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  • Pablo Capistrano
  • 01 de abril de 2010, as 16h16

Alguns reis governam por muitos anos. Outros são depostos assim que chegam ao trono. Muitos reis, na história dessa vida de homens e deuses, não deixam sucessores, outros apenas morrem e renascem com a mesma grandeza ou com a mesma vilania com que constroem suas existências.

Uma das histórias comoventes sobre velhos reis renascidos é da famosa luta envolvendo Muhamad Ali e George Foreman no Zaire. Corria o ano de 1974 e o Don King (famoso empresário do mundo do boxe) prometeu arrecadar 10 milhões de dólares para que Foreman, na época um jovem fenômeno do boxe, campeão mundial dos pesos pesados, lutasse contra Ali. O então ditador do Zaire, Mobuto Sese Seko resolveu ganhar frutos políticos e levantou os dez milhões de dólares para trazer o embate ao seu país. O que seria apenas uma luta de boxe ganhou imediatamente uma conotação política. Os afro americanos voltavam a África. Muhamad Ali o grande ídolo dos anos sessenta, o fenômeno cultural e político que havia se convertido ao islamismo e se unido a congregação radical de Malcon X (Nation of islan), tinha a oportunidade de enfrentar o novo rei dos ringues em uma luta mortal para recuperar sua coroa.

Dizem os cronistas (entre eles Norman Mailer que acompanhou a luta) que a equipe de Ali estava taciturna, desesperançada, acreditando que seu campeão seria massacrado por um Foreman em pleno vigor.
Quando Ali subiu ao ringue, 100 mil pessoas gritavam “Ali boma ye! Ali boma ye!” (“Ali, mate-o” em algum dialeto congolês). Muhamad Ali havia anunciado a todos que iria dançar no ringue. Ele repetia isso todo o tempo para as câmeras. Dizia que iria pôr Foreman para dançar e dançar e dançar, girando com seus pés bailarinos e deixando-o tonto. Mas não foi isso que Ali fez. Buscando resolver a luta logo no começo o velho campeão partiu para cima de Foreman e abriu a própria guarda tentando derrubar seu oponente com um direto de esquerda. Mas Foreman não caiu. Ali imaginou que um golpe certeiro poderia aniquilar a luta, mas viu que seu adversário era mais forte e resistente do que ele imaginava.

Diz Norman Mailer, que pela primeira vez alguém pôde ver medo nos olhos de Muhamad Ali. Durante os oito rounds seguintes Ali foi jogado por Foreman nas cordas. O velho campeão deitava nas cordas e desvia-se usando a elasticidade dessas mesmas cordas para oscilar de um lado para o outro enquanto seu oponente batia livremente até que, cansado, baixou a guarda. Quando isso aconteceu, Ali nocauteou Foreman com uma avalanche de golpes na cabeça que culminou com um direto de direita no maxilar e reconquistou o título de campeão mundial.

Esse é um dos confrontos épicos da contemporaneidade e talvez possa vir a se tornar no futuro, algo similar ao embate envolvendo Aquiles e Heitor as portas de Tróia, cantado por Homero no tempo dos deuses.
Do mesmo modo que no boxe o Jazz também teve seus reis.

Antes de Elvis, antes dos Beatles, antes de Michael Jackson ou Madona se tornarem objetos da histeria coletiva de adolescentes, ainda nos anos de 1930, um filho de judeus russos emigrados, se tornou o primeiro ídolo pop da história da sociedade de massas.

Durante a grande depressão, com a indústria fonográfica despedaçada, Benny Goodman passou a tocar em um programa chamado Let´s dance na NBC. Suas apresentações duravam cerca de uma ou duas horas e sua big band levava o swing do Harlem para todo o pais, de costa à costa. Quando o programa acabou, ainda na metade dos anos de 1930, Goodman não teve outra opção a não ser sair em turnê com sua banda pelas cidades norte americanas.

Quando chegou em Denver, Colorado, ouviu de um gerente de uma das casas noturnas em que tocava: “Eu contratei uma banda de dança! Qual é o problema? O que há com vocês? Vocês não sabem tocar valsas?!?”.

Aquilo deprimiu Goodman que chegou a pensar inclusive em abandonar o swing e arrumar um emprego como clarinetista em uma orquestra de música erudita. Mas eles iriam ainda se apresentar em Palomar, Los Angeles. Ali a platéia era composta em sua maioria de adolescentes que ouviam o programa da NBC que, por causa do fuso horário, passava mais cedo na Califórnia. Goodman, cabreiro com a experiência de Denver instruiu a banda para tocar apenas canções clássicas, valsas ou variações estilizadas de Jazz.
A platéia, fria e atônita, permanecia impassível diante da apresentação. Foi quase na metade do show que alguém disse: “se é para afundar esse show, vamos afundar tocando alguma coisa que a gente gosta!”.
Então Goodman puxou King Poter´s Stomp e a casa quase veio a baixo.
O que ninguém sabia em Nova York, é que, pelas ondas do rádio, o swing havia abandonado o Savoy e os clubes de Dança do Harlem e atravessado o país em direção à costa oeste. A apresentação em Palomar desencadeou uma febre de dança que arrastou o país. Como o rock nos anos 50, a disco nos anos 70 e o break nos 80, o trance nos 90 ou o ragtime nos anos 20, o swing agora era a medida de toda dança e de toda linguagem corporal dos adolescentes. Goodman, que havia passado fome na infância, se tornava o primeiro swingstar, precursor de todos os ídolos da música adolescente que apareceram no século XX e foi imediatamente classificado como “rei do swing”.

Ele fazia performances no palco, pulava, girava, caía para trás com seu clarinete e o Jazz, uma música cult de intelectuais e de guetos negros, se tornava um fenômeno pop. Duke Ellington, nessa época, chegou a anunciar: “Jazz é música. Swing é negócio”.

Faz sentido.

Ellington, Fletcher Henderson e Chick Webb, muito antes de Goodman já traçavam pioneiramente os elementos canônicos do swing. Mas eles eram negros, e em um mundo marcado pelo delírio racial, não havia espaço para reis negros no mundo do entretenimento de massas. Goodman, apesar de não ter inventado o swing foi eleito pela classe média branca o seu rei, e com certeza ele teria se mantido no posto, se não tivesse sido desafiado (como um dia Foreman foi) pelo band líder que dominava as noites no Savoy.
Essas são batalhas épicas que podem ser transformadas em poesia na memória dos colecionadores de combates. Como no mundo do esporte, a música também tem seus mártires, seus santos, seus canalhas e seus heróis. A noite em que Chick Webb, um anão corcunda que tocava bateria, desafiou o elegante clarinetista judeu em um combate de notas é um dos pontos épicos do Jazz. Uma história de reis, heróis e de lutas pela supremacia estética. Mas essa história eu conto na próxima crônica.


3 Comentários para “Rei Posto, rei morto.”

  1. ANDRELUCIO RIBEIRO7/4/2010 às 14:57

    Mestre Pablo, o senhor acha que o presente nos leva ao passado nos induzindo a um futuro imprevisível e impossível? Sei que é impossível não comparar o antes com o hoje, ou determinadas épocas do passado com outras épocas do passado…ah, se tivessem colocado mais segurança em Munique não teria o atentado olímpico, ou se tivessem protegido o Papa João Paulo II ele não teria sido baleado. Mas o que eu tento dizer é o seguinte: Na atualidade, auxiliadas pela evolução científica, personalidades ficam mais ricas, muito mais rápido, ficam mais famosas e tem seus atos superdimensionados. As vezes acho que os ìdolos atuais são feitos por prazo determinado, tanto no esporte quanto na música, são sugados até o sumo, depois jogados fora. Frank Sinatra foi Sinatra até o dia final, mas quem é Henrique Iglesias, Rick Martin, Britney…? Pelé, Maradona, Didi, Di Stefano são exaltados até hoje, mas Figo, Owen, Denilson, etc foram ìdolos paliativos. Quando eles surgem comparamos com craques antigos, imaginamos um duelo entre eles, quem foi melhor (mesmo sabendo que a mídia não tinha tanta força). O que eu tento saber é o por que de nós compararmos tanto o antes com o hoje, imaginando um amanhã. Messi é o novo gênio do futebol, faz gol de cabeça e com o pé direito, esquerdo, de falta, driblando. Dribla por onde ninguém mais dribla. Ficamos imaginando se C Ronaldo é melhor ou não. Fazemos uma exigência própria de arranjar um rival, em vez de apreciarmos o belo e talentoso Pulga argentino. As vezes, acho que existem pessoas incomparáveis, que são diferentes e pronto, que são de outro patamar. Acho que no seu texto, maravilhoso por sinal, o senhor relata verdadeiros monstros (cada um na sua qualidade principal). Mas me veio isso agora de me cobrar e saber quando devemos apenas apreciar, e deixar a mania de procurar algum defeito, alguma imperfeição, algum rival. Ou seja, quando é que não existe um rival pra aquilo que vemos, quando devemos apenas degustar de tal talento? Podemos apreciar estilos diferentes, mas a cada 20 anos surge um fenômeno que todos apreciam aquele ùnico estilo, seja na música (Elvis, Beattles, etc)ou no esporte( Pelé/Maradona/Messi, Sampras/Federer). Nesse momento,me pergunto se toda unanimidade é burra, acho que esses caras são a exceção desse ditado. Acho que esses foram reis, mas os que vieram após deles foram sucessores ou eles ainda governam como um título de rei de honra, sei lá? Abração.

  2. Pablo Capistrano13/4/2010 às 11:02

    Oi Andrelucio, parece que o grande problema é enteder no campo da arte como essa rivalidade e esses combates ocorrem. No esporte é mais facilitado, o problema é que geralmente a gente pensa no artista como uma espécie de santo, que ultrapassa muitas vezes alguns dos sentimentos humanos mais fundamentais como a inveja ou o desejo de vencer.

    Lembro que um amigo me falou sobre a chegada dos irmãos Vilas Boas ao Xingu. Eles tentaram ensinar os Indios a jogar futebol mas tiveram dificuldade porque eles não entendiam a dinamica dos times. Todos faziam gols no mesmo canto e quando a bola entrava todo mundo comemorava. O jogo só terminava quando empatava.

    Coisas do Brasil, que fizeram o futebol arte.

  3. ANDRELUCIO RIBEIRO17/4/2010 às 11:00

    muito bom, muito bom, não conhecia essa história…

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