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  • Pablo Capistrano
  • 07 de maio de 2010, as 19h19

Tem certos acontecimentos que só se manifestam na intimidade da língua. Certos significados, certos jogos, certas relações que só nascem e frutificam quando os homens, esses seres de fala, se encontram naquele espaço confortável de um idioma comum.

Por isso a última grande fronteira da humanidade não é natural, geográfica ou temporal. O último grande espaço a ser cruzado, o derradeiro limite de integração a ser definitivamente contornado é o limite da língua.

Esse limite nos faz viver em um tempo de confronto. Em um sentido, somos empurrados para o aberto das linguagens, para o amplo horizonte onde outros povos, outras vidas, outras almas e outras vozes nos acossam com as reminiscências antigas, de um tempo de unidade. Noutro sentido, somos levados a afundar em direção ao interior de nossos próprios idiomas. Somos empurrados a um mergulho profundo em uma selva aquosa de raízes que nos fixam a um lugar, a um povo, a uma época, a um pedaço decomposto da família humana.  

Em relação a língua eu sou do time dos promíscuos. Se para mim, o português é uma necessidade, outros idiomas acenam sempre com o sedutor convite da possibilidade. Labuto a alguns anos com o inglês, o alemão, o francês e de vez em quando me atrevo a flertar com o hebraico e o grego. Não porque queira acumular algum tipo de ganho social com isso, mas porque me sinto mais livre, mais humano, mais solto quando entendo um idioma no qual não fui gestado.

Desde um dia em 1995, quando estava em Saqsaywaman na cidade de Cuzco e perdi a oportunidade de estreitar meu contato com uma norte americana linda, nascida no Havaí, e que parecia tentar comigo algo mais profundo que apenas a troca natural de fluidos corporais; desde aquele dia que eu me rebelei furiosamente contra qualquer tipo de monoglotia militante.

Quinze anos depois eu tenho que admitir que por mais que eu entenda, fale, leia e escreva em um punhado de idiomas estou ainda condenado ao português. Só não sei se é a substância branca, a cinza, ou a verde com bolinhas violetas que faz com que meu cérebro se prenda a essa língua mestiça que constituiu meu pensamento e que delimitou também os horizontes do meu mundo.

O fato de ter sido criado em uma comunidade linguística unificada determina muito quem eu sou. O esforço em se libertar do peso dessa determinação é um tipo particular de desespero, semelhante ao heroísmo inconseqüente de Aquiles ou a obsessão suicida de Ahab perseguindo Moby Dick.

Meu português anda tão misturado comigo que eu já não sei se eu sou eu mesmo ou uma simples ficção de meu idioma. Vezes eu me irrito com ele… me enervo com essa complexidade de regras ortográficas sem sentido que se constituem em um verdadeiro inferno linguístico para um disléxico como eu. Vezes eu me encanto, quando consigo, em meio a um exercício de êxtase, sair de meu próprio idioma e ouvir a fala de meus conterrâneos sem entender o significado das suas palavras.

Esse é um joguinho esquizóide sem futuro que de vez em quando eu gosto de jogar, e que me serve quando estou profundamente emputecido com algum congestionamento verbal que o português impõe ao meu texto. Gosto de sair de meu idioma, só para poder voltar a ele depois, como um filho que retorna de uma noite de cachaça com os amigos para o conforto da casa da mãe, curar a ressaca de seus excessos.

Nos últimos anos de minha vida estranha, ando me fiando na certeza de que não tenho uma alma só. De que minhas partes estão divididas, espalhadas por lugares que eu não sei o nome, por tempos que eu não sei o quando. Talvez esse seja meu karma, minha herança, meu destino, minhas circunstâncias. Talvez, essa sensação de exílio, essa impressão de mestiçagem seja muito mais um presente da minha língua, do que um dado qualquer, quantificavel em alguns dos infinitos labirintos de meus genes. Quem sabe nessa língua, não esteja contida uma ponte que me leve de volta, um dia, à casa de minha própria humanidade.


2 Comentários para “Muitas almas e uma língua mestiça”

  1. Antonio Nahud Júnior9/5/2010 às 13:00

    O blog está muito bom, Pablo!
    Abraços,

    http://www.cinzasdiamantes.blogspot.com

  2. EDMILSON LEÃO JR12/5/2010 às 11:32

    Fala professor,
    Esse nosso idioma imposto pela sociedade economicamente sustentada, nos coloca numa posição de transmutação, de ser humano (organismo bípede que tem uma capacidade de raciocínio mais bem articulada) para uma forma comum e programada socialmente.
    Inúmeras vezes já me presenciei, em algum diálogo interiorano, desconhecendo expressões utilizadas pelos meus interlocutores, que antes da minha vinda para a capital, eram plenamente familiares. Também, já fui “obrigado” a mudar certas expressões utilizadas por mim, por pura inadequação com o novo ambiente. Seja para não ser chamado de matuto, ou por pura incompreensão de quem me ouvia.
    Hoje, sete anos depois que saí de Patu, quando visito a cidade, nas rodas de conversa, eu sou novamente incompriendido, dessa vez, porque adquiri uma linguagem estranha àquelas pessoas, e muitas vezes acho que virei um “matuto da capital”, pois não consigo me comunicar a vontade com as pessoas do meu lugar de origem, sem ser pego numa armadilha da comunicação.
    Se a codificação da linguagem que utilizamos não fosse “administrada” por um bando de velhos mofados, preocupados tão somente com uma estética linguistica, e fosse baseada somente na efetivação da comunicação, nós brasileiros seres humanos, poderíamos interagir melhor e sem frescuradas.

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2007 ® Pablo Capistrano

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