12 mai
Velhos Fantasmas
- 12 de maio de 2010, as 10h10
1982 foi um ano muito significativo para mim. Eu tinha apenas oito anos e entendi a função pedagógica da derrota. Naquele ano, AluÃsio Alves (então candidato a governador do RN pelo PMDB) perdeu a eleição para o então prefeito de Natal, José Agripino Maia. Meu pai, ainda clandestinamente ligado ao partido comunista me levou para um comÃcio de Aluisio em frente à antiga fábrica da SORIEDEM (onde hoje, fica o Shopping Via Direta, próximo a entrada do campus da UFRN em Natal). Participei de duas ou três grandes carreatas, como aquelas que viam de MacaÃba à noite e terminavam pelas ruas da Cidade Alta já com o sol levantando.
Aquele era um tempo de ditadura militar e a campanha de AluÃsio, na minha mente de criança, parecia uma luta épica das forças da luz contra o peçonhento espÃrito das trevas. Essa visão romântica era incentivada por minha avó, Dona Adélia, uma bacurau legitima, egressa da campanha de 1960, quando o ex-ministro entrou em Patu vestido de Cigano, montado em um burro e escoltado, como Jesus em Jerusalém, por uma multidão com galhos verdes na mão. A derrota de AluÃsio foi amarga. Mas não me abalou tanto quanto a derrota do Brasil para Itália em Sarriá.
A copa de 1982 foi a primeira que eu lembro ter assistido. Durante muito tempo a derrota do Brasil e a derrota de AluÃsio Alves nas eleições cauterizaram uma certa crença infantil que eu tinha na absoluta proteção divina dos justos.
Alguns anos mais tarde, quando o mesmo AluÃsio apoiou Lavoisier Maia (primo de Agripino e seu antigo adversário) comecei a entender que na polÃtica, bem e mal; justo e injusto; são meras abstrações inócuas. Mas ainda permanecia o futebol. Ainda mantinha-se em mim aquele apelo romântico contra a injustiça divina. Como é possÃvel que um Deus justo tivesse permitido que um time maravilhoso como o de Sócrates, Zico, Falcão e Cerezo, perdesse para uma Itália retrancada como a de Paolo Rossi?
Talvez por isso eu tenha demorado tanto para tomar coragem e voltar a assistir o jogo de Sarriá – considerado por alguns como o maior clássico de todas as copas. Vinte e oito anos depois eu faço minha revisão de consciência e enfrento aqueles velhos fantasmas.
É importante admitir que aquele time da Itália era melhor do que o do Brasil. Enzo Bearzot declarou que o time de Telê tinha o melhor meio de campo da história das copas, mas deixava a desejar com uma defesa fraca e com um ataque que não convencia. Conjunturalmente a Itália era um time mais equilibrado, que soube como surpreender o Brasil, avançando sobre a defesa da seleção e aproveitando as falhas individuais com uma objetividade desconcertante. O mito da retranca contra o ataque cai com o dado que a seleção de Bearzot foi a mais ofensiva que a Itália teve em vinte anos. Também muito se fala que a derrota do Brasil selou o fim do futebol arte. Eu mesmo, durante muito tempo, ajudei a divulgar essa mitologia, mas agora assistindo novamente partes do jogo da semi-final entre Alemanha e França, percebo que a derrota da equipe francesa foi muito mais sintomática dessa mudança de foco.
Os franceses tinham uma equipe tão festejada como o Brasil. Com Platini, Griesse e Tigana no meio campo, o mundo sonhava uma final entre Brasil e França, para que o deleite do jogo leve, bonito, desprentesiosamente estético pudesse fazer com que a final daquela copa fosse uma experiência de júbilo e alegria. Mas os franceses pararam na avalanche de força mecânica da seleção alemã. Depois de Harald Schumacher (goleiro da Alemanha) nocauteou Patrick Batiston na área o jogo mudou dramaticamente e virou uma batalha de ódio, que se arrastou até os pênaltis.
Com oito anos eu não tinha a real dimensão dos segredos da polÃtica e dos labirintos do futebol. Hoje, com a distância do tempo, com a maturidade de uma época da vida em que as velhas ilusões e os velhos fantasmas desbotam na cortina da memória posso rever os jogos da copa de 1982 e olhar para os próximos mundiais com a visão serena dos justos, sem esperança e sem medo.
Um Comentário para “Velhos Fantasmas”
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Verdade, Pablo! Já, inlcuisve, tÃnhamos falado sobre isto. A Itália teve omelhor jogador da copa, Conti, e no jogo contra o Brasil foi prejudicada com um gol mal anulado de Antognioni, apesar de Zico ter sofrido penalte não marcado pelo árbitro. Aquele time italiano manteve o mesmo ritmo durante os 90 minutos, atacava sempre com eficiência e levando perigo ao gol brasileiro. Quanto a uma final entre Brasil e França, esse duelo foi acontecer 04 anos depois, com ambos os times envelhecidos, um pouco modificados, mas com muita técnica. A única coisa que me incomoda daquele time de 82 é o “se”. Toda copa do mundo tem suas divergências de opinião entre os torcedores e especialistas. Telê preteriu Dinamite por Chulapa, Carlos e Paulo Vitor por Valdir Perez, entre outras peças menos acionadas. Desta vez, a Itália preteriu o Imperador Totti, suicÃdio total, única fonte de talento puro do calcio italiano. O Brasil preteriu Ganso e Ronaldinho, um será o nosso futuro, e o outro teria a chance de fazer um bom mundial, pois está em forma fÃsica e joga num time péssimo (o Milan), e mesmo assim consegue jogar razoavelmente bem. O “SE” entraria em tudo; Dinamite renderia mais(?), Carlos não sofreria os gols que Valdir levou(?), Ganso seria fator preponderante pra nosso sucesso(?) e Ronaldinho, o gênio, seria Ronaldinho? Numa competição onde se joga tudo em 30 dias, ou 07 jogos, todo craque tem que ir. Vou citar alguns exemplos: Em 2002,, Ronaldo vinha de uma contusão séria, retornou ao futebol 06 meses antes da copa e chegou lá na plenitude fÃsica (fÃsica sim, pois tecnicamente ele não estava super bem, prova disso são os gols oriundos de oportunismo, nenhum foi driblando dois ou tres jogadores ou encobrindo o goleiro). Rivaldo vinha de brigas no Barcelona, machucado o tornozelo em Março, mas recuperou-se e fez bonito, tecnicamente. Na mesma copa, Zidane ostentava o tÃtulo de melhor do mundo, mas chegou saturado pela temporada vitoriosa do Real, e machucado foi o sÃmbolo do fracasso françês, não passou nem da primeira fase. Em 2006, Zidane foi esperto, sabia que seria a ultima copa, alegou dores no tornozelo em fevereiro, ficou se tratando e só voltou em inÃcio de maio, fez a despedida pelo Real, jogou a primeira fase da copa de modo discreto, mas nas oitavas ele estava no ápice fÃsico e técnico, levou a França à final, e Ronaldinho Gaúcho foi quem vivenciou aquilo que Zidane sofreu em 2002. SE Ronaldinho tivesse sido convocado, ele arrebentaria? Ganso seria uma opção de desafogo pra nossa seleção? Craque tem que ir sempre, até pra que traumas , como a da seleção de 1982, não se repitam, cada um recebe uma derrota de um modo diferente. Como seráo futuro do Ganso? Será que Kaká estava se cuidando pra atingir o auge técnico e fÃsico na copa, seguindo o exemplo do Zidane? Bem, todas essas questões são suficientes pra um bate papo na mesa do bar, na varanda de casa, na granja, na praia. Tudo isso só mostra que as inúmeras dúvidas que possuÃmos não se resumem ao passado, mas também ao futuro. E mesmo os fatos que já aconteceram nos fazem querer modificar tudo usando o “SE”. Quanto ao seu sentimento, Mestre Pablo, percebo que a tecnologia foi serena e permitiu ao senhor eliminar mais um fantasma. A sua sensação ao rever o jogo, deve ter sido dúbia, mas a conclusão pós jogo foi como um analgésico eficiente, que eliminou uma certa dor. Abração! A minha dor é não ter tido a chance de ver o maior atacante dos ultimos 30 anos , Ronaldo, ao lado do maior centroavante dos ultimos 50, Romário, na copa de 1998. Essa frustração a tecnologia não vai poder nunca eliminar. Abração, nobre e querido mestre!

