06 abr
O Poema da Grande Cidade.
- 06 de abril de 2010, as 9h09
Nos anos 60 foi publicado Morte e Vida das Grandes Cidades Norte-americanas. Sua autora, Jane Jacobs foi uma figura central naquilo que o Marshal Berman chamou de Um grito na rua – uma forte reação contra a sociedade da auto estrada, do viaduto, do túnel rodoviário. Durante quase todo século XX um cara chamado Robert Moses destroçou diversos bairros de Nova York para construir autopistas. Ele era adepto de uma lógica urbana criada em função dos carros. A ideia de que “governar é abrir estradas”, deve muito a mentalidade de Moses que declarava: “Quando você atua em uma metrópole superedificada, tem de abrir caminho a golpes de cutelo. Eu simplesmente vou continuar construindo. Vocês façam o que puderem para me impedir”.
Moses era um daqueles caras que pensava que a cidade deveria se abrir para que os carros pudessem passar. Por isso ele arrasou o tradicional bairro do Bronx, dividindo-o ao meio, destruindo quarteirões e quarteirões de casas centenárias e forçando uma imensa migração das populações de irlandeses, judeus, italianos, negros e latinos para outras áreas da cidade.
Jacobs representava uma reação a esse tipo de mentalidade. Ela pensava que uma nova vida na cidade começava no quarteirão, no bairro, na vizinhança. Começava com o abandono dos carros, das rodovias e a busca de uma existência que se construísse não a partir da dicotomia centro-subúrbio, mas sim em função de uma rede de centros espalhados em cada bairro. Na década de 1980, certamente sob influência do texto de Jacobs, Will Eisner nos apresentou New York: Life in the Big City.
Se você não sabe quem é Eisner eu poderia dizer… bem, pense em Shakespeare e imagine o que ele faria se tivesse papel e nanquim na mão. New York é a obra prima do Eisner, seu Macbeth, seu Hamlet, seu Rei Lear. Ali se enxerga o mundo de Jane Jacobs transfigurado em um conjunto de pequenas narrativas sobre os efeitos do tempo e do espaço no interior dos homens. New York é um longo poema em prosa quadrinística sobre a grande cidade, apontando para o cotidiano de pessoas comuns, personagens que somem no cenário gigantesco de uma urbe que é a verdadeira protagonista da história.
Dizem que os norte americanos não sabem o que é uma crônica de jornal. Talvez isso seja verdade, mas, apesar disso a obra de Eisner tem muito a ver com a crônica jornalística. Ao se debruçar sobre sua cidade, Eisner abandona as pretensões fausticas e grandiosas do modernismo do começo do século e gira em direção a uma outra experiência da modernidade.
A alma da grande cidade, na lição de Einser e Jacobs, não está nos grandes espaços abertos, na loucura visual de grandes rodovias, das pontes descomunais, das infinitas highways de seis pistas se projetando sobre a linha dos prédios em direção a um horizonte clandestino, que apenas se insinua por entre os blocos de concreto. A alma de uma grande cidade está nas ruas, em meio a multidão de histórias anônimas, de catástrofes privadas, de sonetos existenciais, de pequenos dramas individuais que não são percebidos por aqueles que amam o concreto e o asfalto e que pensam a cidade como um amontoado arquitetônico de construções grandiosas, frias e vazias. Na obra de Einser, a poesia da grande cidade mora no espaço lírico do coração dos habitantes do bairro, dos que andam de metrô, dos que sobem e descem em elevadores apinhados, dos que batem perna pelas esquinas escuras e pelas margens das avenidas reluzentes.
Robert Moses, o grande construtor de Nova York no século XX era um modernista da velha guarda, um futurista liberal que costumava a declarar seu amor pelo “progresso da humanidade”. Ele não conhecia Dostoievski, que nos alertava que a combinação de amor pela humanidade com o ódio pelas pessoas reais era um dos riscos fatais da política moderna. Eisner é o grande antípoda de Moses. Um cronista dos quadrinhos que soube enxergar no risco do espaço reduzido, o campo lírico da poesia da metropole mais imensa.
Um Comentário para “O Poema da Grande Cidade.”
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Parabéns, caro Pablo, o blog está muito bom. Estarei por aqui diariamente.
Abraços,