- 06 de agosto de 2010, as 12h12
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LIVRO: AS MELHORES SELEÔES ESTRANGEIRAS DE TODOS OS TEMPOS.
AUTOR: MAURO BETTING
EDITORA: CONTEXTO
ANO: 2010
O melhor perÃodo para se comprar livros sobre futebol é depois de uma copa do mundo, especialmente quando o Brasil perde.
Geralmente, nos dias que antecedem a abertura da competição mais importante do futebol mundial as prateleiras das livrarias são invadidas por tÃtulos que tratam dos mais variados assuntos relativos ao mundo da bola. Tão logo a copa acaba, e o Brasil decepciona como vem fazendo nos últimos anos, começam as promoções dos tÃtulos encalhados.
No meu caso, gosto particularmente dos que tratam da história dos mundiais. Lembro que em 1986, comprei um livro que trazia o resultado de todos os jogos de todas as copas. Foram meses de deleite reproduzindo, no jardim da casa dos meus pais, lá na Cidade Jardim (Bairro próximo ao campus da UFRN na zona Sul de Natal) os gols e as histórias de todos os jogos. Eu costumava a reencenar esses jogos sozinho. Tinha apenas uma bola, um gramado verde e dois coqueiros perto da garagem que eram as traves e a minha imensa imaginação. Ali, naquele microcosmo, reconstruÃa a narrativa de todos os jogos em um misto de literatura e teatro. Refiz várias vezes a final de 1974, imaginando os lances e reproduzindo a decepção Holandesa. Imaginei um Brasil campeão em 1970, a polêmica vitória da Inglaterra contra a Alemanha na final de 1966, os primórdios do esporte nos tempos sombrio do Fascismo de Mussolini. Eu passava as tardes lendo as descrições das partidas nesse livro e tentava imaginar os lances dos jogos que nunca vi.
Naquele tempo, sem Internet, achar imagens de velhos jogos era algo raro. Muitas das partidas que eu li, reconstruÃdas nas linhas daquele velho livro que o tempo me levou, só pude visualizar muitos anos depois, em alguma sessão nostálgica nos canais de TV especializadas em esportes.
Quando vi na prateleira, a capa do livro de Mauro Beting sobre as grandes seleções estrangeiras fui tomado pela saudade daquele livro velho e daquela bola que costumava a rolar em um jardim que não existe mais.
Sabe, é difÃcil aceitar, aqui no Brasil, que existem outras seleções geniais. Geralmente os brasileiros, acostumados a pensar que são, ao menos no futebol, inexpugnáveis, nunca imaginam que uma outra equipe pode ultrapassar a nossa Seleção. Perdemos sempre para nós mesmos. Não imaginamos que a Holanda de 1974, a Itália de 1982 ou mesmo a França de 1998 pudessem nos superar. Encontramos o tempo inteiro razões endógenas para o nosso fracasso e subestimamos, muitas vezes, a função pedagógica da derrota.
Por isso o livro de Betting é fascinante. Ele acompanha a formação dessas grandes seleções, cada um dos jogos das copas, descrevendo os lances, os arredores do jogo e se atendo com detalhes a formação tática das equipes em cada partida. Ele descreve o que aconteceu com cada time após a copa e faz um pequeno extrato biográfico dos grandes craques do passado.
A Inglaterra de 1966, a Itália de 1982, a Argentina de 1986, do maestro Maradona, e a França de Zindane. Todas seleções campeãs, cada uma com sua história, cada uma com sua contribuição para o universo narrativo do futebol. Da copa de 1974, Betting extrai duas das maiores equipes de todos os tempos, a Holanda de Cruyff e a Alemanha de Beckenbauer. Aquela final, que ocorreu quando eu tinha mais ou menos seis meses de nascido, foi a única que mereceu, no livro de Betting duas descrições, sobre o ponto de vista dos que venceram e dos que perderam.
Uma história como a da Alemanha e da Holanda em 1974 mostra como é possÃvel transformar um jogo em grande narrativa. Se você não acredita que os arredores de um jogo, que os movimentos de uma seleção em copa do mundo podem se transformar em arte oferecendo um terreno fértil para as comoventes histórias humanas, basta assistir o filme alemão O Milagre de Berna que fala sobre a final da copa da suÃça em 1954.
Naquele jogo o revolucionário time de Puskas, Kocsis e Hidegkutti, perdeu para a Alemanha de Fritz Walter debaixo de uma chuva miraculosa. A Hungria de 1954 mostra que a vitória não basta para fazer com que uma seleção de futebol se torne canônica. Aquela Hungria, segundo Betting, era como o Santos de Pelé na década de 1960. Buscava incessantemente o gol. Aquela foi a primeira seleção a quebrar o rÃgido modelo tático inglês do WM (3-2-2-3). Jogando em um 424, a Hungria movimentava os homens de meio campo, que à s vezes recuavam para duplicar a força da zaga e as vezes subiam para reforçar o ataque.
São essas seleções, essas revoluções, essas impossibilidades, essas loucas narrativas dramáticas, épicas, trágicas que fazem com que as copas do mundo sejam tão fascinantes. Vencer, para o tempo e para a história, é apenas um detalhe. No cânone do futebol os fins não justificam os meios. São justamente os meios que eternizam as equipes e fixam suas marcas na memória afetiva dos homens.
