12 abr
A medida das coisas.
- 12 de abril de 2010, as 7h07
Hoje ouvi uma notícia no telejornal: “O governo vai construir uma usina hidroelétrica em (algum lugar) no norte do país” (não gravei o nome do lugar nem o estado da federação). O repórter continuou “O tamanho da usina será de 200 quilômetros quadrados. Equivalente a vinte campos de futebol”.
Na hora me lembrei de Armando Nogueira.
É fascinante como no Brasil o futebol é a medida das coisas. Nosso presidente, Lula, sabe tanto disso, que usou largamente o futebol como instrumento retórico privilegiado para mergulhar no inconsciente nacional. Ao contrário de FHC, que falava como um professor doutor da USP, Lula bate papo com o povo como se estivesse tomando uma “gelada” depois de uma pelada de fim de semana.
O curioso é que, em um país que trata o futebol como recurso retórico genérico para qualquer tipo de argumento, existam tão poucas estantes, tão poucas prateleiras, em nossas livrarias, dedicadas ao assunto.
Já fui em cidades grandes como Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo e são muito poucos os espaços para livros que falam sobre futebol. Não há, nem de longe, uma comparação possível com o Direito, por exemplo. Até a filosofia, essa desconhecida íntima, tem mais espaço nas estantes das livrarias brasileiras do que o futebol.
A própria literatura nacional não conseguiu fazer do futebol uma força estética capaz de se construir uma obra literária definitiva como Moby Dick para os norte americanos, Fausto para os alemães ou Guerra e paz para os russos.
Com a morte de Armando Nogueira (o último representante da geração de ouro dos cronistas de futebol, que contava com gênios da estirpe de Nelson Rodrigues) as relações entre os livros e a bola ficaram mais pobres no Brasil.
O estilo de Armando era bem diferente do de Nelson.
O primeiro era um naturalista da bola, um escritor que pensava o futebol a partir de uma exatidão natural aristotélica. Suas metáforas não nos levavam para além do campo, para além da bola, para mais distante do acontecimento épico de uma partida de futebol. Sua linguagem nos aproximava das dimensões mais fundamentais do jogo. Da grama, da superfície plana do campo, da dimensão anatômica da jogada, dos contornos geométricos que a trajetória da bola produzia em sua recorrente viagem rumo ao imponderável.
Nelson Rodrigues era um romântico. Um barroco trágico que nos catapultava para distâncias emocionais intensas a partir do jogo. Para Nelson o futebol era um exercício de transcendência. Uma oportunidade de levar nossa emoção e nossa visão para o que estava além do acontecimento da jogada, além do horizonte da bola. Contemplávamos o espanto original (aquilo que os velhos gregos chamavam de thauma, misto de fascinação e medo) ao entrar em contato com um jogo de futebol a partir das crônicas de Nelson Rodrigues.
Armando saiba que essa não era sua praia e seu estilo se construiu a partir, não de um confronto direto com Nelson, mas de um desvio, de um contorno, como naquele drible desconcertante que de vez em quando um zagueiro aplicado impõe a um craque.
Eu não sei quem veio primeiro na minha vida, o futebol ou a literatura, o fato é que a perda de Armando e o vazio das estantes em nossas livrarias me fazem pensar sobre essa estranha lacuna, esse desconcertante silêncio que nos lança diante de mais um enigma do Brasil: como é possível termos tão poucos livros em nossas estantes sobre futebol, nossa obsessão linguística, nossa maravilhosa ratoeira retórica, nossa medida das coisas?
3 Comentários para “A medida das coisas.”
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Nobre,Pablo, concordo plenamente! Além dos livros,também cito o cinema que não consegue fazer algo que atinja o brasileiro (ou qualquer humano) de modo impactante, tipo TROPA DE ELITE (perdoe-me o exemplo, mas que mostrou uma realidade nua e crua, além de mostrar aquilo que fingimos não saber), este filme veio oriundo de um livro escrito por um ex-oficial da PMRJ, junto com um oficial da ativa. Muitos preferem dizer que o futebol não representa nada, ou não serve de nada nos parâmetros sociais, o que é uma grande mentira. Pessoas buscam a àrea de educação física motivadas pelo futebol, outras buscam o jornalismo pelo mesmo motivo, e ultimamente profissionais do Direito observaram a vasta possibilidade de enriquecer no meio futebolístico, através de várias “vertentes”. Parte do mercado informal se sustenta através do futebol; ambulantes, vendedores de camisas falsificadas (vendem pq as originais são vendidas a preços absurdos), vendedores de cerveja, de ingressos, etc. As emissoras de TV lucram muito com o futebol, tanto que adiantam ,sem medo, verbas de direito de transmissão aos clubes. NA TV fechada, até o futebol internacional conseguiu efetivamente o efeito globalização e muitos jovens do nosso país compram produtos dos times europeus, seja na loja ou na internet. O futebol, tem um espaço muito firme no dia-a-dia do brasileiro. O exemplo da retórica, usado pelo senhor,é utilizado por professores, profissionais liberais, comerciantes, alunos universitários. O brasileiro costuma gostar de futebol, mas não encara a real importãncia do mesmo pra si próprio, com exceção dos hooligans nacionais-marginais que dizem amar o esporte e se matam por isso,os ùnicos que não são necessários neste meio. Talvez, essa discriminação nossa com o futebol(que existe de verdade, pois através da pré-noção, condenamos logo o jogador de futebol como marginal ou ex-marginalizado, usuário de alccol ou drogas, analfabeto ou ignorante)seja melhor refletida no mercado dos livros, e por isso não tem muitos livros do assunto, “a ausência se faz presente”. Talvez por isso, o mestre Armando Nogueira tenha feito apenas 10 livros sobre o futebol. Talvez por isso, o filme Pelé eterno tenha sido feito muito extenso,cansativo, e com isso ficou impossível de se passar na TV Globo, o que gera uma continuação da ignorância em relação ao maior de todos. Existe um livro françês, se não me engano, chamado: Futebol a ética emocional. Ele fala de pluralidade e sentimentos que mostram a nossa confusão relacionada ao futebol,bem interessante pra todos. Grande abraço,Pablo, aguardo sempre um bom email do senhor. Daqueles emails que me ajudam a superar as dificuldades e me fazem fortalecer na força de Deus!
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Pablo texto muito inteligente na comparação entre os dois, mas corrija-o, cometeu uma confunsão entre os estilos, nao seria Armando um romantico, e o Nelson um naturalista nos seus textos. Um abraço amigo! Sou de Brasilia, te acho muito bacana! tem um texto envolvente! Valeu!
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Oi Antonio, acho que você tem razão se pensarmos o termo romântico como sinônimo de lírico.
Nesse sentido o Armando era mais lírico e o Nelson mais trágico, ou dramático.Mas eu penso no romantismo como na velha escola dos alemães e do Strung und drang, a ideia de um “arrebatamento”, de uma exuberância de ajetivos e de força imagética. As melhores crônicas que eu li sobre futebol do Nelson pareciam nos levar além, nos transportar pela força da imaginação para lugares distantes do campo.
As melhores crônicas do Armando me faziam entrar no jogo, mergulhar na intimidade do acontecimento do futebol.
Pelo menos essa era a minha impressão.
obrigado pelo comentário.
