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  • Pablo Capistrano
  • 04 de julho de 2010, as 5h05

Não sou adepto de doutrinas polianescas, daquelas que justificam as misérias da vida com um discurso “poderia ter sido pior”. Também não acho, como o velho Leibniz, que este é o melhor dos mundos possíveis. Não precisei ler o Cândido de Voltaire para saber que, nesse mundo, nem sempre os justos são felizes e que muitas vezes os puros de coração são destroçados pelos canalhas. No entanto, tenho que admitir depois da eliminação do Brasil para a Holanda nas quartas de final dessa Copa: “poderia ter sido pior”.
Nós poderíamos ter ganhado essa copa! Sim, imagine o que aconteceria se o Brasil fosse campeão derrotando, por exemplo, a Espanha, ou a Alemanha!!

Conta-se nas crônicas do futebol que duas seleções foram responsáveis por um tipo de crime bastante conhecido no mundo da bola: “o futibocídio”. Em 1954, por exemplo, a maravilhosa seleção Puskas foi derrotada debaixo de chuva pelo futebol pragmático do alemão Fritz Walter. A Alemanha, aliás, que é a maior das futibocídas da história, uma espécie de serial killer do futebol arte, poderia ser vítima essa copa de seu próprio veneno. A Hungria de 1954, a Holanda de 1974, a França de Platini e Tiganá que encantou o mundo em 1982. Todas essas seleções foram vítimas do pragmatismo germânico, da mecânica de um jogo que parece com futebol e que surpreendentemente funciona. Nós, brasileiros, fomos vitimas de outro futebocida. Em 1982 fomos abatidos pela Itália de Paolo Rossi.

O catenaccio italiano, posto em prática em 2010 por uma cosmopolita Internazionale de Milão, e elevado a paradigma do futebol de resultados pelos obtusos da bola, foi, para nós, o grande carrasco do futebol brasileiro pós 1970. Os próprios italianos reconhecem seu estilo e assumem sua posição de carrascos do futebol arte. O escritor italiano Ignácio Taibo costumava a dizer: “o catenaccio é a antiliteratura”. Jogando com um zagueiro na sobra, atrás de um muro de quatro homens plantados na defesa, o estilo futibocida dos italianos se baseava na ideia de que um time precisa jogar sem a bola, marcando e reduzindo os espaços do oponente de modo a, em um vacilo, roubar a pelota e ligar um contra ataque rápido através de lançamentos longos ou da velocidade de seus laterais.

Qualquer semelhança com o futebol da seleção de Dunga não é mera coincidência. O Brasil esse ano abdicou de algo que os Argentinos e os Espanhóis (até, de certo modo, os alemães de 2010!!!) sabem muito bem o que é. O futebol sul americano se firmou no mundo com um conceito oposto ao dos futebocidas europeus: manter a posse da bola, tocar, tocar, tocar, defender com a bola nos pés e atacar sempre. Assim o Brasil foi tri campeão mundial (podemos imaginar também que a copa de 2002 teve muitos momentos desse velho estilo de jogar), assim perdemos a copa de 1982 e 1986 e assim o Brasil se formou uma Seleção mítica.
Construímos nossa literatura futebolística com esse tipo de poesia que hoje outros times parecem tentar imitar. Imaginem o que aconteceria se encontrássemos um time na final, jogando desse modo, e fossemos campeões contra nosso próprio estilo de jogo?

Em um futebol globalizado, em que as seleções se tornam todas iguais, flutuando em uma mesma mediocridade criativa e em uma covardia futebolística fundamental o Brasil sempre foi o diferencial. Nós éramos isso, nós tínhamos essa característica, esse romantismo que se configurava magicamente em nossos pés em resultados.

Há uma falsa discussão no Brasil, que diz que só há duas soluções para o futebol brasileiro: perder jogando como em 1982 ou ganhar jogando como em 1994. Essa é uma discussão suicida. Esquecemos que podemos de novo ganhar como em 1970. Cristalizamos 1970. Sacralizamos tanto aquela Seleção que acreditamos piamente ser impossível repetir aquilo. Esse é o nosso erro, a nossa mais desconcertante ironia: não sabemos mais como imitar a nós mesmos. Se a Seleção de Dunga ganhasse iriam surgir vozes na imprensa dizendo “O nosso futebol é prosa, não é poesia” (parafraseando o técnico italiano Giovanni Trapattoni).

Me chame de porco multicuralista, eu não me importo. Ser patriota não é torcer pela Seleção brasileira, ser patriota é torcer pelo futebol que se joga no Brasil, uma marca de identidade que nos faz ser aquilo que nós somos e que de vez em quando amamos nos esquecer.


2 Comentários para “Poderia ter sido pior.”

  1. Nivaldete Ferreira6/7/2010 às 10:34

    Olá, Pablo,sempre visito este seu site. Sobre futebol, só entendo mesmo é que a bola é (quase) redonda… Mesmo assim atrevi-me a escrever algo a respeito. Deixo o endereço. Se quiser fazer uma visita, ficarei feliz. Um abraço.
    http://lapisvirtual.blogspot.com/

  2. ANDRELUCIO RIBEIRO7/7/2010 às 6:44

    Concordo plenamente, mestre! Mas tbm não consigo me conter com a postura do Dunga. Ele foi ditador, não ouviu ninguém…e o pior é que não deixou legado algum. Os jogadores da seleção falaram que ficaram presos por 50 dias, talvez isso tenha sido um fator que ajudou o destempero fácil do time, em quase todos os jogos. Também falaram que Jorginho levou a família pra Africa do Sul, ao contrário de todos os outros. Era muita pregação e pouca versatilidade criativa nos discursos e no esquema. Vamos para 2014 com um time sem experiência em copa. Ao contrário do que dizem, temos sim matéria prima; Tiago Silva, David Luiz(Benfica), Ganso, Neymar, Wesley, PATO, André, Hernanes, Jean (SP), Adilson (Grêmio), Ramirez, Marcelo (Madrid), Maiconssuel, Maicon (Ex-Flu)… Mas os que disputaram a copa, dificilmente estarão em 2014, o que impedirá uma mescla. Robinho é dono de uma auto-crítica horrível, se acha super talentoso mesmo tendo falhado nos principais centros do futebol europeu. Nossa zaga estará envelhecida e não jogará uma 3a copa seguida. Os volantes, graças a Deus, não estarão lá. Kaká é um jogador de explosão, a idade vai chegando e os limites de seu futebol também. O problema pra nossos sonhos futebolísticos são a mentalidade dos dirigentes e a “sede alcólica dos atletas”. Ganso e Neymar já aprontaram há 35 dias atrás. Fred poderia ser útil, mas é boêmio. E essa geração tem outro problema: TODOS SE ACHAM CRAQUES MUITO RAPIDAMENTE, MAS NA HORA DO PEGA PRA CAPÁ, NÃO TEM NENHUM COMO ROMÁRIO OU RONALDO, TODOS SE ESCONDEM, PERCEBEM SEU REAL LIMITE.
    A esposa de Kaká falou, no mesmo dia da derrota para a Holanda, pelo twitter, que não era pra ninguem chorar por causa de 22 milionários…depois ela ainda foi pra o show de Claudia Leite. Isso tudo mostra que o comprometimento dos envolvidos, MESTRE PABLO. Com relação a copa do mundo e seus encantos, são coisas da gente, da nossa nostalgia, do nosso encanto por um esporte que nos infla e frequentemente nos leva a nossa infância, ao nosso sonho de menino. Neste esporte tão rico de dinheiro, e tão pobre de transparência, nós somos quase os ùltimos moicanos. Somos os índios que fogem do General Custer, somos os nativos da amazônia (sempre temendo uma atitude política que extingua seus lares). Não é que o futebol deixe de ter fãs, mas como um menino que tenha 11 anos hoje poderá cobrar do técnico de 2018, se ele nunca viu o bom futebol brasileiro? Se ele não viu paixão, se ele não viu um Zico chorar, ou um Romário falar e cumprir? Ele não vai ter parâmetros pra saber o que sentimos ao ver um futebol globalizado na forma de jogar. SUA FALA sobre a derrota ter sido benéfica foi perfeita, mas queira ou não, sentimos a derrota, talvez mais pela vontade do passado se repetir do que pela análise fria antes do jogo começar. E olhe que nem falamos sobre atitudes pontuais, cirúrgicas, que existiram na copa 2010. Muller fora da semifinal (creio) foi uma delas… Como prêmio por ter tirado o craque alemão da semifinal, o trio de arbitros do Uzbequistão ganhou o direito de apitar a semifinal Holanda e Uruguai, onde a celeste tem do que se queixar sobre algo, já a laranja não.

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