- 16 de julho de 2010, as 17h17
LIVRO: COMPREENDER PLOTINO E PROCLO
AUTOR: CÍCERO CUNHA BEZERRA
EDITORA: VOZES
ANO: 2006
Se você tinha mais de quinze anos e morava em Natal no final dos anos noventa talvez se lembre do Cícero Cunha. Ele tocava violoncelo no grupo Brebote. Para quem não viveu aqueles anos, o Brebote foi um acontecimento musical que mexeu com a cidade entre 1996 e 1998 e o Cícero estava lá, trazendo um pedaço da tradição musical do ocidente para se misturar com o teatro popular, com os ritmos nordestinos e com a performance inspirada de um Isaac Galvão em pleno furor criativo.
E se a viagem era a tradição musical do ocidente nada mais justo do que reencontrar Cícero, anos depois, através de um livro que retoma um capítulo fundamental da história do pensamento ocidental.
Para quem não sabe, além da música, Cícero dedicou-se ao estudo da filosofia antiga. Primeiro aqui na UFRN depois em Salamanca, Barcelona e Milão. Hoje ele é professor de filosofia Antiga e Medieval na Federal de Sergipe.
E foi com justiça que a editora Vozes chamou Cícero para escrever o Capítulo sobre Plotino e Proclo da série Compreender. Talvez você nunca tenha ouvido falar sobre esses caras porque eles passam um pouco longe da fama de Sócrates, Platão ou Aristóteles. Se os filósofos fossem músicos de rock a gente poderia imaginar Sócrates como Bob Dylan e Platão e Aristóteles como os Beatles e os Stones da filosofia (respectivamente), tal é a sua popularidade extra-muros acadêmicos. Se assim fosse Proclo poderia ser o MC5 e o Plotino estria mais para um Iron Butterfly ou um Tim Buckley. Quando se fala em filosofia esses pensadores do platonismo tardio estão para o universo do pensamento como os filmes de Werner Hezog ou Reinner Werner Fassbinder para o mundo do cinema cult.
Cícero explora com muita firmeza a filiação do neo-platonismo desses autores as chamadas doutrinas não escritas de Platão. Não sei se você sabe, mas existe um fla-flu filosófico acerca de Platão. Parte dos estudiosos de filosofia antiga admite que Platão teria ensinado alguma espécie de doutrina não escrita aos alunos de sua Academia e que essa doutrina teria sido preservada por quase mil anos até que autores como Plotino e Proclo teriam resolvido registrá-la de forma escrita. O neoplatonismo seria assim uma filosofia herdeira da tradição de Platão e não uma invenção da antiguidade tardia que teria criado uma doutrina nova sobre o cadáver dos antigos mestres de Atenas.
Se Proclo e Plotino eram mesmo herdeiros dessa doutrina eu não sei, mas parece que a impressão que eles deixaram na sua época foi bem forte. Porfírio costumava a descrever Plotino como um homem de um olhar tão intenso que era capaz de perscrutar a consciência alheia. Muito se falava também do seu poder de concentração e segundo os relatos antigos ele ordenava todo o pensamento antes de escrever, de uma tacada só, suas ideias.
Uma das linhas de interpretação da filosofia neoplatonica é a de que ela reteria o aspecto místico do platonismo, que algumas vezes poderia passar batido para algum leitor apressado dos Diálogos. A ideia de Uno, que vincularia todas as coisas particulares em um “nada que tudo é” estaria presente de modo latente nos diálogos de Platão bem como a imagem do regresso das formas múltiplas dos entes em direção ao Uno. Nesse sentido o conceito de emanação que de uma tacada só salvaguardaria a unidade do cosmos, diluiria as fronteiras entre espírito (visto como uma forma mais sutil de matéria) e corpo e de quebra ajudaria a descrever aquilo que se entende por “vida espiritual” seria a grande contribuição do neoplatonismo para o ocidente. Tudo isso embalado por uma noção de exílio da alma no mundo da multiplicidade das coisas.
Homero foi o cara que melhor cantou aquilo que os gregos chamavam de nostalgia (nostos – lar; algos – dor). Uma dor pelo lar abandonado transpassava o coração de Ulisses perdido pelo mar antigo, longe de sua casa em Ítaca. Do mesmo modo, os pensadores neoplatonicos entendiam a condição do homem como a de um doloroso exílio. Um afastamento do nosso lar original, de nossa unidade perdida pela consciência que ganhamos ao mergulhar no mundo múltiplo das coisas.
Para escapar das misérias dessa dor poderíamos lutar pela recuperação de um bem perdido, em busca de uma presença divina, de uma estranha experiência de unidade que não se consegue transmitir pela linguagem e que não se encontra de modo ativo, mas com a paciência dos que sabem contemplar, como anunciou o próprio Plotino: “Por isso, não é necessário andar em sua busca, mas, aguardar serenamente até que apareça”.
Cícero aponta que muitos autores consideram Proclo como um dos pais da teologia na medida em que ele se espanta com a linguagem cifrada do Timeu (um dos mais estranhos diálogos de Platão) e passa a pensar em Deus não como um ente superpoderoso, uma espécie de senhor do mundo ou Rei do universo. Proclo abriu caminho para uma tradição medieval que identifica Deus com um principio imutável de ordenação do cosmo, que rompia com os velhos modos de se enxergar o divino no mundo antigo.
Há muito de neoplatonismo por ai hoje. Na Kabbalah, nas tradições teosoficas e esotéricas derivadas de gente como Madame Blavatsky, no misticismo cristão, na viagem bicho grilo da nova era, nas seitas espiritualistas que resgatam as velhas narrativas de exílio e as preenchem com uma pitada de ficção cientifica misturando velhos deuses à extraterrestres e cataclismos atlânticos.
O legal de voltar aos antigos, especialmente pelo texto de pessoas como Cícero Cunha, que consegue fundir o sintético ao profundo, é que começamos a suspeitar que na verdade, na verdade, a gente nunca foi assim, tão modernos quanto pensamos ser.
