Content on this page requires a newer version of Adobe Flash Player.

Get Adobe Flash player

  • Pablo Capistrano
  • 25 de abril de 2010, as 10h10

 

 

Domingo passado fui tomado por um tipo muito peculiar de surto esquizóide. Meu pai, psiquiatra que atua atendendo a população de Natal a mais de 35 anos, me ensinou que a esquizofrenia se manifesta como uma catástrofe da linguagem.

No meu caso, ela se manifestou como uma radical impossibilidade de conciliar minhas partes.

A paixão me levava a assistir Flamengo e Botafogo, decisão do campeonato carioca. A razão me mandava ver a semi-final do campeonato paulista entre Santos e São Paulo.

Há algum tempo eu assisti um jogo do São Paulo do Murici Ramalho contra o Palmeiras. Acho que foi no trágico ano de 2007, quando o glorioso América de Natal foi vergonhosamente rebaixado para série B e o tricolor paulista foi sagrado o campeão com o maior número de pontos da história do brasileirão de pontos corridos.

Uma das coisas mais curiosas daquele time de Murici é que ele jogava melhor sem a bola nos pés. Lembro que o Palmeiras manteve a posse de bola durante todo o jogo. Apesar disso o time não conseguia jogar. Não conseguia entrar na área do São Paulo para chutar uma bolinha, uma mísera bolinha sequer em direção ao gol de Rogério Ceni.

O truque parecia simples: uma boa movimentação no meio, compactação do time e um preenchimento perfeito dos espaços vazios do campo.

O São Paulo de Murici Ramalho foi algumas vezes campeão brasileiro aplicando a lógica dos poucos gols. Consolidando a mitologia do jogo cerebral, frio, burocrático, que implicava se preocupar muito mais em não permitir que o outro time jogasse a se aventurar na ousadia de fazer seu próprio jogo.

Não haviam craques naquele time (um time cujo goleiro é o maior astro já diz ao que veio). Era um time de bons jogadores, nada mais do que isso, que sabiam manipular com alguns dos fundamentos coletivos mais importantes do futebol.

O Santos de 2010 é saudado por alguns como a redenção do futebol arte. O justo oposto do São Paulo que dominou a segunda metade da década que passou. Um confronto entre essas duas equipes seria um importante tira teima (mesmo que o agora o estilo que o Murici implantou seja apenas uma sombra, uma reminiscência na memória das viúvas tricolores).

Alguns críticos de futebol questionaram a capacidade do Santos de “jogar sério” e enfrentar equipes mais tradicionais e robustas. Um indício dessa fragilidade poderia estar na derrota para o Palmeiras, um time que terminou 2009 em crise e que parece que se arrasta com seus problemas 2010 à dentro.

Olhando esse Santos mais de perto a gente vê que seu estilo de jogo é, estruturalmente, bem parecido com o São Paulo de Murici. Uma boa movimentação no meio e um preenchimento perfeito dos espaços vazios do campo são seus fundamentos mais evidentes. A diferença é a velocidade, na habilidade individual de alguns jogadores diferenciados como Neymar e Ganso e na intenção do gol.

Curiosamente o Santos de 2010 e o São Paulo de 2007 são opostos jogando parecido. São diferentes fazendo quase a mesma coisa.

Isso é que fascina no futebol.

As obviedades técnicas dos outros esportes não funcionam quando tentamos entender como é possível ver aquilo que nós vemos em uma partida de futebol.

Enquanto que para o São Paulo um gol era suficiente para o Santos o gol não é um limite, mas uma utopia. Parece que não se busca o gol, mas um gol, um gol arquetípico, um gol inalcançável.

A insatisfação permanente do time do Santos, sua incompletude obsessiva faz com que aquele time não queira parar. Isso me faz lembrar a seleção brasileira de 1982. A busca de uma perfeição estética, a obsessão pelo gol, a compulsão pelo ataque, fez com que a geração de Falcão, Sócrates, Zico e Eder, não conseguisse ganhar uma copa do mundo.

A aposta e o temor das viúvas de 82 (eu me considero uma delas) é a de que o Santos acabe sendo derrotado por um time como o São Paulo de 2007. A nossa sorte talvez esteja no fato de que, no primeiro tempo do jogo no Domingo passado, o time se portou com uma disciplina tática defensiva sintomática dos grandes campeões.

Só nos resta esperar o Santo Andre (já condenado pelo senso comum do futebol) e o brasileirão. Tá na hora das apostas.


2 Comentários para “A intenção da vitória”

  1. ANDRELUCIO RIBEIRO25/4/2010 às 19:17

    Grande, Pablo, como vai? Minha reverência sincera à sua pessoa! Acredito que o Santos, no jogo deste domingo, contra o Santo André, mostrou uma coisa também notada no meio de semana no jogo do Barça contra a Internazionale, qdo os italianos venceram por 3 a 1. O time que prioriza o ataque, que mantém a posse de bola, fica atordoado quando é atacado, quando não consegue ter a posse de bola, ou quando os seus atacantes não conseguem segurar a bola na frente, a ponto de não conseguir fazer com que os meias e alas se aproximem e se inicie a movimentação monstruosa que Barça e Santos executam. Parece que com eles,digo Santos e Barcelona, atacá-los é a melhor defesa. Quanto ao burocrático São Paulo de Muricy, eu cito agora o Corinthians. O senhor, caro Pablo, acha que os números mentem? Pois é! Antes eu achava que não, mas agora eu acho que sim, pois o Timão teve a melhor campanha da 1a fase da Libertadores 2010, somou mais pontos e levará vantagem na fase decisiva. Mas não jogou o melhor futebol, pegou um grupo fraco, onde nem o segundo colocado conseguiu se classificar, e mesmo assim o Timão não tem o melhor ataque, não tem o artilheiro e não jogou nada em nenhuma partida, passou sufoco em todos os jogos. Essa condição de melhor campanha é muito questionável, por isso digo que os números enganam. Os números também mentem quando comparamos Adriano e Neymar, ambos tem média de 1 gol por jogo nesse ano, mas Adriano( 12 jogos e 12 gols) não chegou nem perto da eficácia e criatividade de Neymar(22 jogos e 22 gols no ano). POis é, os números mentem, o São Paulo ,do Murycy, foi tri-campeão, mas magôou muito o apreciador do futebol, abusava de gols oriundos de bola parada e fechava o ferrolho lá atrás. Eu também não assisti o jogo do Fla contra o Bota, me privei desse dissabor, e optei em ver os meninos da vila (que todos se atentem, qdo o centroavante André não joga, a equipe tem dificuldades em reter a bola na frente, perde referencial, e fica mais fácil de ser marcada, perde a bola com mais rapidez e sofre ataques perigosos com muita frequência). Ah, não sou viúva da seleção de 82, mas assistí o jogo Brasil e Itália, reprisado pela ESPN. Vi uma ótima equipe italiana, que enfrentou os canarinhos de igual pra igual, e ainda foi prejudicada num gol anulado no segundo tempo..apesar de que o galinho sofreu penalte e o juiz se fez de cego, tbm nos prejudicou. Qdo o jogo acabou, aí eu fiquei com uma impressão diferente da que eu tinha, produzida e influenciada pela imprensa e pelos relatos. Realmente, o Brasil tinha um timaço, era genial, cheio de talentosos meias, otimos zagueiros, brilhantes laterais, era um organismo maravilhoso, mas o coração da equipe eu não vi. Faltou coração, faltou o cara que vibra, que cobra, o cara que fala dentro de campo e olha pra o treinador indicando algo. Depois do jogo,e da brilhante partida da Itália, eu fui dormir mais conformado…faltou coração, faltou alma para aquele refinado time.

  2. Pablo Capistrano27/4/2010 às 10:24

    Andre eu não consegui assistir o jogo na ESPN, mas vi o filme da Fifa da copa de 1982.
    Sabe, aquela era uma das minhas assombrações infantis, ainda vou escrever sobre isso.
    Agora, depois de 28 anos daquele jogo concordo com você, sua leitura é muito acertada.
    O que o Santo André fez com o Santos foi muito parecido com o que a Itália fez com o Brasil em 1982.
    Acho que a seleção de 82 tinha mais craques do que a equipe da Itália, mas o time da Itália (é duro confessar) era melhor, ou ao menos, jogou melhor aquele jogo. O problema da equipe do Santos, e ai eu acho que isso é um pouco diferente do grupo de 82, é o gas da garotada. Eles botam pra torar na velocidade e o time adversário prega, tem que ter um preparo físico europeu para segurar um time daquele.

Deixe seu comentário

2007 ® Pablo Capistrano

dz3