12 abr
Heidegger e os Judeus.
- 12 de abril de 2010, as 7h07
LIVRO: Heidegger and “the jews”.
AUTOR: Jean-François Lyotard.
EDITORA: Minesota UP.
ANO: 1990.
Tradução do francês para o inglês de Andreas Michel e Mark Roberts.
Um dos grandes desconcertos da filosofia do século XX foi o chamado “Caso Heidegger” explorado por gente como Günther Neske e Emil Kettering no livro Martin Heidegger and National Socialism ou no bombástico livro de Victor Farias (Heidegger and Nazism).
A adesão de Heidegger ao partido nazista e seu discurso de posse como reitor da universidade de Freiburg em 1933 não foram, no entanto, o grande motor das discussões que embalaram o “Caso Heidegger”. Se ele tivesse falado sobre o assunto em seus anos seguintes, se tivesse ido a público e pedisse perdão ou desculpas, como a nação alemã faz constantemente a mais de 60 anos, não haveria muito que dizer sobre o assunto. O problema é que Heidegger nunca abriu o bico para falar sobre sua adesão ao partido de Hitler, a não ser no dia 23 de Setembro de 1966. Naquela manhã, o filósofo recebeu uma equipe do semanário Der Spiegel e falou sobre sua opção política nos anos de 1930. Por vontade expressa do pensador, essa entrevista só pôde vir à tona no dia 31 de Maio de 1976, cinco dias após sua morte.
Como Heidegger não anunciou um arrependimento explícito, não fez uma confissão pública de culpa, nem pediu perdão por suas opções políticas a demanda continuou e o assunto (ao contrário do que fazem os nietzscheanos que reagem violentamente quando alguém aponta para elementos proto-nazistas no pensamento de Nietzsche) passou a ser objeto de discussão entre pensadores marcadamente influenciados por Heidegger, como é o caso do Jean-François Lyotard.
Eu particularmente acho que Heidegger aderiu ao nazismo por convicção política e por algum tipo de carreirismo acadêmico, mas o fato é que o nazismo nunca aderiu a Heidegger. Justamente ao contrário de Nietzsche, que não pode moralmente ser acusado de nazista, mas que apresenta brechas no seu pensamento por meio das quais a ideologia de Hitler escorre.
Agora, o interessante mesmo, é perceber como é que Heidegger, um nazista safado (segundo alguns) pode ter influenciado tanto o pensamento judaico da segunda metade do século XX. Derrida, Emanuel Levinas, Edgar Morin (Marrano francês), Harold Bloom – para não falar na Hannah Arendt. Uma amostra bastante significativa da intelectualidade judaica do século XX foi marcada pela força do pensamento de Heidegger.
Quando eu peguei o livro do François Lyotard (Heidegger and “The Jews”) para ler pensei que esse estranho mistério da historiografia filosófica dos últimos anos poderia finalmente ser desvendado. Como a filosofia judaica pode ter sido tocada de forma tão significativo pelo pensamento de um cara que foi nazista de carteirinha, nunca se arrependeu publicamente de seu engajamento e ainda por cima comparou a máquina de morte do holocausto a “moderna indústria agrícola”?
Após ler o livro confesso que fiquei frustrado e pensei comigo mesmo: “é foda mesmo… Os heideggerianos conseguem escrever de modo mais confuso e dissimulado do que o próprio Heidegger!”.
Do livro de Lyotard coei uma ideia interessante (nem sei se é dele, talvez Sartre tenha pensado algo nesse sentido): a noção de o ocidente cristão reagiu aos judeus de formas diversas em sua história. Primeiro eles tentaram converte-los (na época da inquisição); mais na frente assimilá-los (na época da promulgação do código de Napoleão que instituiu a igualdade civil para judeus e cristãos na Europa); depois tentaram expulsa-los e por fim, eliminá-los fisicamente.
A questão é que nem o Ocidente Cristão, e nem o oriente mulçumano conseguiram ainda eliminar o judaísmo da história de suas próprias experiências culturais. A força da unidade judaica está fincada em um tempo anterior a modernidade. No ocidente, o único povo que conseguiu manter suas tradições sem ser dobrado pela experiência das grandes religiões do milênio foi o povo judeu. Germânicos, Romanos, Gregos, Celtas, Árabes, Persas passaram por uma ruptura cultural, travestida de cristianismo e islamismo que os mantém (ao contrário de Chineses e indianos) separados de sua própria antiguidade. Os judeus não. Eles continuam conectados com um tempo anterior ao advento da civilização da técnica (assim chamada por Heidegger). Continuam vinculados a um momento do tempo anterior a guinada metafísica que criou, no dizer do próprio Heidegger, o mundo moderno.
Talvez por isso, pela ironia da história, não tenham sido os nazistas a ouvir o apelo do pensamento de Heidegger (por mais que ele conscientemente se esforçasse por heidegerianizar o nazismo), mas sim justamente os judeus, que os membros do partido ao qual Martin Heidegger se filiou em 1933 tentaram a todo custo exterminar.
