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  • Pablo Capistrano
  • 30 de maio de 2010, as 6h06

LIVRO: A República de Platão (Uma Biografia)

AUTOR: Simon Blackburn.

TRADUÇÃO: Roberto Franco Valente.

EDITORA: Zahar.

ANO: 2008.

Fazer um curso de filosofia e não ler Platão é como jogar futebol e não conhecer Pelé; tocar viola sem se exercitado na frente de uma partitura de Bach; ou concluir um curso de cinema sem nunca ter assistido um filme de Stanley Kubrick.

Platão está para a filosofia como Freud para a psicologia, Euclides da Cunha para a literatura brasileira, Marx para o curso de ciências sociais. Não dá para arrumar um diploma sem passar por ele (para o bem ou para o mal).

Muita gente costuma a dizer, na alcova dos filósofos acadêmicos, que toda a história do pensamento ocidental consiste em notas de rodapé ao texto de Platão ou ao de Aristóteles (que foi seu aluno). Até hoje, quilômetros e quilômetros de linhas foram escritas sobre sua obra, ou construídas baseando-se nos elementos propostos por seus trabalhos.

Se Platão era ou não tão importante para a filosofia na época anterior à queda do império romano é difícil dizer. O fato é que quando Agostinho, bispo de Hipona converteu-se ao cristianismo através do neo-platonismo de Plotino o mundo ocidental nunca mais conseguiu se livrar de Platão.

Após romper com o maniqueísmo gnóstico, o bispo africano adaptou partes do pensamento platônico, ou pelo menos da tradição de interpretação platônica derivado dos chamados neoplatônicos para o cristianismo e criou as bases da platonização da igreja cristã. Nietzsche, uns mil e seiscentos anos depois de Agostinho, costumava a chamar a religião cristã de “platonismo para o povo”.

Se foi Platão ou não quem inventou o cristianismo é um tópico polêmico que talvez não seja nunca superado, mas o que não parece criar dúvidas é que A República é a obra de Platão que mais influência causou na consciência das massas.

Não é apenas pela “alegoria da caverna” passagem obrigatória para ser apresenta nos seminários de fim de bimestre da disciplina de filosofia no ensino médio, junto ao julgamento de Sócrates e a castração de Pedro Abelardo (ops… esse aí acho que não….).

A República é um dos livros mais influentes do ocidente. Não apenas por ser a primeira utopia (Gênero literário que procura descrever uma sociedade imaginária), repetida e parodiada por gente como o próprio Agostinho, Thomas Morus, Campanela e Skinner. A República traz alguns dos tópicos mais essenciais da filosofia do ocidente, além de poder ser lido como uma teoria estética, um tratado de metafísica, um ensaio sobre educação ou simplesmente como uma peça literária de um gênero dramático que lembra aqueles diálogos postos em programas humorísticos como “a praça é nossa”, onde duas ou mais pessoas conversam em frente às câmeras.

Por isso, se você estiver a fim de saber alguma coisa sobre esse livro e não quiser se aprofundar nos textos exegéticos de Schleiermacher, na leitura crítica, violenta e parcial de Karl Popper, na interpretação cínica de Leo Strauss, na visão religiosa de Rubenstein, no universo culturalista de Werner Jaeger ou na didática de Giovani Reale, pode procurar o livro de Simon Blackburn.

Esse é um livro sobre um livro. A série “livros que mudaram o mundo” trazem uma proposta muito interessante para o mercado editorial: construir uma biografia para os livros. A ideia da série não é fazer uma interpretação do livro em si. Não  se trata de mergulhar nas partes de um livro para torná-lo mais compreensível para o leitor, como é tradicional no mundo acadêmico. O que importa aqui é o entorno do texto, as circunstâncias da sua gênese, bem como os desdobramentos de sua repercussão.

Sobre a gênese de A República não há muitas informações exatas. Há muita mitologia em torno da vida de Platão e isso, a despeito de não fornecer elementos seguros sobre sua biografia, ajuda a enriquecer simbolicamente seu trabalho. Blackburn tem o mérito de não ser um platônico, ou pelo menos de não se reconhecer como um. Justamente por não se posicionar nem ao lado nem contra Platão sua leitura nos permite viajar pelas alegorias, pelas passagens mais famosas do livro, bem como por suas três grandes tradições interpretativas: a tradição mística (derivada da ideia da existência de uma tradição não escrita oferecida ao mundo moderno através das escolas neoplatonistas); uma tradição cientifica (derivada dos esforços de Friedrich Schleiermacher em agrupar e traduzir os diálogos de Platão direto do grego para o alemão) e uma leitura poética (que remonta a Al Farabi e que tem ecos importantes em Schelling e Nietzsche).

Essa viagem pelo entorno do livro não nos desvia, porém, de uma incursão certeira em algumas de suas passagens mais significativas. A disputa com Trasimaco, a expulsão dos poetas da cidade perfeita, as alegorias (o mito de Er, o anel de Giges e o famoso mito da caverna) estão presentes.     

Não sei se você gosta de filosofia, ou se já ouviu falar de Platão. O fato é que, mesmo que você não o conheça é possível que aqui e acolá seu pensamento seja possuído por algumas categorias desenvolvidas pelo trabalho de Platão.


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2007 ® Pablo Capistrano

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