29 mar
Coragem de ser um partido.
- 29 de março de 2010, as 8h08
Meu tio Antônio Capistrano costuma a dizer: “político que tem princípio tem fim”. Sempre me lembro dessa frase quando me debruço sobre a política partidária brasileira.
A manutenção dos próprios mandatos parece sempre ser o fiel do cálculo de todo militante que ascendeu a um cargo público eletivo. O funcionamento burocrático dos partidos se torna deste modo, cada vez mais, refém de um cálculo de vantagens e desvantagens que contabiliza prognósticos de conquista e manutenção dos mandatos de alguns de seus membros.
Isso acaba criando uma divisão hierárquica no campo partidário que separa os militantes (muitas vezes tratados como massa de manobra política) e os titulares de mandatos eletivos que usam seus cargos (e tinta de suas canetas) como moeda de troca em termos de apoio nas próprias bases partidárias.
Esse quadro é devastador para uma democracia, que justifica sua própria existência em um projeto de isonomia política, garantias individuais e liberdade de pensamento.
Semana que passou mais uma etapa desse quadro desolador veio a tona quando o eixo da discussão sobre a sucessão de governador em nosso estado deslocou-se para a cidade de Santa Cruz, no Trairi potiguar. O PT municipal convidou o ex-prefeito de Natal, Carlos Eduardo Alves para um debate na Câmara Municipal de Santa Cruz e abriu uma frente importante de discussão.
O cálculo do diretório estadual do PT parece ser o da chapa proporcional. Manter os mandatos de Fátima e Mineiro e para isso eles precisam submeter o partido às decisões do PSB. O apoio a Iberê (personagem central na política de Santa Cruz nas últimas décadas) é a moeda de troca dos dois mandatos que o PT ainda consegue segurar no estado. Desde 1996 (quando disputou voto a voto com Wilma de Faria o domínio sobre a capital potiguar) o PT no Rio Grande do Norte vem se tornando cada vez mais um partido secundário, um apêndice dos projetos políticos da governadora. A acomodação do partido que parece se contentar com uma vaga no legislativo estadual e uma outra no federal, acabou esvaziando e reduzindo o PT local a uma posição coadjuvante, trocando seu tempo de TV ou se tornando uma espécie de moeda eleitoral rifada para lá e para cá quando os grandes players políticos resolvem firmar seus acordos.
A militância do PT já percebeu isso e parece – ao menos em Santa Cruz – não estar muito interessada em participar desse tipo de barganha. Eu não sou um grande analista político. Desisti de fazer prognósticos sobre eleições quando em 2002, escrevi que a candidatura de Lula (na época disputando com Eduardo Suplicy a vaga de candidato a presidente) seria um tiro no pé. Deixo essa arte para quem a domina com mais maestria do que eu como Vicente Serejo (um mestre na arte de sondar os desdobramentos e as perspectivas dos embates eleitorais).
O fato é que hoje o PT no Rio Grande do Norte está em uma encruzilhada, pode até reter seus dois mandatos legislativos no estado e se contentar com a pequena fatia que lhe cabe do bolo eleitoral da governadora ao assumir uma postura subserviente nos quadros da política potiguar. Ou pode ter coragem de novamente agir com um partido e entender as demandas de seu tempo e o clamor da própria militância.
Se apoiar Carlos Eduardo, o PT pode ficar sem o mandato de dois de seus representantes históricos, mas tem a chance de tomar de volta, ao menos nesse estado, sua própria alma, perdida nos descaminhos das trilhas políticas e dos pactos fausticos que se firmam nas escadas do poder.
PS: A trilha sonora do Pearl Jam é em homenagem a militância sem contracheque que ainda acredita na política
7 Comentários para “Coragem de ser um partido.”
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Fala professor!
Cara, atualmente, como o modo de operação da política quase que não tem mais nenhum aspecto do sistema pensado pelo saudoso Ari(Aristóteles), não é de se esperar que o PT “regional”, como qualquer outro partido, venha a buscar critérios ideológicos para formar alianças, até porque, partido nenhum conserva atributos de ideologia social, só se identifica tais princípios nas cartilhas e nos Estatutos da agremiações (é uma coisa virtual!). O filiado (salvo raríssimas exceções) que se torna candidato, tem de entrar no senso comum de acumulação de cargos e capitalização do partido. Arrisco-me a dizer até que não existe mais movimentos político-eleitorais motivados pelo bem comum. A motivação principal é financeira, com pespectivas futuras de acúmulo de capitais, como bem disse o senador Garibaldi na sua entrevista a revista Veja – que hoje no país, política é investimento.
Até mesmo o PV, que as bandeiras eram proteger o meio ambiente e a diversidade baitolistica, por vezes “esquece-se” e entra no jogo dos capitais.
Logo, sábio mestre, não acredito na transferência desses garotos marotos, da escola do PT para a escola do tio ARI!Um abraço!
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Pelo que tenho analisado, com atenção principalmente à doença de Iberê, acho que essa campanha e o apoio não só do PT, mas também de Wilma, vai cair no colo de Carlos Eduardo!
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opa,que bom descobrir mais um local para uma boa leitura e um bom debate. Vamos lá…
Apesar de ter sido fundado por diversas correntes de cunho socialista(autênticas ou não),o PT nasce pra ser um partido da “institucionalidade”, prezando pelos valores do republicanismo,da democracia e entendendo a organização e conscientização das classes oprimidas como centrais para a superação das injustas correlações de forças.
Definidas as cartas do jogo, talvez possamos coopreender melhor o que significa a manutenção de 2 mandatos parlamentares(1 Estadual e outro Federal),oriundos desse processo de conscientização e emancipação. Talvez assim possamos coopreender melhor o real valor da importância que esses instrumentos possuem para manter a chama dos movimentos sociais acessa, a chama do MST, do movimento estudantil, do Movimento sindical, sempre amparados por estes mandatos na hora que é preciso. A crítica á burocracia partidária é um tanto quanto interessante e mais atual que nunca,mas não há nenhum outro partido se não o própio PT tão interessado em combate-la. Digo isso porque apesar dos pesares, esse é o único partido do Brasil que assume direito de diferentes posições(tendências), elege diretamente, através de voto secreto e universal as direções e o único a levar decisões eleitorais e estratégicas para encontros,assim como o do dia 10 de abril,que permitirá, inclusive,que os companheiros do diretório de Santa Cruz façam a defesa contrária á aliança “preferencial” com o PSB. Preferencial porque o PSB é aliado pontual do PT desde 89(quem lembra do bisol?), porque o PSB é parte importante na consolidação do projeto nacional e porque a 6 anos o PT optou pela construção e pela disputa do projeto do governo Vilma(e que pese no que pesar esse governo ter sido uma decepção sob determinados aspectos). Assim,o apoio á candidatura de carlos eduardo seria um apoio artificial,já que para que isso fossse concretizado era preciso fazer que nem o PCDOB,esquecer 6 anos de acúmulos,se fazer de doid@, entregar as pastas ocupadas e fingir fazer uma falsa oposição. Será que isso é escutar as bases? será que isso é guinar á esquerda? Todos nós conhecemos o pragmatismo do pcdob, que outrora,fazia a defesa do governo vilma melhor que qualquer “vermelhinho” do psb. Acho que é um tanto quanto preciptado insinuar que o Partido dos Trabalhadores está a mercê de Fátima ou Mineiro. Digo isso pois dos 47 membros do diretório estadual do partido, apenas 2 se manifestaram contrários ao apoio á candidatura de iberê,e nessa direção se tem representação de todas as correntes partidárias. Portanto, não podemos tomar o caso do diretório de Santa Cruz como central na discussão de rumos que o partido está tomando.No mais,muitas águas ainda vão rolar. Dia 10 de abril o PT realiza seu encontro estadual e a base partidária irá homologar seus anceios.
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Oi Daniel, realmente eu gostaria de acreditar que você está certo e que minha leitura acerca dos mecanismos internos dos partidos brasileiros são democráticos.
Sei que o PT tem essa história de ser um partido plural com muitas tendências e coisa e tal, lembro inclusive dos debates acirrados com o pessoal da convergência socialista (antes da saida deles) na época do meu envolvimento (curto) com o movimento estudantil.Agora não acredito em diretorios partidários. È preciso saber quem manda no diretório, quem controla e manipula as tedências. Eu acho que a melhor saida nesse caso, ao menos no que diz respeito a definição de candidatos sejam as previas, como na disputa norte-americana (se o PT faz isso ótimo! mostra que o partido realmente mantém sua prorosidade democrática).
Não acho que a opção por Iberê seja explicada apenas por coerência e acho um pouco injusto dizer que o PCdoB deixou o governo Wilma para ir a oposição, como se o PCboB e o PT não tivessem participado ativamente dos dois mandatos de Carlos Eduardo na prefeitura de Natal.
A vinculação política do PT e do PCdoB com Carlos Eduardo é, nesse sentido, muito mais forte do que com o PSB de Wilma porque Carlos Eduardo incorporou a sua gestão a marca do PCdoB e do PT, ao contrário de Wilma que ~manteve o PT e o PCdoB sempre como atores secundários, muito abaixo da influência de Robson Faria, João Maia e de Henrique Alves.
È importante lembrar que foi Carlos Eduardo uma das principais figuras na articulação da candidatura de Fátima Bezerra a prefeita de Natal em 2008. Quando a candidatura de Rogério Marinho do PSB parecia consolidada Carlos, que era do partido, girou em direção ao PT e inviabilizou a candidatura de Rogério. O PT fez parte do governo Carlos Eduardo e contribuiu na prefeitura de Natal bem mais do que no governo do Estado para que a gestão do Ex-prefeito fosse pontuada por algumas tomadas de posição importantes como no caso das construções de Ponta Negra ou do hotel da BRA.
Não conheço a dinamica interna do PT, mas sei que, do ponto e vista de seus movimentos políticos os útimos anos foram marcados por uma postura temerosa e secundária, sempre marcando passo na manutenção dos espaços que haviam sido ocupados nos legislativos. Acho que a hora de retomar algo do espirito do velho PT é agora. Porque o tempo da política quase nunca é piedoso com aqueles que se fiam apenas no tempo das eleições.
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Oi Emanuell,
a doença de Iberê pode mudar muita coisa no quadro das próximas eleições.Eu não sei, não sou médico, mas acho que é muito improvável que Iberê consiga suportar o desgaste de uma campanha majoritária.
A questão hoje é saber como o quadro vai se configurar a partir disso.Como eu disse no texto, não faço mais exercícios de advinhação, mas o boato de bastidores é que haveria uma movimentação de Henrque no sentido de puxar Robson Faria de volta para o grupo formado por ele e João Maia. Caso isso se configure o PT não terá escolha a não ser apoiar Carlos Eduardo. Resta saber o que Wilma fará se Iberê não continuar na disputa.
A questão é que, se o PT ficar a reboque dessa discussão, tentando calcular quantos madatos lelislativos pode segurar pensando sempre na proporcional, e não na majoritária, ele corre o risco de ser punido nas urnas pelo povo, como foi em Natal em 2008. O que eu acho que pesa nesse sentido é menos o apoio a Iberê em si, e mais a sensação de que o PT é um partido que não pensa mais em um projeto político amplo e sim na manutenção dos espaços (leia-se “cargos”) conquistados no governo.
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Caro Pablo,Você acertou em cheio!E qual não foi a minha admiração por vc ter tocado num aquestão que dias antes havia discutido no blog de Mineiro (que não sei porque não foi publicado). Concordo plenamente com sua análise e na condição de uma ex-filiada ao PT, mas não ex-militante. Se realmente o PT quiser retomar o rumo como protagonista da política do RN, a estratégia é apoiar Carlos Eduardo.
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Oi, mestre, Pablo! De fato, os políticos buscam a sua manutenção de poder, utilizam-se de alianças (antes criticadas por eles próprios), esquecem princípios norteadores de sua origem, tudo para a sua manutenção no cargo, e preferem perder uma fidelidade partidária do eleitor, usando prognósticos receitados como diagnótsticos. Já dizia Maquiavel; “Os fins justificam os meios”. Isso é adotado por uma maioria esmagadora dos políticos brasileiros. Costumamos louvar as coisas tradicionais, as histórias de nossos pais e avós, teatros, museu e etc, mas também esquecemos facilmente a história que introduziu tal vertente em nossas vidas, e um partido como o PT não deveria ter fugido tanto de sua essência, enfraqueceu-se num período em que deveria ter crescido, pois o presidente é um ícone Petista. As pesquisas recentes mostram que o índice de aprovação do Lula beira os 80%(nada mais justo), enquanto a aprovação dos eleitores em relação ao PT, num ambito geral, chega à 33%. Essa falta de crescimento do PT, pode estar totalmente ligada a politicagem se sobrepondo à política. Não sou especialista nesse assunto, apenas relato o que sinto, pois havia uma relação muito clara entre o PT e a capacidade de reivindicar para o bem no nosso estado (movimentos estudantis, rodoviários, professores,…). O governo Lula, tem suas restrições, mas suas conquistas são inquestionáveis. Já no RN, também por culpa do povo e sua “tradição em votar nas famílias coronelistas”, o PT se vê em volta de alianças anti-cicatrizantes, talvez por isso às classes trabalhadores estejam tão sem representatividade em suas lutas, com exceção da polícia civil – que conquista tudo o que reivindica,os professores, profissionais da saúde, trabalhadores rodoviários, vigilantes, dentre tantos outros, não possuem mais uma bandeira e a diferença entre seus sonhos e a consumação deles é abissal. Junior Rodoviário enfraqueceu-se diante de seus súditos, cito este forte exemplo apenas. Obrigado pelo espaço, perdão por algo e fique em paz sempre!