- 12 de maio de 2010, as 10h10
Livro: FAUSTO
Autor: Christopher Marlowe
Tradutor: A. de Oliveira Cabral
Editora: Hedra.
Ano: 2006.
Uma vez eu estava dando uma aula sobre Hegel no curso de Direito de uma universidade particular em Natal quando, de repente, um aluno falou exaltado: “Isso é mentira! Isso é mentira!”.
Recuperado do susto, eu, que tenho quase onze anos de labuta docente, comecei a tentar encontrar um fio argumentativo que me esclarecesse a natureza daquela estranha reação. O aluno era evangélico e parecia estar incomodado com alguma ideia metafísica de Hegel que aparentemente jogava-o contra a barreira (talvez bem frágil) de sua própria fé.
Foi inevitável que a discussão girasse em direção ao texto bíblico. Hermenêutica para cá, hermenêutica para lá, e então o meu aluno veio com uma pérola que me fez desistir da discussão e encerrar a aula mais cedo: “Professor, quem mais conhece a Bíblia é o Satanás!”.
Harold Bloom já havia me alertado em um de seus livros que certas nominações cristãs têm uma fascinação quase erótica pelo diabo. Eles temem o diabo mais do que Deus e o monoteísmo da matriz judaica do cristianismo acaba ofuscada por um tipo desconcertante de maniqueísmo gnóstico.
Um dos caras, também na leitura de Bloom, que melhor sintetizou essa relação ambígua dos cristãos com o Diabo foi o John Milton, um poeta puritano que tentou ser melhor do que Shakespeare e escreveu o poema mais black metal da literatura inglesa: Paradaise Lost.
O diabo de Milton é Lúcifer, o príncipe das trevas, que emerge com suas hostes de demônios dos rios de lava incandescente do inferno para lutar em uma batalha cósmica contra Cristo e seus anjos, em uma guerra interplanetária que deve certamente ter influenciado Geoge Lucas na série Star Wars.
O diabo do Fausto é diferente.
Sempre que alguém pensa na história do erudito Doutor Fausto, que fez um pacto com o demônio em troca de algum tipo de poder, lembra de Goethe. Isso não é surpresa, afinal, o texto do poeta alemão é umas das obras mais espantosas da história da literatura ocidental. Mas Fausto não foi um personagem criado por Goethe.
Harold Bloom fala sobre um tal Simão, mago da Samaria e divulgador da Heresia gnóstica nas comunidades cristãs que teria chegado a Roma e se autodenominado “Fausto” (O Favorecido). A etimologia do nome remonta a ideia de fas que gerou as palavras fasto e nefasto (indicando os dias auspiciosos para se realizar determinadas atividades jurídicas).
Não se sabe bem como, mas esse personagem acabou entrando no mundo da cultura popular germânica na idade média e inspirou uma obra anonima publicada em 1587. Com o título História do Dr. Johann Faustus o texto apareceu nas feiras livres da Europa e era uma compilação de contos populares que giravam em torno de casos envolvendo praticantes de ocultismo. È provável que Christopher Marlowe tenha tido contato com essa publicação ou, no mínimo, com as histórias populares as quais ela faz referência, porque, em 1592 ele teria escrito a peça A Trágica História de Dr. Faustus.
A questão é que de trágico, essa história, publicada em 1606, oito anos após a morte do autor, não tem muita coisa. Escrita parte em verso e parte em prosa ela muitas vezes evoca certas formas de teatro popular em que acontecimentos cômicos se sucedem em pequenos diálogos muitas vezes sem uma continuidade dramática evidente.
Bloom diz que Marlowe seria o maior concorrente de Shakespeare se não tivesse morrido aos 29 anos esfaqueado, após uma briga em uma taverna. Difícil ver isso no seu Fausto, e mais difícil ainda é perceber essa ideia quando a gente, inevitavelmente comprara essa peça com o Fausto de Goethe.
Existem pontos de contato entre as duas peças que talvez surjam da tradição popular. A relação com Helena de Tróia, as viagens pela Europa, os acontecimentos no palácio do Imperador. Fausto viaja e visita vários lugares com seu demônio pessoal, Mefistófeles, uma espécie de bedel que se esforça para agradar e realizar todas as vontades de seu mestre.
No Fausto de Marlowe, Mefistófeles aparece após uma conjuração (tecnicamente a conjuração é o controle do espírito mediante certos procedimentos mágicos). Ele dá poder ao seu mestre e esse poder lhe rende fama por 24 anos. Até que o tempo do pacto se esgote e Lúcifer venha cobrar a alma do Dr. Fausto para levá-la ao inferno.
Mefistófeles aparece como um diabo tipicamente medieval. Um espírito que serve aos desejos do seu mestre, um escravo que é oferecido por Lúficer aos homens em troca de alguns préstimos. Essa imagem está muito longe do temível e sedutor personagem do poema de John Milton, que em sua fúria rebelde desafia Deus em um combate cósmico. O mal no poema do protestante Milton é uma figura épica autônoma, um conceito assombroso de revolta, orgulho e pulsão vital. Em Goethe e Marlowe, o diabo é um instrumento de materialização dos desejos dos homens, uma ferramenta, uma peça, um instrumento de nossos sonhos mesquinhos e de nossas fragilidades humanas.
A grande ausência no Fausto de Marlowe é Deus, que em nenhum momento, nem quando o mago, em desespero, sendo levado para os confins do inferno, suplica a misericórdia divina, dá o ar da sua graça. No mundo e Marlowe, há um vazio teológico que lança o homem em meio aridez de sua própria finitude. No texto de Goethe, Fausto é objeto de uma aposta entre Deus e Mefistófeles. Ali, quem não tem vez é Lúcifer e no fim, o pobre Mefistófeles, após tentar tudo para agradar seu mestre, acaba não levando a alma de Fausto devido a uma intervenção maternal da Virgem Maria, Rainha do mundo de protetora dos homens.
Pois é amigo velho, nesse mundo de fundamentalismos eletrônicos, nesse imenso shopping center da fé, o diabo, quer seja em sua faceta heróica, ou em sua imagem cômica é um personagem que ainda rende muitos dividendos no cálculo dos que lucram com o medo alheio. Hoje eu acho que a literatura, que é a grande mãe do Diabo, não pode sozinha enfrentar sua herança, porque apesar dos indícios em contrário para algumas pessoas, o mal é sempre mais visível.
