26 mai
Um futebol sem fronteiras.
- 26 de maio de 2010, as 6h06
A Inter de Milão foi campeã da Europa com todos os méritos. Venceu dois dos maiores times do mundo, o Barcelona e o Chelsea e não apenas provou que seu estilo de jogo funciona apenas em competições de pontos corridos, mas também tem efeito no sistema mata-mata.
Eu, particularmente, preferia que o Barcelona tivesse ganho esse título. Gosto de pensar que um time que guarda algo do velho futebol ofensivo, vistoso, com refino, técnica e habilidade possa também ganhar campeonatos e troféus.
Muita gente gosta de matar o futebol arte sempre que times como o da Inter ganham campeonatos importantes como a copa dos campeões da UEFA. Essa é uma estranha compulsão daqueles que insistem na tecla de que o futebol é apenas um esporte, como Vôlei, Rúgbi, Tiro ao Alvo ou Ping Pong.
Eu não discordo que o futebol nos últimos vinte anos vem se tornando cada vez mais físico e tático, com hordas e hordas de mastodontes bombados correndo 100 metros rasos para cá e para lá pelo campo. Cada vez mais o futebol se aproxima do Rúgbi (seu irmão Gêmeo menos famoso – ao menos no Brasil). Se aproxima também do Vôlei Ball e de sua mecânica tática absoluta e sua avassaladora tediosidade estatística.
No futebol o aspecto tático e físico limitam a imprevisibilidade da técnica de modo a que, cada dia que passa, o gol esteja se tornando um vaga impossibilidade. Times como a Inter de José Mourinho, ou a Inter de Helenio Herrera (da década de 1960) buscam em seus fundamentos não permitir o jogo alheio. Sua estratégia fundamental é a da redução dos espaços do campo, o da limitação dos movimentos dos oponentes. O jogo da Inter, seguindo seu DNA, é muito parecido com o funcionalismo da Bauhaus ou do minimalismo de Mondrian. Um jogo que prima pela exatidão e pela objetividade. Pela mecânica funcionalista da arte moderna contra um barroco tropical de times como o Brasil de 58.
Até ai não existe nenhuma novidade. Não foi esse time interista a inventar essa tradição no mundo da bola. A questão é que esse time montou esse esquema funcional, europeu, objetivo e minimalista, baseado na retranca e no contra ataque certeiro com jogadores brasileiros, argentinos, holandeses, croatas, ganeses…
A Internazionale de Milão foi o primeiro time a ganhar Liga dos Campeões sem um jogadorzinho sequer do próprio pais do time campeão (a entrada de Materazzi aos 46 do segundo não muda muito esse quadro).
Com uma defesa completamente sul americana a Inter foi campeã no melhor estilo da retranca italiana. Esse dado transcultural mostra que algo aconteceu ao futebol nas últimas décadas.
O futebol não ficou imune ao colapso cultural dos Estados-nacionais depois da segunda guerra mundial. Se o Estado-nação ainda é uma realidade política longe de ser superada levando em conta que as utopias federalistas do iluminismo ainda não se materializou, do ponto de vista das expressões culturais o mundo está cada vez mais misturado. O futebol mostra isso.
Não há mais identidade em campo. Os velhos perfis psicológicos que separavam os povos e que se expressavam através dos estilos de jogo caiu quando Brasil e França foram eliminados na copa de 1982 e depois, na copa do México, a Argentina de Maradona foi campeã com um 3-5-2 típico de times europeus.
O futebol anda sacrificando os aspectos mais românticos e peculiares de sua história no altar pragmático do esporte. Isso é um fato.
Mas não vamos nos lamentar pela vitória da Inter.
A alegria dos torcedores, perseguidos pelo fascismo de Mussolini nos anos trinta, depois de quarenta e cinco anos de fila, perdoam esses desvios estéticos que vez ou outra alucinam os apreciadores da grande arte.
3 Comentários para “Um futebol sem fronteiras.”
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Se o esporte tornou-se extremamente tático, não tem como não ter atletas extremamente físicos. O senhor tem razão, virou isso tudo sim. Acho que a mudança no estilo de jogo de vários países europeus ou da argentina, não se deve a globalização, somente. Talvez eu seja radical, mas vejo muita covardia nisso tudo: O medo. Em 1990, metade das seleções que disputaram a copa jogavam com 03 zagueiros ( com o tal do líbero), tudo isso imitando o estilo italiano de jogar com Maldini, Bergomi e Baresi, ainda tinha Costacurta e Scirea. Em 94, O Brasil tinha um falso líbero, Mauro Silva. Em 2002, usamos novamente o esquema com 03zagueiros. Atualmente, na Europa, as equipes jogam com 04 homens no meio campo, sendo que os homens do meio que jogam pelos flancos são chamados de ala (aqui no Brasil, ala é o lateral). Esses alas europeus modificam o esquema da equipe qdo tem a bola, pois tornam-se pontas e ainda recebem ajuda dos laterais. Ribery, Malouda, C Ronaldo, Nani, Pedrito, Maci Rodriguez, entre outros ocupam essas posições no futebol europeu.
A Inter jogava com um estilo ainda mais diferente: Eto’o sacrificou-se para que Schneider pudesse marcar menos e render mais com a bola dominada. Milito foi o atacante autêntico. Pandev (europeu do leste) jogava de centroavante na Lazio, atuou cobrindo lateral e armando o jogo. A equipe não tinha um lateral esquerdo nato, Zanetti teve que jogar ali. Samuel e Lúcio estavam quase rejeitados na Europa. O interessante era que a Inter jogou no estilo italiano sem ter um italiano sequer na equipe titular. A Inter deu muitos vacilos, mas o Milan não aproveitou, nem a Roma (infelizmente),digo no campeonato italiano. Na champions, apesar de jogar bonito demais, eu diria que o Barcelona não joga no estilo antigo e belo, joga no estilo futurista. Acho que seria utópico dizer, mas a meta dos treinadores seria fazer os times jogarem como o Barça, cheio de jogadores espanhóis da divisão de base,muitos medianos mas que jogam dando 02 toques na bola, fazendo com que todo o pragmatismo burocrático atual dos times fossem desconcertados. Creio que o time do Barça tem a arte antiga, mas um estilo futurista de jogar,em cima do adversário o tempo todo. Marca do mesmo jeito o tempo inteiro, tendo mais de 2 terços de posse de bola. O time ataca com oito jogadores e mesmo assim sofre poucos gols. Mesmo com essa soberba de talento Barcelonista, e com a escassez de italianos na Inter, o time da Itália vem forte,Di Natale e Pirlo prometem muito,éo estilo romanista que renasce de 04 em 04 anos, e o esboço foi espiritual e já surgiu na camisa da Inter de Milão.
Ah, quanto a frieza geral da população em relação à Copa, ela se deve ao estilo da seleção canarinho atual,mas também à época informatizada e digital que vivemos.Antes,sem opções de canais, assistíamos somente o Jornal Nacional e eramos enfervecidos pelas notícias exclusivas e estimulantes. Hoje, temos internet banda larga, tv a cabo e celulares moderníssimos que suprem alguma lacuna no nosso dia, e ainda nos fazem sentir uma sensação de prazer ao encontrarmos aquilo que queremos encontrar. Mas sem esquecer que falta um elo maior entre o povo e esse time tático, o time do MEDO. O medo de perder fez com que Dunga adotasse em nosso jogo um estilo meio ítalo-germânico, cheio de raça e mecanicismo eficiente.
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Legal essa sua definição Andrelucio, do estilo do Barça, um misto de old scool, dos velhos estilos românticos de ataque com uma pulsão tática e física do futebol do futuro, será uma releitura do futebol total da Laranja Mecânica? Não sei se você chegou a ver a edição daquela coleção com os filmes da FIFA, a de 1974 focaliza totalmente a final em que os holandeses perderam para a Alemanha, talvez a gente possa pensar em alguns paralelos…
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Vi sim, professor,e acho que o Barcelona tem uma herança holandesa, nem tanto pelas atuações de Cruif na década de 70, mas pelo que ele fez como treinador na década de 90. Guardiola foi seu jogador, e mostrou agora ser seu discípulo.
Vai começar a copa: “Os tambores na selva já começaram a tocar.”(Renato Russo), frase dúbia, não? Mas acho que pertinente para o momento que se aproxima.
Fique em paz e o senhor tem ótimos leitores no seu site/blog.
