22 jun
Os gêneros da derrota
- 22 de junho de 2010, as 11h11
Eu não sou um cara muito ligado em esporte. Pratiquei seis meses de basquete no América e nadei um pouco, mas na escola preferia fazer as aulas de educação fÃsica a participar das equipes que disputavam os jogos estudantis. Na verdade nunca fui um cara muito competitivo, a não ser quando vez ou outra, derrapo em alguma vaidade intelectual que, a despeito de minha constante vigilância, costuma a me levar para o desagradável espaço do confronto.
Prefiro o diálogo e meu maior combate é mesmo contra os mortos. Velhos filósofos barbados, jovens poetas mortos cedo demais, mestres da narrativa, já canonizados pelas estruturas da crÃtica literária. No bom e velho esporte competitivo eu nunca me senti bem.
Sempre nutri certo constrangimento de vencer que me levava a pensar duas vezes antes de derrotar alguém até na Dama ou no Totó. Só os prepotentes, os arrogantes, me instigavam. Vencer os humildes e os ingênuos me causava certa vergonha, uma espécie de mal estar cristão que me levava a abrir mão de minhas próprias possibilidades e talentos.
Mas não vou encher o seu saco falando mais sobre minhas paranóias. Digo tudo isso porque estou aqui, escrevendo diante da TV enquanto a seleção de Portugal (minha segunda preferida na copa) humilha por sete a zero a ingênua equipe da Coréia do Norte. Nada aconteceu como no jogo clássico de 1966, onde a Coréia derrotava Portugal por três a zero, depois de bater a Itália e viu um genial Euzébio fazer quatro e virar a partida para nossos primos portugueses. Confesso que fico preocupado com o destino desses pobres jogadores norte coreanos. Em um regime como o de Pyongyang ser humilhado em uma copa do mundo pode não ser apenas uma questão que se resolve nas linhas do campo.
O fato é que, no futebol, existem derrotas e derrotas. Como o futebol é um jogo de poucos pontos há espaço muitas vezes para um tipo muito peculiar de indeterminação (a tão falada injustiça da bola). Por isso as derrotas, em tempo de copa, criam narrativas tão distintas.
Aristóteles apontou para um fato curioso sobre a tragédia e a comédia dos antigos gregos. Em ambos os casos a narrativa terminava do mesmo modo: alguém se lasca. A questão é que, na tragédia, quem se lascava era alguém admirável. Um homem superior, um nobre, um herói, um justo. A queda dos justos é sempre trágica porque eles são melhores do que nós e seu sofrimento nos comove. Sua queda nos leva a um tipo peculiar de catarse, de empatia que nos faz desabar no choro trágico. Na comédia, quem se lasca não é um justo, não é um virtuoso, um deus ou um herói. São os covardes, os bobos, os burlescos, os grotescos. A queda acomete aqueles que se mostram claramente inferiores, por isso o riso, a gargalhada, a exultante alegria dos que contemplam a derrocada dos ridÃculos.
Algumas derrotas, no mundo do futebol, são trágicas.
A derrota da Seleção de 1982 para a Itália de Bearzot é uma exemplo clássico de narrativa trágica no mundo do futebol. Ali caÃram os justos, ali morreram os heróis da última grande Seleção a jogar um futebol tipicamente brasileiro. Era como um anúncio fúnebre do fim de uma era romântica e de uma forma de ser de uma nação. Por isso choramos tanto a derrota de 1982.
Em 1990 (em uma das piores copas de todos os tempos – do ponto de vista técnico) perdemos para a Argentina depois de uma jogada de Maradona (que deixou o então jogador Dunga na poeira) e um gol de Cannigia. Aquela foi uma derrota cômica de um time que não tinha mais o mesmo apelo romântico das velhas Seleções. Lógico que ninguém riu (a não ser os Argentinos, é claro), mas a comédia estava ali, na ironia de se assistir uma Seleção tecnicamente medÃocre ser eliminada por uma Argentina mais medÃocre ainda. Aristóteles nunca assistiu a uma partida de futebol, mas se tivesse visto o jogo de Portugal contra a Coréia do Norte em 2010, talvez reformulasse sua teoria da poética grega, acrescentando mais um gênero de derrota: a constrangedora, a humilhante, a que nem faz chorar, nem faz rir, e que apenas deixa aquele gosto amargo na boca até mesmo dos que vencem.
