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  • Pablo Capistrano
  • 14 de junho de 2010, as 8h08

Quando a gente publica artigos em jornais ou na Internet sempre se expõe a recriminações. Nesse tempo de euforia nacionalista, que vem sazonalmente em época de copa do mundo, levantar questões sobre a pertinência de se torcer ou não pela Seleção canarinho pode soar muitas vezes como uma espécie muito peculiar de imprudência particular.

O fato é que minha relação com a Seleção brasileira não é pacífica. Vou confessar… Torço mais pelo Flamengo ou pelo América de Natal do que pela Seleção. Com a Seleção meu amor é condicionado.

Eu sei que o Brasil mudou. Não vivemos mais no país da minha infância e essa não foi apenas uma mudança externa. Algo da intimidade cultural de certo Brasil utópico se perdeu esses anos. Nos tornamos mais tecnológicos, mais ricos, mais inseridos no mundo global, mais competitivos, mais agressivos, mais violentos. A violência, a propósito, que sempre existiu de modo latente em nossa constituição social, de vez em quando emerge na superfície de nossa experiência coletiva e nos leva a sermos mais defensivos, mais sisudos, mais desconfiados, mais sérios do que comumente gostaríamos de ser. Perdemos um pouco da nossa alegria, um pouco da nossa espontaneidade, um pouco de uma certa inocência crua que parecia costurar uma parte substancial de nossa sociabilidade.

Esse novo Brasil, rico, violento, competitivo, capitalista, objetivo e pragmático rivaliza um bocado com aquele Brasil romântico, da alegria e da vontade de viver que tanto seduzia o mundo. Eu sei… Eu sei… Você vai me dizer que essas são algumas das mitologias sociais que constituem os povos e que uma análise desse tipo não suportaria uma leitura sociológica rigorosa. Mas, com o perdão da expressão, de análises sociológicas rigorosas o inferno está cheio e eu não estou muito interessado nessa crônica no mundo das exatidões científicas.
Se a mitologia do Brasil romântico morreu nessas novas esquinas pós-modernas, ao menos no futebol, entre as linhas do campo, sempre que começa uma copa do mundo, sou possuído por certa saudade de um tempo utópico. Eu sou um daqueles que se frustra e se entedia profundamente quando vê que, também no campo, o pragmatismo competitivo se levanta e engalfinha o sentimento estético do mundo (nossa mais significativa marca cultural).

Observando a postura de Dunga com a imprensa, pensando na política de clausura a que os quinhentos volantes da Seleção estão submetidos na África do Sul, imagino que corremos, mais uma vez, o terrível risco de nos vermos reduzidos a uma lógica da retranca italiana.

Dunga é essencialmente um zagueiro. Ele carrega isso tão ligado à sua própria natureza que até em suas entrevistas a postura do zagueiro aflora de modo atávico. Dunga se adianta às perguntas dos repórteres e antes que as críticas apareçam, ele já se defende. Antecipar o ataque é uma das grandes artes cultivadas pelos melhores defensores em campo. Grandes zagueiros sabem prever o comportamento dos centro-avantes, dos laterais ofensivos e dos meias criativos. Eles precisam estar no canto certo na hora certa para impedir a jogada dos oponentes. Eles precisam antecipar-se para estancar o avanço inimigo.
Nossa seleção em 2010 é antes de tudo a seleção de Dunga.

Ela tem o seu perfil, a sua essência, o seu modo de pensar. Para quem não gosta de futebol e só assiste jogos na época da copa com o único objetivo de torcer pelo Brasil, nada disso faz muita diferença. O importante é a vitória, a festa, a cachaça e os inevitáveis feriados no meio de semana. Para quem gosta de futebol, para quem ainda sente saudades de um Brasil que não tinha medo da derrota, que não se curvava ao apelo pragmático das vitórias funcionais e que insistia em transformar nossa vida banal em um instigante e assustador exercício dramático, isso faz toda a diferença. A arte existe, porque a vida não basta. No mundo do futebol o Brasil existe porque a vitória não basta.


2 Comentários para “Porque a vitória não basta.”

  1. ANDRELUCIO RIBEIRO14/6/2010 às 11:07

    Olá, Pablo, como vai o senhor?
    Certa vez eu comentei aqui no seu site-blog sobre o estilo ìtalo-germânico de nossa seleção. Poi é, vejo que o senhor cita o Dunga na sua dissertação. Agora eu anexo uma história a outra, e lembro que Dunga jogou muita na Itália e na Alemanha. Na “Bota”, Dunga aprendeu como defender é o melhor ataque, e na Alemanha ele aprendeu ao pragmatismo total.
    O sentimento que o senhor descreve sobre a sua relação com a seleção é o mesmo de muitos, e é o mesmo dos africanos, atualmente?
    Africanos? Sim. Todos que lembram do futebol africano, lembram de irreverência, de dribles fantásticos e jogos abertos, cheio de variações. Pois bem, há um erro na administração do futebol daqueles países. Num lugar onde se tem crianças dotadas de uma capacidade de superação, que demonstram alegria em tudo o que faz (mesmo morrendo de fome e sede), que sabem driblar tanto quanto os brasileiros, os dirigentes tem acabado com a característica dos africanos, pois tem contratado treinadores europeus, vidrados em tática e defesa. Quem não lembra do Camarões de 90 e 94 de Roger Millar, ou da Nigéria (1998) de Amunike e Amokachi, depois veio Kanu. Em 2002,Senegal apresentou as unhas pra França,Uruguaie Suécia…Bouba Diouf era o grande nome. De 2003 pra cá, os países africanos estão descaracterizados no modo de atuar, contratam treinadores que pregam e adotam estilos burocráticos, que fazem o atleta se privar de seus dribles. Nas arquibancadas, ouvimos vuvunzelas e muitos gritos e danças, mas não vimos ainda a alma do povo africano. As teorias de um europeu cintura dura nunca irá se encaixar com a capacidade de improvisar dos africanos.
    Talvez por isso, aqui no Brasil não temos mais tanta ligação com a seleção canarinho, porque agora é seleção do Ricardinho (Teixeira).
    Por isso a imprensa fica revoltada com a expressão de que a seleção é a pátria de chuteiras. Sócrates, recentemente, disse que ao jogar pela seleção representava seu povo (mas não precisamente a sua nação). Para ele, representar o seu povo, seria o povo do Norte, Nordeste, o povo que bate pelada no fim de semana, o povo assalariado que via no futebol a ùnica forma de sorrir. Nas nossas categorias de base, os jogadores que tem 1,70 são logo descartados, são considerados baixos e fora do padrão europeu, não servirão pra ser negociados no futuro, será prejuízo pra o clube investir nele. A visão capitalista tomou conta e nocauteou o romance da bola. Na Argentina vem a contraposição, AGUEIRO, TEVEZ, DI MARIA E MESSI são jogadores baixos, menos de 1,70m de altura, porém são talentosos ao extremo, recheam os cofres dos clubes europeus. E a gente fica com os altos Felipe Melo, Júlio Batista, Gilberto Silva e Luisão.
    Esse sentimento de preenchimento não completo (Um download nostalgico) não é somente o senhor quem sente. Também sinto, também dói, também choro por dentro!

  2. Pablo Capistrano20/6/2010 às 6:44

    E veja, Andrelucio, que as seleções africanas estão batendo fofo na copa, um outro problema que eu vejo em relação a Àfrica é o fato de que a maiora dos jogadores de times africanos estão sendo recrutados ainda crianças, vendidos para a europa e formatados ao estilo de jogo europeu (ou melhor, o alemão ou o italiano). Curiosamente os times sul americanos estão começando bem, a Argentina, o Uruguai, o Paraguai que acabou de derrotar a eslovênia e por ai vai…

    È doloroso adimitir mas os argentinos (e até a Alemanha!) estão jogando um futebol mais “brasileiro” do que a seleção… uma lástima…

    mas vamos ver agora o jogo contra a Costa do Marfim… quem sabe o sobrenatural de almeida não aparece e muda alguma coisa nesse quadro desolador.

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2007 ® Pablo Capistrano

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