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  • Pablo Capistrano
  • 12 de julho de 2010, as 12h12

Nelson Rodrigues costumava a repetir em suas crônicas que ainda manteria a sua fé na humanidade enquanto, ao lado de um cadáver estendido na rua, surgisse, misteriosa e solidariamente, uma vela para guardar o morto.

Essa solidariedade na morte tem significados muito profundos e costuma a ser um dos mais evidentes sinais de humanidade. Nelson comentava que sempre que alguém caia morto nas ruas do Rio de Janeiro, quer por atropelamento ou por outra pequena catástrofe privada, surgia um desconhecido com uma vela na mão para iluminar o passamento do defunto.
Esse sinal sempre indicou a reverência dos vivos em relação aos limites da morte.

Todas as culturas têm rituais de sacralização e de respeito pelos cadáveres e isso é sinal de que as fronteiras da temporalidade são percebidas pelas pessoas e que os grupos humanos, de um modo ou de outro, dão à vida um significado especial. A vela, ao lado do corpo dos atropelados no Rio dos anos de 1950, nos leva a tempos arcaicos como aqueles descritos por Homero na Ilíada.

Existem passagens comoventes na literatura ocidental que mostram o peso do respeito aos cadáveres nas culturas humanas. Príamo, rei de Tróia, humilhando-se aos pés de Aquiles (assassino de Heitor) para que este devolvesse o corpo do seu filho. Antígona desobedecendo ao édito de Creonte e enfrentando a morte para poder cumprir a regra de enterrar o corpo do irmão. O almirante ateniense (não me recordo agora seu nome) que, conforme a descrição de Tulcides na História da Guerra do Peloponeso, foi executado após não ter permitido aos inimigos espartanos recolherem os corpos de seus mortos.

O respeito pelo corpo do morto é uma marca de fronteira, um limite poderoso entre o mundo que nós conhecemos e o abismo de incerteza que se avizinha de cada um de nós quando a morte se faz presente. Para um indivíduo, cruzar essa fronteira pode ser sinal de loucura, mas, quando uma sociedade, uma tribo, um grupo humano, cruza a fronteira da morte e do respeito pelo corpo dos defuntos então o sinal é de uma inquietante decadência.

Há pouco tempo uma imagem chocou parte do Brasil: turistas batiam fotos de uma paisagem carioca e nem se incomodavam que um saco plástico contendo um cadáver aparecesse no enquadramento. Não havia vela perto do morto. Aquela solidariedade metafísica era apenas memória no quadro lírico dos velhos cronistas. Havia um saco plástico envolvendo o defunto, isolando sua imagem dos passantes que o confundiam com um monte de lixo.

È comum que em tempos de guerra ou de grandes mortandades naturais os cadáveres não sejam tratados dignamente, mas em tempos de paz e de estabilidade ambiental o que justificaria um desprezo tão evidente pelos corpos dos mortos?
Nossa cultura cruzou algumas fronteiras nesses últimos séculos. Mergulhamos na estrutura profunda das forças da matéria e desempacotamos as energias ocultas da terra. Armazenamos, direcionamos, processamos e instrumentalizamos essas energias e os mistérios antigos dos velhos deuses se calaram lentamente. Hoje, até aqueles que se dizem crentes transformam Deus em um corretor de automóveis importados e estão boiando nesse vazio ontológico.

É difícil encontrar significado na morte porque não temos mais aquela força poética para emprestar algum tipo de significado para a vida. Um cadáver é só um punhado de carne em decomposição por isso pode ser esquartejado, desossado, jogado aos cães, concretado embaixo de algum piso, queimado ou embalado em plástico e deixado junto com o lixo em alguma paisagem de uma grande cidade. O caso do goleiro Bruno é sintomático desse estado de displicência para com os significados da nossa própria humanidade.

O mais terrível nessa história sinistra é que ela não é um caso isolado. Parece que está passando o momento de reaprender as lições dos antigos para que vida e morte não continuem a se dissolver nesse balé sinistro de um tempo que está apagando os sinais de sua própria humanidade.


3 Comentários para “O povo que matou a morte.”

  1. ANDRELUCIO RIBEIRO12/7/2010 às 14:37

    A jovem que morreu era filha de um pai que estuprou a outra filha, irmã de Eliza. Eliza também fez cerca de 03 filmes da indústria do sexo. Fazia programas tops, era acompanhante e fazia sexo por dinheiro alto. Tudo isso foi usado pra minimizar o valor da vida da mulher que viu no filho, a chance de sair dessa vida “desgraçada por natureza”. Esses valores metafísicos,citados pelo senhor, antes tão utilizados e valiosos em nossa sociedade estão sumindo,as pessoas cometem os crimes e buscam na vida da vítima algo que mostre desvalorizá-las como ser humano. O que temos hoje são justificativas cruéis, ações desumanas, uso do poder, do dinheiro, da fama em pról de denegrir até quem já morreu…e não tem mais como se defender. Este crime do goleiro Bruno, demonstrou tudo de ruin que se pode existir. Primeiro, a ausência de humanismo da parte dele, que agiu como se nada soubesse, que matou a amante diante do corpo e espírito de um bebê bastardo de pai e agora òrfão de mãe. Segundo, o modo como a Polícia tratou o caso parecia um filme de Hollywood; Delegado dando uma coletiva sem organização, sendo invadida pelo advogado do réu. Perguntas sempre respondidas com sarcasmo, sem objetividade e precisão. Um gasto público imenso com viagens de uma jurisdição a outra. A justiça se ausentou desde o início e deixou que, mais uma vez, o espetáculo acontecesse. Falo isso porque existem duas formas de ver o caso; Ver que um rico tbm é preso ou ver que um preso, ainda não julgado, pode ser exposto gratuitamente sem segurança alguma da justiça. Como assim? Os carros policiais paravam distantes dos distritos policiais uns 100 metros, tudo pra que o “criminoso” desfilasse em um corredor para a imprensa e para um grupo de pessoas que poderiam matá-lo, seja com um objeto alçado pra um fim menor ou com um tiro mesmo. Acho que este tipo de caso, deveria ser exposto com ênfase,mas mostrar coisas que deveriam ser melhoradas. Falar sobre a vida da vítima, mostrar como nossa educação está ruin, como a justiça é falha…pois ela prestou queixa e foi ignorada pela polícia, seriam mais proveitosos. Mostrar como esses atletas de futebol são criados pra uma vida de poder, que eles não possuem instrução pra tal vida. Ganham 20vezes mais do que um desembargador, ganham 60 vezes mais do que um professor universitário eficiente. Este tipo de caso precisa ser explorado e externar fortemente a real situação de nossa sociedade, NOSSO DESCASO POR EDUCAÇÃO. Daqui à 15 dias, quase ninguém falará mais nisso pq será preso outro covarde, outro e outro. Os sucessivos fracassos mostram e são criados pelos expressivos descasos negligenciais de uma sociedade cancerígena. As células se contaminam sem ninguém perceper, ou fingem que não percebem, e se decompõem através de expoentes enfermos. Renato Russo diria: “Vamos celebrar a estupidez humana, a esutpidez de todas as nações, o meu país de assassinos, covardes, estupradores e ladrões. Vamos celebrar a estupidez do povo, nossa polícia e televisão, vamos celebrar nosso governo e nosso Estado que não é nação, celebrar a juventude sem escola, as crianças mortas…”
    Nelson Rodrigues dizia que o cara faz as coisas e não é punido, faz mais coisas e novamente não é punido…até que ele se acha no direito do erro maior:Matar. É assim que as coisas acontecessem com os jogadores de futebol no Brasil. Me arrisco a dizer que este caso foi descoberto, mas existiram casos em que nem desconfiamos dos mandantes.

  2. Sheyla Azevedo14/7/2010 às 9:35

    para valorizar a morte é preciso que se valorize a vida: boa reflexão essa, caro amigo. bom para o meu dia caduco e cheio de atribuições comezinhas. bom para todo tempo.

    a propósito: to com saudades demais da conta de você (da família toda).

    Um cheiro (na família toda), S.

  3. Pablo Capistrano14/7/2010 às 10:10

    Pois é Sheyla,
    vida e morte fazem parte de um mesmo pacote biológico a que a gente está submetido nesse mundo.
    A falta de significado de um leva a falta de significado do outro também.
    Por enquanto estou aqui nesse fim de semestre, sabe como é, fim de semestre para professor é igual a véspera de eleição para candidato…

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