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  • Pablo Capistrano
  • 13 de julho de 2010, as 17h17

 

Entre as pessoas que resolvem passar algum tempo de suas vidas assistindo a uma partida de futebol, nos estádios ou diante da TV, existem aquelas que apenas torcem (uma ampla maioria), as que gostam de verdade de futebol (uma parte bem menor) e os que realmente entendem o jogo (uma minoria).

Eu, humildemente me situo no segundo grupo. Não sou muito de torcer, a não ser pelas minhas obsessões (o Flamengo e o América de Natal), por isso, quando a partida final da copa do mundo de 2010 começou não tinha preferências definidas. Poderia dar Holanda, por uma questão de justiça histórica (afinal, não foram os holandeses as vitimas de um dos mais covardes futebocídios da história dos mundiais em 1974?), mas poderia também dar Espanha, pelo futebol jogado durante esse mundial.

Não consegui chegar aos trinta minutos do primeiro tempo com essa atitude contemplativa. Antes que o juiz pudesse sinalizar o intervalo eu já estava praguejando e pulando no sofá. A Holanda me ajudou a torcer com toda força pela vitória da Espanha.

É realmente triste perceber que essa Holanda, com seu joguinho Caratê Kid, abriu mão do futebol na última partida da copa. Teve receio de perder o jogo e não ser campeã mundial mais uma vez. Muito se comparou o time holandês a Seleção brasileira de 1994. Os adeptos da equação que afirmava ser impossível ganhar como em 1982 ou perder como em 1994 devem ter torcido muito pela Holanda nessa final.

Mais preocupada em não deixar a Espanha jogar do que em colocar em campo seu próprio futebol, a Holanda das tradições de Cruyff, Johan Neeskens, Resenbrink, Marco Van Basten e Rudi Gullit fez feio na final. As velhas seleções holandesas que jogavam um futebol articulado, de toque de bola e de habilidade técnica poucas vezes vistas na história das copas foram substituídas por uma Holanda que batia, travava o jogo, fechava os espaços e rifava a bola em cronta-ataques.

O objetivo da seleção de Bert van Marwijk parecia ser o de segurar o zero a zero e levar a decisão para os pênaltis para repetir o jogo que consagrou o Brasil de Parreira, Dunga e Romário em 1994. O problema é que a Holanda não notou que a história já havia produzido, no mundo do futebol, mais uma de suas viradas.

Na EURO de 2008 a Espanha havia sido campeã jogando um futebol ofensivo, que privilegiava o toque refinado, a posse da bola e o ritmo da partida, como nos bons e velhos combates das seleções brasileiras até 1986. A Holanda não entendeu que a longa noite da bola, iniciada em 1990 e estendida aos trancos e barrancos até 2006 (onde uma Itália e França coroaram na final uma copa muito pouco vistosa), estava encerrada.

A Argentina, a Alemanha, o México, o Chile, o Uruguai e, fundamentalmente a Espanha, cada um a sua maneira, com o material humano que tinham a disposição, apontaram para um retorno de um futebol mais ofensivo, mais aberto, mais jogado. Um futebol que traz de volta, segundo alguns entendidos, o 433 das velhas batalhas românticas de um tempo em que o jogo de bola se parecia mais com arte.

A história foi cruel com a Holanda: derrotada com glórias quando deveria ganhar, derrotada para si mesma quando deveria perder.

Ironicamente foram Johan Cruyff e Linus Mitchel (respectivamente o gênio e o técnico da seleção holandesa de 1974) que levaram para o Barcelona a ideologia do futebol refinado, da primazia da técnica. Um futebol que cresce com a compulsão quase rococó do toque de bola no meio de campo, do domínio do jogo, da mentalidade estranha de um time que pensa que gols são feitos para transcendência e de que jogadas feias não se justificam, não importando o resultado que oferecem.

As estatísticas enganam. O fato da Espanha ter sido campeã com o menor número de gols da histórias das copas não explica o futebol da Fúria. A Espanha finalizou muito nessa copa, teve o domínio do jogo na maioria das partidas. Destruiu a Alemanha em uma partida em que os germânicos, avassaladores em sua fúria ofensiva e sua objetividade minimalista passaram 26 minutos sem conseguir dominar uma bola ou articular uma jogada decente.

O futebol da Espanha é Barroco, redondo, floreado sem a objetividade neurótica dos times covardes, obcecado pela perfeição de uma jogada que nunca pode se completar. È um time romântico e aparentemente inviável, jogando um futebol impossível.

Cruyff, que criticou o Brasil de Dunga bem como a Holanda de Van Marwijk, ensinou o Barcelona a importância de um meio de campo habilidoso e de se jogar com classe. Foi justamente essa classe e esse meio de campo que fecharam o caixão da Holanda na única partida em que a laranja (já não tão mecânica e muito pouco mágica) perdeu nessa copa. Espero, sinceramente, pelo bem do futebol, que essa vitória espanhola ponha também um prego no caixão daqueles que acham que qualidade e beleza não criam campeões. Pelo bem do futebol e pela esperança de que a arte ainda possa prevalecer sobre a lógica seca e sem vida dos burocratas do esporte.


4 Comentários para “No futebol do impossivel.”

  1. ANDRELUCIO RIBEIRO21/7/2010 às 6:00

    Olá, Pablo! lembro que certa vez conversamos sobre o esquema tático atual, inclusive foi neste site. Aí, eu dei uma sugestão sobre o futebol do futuro, e citei o Barcelona, que não chega a perder 06 jogos numa temporada completa. Além disso, o Barça domina seus adversários jogando em casa ou fora dela. E o senhor disse que realmente seria um desafio grande que os treinadores teriam em implantar este tipo de jogo. Sim, é verdade, até porque não há tantos times com capacidade de ter tantos talentos juntos, dizem os que gostam superficialmente do futebol. Mas a Espanha aproveitou as características de seus atuais jogadores e não inventou, usou o que tinha de melhor (E olha que Torres estava mal, vinha de contusão). O novo treinador da Inter de Milão, disse que vai utilizar um modo de jogar parecido como o do Barça, pois entende que possui atletas pra tal…já é um bom começo sobre nossa teoria, hein?
    Na Inglaterra, Arsene Wenger(melhor treinador françês) já faz o Arsenal jogar ofensivamente, talvez por isso ele não obtenha o campeonato há anos, dizem os críticos ingleses. Sempre haverá um lado que prefere o título sêco( como Marwick ), e sempre haverá aqueles que preferem a arte, a poesia de um atleta de futebol. Sobre as equipes não possuírem tantos craques pra jogarem como o Barça, é fácil responder a isso; ” Trabalhar forte nas divisões de base. Iniesta, Xavi,Piqué, Puyol, Messi, Pedro, Bojan, Busquets,Valdez, todos foram produzidos no clube catalão. O Santo André, que disputou o paulistão 2010, é um forte exemplo de talento e trabalho garimpeiro. Há alguns anos, o Santo André foi campeão brasileiro e fez um bom brasileirão B. Alguns foram jogar em clubes grandes, Richarlysson no São Paulo, e Willians no Fla, conquistaram o brasileirão como titulares e representam duas equipes vencedoras do Santo André. Este ano, Bruno Cezar parece ser o melhor, o mais articulador da equipe do Abc, que vai brigar num time grande; o Corinthians.
    Citei este exemplo, pq o Santo André não tem mais dinheiro e recursos do que o Palmeiras, Flamengo, Atléticos, e mesmo assim vem ao londo dos ultimos 06 anos produzindo exemplos, não seguidos no nosso futebol. Qual o melhor jogo do ano? Para mim, os jogos entre Santos e Santo André, onde o futebol prevaleceu, onde observamos jovens imitarem lances de Rivelino, de Tostão, de Mané. Para que o futebol seja resgatado, na forma do talento que nos fez sentir amor por ele, é necessário que a figura do treinador seja minimizada no espetáculo. Rubens Minelli, Telê, Ênio Andrade e Cilinho, se tornaram ícones porque criavam talentos, porque investiam nos atletas ensinando-os o “beabá”(entendam fundamentos e a vida como é curta no esporte). Os treinadores de hoje são metidos, gostam de falar em Nó tático…o que é isso? Se os atletas não decidirem em campo, não é o treinador que decidirá, a importância dele é pedagógica na semana, e para isso precisa mostrar aos atletas que conhece,que sabe produzir. A imprensa tem muita culpa nessa hipervalorização do treinador do Brasil. O próprio Felipão, endeusado pelo penta, cometeu crimes ao futebol naquela convocação. Ele poderia levar três talentosos meias e abandonou dois pra levar o mais fraco dos três, Djalminha e Alex ficaram de fora, preteridos por Ricardinho. Juninho Pernambucano nem passou perto, Juan foi esquecido pra que outros cinco zagueiros fossem levados, Polga o substituiu. A imprensa criou estilos de treinadores, caras machões, mal educados, bairristas. Os dois ùltimos excelentes times do Vasco eram repletos de baixinhos, em 97 tinha Felipe (que tinha tanto talento quanto Messi, sabiamos o lado que ele driblaria e mesmo assim driblava, era técnico e dominava os fundamentos todos, faltou cabeça), tinha Pedrinho, Maricá, edmundo, e ainda Mauricinho no banco. Em 2000, o Vasco tinha Romário,Euller, Juninho Paulista, como expoentes. Cito isto pq a Espanha é repleta de jogadores baixinhos, característica ue os treinadores brasileiros passaram a excluir dos seus times, inclusive nas divisões de base, pois visam atletas altos e fortes(mesmo sem talento brasileiro) para uma futura negociação. Tudo isso a imprensa deixa passar despercebido, deveria aproveitar o time da Espanha pra tentar puxar a orelha do meio futebolístico, são oportunidades raras que a sensibilidade da imprensa deveria aflorar e aproveitar, seria um não aos treinadores estúpidos, ao dirigentes hipócritas e ao anti-romantismo. É a minha opinião, foi extensa, me desculpe, mas foi a oportunidade que tive para externar aquilo que sinto, que vejo, e corroboro com o senhor sobre a falta de magia no nosso esporte preferido, lembrando que basta colocar emoção e o jogo fica inesquecível, quem vai esquecer do gol dos Eua na ultima rodada da 1a fase, aos 47 minutos do segundo tempo? Eles fizeram aquele gol pq os Deuses do futebol premiaram quem mais evoluiu no esporte, quem mais tem criado um estilo próprio de jogar, onde até os volantes(Bradley, principalmente) sabem jogar com a bola.
    Abraço forte!

  2. ANDRELUCIO RIBEIRO21/7/2010 às 6:13

    Ah, nada contra jogador alto, pelo amor de Deus! Apenas cito que a história mostra que os atletas baixinhos conseguem ser tão habilidosos quanto rápidos,completos; Maradona, Zico, Messi, Rivellino, Romário, Aguero, Xavi, Iniesta. Além disso, no nosso país a média de altura não é tão alta, apesar de ter crescido bastante. Dessa forma, como buscar numa minoria a matéria prima ideal? Acho que é mais fácil trabalhar bem na base, identificar quem tem talento(eventualmente pela proporção da população, os mais baixos aparecerão). O que acho errado é vç preterir um talentoso por ser baixo e preferir um alto, esquecendo o talento e visando um lucro capital, mas uma imensa perda da essência nossa.
    É como se o poeta abandonasse sua visão, sensibilidade, opinião e reclusão periódica…e quisesse escrever apenas quando o pagassem, apenas por fim lucrativo, ele perderia a alma, e seria um combatente de si mesmo.

  3. Pablo Capistrano22/7/2010 às 15:41

    Pois é Andrelucio, não sei se voc~e prestou atenção mas na final da copa houve um lançe que Iniesta se esgueirou por debaixo do braço de dois monstrengos holandeses, acho que a jogada não deu em nada mas valeu a pena ver que não se trata de força física e que a habilidade ainda pode ser a pova dos nove.
    esperteza, habilidade e talento sempre foram para nós brasileiros baixinhos um sinal de virtude no mundo do futebol.

    Em relação a questão da defesa e do ataque gosto de pensar como Socrates (o jogador, não o filósofo, eh eh eh) um time para ser campeão precisa defender como um time pequeno e atacar como um time grande (não sei se foi o Sócrates que disse isso mas é legal pra caramba).

    esse equilibrio a Espanha tinha, não sei se você lembra do jogo contra a Alemanha, como a equipe da Espanha se rearrumava em campo para defender-se dos ataques alemães, uma aula…

  4. ANDRELUCIO RIBEIRO24/7/2010 às 14:58

    Sim, professor! Eles em vez de correrem como loucos pra evitar contra-ataques, eles pressionavam desde o campo de ataque, em especial o lado que estava com a bola. Explico melhor: Qdo a Alemanha roubava a bola e tentava armar um contra golpe, os jogadores espanhóiis que estivessem mais próximos do alemão com a bola, mesmo no campo de ataque, se agrupavam rapidamente. Eles cercavam o detentor da bola, fazendo com que não houvesse chance dele progredir, e não faziam faltas. Além disso, eles sabiam, pois estudavam, qual o adversário que era mais fácil de pressionar e roubar a bola, assim eles poupavam um trabalho defensivo, pois atuavam defensivamente no campo de ataque. Com tudo isso, se mantinham ofensivamente, dominavam a posse da jabulani, e sufocavam o adversário. Detalhe: Qdo os adversários iam cobrar um tiro de meta, havia uma troca no meio campo, apenas temporária. Sergio Ramos fechava pra o meio, pra ganhar a bola aérea, e Pique se adiantava, pois assim era mais fácil ganhar a chamada segunda bola. Pique é alto, vem de trás, ganhando impulso, e esse trabalho era feito do outro lado com Puyol e Capdevilla. Com isso, Xavi e Iniesta não precisavam disputar a segunda bola, pois nunca ganhariam e só iriam se desgastar. Se Torres estivesse bem, Ou Messi fosse espanhol, e o lateral esquerdo da Espanha fosse Marcelo(Real Madrid) tinha sido um chocolate muito grande, muito mesmo.

    Outro detalhe: As cobranças de escanteios nunca eram fechadas, o time era baixo, portanto cruzar na marca do penalte era mais prudente, até pq se houvesse um corte, o rebote era sempre espanhol, já que colocava apenas os 04 altos na área, e o resto ficava com o rebote, quase sempre.

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2007 ® Pablo Capistrano

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