14 ago
A hora da verdade.
- 14 de agosto de 2010, as 8h08
Fiquei alegre quando vi o primeiro jogo da seleção de Mano Menezes. Me reconheci naquele futebol. Era como se aquela forma de jogar desse alguma esperança de que algum extrato da forma de pensar de meus conterrâneos pudesse ser mais uma vez, expressa em forma de futebol.
Até tive vontade de vestir uma camisa da Seleção na quarta feira (coisa que não me ocorria desde 1986).
Paradoxalmente, assistir o jogo do Brasil contra os EUA em Nova Jersey, mesmo com toda a boa perspectiva depositada no futebol dessa nova geração de jogadores (representada pelos chamados “meninos da vila”) não me libertou de um certo amargor.
Ando meio enjoado com o entorno do futebol brasileiro. A revelação do tenebroso mundo do goleiro Bruno (que faz com que as bizarras perversões do sinistro Frank, personagem de Denis Hooper em O Veludo Azul, pareçam uma história do Mauricio de Souza), as declarações do goleiro do Santos pelo Twitter, a postura alienada e mercenária de boa parte dos jogadores em atuação, o desapego a qualquer coisa que não seja dinheiro e fama me faz ter saudades de um tempo em que gente como Sócrates, Zico, Cruyff ou Breitner eram estrelas do futebol.
Sabe… atitude é uma palavra difícil de se explicar.
Há uma diferença fundamental entre comportamento e atitude. O comportamento é automático, vinculado a pulsões biológicas ou a certas crenças sociais que são transmitidas pelo grupo. A atitude é produto de uma dose de coragem moral, um extrato de força racional que move os homens a não seguir o rebanho, a não andar junto com a boiada.
Sei que é pedir muito… sim, é pedir muito que esses jovens jogadores, expressões melancólicas do mundo em que vivem consigam compreender que nosso tempo na terra pode ser usado de um modo mais inteligente. O poder de influência que eles tem não se coaduna com a sua capacidade de compreender a sutileza da vida e o peso das suas próprias escolhas. Isso é trágico para aqueles (como meu filho Uriel de 14 anos, apaixonado por futebol) que procuram seus heróis no mundo da bola.
Tratados como mercadoria, cercados por sanguessugas (a começar muitas vezes pelas próprias famílias) que os enxergam como pedados de carne humana que podem ser traduzidos em cifrões, jogadores como Neymar, Ganso, André, Wesley são espelho dessa época seca de ideologias, magra de valores, fina de esperança nas atitudes humanas.
Enquanto escrevo esse artigo vejo na TV notícias sobre a tentativa do Chelsea de contratar Neymar. No começo foram 68 milhões de euros, depois a oferta subiu para 78 milhões.
Neymar, um garoto de 18 anos, pode estar perto de selar seu destino no mundo do futebol. Empurrado pela visão dos milhões que se avizinham da sua conta bancaria, pressionado pelo interesse de dirigentes, empresários, dos próprios familiares, Neymar pode deixar o Brasil, como boa parte do time do Santos, e se tornar mais uma vítima de seu próprio sucesso.
Lá, nos campos da Inglaterra ele pode deslanchar como Ronaldo Fenômeno no PSV e se tornar um dos grandes da história do futebol, ou colapsar como Robinho no Real Madrid e ser mais um na lista das promessas abortadas de nosso futebol (na eterna busca de um novo Pelé, um novo garrincha). Sair com 18 anos do Santos para jogar no Chelsea de Drogba e Ballack é uma tarefa que exige muito foco e muita consciência de si. A grande vítima desse contrato milionário pode ser o futebol do menino e sua camada protetora psicoafetiva que corre o risco de ser descascada como uma cebola prestes a ir para a panela da sopa.
A esperança é que, em meio ao vazio moral do mundo do futebol, alguma alma generosa possa aparecer para mostrar aos meninos do Santos de que a vida pode ser maior do que uma viagem a Europa e alguns milhões de euros a mais nas contas bancarias.