04 mai
A Chave e o ferrolho
- 04 de maio de 2010, as 11h11
Sim… o Santos foi campeão paulista.
Confesso que eu, como quase todo o Brasil, desejou em alguma periferia da razão, em algum instante do jogo do último Domingo, que o Santo André fosse campeão.
Seria uma boa história para se contar aos nossos netos. Uma boa lembrança das imponderabilidades do futebol em suas partidas épicas.
Mas em um jogo existem caprichos que são inexpugnáveis.
A trave, a deusa Fortuna dos gramados, costuma nos presentear, bem rente aos limites do campo, com aquela sensação de fatalidade cósmica que envolve os dramas humanos.
A trave salvou o Santos no antepenúltimo minuto, na última trajetória da bola rumo ao gol, na derradeira jogada do ataque inimigo. A trave fechou, com seu ferrolho trágico, os sonhos do time do Santo Andre.
Isso só aconteceu porque o Santos não teve receio de assumir o risco como um elemento inerente de todo grande acontecimento.
Uma constatação técnica repetida pela boca dos schollars do futebol é a de que: “o time (do Santos) é maravilhoso com a bola nos pés, mas sem a posse de bola deixa a desejar, se expõe muito, se arrisca”.
Parece a mesma crítica levantada contra a seleção de 82.
A mesma ingenuidade ofensiva, a mesma compulsão pelo gol, a mesma insistência em fazer com que o futebol seja algo mais do que um simples jogo.
A final do campeonato paulista deste ano, nas duas partidas, foi uma das melhores coisas que eu assisti na TV nesse semestre.
Não há nem como estabelecer um parâmetro de comparação em relação a semifinal da liga dos campeões envolvendo a Inter e o Barcelona.
Me arrependi amargamente de ver aquele jogo.
A Inter conseguiu manchar o futebol com um tipo muito pernicioso de náusea estética, um atentado contra a sensibilidade dos amantes da bola, uma amostra da redução absoluta da arte a um sistema simplificado, mecânico e funcional.
Na sua segunda partida contra o Barcelona, a Inter de Milão abdicou do jogo. Com a vantagem de perder por um gol de diferença, José Mourinho (técnico da equipe italiana) recuou seu time a ponto de construir dois muros de quatro zagueiros. Desde os 27 minutos do primeiro tempo, quando Thiago Mota foi expulso o estilo da Inter que era nove zagueiros e um homem perdido na frente, passou a ser nove defensores e um goleiro.
Dizem as enciclopédias do futebol que a última vez que a Inter foi campeã da Europa jogou esse mesmo estilo com o técnico Helenio Herrera construindo uma das retrancas mais famosas da história contemporânea da bola.
Para quem não torce pela Inter de Milão o jogo contra o Barcelona em Camp Nou pode ser entendido como um intervalo equivocado no curso natural da vida. Aquela foi uma das partidas para ser registradas na desciclopedia do futebol como um atestado de falência do bom senso estético que ainda sobra aqui e acolá no esporte contemporâneo.
A final do paulistão não.
Jogando aberto no primeiro tempo o Santos ensinou aos “Helenitos Herreiras” e aos “Josés Mourinhos” do Brasil que um título é só uma lembrança numérica sem sentido na memória obsessiva dos colecionadores de estatística. No futebol o que permanece, mais do que o resultado de um jogo, é a emoção, que nos arrebata, nos transcende e nos lembra sempre que a vida não basta.
Um Comentário para “A Chave e o ferrolho”
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Um dos maiores times que eu vi jogar foi o São Paulo da década de 90, entre 92 e 94. Aquele time jogava quase todo dia, teve oportunidades em que haviam dois jogos pra o mesmo dia e o Telê usava o expressinho pra um jogo e o titular pra outro jogo, sendo que tinha jogador do expressinho que ficava no banco no jogo principal. Assim, o São Paulo ganhou duas libertadores, dois mundiais, uma supercopa libertadores, duas recopas, uma conmebol, taça ramon de carranza e outras. Mas ninguém fala daquele time, ninguém comenta muito as peculiaridades. Aquele time tinha Valber na zaga, era um zagueiro que saía driblando cinco ou seis jogadores adversários e entregava a bola ao ponta esquerda do tricolor, coisa de cinema. Tinha Zetti fechando o gol. Tinha um ala chamado Vitor, até hoje o brasileiro que mais ganhou libertadores. Tinha Raí como símbolo maior, e tinha Palhinha que era um falso meia e falso centroavante, pois sabia armar e finalizava como ninguém, e como flutuava em campo, evitava trombadas dolorosas pra o seu corpo frágil. Só ouço falar do time de Telê, que também não era muito bom sem a posse de bola. Naquele time do São Paulo, jogadores medianos viraram craques ou ícones de determinados títulos; Pintado, Adilson, Ivan, Ronaldo Luís, Dinho, Jamelli, Catê, Elivelton, Macedo, entre outros, fizeram partidas memoráveis e aproveitando a carona dos craques citados anteriormente, faziam belas partidas. O que quero dizer com isso? É que no time do Santos, jogadores como Durval, Dracena, Pará, Marquinhos e outros se tornaram muito bons jogadores. O time não é fraco quando defende, é que o time não defende e quase todos os gols que toma são proporcionados pela ânsia voraz de atacar. O terceiro gol do Santo André surgiu de um contra-ataque aos 44 minutos do primeiro tempo, quando o Santos tinha apenas 09 em campo e mesmo assim atacava com seis jogadores a equipe interiorana…Robinho perdeu a bola e deu a chance ao ótimo time azulado. O que digo é que esses times talentosos, tão escassos e magníficos quando surgem é uma festa pra imprensa, mas que a imprensa não se preocupa depois em eternizar esses momentos. Não há exibições das jogadas do Valber na era do Telê, não há reprises das vitórias do São Paulo, não há comemorações dos títulos sobre o Barça de Stoichkov, ou sobre o Milan de Baresi, Maldini, Papin, DEsailly, Massaro. O que vemos muito é o tri recente do São paulo, que tinha um estilo feio e pragmático, pra menos. Vivemos num país que fica cobrando um bom futebol, mas não revivemos os times do Fla da década de 80 nem o São Paulo da década de 90. Os nossos maiores craques eram baixinhos (Pelé, Zico, Romário, Rivelino, etc…), mas hoje a imprensa ignora as divisões de base e permite, com isso, que os treinadores só aceitem jovens altos, pois pensam em biótipos que agradem os europeus. Sonhamos com um craque estilo Pita,no caso o Ganso, mas o cara surge e a gente fala que ele não tem idade pra copa. Nos esquecemos de dribladores como Renato Gaucho, Sergio Araujo, Eder, Mauricinho…aí surge Neymar (que com um toque e duas gingas driblou dois jogadores e o goleiro do santo andré) e falamos que ele é cai-cai…há quase 04 anos surgia Messi num jogo contra o Chelsea, e ele era cai cai. Temos uma tendência a valorizar o que é dos outros, recordamos Zidane a todo momento, Platini, Rummenigge, Francescolli, e esquecemos Pita, Geraldo, Adílio, Ademir da Guia, Careca…jogadores que não fizeram história mundial pq a nossa concorrência era brutal e não se transferia facilmente antigamente. Enfim, concordo com o mestre Pablo, Santos e Sto André foi um jogo mandado pelos céus, pelos anjos ou pelos santos? Pena que a enciclopédia Armando Nogueira já não está entre nós, senão ele faria uma crônica capaz de nos fazer rir e chorar(de alegria) ao mesmo tempo.
