aviso pq gosto q me avisem.
    abs, Elianne

  2. Pablo Capistrano29/3/2010 às 7:51

    Obrigado Laura, vou dar uma olhada na edição.


  3. Confuso? Inquietante ? quase uma “desautonomeia” do ser. Ferry coloca-nos a pensar no verdadeiro sentido antropocêntrico da “sociedade”. Para melhor definir Ferry nesse comentário poderia falar de um “ecocentrico” ao invés de Deep Ecology (ecologia Profunda).


  4. “ecocentro”*

Deixe seu comentário

2007 ® Pablo Capistrano

dz3