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  • Pablo Capistrano
  • 20 de abril de 2010, as 6h06

LIVRO: Velhos costumes do meu Sertão.

AUTOR: Juvenal Lamartine de Faria.

EDITORA: Sebo Vermelho/Coleção Mossoroense.

ANO: Agosto de 2006.

Assim que fechei a última página do livro de Juvenal Lamartine de Faria (Velhos costumes do meu sertão) senti saudades.

A saudade é diferente de nostalgia. Os alemães têm um termo para nostalgia Heimweht que parece muito com o homesick dos anglo-americanos.

Estar nostálgico é ter esse sentimento de se estar longe de casa. Nostalgia a gente tem diante de uma impossibilidade geográfica.

A saudade é para o tempo.

Não sinto nostalgia do sertão, porque, a despeito de ter nascido no litoral, sou filho de sertanejos e carrego o sertão comigo, no íntimo, no espaço secreto das minhas trilhas corporais. O livro de Juvenal Lamartine me fez ter saudade de um tempo em que governadores de estado eram literatos, escritores, entografos, historiadores e não apenas coronéis. Talvez esse tenha sido um tempo utópico, ou um inusitado intervalo que trouxe para o Rio Grande do Norte um  José Augusto Bezerra de Medeiros e depois um Juvenal Lamartine.

O fato é que é bom saber que o poder pode estar nas mãos de alguém que se preocupa em escrever um livro, não apenas louvando sua própria biografia, mas falando sobre seu entorno, sobre seu mundo, sobre seu contexto.

Frase batida é aquela que diz que um homem é ele e suas circunstâncias.

Batida, mas exata.

Juvenal Lamartine não era só um homem. Ele era também o seu entorno.

Seu livro, editado pelo Abimael Silva e pela Coleção Mossoroense, é um misto de memória com registro etnográfico. Um híbrido antropológico que tem o débito reconhecido para com Cascudo, mas que vai um pouco além ou aquém do professor da Junqueira Ayres. Há uma vivência orgânica do sertão, uma memória afetiva, um canal genético aberto com os ancestrais, um sentimento de proximidade com os registros que vacilam para lá e para cá no ritmo da memória e das reminiscências de velhos mundos.

A morte, o casamento, a religiosidade, o ritmo do tempo dos sertanejos se mostra junto com as lembranças de personagens e casos contados nos alpendres das fazendas. Juvenal Lamartine não usa o sertão para levar sua linguagem além. Não faz como Guimarães Rosa, Graciliano Ramos ou Ariano Suassuna, que transformam o Sertão no cenário de sua própria ansiedade criativa. Lamartine deixa que seu texto sirva ao sertão, em uma demonstração de humildade estilística típica daqueles que não conseguem separar o próprio discurso de seu objeto.

Essa humildade aparece bem quando Lamartine discorda de Cascudo, ao refutar a ideia de que a vaquejada teria origem ibérica. Ele discorda, mas discorda “com o respeito que devo a sua maior autoridade de estudioso dos nossos costumes…”.

Talvez seja um traço típico dos sertanejos.

Discordar de alguém, nos sertões, pode ser muito perigoso. Em uma terra marcada pela inquisição, onde qualquer sinal de “judiaria” poderia levar um sujeito para a torre do Tombo em Lisboa, desagradar o outro pode ser um sinal de sérios problemas.

Aprendemos regras de cortesia, que muitas vezes acabam nos levando a esconder nosso próprio potencial ou castrar nossa força intelectual. Essa marca da inquisição dos sertões do Rio Grande ajudaram a reter boa parte das potências intelectuais do nosso estado.

Lendo esse livro eu entendi que é muito mais difícil extrair o sertão de dentro da gente do que sair de dentro dele. Mesmo para um cara como eu, que sempre vivi perto do mar.


Um Comentário para “Velhos Costumes do Meu Sertão”

  1. Antonio Vieira Neto21/4/2010 às 10:50

    Bonito e terno comentário sobre o livro. Acrescento apenas o seguinte sobre o sertão, na relação sertão x litoral. O litoral representou até certo ponto a civilização europeia enquanto o sertão, a interiorização da população brasileira significou a busca da nova identidade, o conhecimento da terra e das populações indigenas, forçou uma miscenação que deu origem a uma cultura e civilização realmente distinta da portuguesa, ou seja verdadeiramente brasileira.

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2007 ® Pablo Capistrano

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